E como prometido, aqui está a segunda parte do conto, após alguns atrasos provocados pelo football, as vuvuzelas y alguns alunos imaturos...
Sempre gostou de lembrar, de contar histórias, de reviver capítulos da sua vida e de tirar lições proveitosas deles, e tinha uma memória feliz e fiel, que trazia de volta cada episódio como se tivesse acabado de acontecer. Adorava quando todos sentavam à sua volta para escutá-la. No entanto, as lembranças de hoje eram diferentes, carregadas com outros significados. Hoje tratava-se de fazer escolhas viscerais, que não preenchessem seu cérebro humano, mas conformassem seu novo corpo; então não vinham à sua mente as peripécias, as palavras ou as pessoas feito fantasias nebulosas ou perturbadoras, mas os detalhes preciosos, tudo aquilo que passara inadvertido ou se perdera na azáfama efêmera do dia-a-dia neste mundo... Então, dando um profundo suspiro, fechou docemente os olhos e viu os cachos de flores amarelas enfeitando as árvores na rua, uma menininha sentada no muro, chorando desconcolada, sozinha. Viu um pardal banhando-se numa poça de água da chuva, o gato esticado ao sol, o cachorro correndo ao encontro do amo, a professora de francês em seus lindos sapatos vermelhos de salto alto, o pátio barulhento do colégio, as freiras através das grades do claustro, o poço da fazenda, os campos de trigo, o riacho, os cavalos. O olhar enamorado do seu filho, as árvores do jardim balançando com o vento, murmurando, desfiando segredos, abraçando-se nas alturas. As estrelas nas noites silenciosas, a casinha branca de telhas vermelhas no topo da colina verde, o silêncio majestoso das montanhas e a conversa rítmica e constante das ondas morrendo na praia. A borboleta celestial adejando sobre a coroa vermelha da flor, o sino da igreja chamando os fiéis com a sua mensagem de fidelidade e paraíso... A velhinha na cadeira de balanço atirava o olhar pelos corredores da sua vida e se admirava dos tesouros que ali tinha guardado sem perceber. Agora se dava conta de que eram eles os que verdadeiramente tinham dado forma e significado a sua existência. Era naquelas coisinhas simples e ternas, naqueles detalhes banais onde se escondiam os grandes segredos da vida; flashes de divina e infantil consciência que ficaram impressos indelevelmente dentro dela. Era isto que sustentava seus dias e embalava as suas noites, tecia as suas esperanças e construía seus sonhos; era o que tinha lhe dado força e coragem para continuar, para esperar, para vencer. Percebia agora que não haviam sido os grandes momentos, as penas e as alegrias que todos conheciam e partilhavam, mas as pequenezas, as pinceladas mais íntimas e insignificantes, os detalhes escondidos os que tinham enriquecido a sua vida e a tornado útil e plena de sabedoria e compaixão... O amor não era, afinal de contas, nada daquilo que pensara e hoje, já perto do fim, estava ansiosa por experimentar o que ele era de verdade. Amor não eram paixões, delírios, gestos espantosos, sublimes e desvairados; não era possessão, cobiça, troca de interesses, tirania, solidão à dois. Não, a sublimidade do amor estava, precisamente, na simplicidade, no equilíbrio, na consciência com que deve ser vivenciado, como um todo harmonioso e vital, imortal. Entendia agora que não tinha sabido amar de verdade, mas não se lamentava por isso, pelo contrário, uma cálida gratidão agitava-se em seu peito porque compreendia que somente agora estava preparada para aprender. Agora era que a sua vida começava de verdade. Estava deixando de engatinhar e erguendo-se sobre seus pés. Logo começaria a andar e poderia percorrer todos os caminhos. Todos. Não é que dava a sua vida passada por perdida ou mal aproveitada, pois algo lhe dizia que toda ela -mesmo cheia de erros e misérias- a tinha conduzido até aqui, até esta cadeira de balanço na varanda perfumada pelas trepadeiras, a estas reflexões e lembranças, a estas conclusões, à espera... E seu coração se agitava, incendiado de ternura e compaixão por tudo e por todos. Se sentia enamorada, seduzida, cheia de mil emoções e desejos que agora podia satisfazer plenamemnte, pois eram desejos do espírito, não mais da carne. Sua alma tinha atingido a maturidade necessária para saber que estes desejos não são humanos, mas divinos, e que isto significa que nos aproximamos de Deus, que transcendemos, que nos apropriamos do que sempre nos pertenceu... As horas sem fim passadas naquela cadeira de balanço, enquanto todos se perguntavam se já estaria próxima a hora de sua morte, se deveriam interná-la, se precisariam contratar uma enfermeira, tinham sido para ela um lento, profundo, revigorante aprendizado, uma preparação, o impulso que antecede ao salto. Tinha sido como se uma cortina se descerrasse aos poucos diante dos seus olhos e lhe desvendasse todos os segredos do paraíso. Ao longo daquelas horas sentia-se voltando ao seu ser original, desfazendo-se de todas as camadas artificiais e das ilusões, os artifícios e disfarces que ainda a recobriam. Era uma libertação que excedia qualquer explicação... As forças humanas a abandonavam, seu corpo miúdo e frágil tornava-se leve, suave, inesperadamente ágil e veloz porque liberto do seu lastro, e debatia-se numa luta consciente para aceitar cortar os últimos laços, para voltar para casa. Os braços do infinito se abriam diante dela... E ela aguardava, dia após dia, apagando-se um pouco mais por fora, renascendo por dentro.
E uma manhã, quando abriu a porta da rua e arrastou a sua cadeira de balanço até a varanda, como fizera todos estes anos, parou de repente, como se tivessse divisado algo na tênue claridade da paisagem, algo diferente, alguma coisa longamente esperada. Foi como se o primeiro raio de sol lhe tivesse revelado algo... Entreabriu os lábios num sorriso indefinível e ficou parada ali, junto da cadeira, segurando a almofada de retalhos, olhando para a rua silenciosa e imóvel... Aos poucos, a viu crescer, enquanto ela se aproximava sem pressa, mas não sentiu medo... Era esquisito, nenhuma ansiedade ou receio despertou em seu peito; a sua respiração continuou calma, rítmica... Enquanto as feições dela se delineavam e começava a perceber seu suave sussurro e o perfume do seu hálito frio, se sentia tomada por uma estranha alegria, por uma serenidade desconhecida, poderosa, um pouco desconcertante... Quem diria que era assim? De todas as coisas simples que havia descoberto, esta era a mais simples, pura e direta, a prova de que a vida nada esconde de nós, mas que somos nós quem fugimos do que ela tem para nos mostrar... Movendo-se lentamente, sem tirar os olhos dela, sentou-se na cadeira, como se nada de diferente estivesse acontecendo, e juntou as mãos no colo. Ela aguardou, compreensiva, sabendo que era bem vinda. O resto da casa dormia ainda. Este era um encontro solitário, pessoal, definitivo. A velhinha se sentiu contente, pois viu que para esta viagem não era preciso levar bagagem, pelo contrário, tudo devia ser abandonado, menos as lembranças e ações caras ao coração. A velhinha sorriu, satisfeita: com certeza tinha feito boas escolhas, pois não eram seus braços carregados de bugigangas nem seu coração acorrentado a paixões, não era seu corpo fantasiado de glórias, não eram suas poses, não eram suas ambições nem os seus pecados ou boas ações o que estava levando. Era, simplesmente, seu ser, e estava certa de que desta vez só isso bastaria. Não sentiu pena por aqueles que ficavam. Na verdade, a coisa toda lhe pareceu lógica, natural, e todo o resto se apagou de um sopro. A sua via inteira se reduziu a este encontro. Face a face. Mãos vazias. Pronta. Serena. Aliviada. Levemente ansiosa. Muito curiosa... Apoiou a cabeça no encosto da cadeira e fechou lentamente os olhos, com um último e emocionado olhar sobre aquele quadro que tão bem conhecia e amava, e começou a balançar devagar... Então a sentiu perto, muito perto, tão perto que pareceu transpasá-la, e seu hálito gélido abraçá-la, cercando seu coração. Foram como mil agulhas penetrando em seu corpo e desagregando-o feito uma gentil e silenciosa explosão. De alguma forma, teve consciência de que tinha deixado de ser ela mesma, única, carne, sangue, ossos, mente, história, e havia se integrado ao todo, à eternidade. Foi um pulo para o abismo do desconhecido, uma breve e estranha dor, como um pequeno reclamo do seu corpo diante do adeus; porém, assim que pulou, tudo se encheu de luz e se sentiu bem vinda, amada, aguardada... Teve tempo de esboçar um sorriso e suspirar... E já não estava mais.
Quando a sua filha mais velha levou para ela a bandeja com o café da manhã, a cadeira de balanço ainda se mexia, rangendo tristemente, como se a própria morte a impulsionasse.