Preciso confessar, para início deconversa, que ontem aconteceu algo muito engraçado quando comecei a escrever pela primeira vez neste novo blog. Esquecendo por completo que talvez -com certeza, na verdade- haja pessoas que não me conheçam e que não façam idéia de que já possuo mais dois blogs (um em português e outro em espanhol) com crônicas e que estas também são publicadas no jornal "Folha de Londrina", fui apresentando o meu primeiro texto assim, sem mais, sem nenhuma explicação, já que havia avisado aos meus leitores que abriria outro blog somente com histórias de ficção. Aí, depois de tê-lo postado, muito satisfeita, com uma tremenda dor nas costas, os dedos com cãibras e absolutamente esperançosa numa boa recepção por parte do público, igual àquela que que as minhas crônicas recebem, fui deitar, disposta a reunir mais energia para postar a segunda versão da história na manhã seguinte, desta vez em espanhol... E de repente, no meio da noite, numa das vezes em que levantei para ir ao banheiro -porque com este calor desgraçado que está fazendo o único consolo é beber litros e mais litros de chá gelado- percebi que, simplesmente e em meio à minha esfuziante empolgação, esqueci de me apresentar para aqueles que não sabem das minhas crônicas e talvez só visitem este blog!... Então, para deixar as coisas claras e atualizadas, aqui vai uma pequena resenha de quem sou e do que pretendo: Meus dados principáis estão no perfil, assim como a minha foto, só que agora estou com 53 anos, mas a minha cara não mudou nada, ou pelo menos eu acho isso... Por que decidi publicar meus contos de ficção num blog? Bom, porque a coisa com as editoras está absolutamente impossível, sobretudo para escritores desconhecidos ou meramente regionais, para os quais eles vêm com esse papo furado de: "Nossa, seus textos são magníficos! Vamos publicar, sim! Aqui vai uma mostra da capa e do papel que pensamos utilizar na edição, mas... (e aqui é que está a jogada magistral que nos elimina automaticamente do páreo) você terá de arcar com a metade das despesas da impressão e a divulgação ficará por sua conta, para o tanto lhe enviaremos mil cópias no seu endereço"... É piada né? Não tenho grana nem para pagar as minhas dívidas pessoais e ganho menos que uma empregada domèstica -é, é isso que dá trabalhar com cultura, mas não consigo evitar. Adoro!- e os caras pretendem que arque com a metade das despesas!... Primeiro teria que juntar dinheiro para comprar um pc novo, isso sim, e numas 250 prestações bem baratinhas, porque o meu, coitado, já está com um pé na cova, mas continua fiel e esforçado, feito eu... Eu sei que é meio arriscado publicar coisas assim, mas existem alguns meios para proteger os direitos autorais que pretendo usar, com a ajuda da minha irmã, e que espero que funcionem, então a coisa é "ou vai ou racha". Ou a gente se vira ou morre no anonimato e no desgosto. Afinal, eu sempre achei que é melhor se ferrar por tentar realizar alguma coisa do que se ferrar por não ter coragem de arriscar. A frustração e o arrependimento são uns dos sentimentos mais ruins e arrasadores que se podem sentir, e como não quero se uma velha amargurada e com úlcera, escolhi pular no abismo e publicar meus trabalhos na net, já que ela é o meio de maior e melhor divulgação do planeta, para bem ou para mal, em alguns casos. Então, é por isso que estou aqui, esperando que vocês gostem desta nova vertente do meu trabalho e que muitos outros se juntem a vocês, que é para isto que a gente sua e sofre, fica com dor nas costas, cãibras nas mãos, olhos vermelhos e bunda achatada, para que vocês se divirtam, se emocionem, se sintam compreendidos e identificados e, até quem sabe, possam tirar algo de positivo que sirva para melhorar as vossas vidas. Porque para mim, escrever é o que faz a minha existência valer a pena e ter um sentido, um objetivo e me deixar completamente feliz e realizada.
Então, como escrevi ontem e segundo o prometido, aqui vai a primeira "estória" deste novo blog.
Ele não nascera, fora criado, como todos os monstros, num lúgubre castelo de pedra isolado no topo de uma montanha selvagem e inóspita, sempre escurecida por nuvens que anunciavam tempestade. Na encosta semeada de enormes rochas, árvores nuas contorciam-se grotescamente e as folhas secas erguiam-se em misteriosos e repentinos redemoinhos que sussurravam desordenadamente em rasantes sobre aquela terra quase estéril. O mato amarelado e esparso inclinava-se sobre o chão, açoitado por um vento que jamais deixava de varrer a montanha. Os grandes portões enferrujados que davam acesso ao castelo permaneciam sempre trancados, deixando ver um jardim abandonado, tomado pelo mato, troncos caídos, trepadeiras úmidas que se agarravam às estátuas lascadas e às paredes de pedra como num abraço de constante agonia, alastrando-se até as portas e janelas empoeiradas numa inútil tentativa de invadir o interior escuro e silencioso. Não havia flores. Não havia cor. Nâo havia som nem movimento... Fora aquela ruína majestosa que o abrigara em seu seio vazio e povoado de ecos e teias de aranha.
Fora concebido por um inventor alucinado, desesperadamente só, que de seu próprio coração tirou o material necessário para dar-lhe um corpo e uma mente, um coração que palpitasse e aquecesse aquela carne sem origem. Parte por parte, cada traço, cada contorno, cada detalhe fora por ele idealizado e concretizado. Ossos, músculos, nervos, pele, cabelo, pulmões, olhos, veias, tudo saiu das suas velhas e trêmulas mãos de sonhador. O monstro quase podia sentir aquela profunda e enternecida emoção fluir em cada pequeno movimento que o velho executava enquanto montava seu corpo. À medida que ele lhe despertava a consciência, a sensibilidade, a inteligência, o monstro começava a dar-se conta de quem ele era e qual era seu destino. Seus olhos, embaçados ainda, conseguiam perceber o olhar brilhante e compassivo do seu criador e distinguia neles uma estranha mistura de orgulho e piedade, de felicidade e angústia, porém, era ainda incapaz compreender o por quê daquilo. Sentía seus dedos leves e hábeis tocá-lo, ajustar suas peças, introduzir-se delicadamente em suas entranhas escuras e expectantes para modelá-lo. Então se perguntava se ele o faria a sua própria imagem e semelhança, se copiaria as suas mesmas feições e maneiras, ou se lhe daria uma aparência diferente, original, única. Não havia espelhos nos imensos salões vazios do castelo, onde se enfileiravam como numa exposição os inventos mirabolantes, ingênuos e espalhafatosos do seu criador. Podia ver alguns deles desde onde se encontrava e às vezes o velho ia até lá e os punha para funcionar para diverti-lo. Era então um estrondo fenomenal; as engranagens entravam em movimento e uma música estranha e desafinada tomava conta do ambiente. Acendiam luzes, soavam apitos, os metais soltavam nuvens de fumaça e aromas por mil frestas e buracos, mexiam-se ritmicamente braços e alavancas como numa dança sincronizada, giravam em perfeita concordância correias, correntes, rodas. Pulavam com precisão pequenos e delicados acessórios que ele não conseguia descobrir para que serviam. Apareciam repentinas labaredas, coloridas explosões, mil ruídos sutis e breves, fazendo a sua parte naquele concerto desvairado... E o inventor acompanhava o processo caminhando devagar, com olhos transparentes e um sorriso de menino maravilhado em sua pálida face enrugada. Eram horas, dias, noites, meses inteiros mergulhado em papéis, cálculos, protótipos, experiências, fracassos e recomeços antes de ver a sua obra acabada e funcionando... Então, o monstro segurava uma exclamação de espanto e seu peito enchia-se de uma cálida admiração, porque no fim daquela parafernália emergia das bocas negras e engraxadas um exército de pequenas e graciosas figuras coloridas: borboletas, cachorrinhos, bailarinas, estrelas, corações, carros, coelhinhos, meias-luas... O inventor as pegava e, indo até ele, as colocava em suas mãos, pronunciando lenta e musicalmente seus nomes para que ele os aprendesse. E ele repetia, levantando as comissuras num incerto sorriso de compreensão.
O monstro não conhecia outras pessoas além do seu criador. Não sabia que ele era velho, pois desconhecia o que era ser jovem. Não sabia que existiam crianças, homens, mulheres, casas, cidades, lojas, carros, aviões, animais, oceanos, desertos, bosques de verdade. Seu universo reduzia-se ao castelo sombrio e arruinado, aos seus salões imensos, às suas escadarias infindáveis, aos seus becos frios e escuros. A única voz que conhecia -até ouvir a sua própria- era a do seu criador, e era uma voz tão apagada, tão doce e remota, que se dirigia a ele com nuances suaves e paternais. Aquela voz pequena lia para ele, cantava para ele, inventava, confessava, ensinava, descobria-lhe coisas curiosas, criava um clima no qual o tempo parecia ter parado. O ajudava a rir, a perceber, a escutar, a entender, nutria seu cérebro e seu espírito com conceitos nobres e puros, quase que infantis. Não só o monstro achava-se isolado pela solidão e dedicação do criador, mas o próprio criador, fascinado com a sua criatura, afastou-se aos poucos do mundo, pois não precisava de nada, de mais ninguém. A criatura transformara-se no centro da sua existência... O enlaçava ternamente e o ensinava a andar, a se manter em pé, a sentar, a coordenar os movimentos do seu interior com os do seu exterior, mostrava-lhe todas as suas capacidades. Dentro daquele castelo tenebroso o velho desvendava para ele o universo. E o monstro aprendeu a enxergá-lo do mesmo jeito que seu criador o via: nobre, puro, grandioso, povoado de pequenos milagres, misterioso porém simples e acolhedor, de uma perfeição impossível de ser inventada.
Porém, toda vez que o monstro permanecia por longo tempo diante das enormes janelas góticas, empoeiradas e sem cortinas, o velho mostrava-se inquieto e se aproximava depressa, distraindo-o com alguma novidade para afastá-lo da janela. Seu coração encolhia-se dolorosamente ao vê-lo, pois podia pressentir nele a secreta ânsia, a irresistível curiosidade germinando, aquele suspiro sôfrego agitando seu peito. O castelo e tudo quanto havia nele tornava-se a cada dia menor e mais opressivo para a sua criatura. Já não lhe bastavam as suas histórias e os seus ensinamentos, a sua preocupação, a sua total e terna dedicação. Tudo já tinha lhe dado e esperava agora, trêmulo e angustiado, que somente seu amor bastasse para segurá-lo no castelo.
No entanto, por mais que se esforçasse e admirasse e amasse seu criador, a quem tudo devia, o monstro sentia-se efetivamente cada vez mais irrequieto e melancólico, cheio de intraduzíveis anelos, de uma crescente aflição que não conseguia esconder, pois não fora ensinado a mentir. Nada lhe faltava. Seu corpo e sua mente estavam perfeitamemnte acabados e educados, tinham assimilado fielmente quanto seu criador lhe oferecera... O que mais? Não conseguia defini-lo, mas parecia faltar mais alguma coisa.
E uma tarde escura e tempestuosa, o monstro foi até o sótão, ali onde o telhado tinha desabado, e parou sob o enorme buraco que se abria para o céu carregado. As vigas apodrecidas apontavam para o ar feito as costelas de um bicho pré-histórico. Havia restos de telhas e madeira espalhados pelo chão de tábuas. O enorme quarto estava completamemnte vazio e o vento corria em seu interior e lhe arrancava lamentos de abandono e solidão. O monstro sentiu que aqueles gemidos inarticulados ecoavam de alguma forma dentro dele, causando-lhe uma estranha e profunda dor que apertava sua garganta e incendiava seus olhos... Até que alguma coisa pareceu quebrar-se em seu peito e da sua boca brotaram uns sons roucos, desafinados, convulsos, que lhe roubavam a força, e de seus olhos repentinamente nublados deslizou um liquido salgado e morno, que molhava e fazia cócegas em seu rosto. Um estranho alívio o invadiu então, e ele permeneceu imóvel, de pé ali, no sótão vazio e açoitado pelo vento, e deixou fluir aquela coisa esquisita, misto de som e água, que parecia ir desmanchando aos poucos aquele nó de aço que feria seu coração. Deixou o líquido escorrer até se esgotar e seus lábios foram silenciando até se fecharem num último e brusco suspiro. Então, ergueu lentamente as mãos e apalpou suavemente seus olhos úmidos, a boca, a língua, os dentes, o peito... De onde tinha vindo tudo aquilo? O que era? Por que tinha acontecidio? Era por causa do sótão ou por aquela sensação opressiva e incontrolável que por vezes tomava conta dele?... De agora em diante tinha certeza de que toda vez que ela começasse a se insinuar correria até aqui e assim poderia deixá-la crescer, sair fora e desaparecer... Olhou em volta, intrigado. O que havia ali que parecia dar-lhe uma resposta, um consolo? O lugar possuia uma aura que o ajudava a compreender, ver e tocar essa onda imensa e dolorosa que o sufocava. Mas, era o sentimento ou o sótão o que provocava aquela comoção em seu corpo e seu espírito? E o que era aquela comoção? Seu velho criador não tinha lhe ensinado a chorar, pois jamais lhe ocorreu que ele fosse se sentir infeliz. Não quis lhe mostrar as lágrimas porque acreditava que ali dentro nada existia que pudesse algum dia fazê-lo sofrer.
Escutou a voz do velho chamando por ele, preocupado, e o barulho lento e arrastado sos seus sapatos chegou até ele. Vinha pela escada. O monstro sabia que o velho inquietava-se demais toda vez que ele se afastava e ficava muito tempo sozinho pelos quartos do castelo. Seu corpo miúdo e encurvado, de movimentos meio inseguros e transparente palidez apareceu no umbral. Parou, procurando-o com seus pequenos olhos assustados, de um azul celeste. O monstro deu um passo em sua direção.
-Estou aqui.- disse com sua voz átona e serena.
O velho se aproximou, enrolando-se em seu casaco.
-O que você está fazendo aqui? Está tão frio!...- reclamou, pegando-o pela mão -Venha, vamos lá para abaixo. Eu acendi a lareira- sorriu como uma criança -Vamos nos aquecer e tomar sopa.- e o arrastou com ele pela escada e os salões até a lareira, e ele se deixou conduzir, dócil e calado.
Porém, aquela aflição não o abandonou e quando estavam sentados diante do fogo comendo, virou-se de pronto para o velho e perguntou:
-Por que não posso sair daqui?.
O velho o fitou, erguendo lentamente a sua branca cabeça para ele, e suspirou. A sua face pareceu escurecer, o azul dos seus olhos nublou-se, seu corpo encolheu, mostrando uma dor repentina e profunda. O monstro soergueu-se, preocupado.
-Porque você é um monstro.- lhe respondeu o velho, com uma voz imensamente triste e apagada. De repente parecia tão frágil!
-Mas, como?- replicou a criatura -Você não é um monstro também?.
O velho negou com a cabeça.
-Não. Eu sou um homem.
-Então por que você não me fez igual a você?- perguntou o monstro, desconcertado. A dor insinuou-se em seu peito, inesperada e feroz.
-Não, um homem não pode criar outro homem.
O monstro sentiu que seu coração se enchia de uma estranha agitação que o fazia bater rápido e com tremenda força. Estava acontecendo algo esquisito.
-E qual é a diferença?... O que aconteceria se eu saísse?- preguntou. Seus olhos começaram a arder e seu corpo estremeceu.
O velho o encarou em silêncio durante um longo e angustiante momento. Toda a tristeza e compaxão do mundo pareceram transbordar pelos seus olhos naquele instante. Afagou suavemente a face pálida e tensa da sua criatura.
-Os homens teriam medo de você, porque você é diferente. Iriam perseguir você, acuar você... Eles matariam você.- concluiu, abaixando a cabeça.
O monstro sentiu uma mordida de dor percorrê-lo, machucando-o. Dos seus olhos começou a escorrer aquela água salgada e um som convulso e incontrolável foi coalhando lentamente em sua garganta contraída.
-Então, por que você me criou?- perguntou. Oh, aquela dor, aquela dor raivosa a invadi-lo como uma enxurrada!.
O velho ergueu a cabeça e o encarou. O monstro sobressaltou-se, espantado. Também caía água dos seus olhos!.
-Porque queria alguém para amar. Para não viver só. Para que você me amasse...- de repente, cobriu a cara com as mãos, inclinando-se até apoiar a fronte no peito do monstro. -O que vai ser de você?...- soluçou -O que vai ser de você? Eu não devia, nunca devia... Eu vou morrer e então, o que será de você?...
O monstro franziu a testa.
-Morrer?...
-Sou um velho e estou doente. Logo vou morrer, já não mais estarei com você.
O monstro ergueu-se, assustado.
-E para onde você irá? Por que você vai me abandonar? Você não gosta mais de mim?...
O velho adiantou-se e o abraçou ternamente.
-Não, é que você não entende.- murmurou -Eu nunca lhe falei sobre a morte porque é triste e não queria que você conhecesse a tristeza... mas vejo que você aprendeu a chorar sozinho.- passou a ponta dos dedos trêmulos pela face molhada da criatura -Você verá meu corpo aqui, mas a minha alma terá ido embora. Então você estará só.
-E terei de continuar a viver aqui... sozinho?.
-É o seu destino.- disse o velho com pesar -É o destino de todos os monstros.
A criatura suspirou. Um peso enorme parecia esmagá-lo. Ambos ficaram em silêncio durante um longo tempo. Então, a criatura tornou a falar.
-Não posso morrer junto com você?.
O velho sorriu tristemente.
-Criei você para ser eterno, sonhando que eu também seria eterno.
-Eterno?.
-Você viverá para sempre.- sentenciou o velho num tom trágico -Sozinho.
O monstro fechou os olhos. A eternidade. Um tempo sem final. A solidão. O sótão vazio, desolado, gemendo sob o açoite do vento. Uma criatura inventada para ser amada, para amar, sozinha...
E tal como anunciara, pouco tempo depois seu criador o abandonou. Ele podia ver seu corpo consumido e transparente deitado na cama, mas a sua alma não mais estava nele. Era uma carne fria e estranha, a boca fechada, as pálpebras entreabertas, deixando aparecer o azul apagado, vazio. O monstro passou delicadamente a sua mão sobre o peito do velho. Estava quieto, inerte, duro. Inclinou-se sobre ele e o abraçou, mas ele continuou imóvel. Então, o beijou suavemente e, erguendo-se, saiu lentamente do quarto, subiu pela escada e chegou ao sótão. Parou, fechou os olhos e um suspiro entrecortado brotou do seu peito. Aos poucos, o suspiro foi se transformando num gemino e finalmente num grito dilacerado, feroz, furioso. Ergueu os braços e jogou a cabeça para atrás. A sua voz desesperada ecoava pelo castelo em sombras, atirando-se pelo buraco do telhado para o espaço escuro. Um rio de dor e solidão transbordava pelos seus olhos.
Então, ao virar-se, surpreendeu aquele lampejo fugaz no canto mais afastado do quarto. Estacou, ofegante, e piscou. Nunca tinha visto brilho como aquele. Após um instante, avançou alguns passos em sua direção, receoso. Parou novamemnte, tentando distinguir alguma coisa. Os breves e ofuscantes lampejos repetiam-se ritmicamente, refletindo como rajadas de luz nas paredes de pedra. Segurando o fôlego, o monstro adentrou nas sombras do canto e parou devagar diante de um objeto pendurado ali. Era um retângulo de vidro emoldurado em madeira. Mas era um vidro como ele jamais tinha visto, que balouçava, girando e, parecendo receber toda a luz do quarto, a refletia em rápidos e deslumbrantes feixes ao seu redor. A criatura ergueu uma mão e o roçou. Era duro, frio e liso. O observou girar lentamente, fascinado, e de pronto, numa das voltas viu aparecer um rosto no retângulo brilhante... Imediatamente recuou, assustado. O retângulo continuou a girar e o rosto tornou a aparecer nele. Mas não tinha mais ninguém ali!...
Então, aproximou-se de novo e, empertigando-se com um gesto decidido ainda que trêmulo, ergueu a mão e agarrou o vidro. O rosto apareceu diante dele, claro e real, fitando-o com assustada intensidade. O monstro segurou uma exclamação. O rosto no retângulo abriu a boca também, com idêntica expressão de espanto. A sua mão também segurava o vidro, mas do outro lado. O monstro ladeu a cabeça, franzindo a testa. O rosto na sua frente repetiu o gesto... Então, o monstro olhou de repente nos olhos daquela face, no fundo dos olhos, atravessando a imagem, penetrando pelas pupilas brilhantes e dilatadas e, naquele segundo, se deu conta de que era ele mesmo. Aquela era a sua própria imagem!... Então se lembrou. Em alguma parte tinha lido: aquele retângulo era um espelho e refletia a imagem de quem estivesse diante dele... Então, essa era a sua própria imagem!.
Levou bruscamente as mãos ao rosto. Ali estava o nariz, a boca; aqui os olhos, o cabelo, as sobrancelhas, os dentes... O velho tinha mentido para ele! Tinha lhe dito que criara um monstro e não um homem, e tinha-o feito belo, tão belo! Um homem pálido e delicado, perfeito, à sua imagem e semelhança. Mãos, dedos, pés, tórax, pernas, consciência, coração, inteligência, sentimentos de homem! Ninguém o rejeitaria, ninguém o perseguiria ou quereria matá-lo! O velho tinha mentido para que ele não o abandonasse, raciocinou, porém, antes de morrer, e sabendo que ele viria para o sótão, pendurou o espelho no canto como um derradeiro presente de redenção, uma porta para a sua liberdade. Quebrara a sentença da sua solidão, transformara seu destino. Não era um monstro, mas um homem! Seu criador o fantasiara de monstro para não perdê-lo, mas agora esse disfarce não era mais necessário.
-Estou chorando...- murmurou de pronto, vendo as lágrimas rolar pela sua face no espelho -Mas agora não é o sentimento do sótão, é uma outra coisa que não compreendo... Eu não estou triste e sim feliz! Muito feliz!.- exclamou.
Arrancou o espelho do barbante e, segurando-o contra o peito, desceu as escadarias correndo, abriu as portas e saiu ao jardim, dirigiu-se até os enormes portões de ferro e, empurrando-os com força, conseguiu abri-los. Eles rangeram lastimosamente, lúgubres e desafinados, como que despedindo-se dele, e o deixaram passar. Logo ficariam para atrás, escancarados e cobertos pelas trepadeiras e a ferrugem, feito uma mãe que acabasse de parir. E o monstro, ainda chorando de felicidade e gratidão, apertando o espelho contra o coração, entrou no mundo.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
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