Faltando somente a última apresentação da escola de teatro da Fundação, já começo a me preparar para trabalhar em horários "civilizados" e a me despedir de ensaios, apresentações e surpresas do tipo: "Tem que montar um negócio para amanhã!"... Se supõe que à partir do dia 29 vou ficar mais cumprindo horário do que outra coisa -exceto talvez por algumas reuniões de planejamento de projetos para o ano que vem com a turma de adultos e umas aulas de butoh para uma amiga que está precisando- até o dia 20, em que sairemos em férias coletivas. Acho que o estresse vai diminuir bastante e vou ter mais tempo livre para retomar as minhas rutinas saudáveis de vida, como meditar, escrever, escutar música, brincar com as minhas cadelinhas e todas essas coisas que fui obrigada a deixar meio de lado por conta do excesso de trabalho. Na verdade, todos estamos extremamente cansados e fazendo mesmo um grande esforço para cumprir esta última maratona junto com a turma infanto-juvenil para que eles possam ter a sua apresentação de encerramento. Mas acho que os sacrifícios vão valer a pena, porque a peça está ficando mesmo boa. O público vai gostar, com certeza... Também no início de dezembro vou saber os resultados dos exames que fiz para tentar descobrir o motivo destas dores no corpo que andam me assolando já faz um par de mêses. Então, como vêem, muita coisa vai se resolver nas próximas duas semanas, e espero que com um saldo positivo.
E aproveitando o frescor desta manhã -porque anda fazendo um calor de matar nestes últimos dias- e as minhas mãos ainda sem muita dor o cãibra, vou postar mais um pedaço desta história, que já está começando a parecer uma novela mexicana de tão comprida!...
Sim, fugia. Corria do seu próprio coração, que batia enlouquecidamente atrás das suas costelas saltadas, cheio de inveja... Porque esta era a verdade. No fundo do seu ser, ali onde nem ele mesmo podia admitir, sentia uma inveja venenosa e inexpressável daqueles príncipes da corte do Senhor, que viviam e morriam no luxo e a ociocidade, rodeados de consideração e honrarias. Aqueles emissários celestiais cujas palavras eram lei, cujas breves e despreocupadas preces ascendían velozes ao céu e eram prestamente escutadas e atendidas. Esses divinos personagens que tinham o paraiso assegurado, sem importar se faziam algo para merecê-lo, pois lhes pertencia por direito próprio... Eram importantes demais como para que Deus os enviasse para o inferno. Porque eram eles, eram os prediletos, os eleitos, os afortunados, sempre da mão do Pai... Eram eles.
Já frei Silvestre, tinha certeza de que Deus não o escutava, não importava quão alto chorasse ou suplicasse, nem as horas que ficasse ali tentando, com os joelhos intumescidos e feridos, os olhos inflamados e a garganta dilacerada, ele estava completa e fatalmente certo de que não o escutava. A Sua resposta era sempre o silêncio, o frio, a escuridão. O nada.
-Meu Deus, tende misericórdia deste pecador...- murmurou em voz alta, juntando os dedos trêmulos embaixo do queixo. A sua voz era um alento de dor -Devolvei-me o calor... Devolvei-me a luz... Devolvei-me a fé, oh, meu Deus...- gemeu.
Chorou em silêncio, sentindo que seu coração vencido e abandonado era feito um campo estéril, ressecado, queimado pelo sol recalcitrante da sua própria amargura e desilusão. Um campo que, apesar de todos seus esforços e perseverança, na verdade nunca tinha sido semeado com a boa semente do Senhor, aquela que da fruto e alimenta. Um campo que nunca parecia estar suficientemente adubado e arado. E que talvez nunca estaria, pois a sua estação de fertilidade parecia ter passado.
Mas, se ele tivesse sabido o que o aguardava, nada teria temido, porque após o último grito, triunfante, Deus lhe esperava de braços abertos.
O sino da torre maior começou a badalar de pronto, quebrando o fantasmal silêncio do mundo e de seu próprio interior, chamando a maitines, e frei Silvestre se incorporou de um pulo, como se alguém o tivesse cutucado para trazê-lo de regresso. Ficou um momento imóvel, em pé junto do catre, tentando lembrar o significado daquele som profundo e sereno, cheio de majestade e melancolia. Sentia-se estranhamente insensível, como fora de si, e teve de fazer um esforço para voltar à realidade. Olhou em volta e piscou; apalpou o peito, as coxas, a face... Sim, era ele mesmo, e estava efetivamente ali, em sua cela dentro do mosteiro... Mas, o que tinha feito durante todo este tempo? Sonhar, meditar, rezar? Tinha tido alguma visão, ou quiçá dormia?...
Os pássaros começaram a cantar, pularan pelos galhos, voaram pra o telhado. O monge esfregou os olhos com força, inclinou-se para apanhar seu breviário e foi até a porta. Parou ali. Correu a tranca e abriu devagar... Ficou quieto, apoiado no umbral da porta, olhando para a leve claridade que banhava o verde jardim. Uma rajada de fresca e perfumada brisa o acariciou. Era o mes de Abril, a primavera começava a florescer, cheia de cor e alegria, pintando os caminhos e campos, os trigais de douradas espigas, as ruas com vasos de flores que se abriam ao sol nas sacadas e janelas, as árvores de fresco e novo verde, os velhos muros de pedra, os rostos das crianças, dos velhos e dos jovens que, ansiosos, preparavam-se para receber o amor e fazer promessas.
Frei Silvestre roçou suavememne a madeira áspera com a sua bochecha, iluminada a face por uma fugaz esperança, mas voltando em seguida a ficar nublada pela triste resignação. E disse para si mesmo, suspirando:
"Bom, e talvez esta primavera traga também algo para mim..."
Porém se encolheu, receoso do seu pensamento, pois lhe pareceu ousado e presunçoso, porque, afinal, quem era ele para esperar nada?... Mas o que ele ignorava era que a primavera não só faz florescer a terra ao sopro divino da vida, mas também o coração frio e adormecido do homem.
O sino tinha parado de tocar e o silêncio reinava novamente. Os irmãos já se encontravam na capela e o ofício estava para começar. De repente, frei Silvestre percebeu isto, saindo da sua ensonhação e, endireitando-se, piscou e soltou uma exclamação de desgosto, olhando em volta com expressão de alarme, receoso de que alguém tivesse estado observando-o. Recolheu o hábito, fazendo um gesto de contrariedade, e fechou a porta com um gesto rápido e firme, que levantou o pó no chão, e em seguida se afastou pela vereda com passos apressados.
Enquanto avançava, cabizbaixo e com a boca apertada e o cenho franzido, repreendia-se com aspereza pela sua fraqueza. Sonhar, divagar, folgar, afastar o pensamento de Deus para ocupar-se de si mesmo. Quem havia visto jamais semelhante insençatez num religioso, nele? Parecia um noviço, ou pior ainda, comportava-se feito um daqueles jovens volúveis e fantasiosos que com freqüência chegavam à porta do mosteiro, humildes e devotos, jurando ter vocação... O que diriam os irmãos se soubessem?...Soltou o alento de uma vez, mexendo negativamente a cabeça. O que eram estas bobagens de pressentimentos e mensagens? Era uma loucura, isso sim, uma armadilha de Satanás, pois, por que motio haveria de mudar agora a sua vida?... Mas frei Silvestre não sabia que dentro dele, muito profundo e calado, palpitava este anelo, como uma doce esperança em meio a sua aridez, e que não nada poderia silenciá-lo.
Virou à direita, seguindo o caminho de pedras, e encarou a sombria e severa capela, onde já podia escutar os irmãos recitando os salmos com as suas vozes graves e monótonas, ritmicas e cheias de serenidade e fervor, abstraidas do mundo...
"Cantate Domino canticum novum:
quia mirabilia fecit.
Sanctificiavit Filium suum dextera eius:
et brachium sanctus eius..."
Frei Silvestre apressou o passo ao tempo que abria seu breviário e o folheava rapidamente, tentando achar o texto.
-Mas que falta imperdoável!... Se alguém me visse!...- repetiu, apetando os lábios num gesto de ira e remorso.
E em sua pressa e desgosto, não reparou que acabara de transpor o umbral dos seus pressentimentos e que eles o aguardavam ali, do outro lado. Não percebeu que algo tinha descido do infinito para mudar tudo, calada e sutilmente, porém de modo irreversível, apanhando-o em seu caminho.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Silvestre - parte IV
Acabei de conferir a minha agenda deste mes e descobri que TODOS os finais de semana vou ter apresentação!... Se não é o espetáculo de encerramento do curso, é o musical, o desfile do município ( a nossa maldição anual, quando pagamos todos os nossos pecados) ou a peça de encerramento da turma infanto-juvenil, aquela que peguei porque o contrato da professora acabou e eles iriam ficar sem mostrar nenhum trabalho. Em resumo, estou até o pescoço!... Mas mesmo assim, pretendo arranjar algum tempo (talvez entre meia-noite e 6 da manhã) para poder mantê-los atualizados. E como hoje é dia de finados, vou aproveitar a manhã para postar outra parte desta história. Vou ter de ensaiar à tarde, então, é agora ou nunca!...
Frei Silvestre olhou em torno com desânimo, curvadas as costas, pálida e olherenta a face, emaciada, ingrata, com a barba rala e descuidada, e fez um esgar de desprezo ao abranger a pobre cela. Jà a conhecia de cor, pois nunca tinha nela nada de novo, nada melhor. Nem sequer ele mesmo era diferente... As quatro paredes de pedra, nuas, gretadas, úmidas e tomadas pelo mofo. O banquinho de palha num canto, a mesquinha janela retangular com barrotes enferrujados; uma prateleira de pedra cheia de poeira onde descansava seu breviário, junto com um resto de vela de sebo, uma bacia e uma jarra de metal; o catre de tábuas e palha, o cobertor surrado. Na frente, a porta de grossa madeira clara e pregos de ferro preto. Nenhum enfeite supérfluo, nenhuma tentadora comodidade. O chão frio, desnivelado... Mais parecia aquilo uma caverna do que outra coisa, disse para si mesmo... E a um lado, na parede mais sombria, o pequeno crucifixo de madeira e gesso, que era como todo o resto ali: d espintado, feio, vulgar, pobre, cinzento, anônimo... Que olhava para ele. Estava sempre observando-o desde ali, semi oculto na penumbra, imóvel e silencioso, em eterna agonia, sempre prestes a expirar, insignificante, como se não estivesse ali... E apesar disto, mais real e presente do que todo o resto, inclusive ele mesmo.
O monge o contemplou em silêncio, como se pretendesse penetrar nele e ler seus pensamentos... O que era que ele queria?, tornou a se perguntar, como fazia sempre que se deparava com ele. Porém, agora não mais esperava uma resposta, pois tinha-se resignado amargamente com seu silêncio.... Fei Silvestre desviou o olhar, turvo de repente, e abaixou a cabeça, sentindo uma patada de raiva no peito, magoado no mais profundo por aquele divino desprezo que não conseguia compreender e, menos ainda, aceitar. Porque frei Silvestre sabia com certeza que Deus não o amava. Contra toda lógica e parecendo uma blasfêmia, mesmo desafiando tudo quanto tinha lhe sido ensinado à respeito da Sua incomensurável bondade, misericórdia e amor, ele sabia que estava certo: Ele não o amava, e esta certeza o desconcertava e o enfurecia, mesmo se lutava para evitar tais sentimentos, porque se considerava humilhado, enganado. Ele tinha abandonado tudo para segui-Lo, batalhava ferozmente dia após dia, se esforçava até quase quebrar-se, cheio de santo zelo e retidão, sem permitir-se jamais um alívio, uma alegria, um repouso, semelhante a um guerreiro alucinado, ébrio pelo fragor da batalha, que continua em frente cega e ousadamente, sem raciocinar direito; sem pensar em nada além de lutar, ferir, transpassar, cercear, matar o inimigo afundando a sua afiada espada até a empunhadura, ofuscado pelo frenesi que o empurra a alcançar a suprema meta: a glória.
Mas que glória podia ele esperar se toda sua corgem, seu zelo e a sua perseverança passavam despercebidos, se eram como o vento no deserto, como a erva na colheita, como tocos mortos ou terra erma no mundo de Deus? Como podia esperar alcançar a sua meta indene se não recebia sequer um pequeno sinal, uma palavra de alento, um olhar de consoladora aprovação?... Vinte anos levava aguardando, vinte eternidades de silêncio, de expectativa, de vã esperança, de decepção. Mas o céu continuava proibido para ele, fechado, enclausurado atrás das nuvens. Ao erguer a vista não enxergava senão o sol, a lua, as estralas, as nuvens, a imensidão azul cruzada por ventos, aves, aromas e ecos. E de todos eles sentia inveja, pois chegavam mais perto do que ele, que daquelas alturas só recebia chuva, calor, luz, neve, escuridão. Qual um intransponível muro estava mudo e distante, como tinha estado ao longo de toda sua vida. Jamais havia podido aproximar-se nem um palmo e nenhuma mão misericordiosa se havia estendido para ajudá-lo a pular, a voar, a chegar ao fim. A glória pela qual suspirava era desconhecida para ele, que vivia sepultado no anonimato de um mosteiro, na pobreza e a aridez, sem consolo, sem ninguém que lavasse e enfaixasse as suas feridas e lhe prodigasse uma carícia. Abandonado de tudo e de todos. Enterrado em vida... Bom, e afinal de contas, esta cela não era mesmo seu túmulo?.
Não, o Senhor não o amava, se repetia com sombria tristeza. As sombras continuavam a cercá-lo, ameaçando-o e rindo dele e das suas bobagens. Parecia até que a luz não queria entrar em sua cela, receosa de ser engolida pelas trevas da sua própria angústia, que procurava a escuridão... Sentiu-se velho, cansado, inútil... Ergueu a cabeça devagar e olhou para a janela de pedra como pedindo graça e misericórdia para aquela claridade que dava vida ao mundo. Será que ela não poderia botar um pouco de vida nele? Não poderia fazer os anos voltarem, devolver-lhe aquela juventude que em sua louca bebedeira de fé o levou a escolher este árido e longo caminho que parecia não levar a lugar algum?.
"De que me serviu tudo isso? Para que lutei todo este tempo?... Fracassei", disse a si mesmo, e algo como uma chicotada o percorreu inteiro, enroscando-se nele, estrangulando-lhe a garganta, rasgando-o, jogando-lhe aos pés esta realidade tremenda e esmagadora feito um monte de lixo.
E assim se sentiu ele: como um nada, como se realmente não existisse, como se tivesse morrido, como se alguém tivesse ridicularzado intencionalmente seus soberbos e fantásticos sonhos de santidade, pois eis aqui que não era ninguém... Não compreendia. Não compreendia mesmo. O que tinha feito de errado? Pois alguma coisa devia estar muito equivocada... Mas ele passava e repassava a sua vida naquele mosteiro e via que em sua cuia havia sempre menos sopa, que seu leito era duro e falto de calor, com uma pedra como travesseiro. Lembrava que seu hábito aparecia mais velho e remendado do que os dos outros irmãos, que as suas preces pareciam durar séculos e estavam sempre cheias de veemência e concentração, ajoelhado ele, imóvel nas baldosas da capela, com os lábios apertados e as costas enrijecidas. As suas penitências e cilícios eram terríveis e seus jejuns tão freqüentes que às vezes precisava escorar-se nas paredes para caminhar. Era trabalhador e não desperdiçava palavras, era obediente, jamais saía de seus lábios uma reclamação ou uma petição pessoal, cumpria perfeitamente as suas obrigações, fazia todas as coisas que os santos preceitos mandavam. Era objeto de admiração e respeito entre os irmãos pelo seu zelo e devoção, coisa que secretamente o deixava orgulhoso, mesmo se tinha certeza de que não devia ser assim... Mas, se Deus não mostrava a sua complacência incentivando-o a seguir pela senda divina, não era então justificável que ele incentivasse a si mesmo? Pois não só de fé vive o homem, mas também dos elogios e da aprovação do mundo...
No entanto, mesmo se perante toda a comunidade ele era um modelo de religioso e já o tinham como candidato seguro aos altares (mesmo se jamais havia realizado um milagre) o céu permanecia em ominoso silêncio. Na escura intimidade de seu coração, frei Silvestre percebia perfeitamente a indiferença ostensiva de Deus... Mas, por quê, se tinha feito quanto sabia para agradá-Lo, Ele parecia ignorá-lo, humilhando-o assim? Isso era algo que não podia confessar diante da ingênua comunidade. Nunca!.
"Transforma-te no último dos Seus servos, e então o próprio Deus esquecerá de tí", refletiu com amargor, pois era exatamente isto que tinha acontecido com ele. A força de tentar com tanto afinco não se sobressair diante dos Seus olhos, simplesmente tinha desaparecido... E naquele instante se lembrou daqueles notórios dignatários da igreja a quem tantas vezes havia encontrado nas ruas, passeando seu senhorio cheio de pompa e luxo, trajados com ricos tecidos bordados de pedraria, túnicas de seda, capas de brocado, de ondulante e suave veludo, com suas pálidas e ociosas mãos carregadas de jóias, calçados com pele e finos couros , bem comidos e bebidos, sorridentes, esplêndidos e cheios de santa benevolência e lucidez, passeando seus olhos brilhantes e orgulhosos pelos pecadores à sua volta, repartindo com grandes espaventos as sobras dos seus banquetes aos mendigos que, feito ele mesmo, se aproximavam do cortejo ávidos e com os olhos injetados, feito espectros fugidos do averno, cheios de supersticioso terror, que se misturava com o ódio e a inveja.... E frei Silvestre olhava espantado para estes infelizes, que grunhiam e brigavam feito cachorros por um osso de porco ou de galinha com uns fiapos de carne pendurados, por um pedaço de pão branco untado em molho de vinho e especiarias, ou por um punhado de azeitonas e cebolas e, cheio de horror e náuseas, afastava-se dali, apertando com força a sua cuia vazia contra o peito, ofegando, esgueirando-se silenciosamente pelas ruas mais afastadas, escuras e retorcidas, fugindo como se alguém o perseguisse...
Frei Silvestre olhou em torno com desânimo, curvadas as costas, pálida e olherenta a face, emaciada, ingrata, com a barba rala e descuidada, e fez um esgar de desprezo ao abranger a pobre cela. Jà a conhecia de cor, pois nunca tinha nela nada de novo, nada melhor. Nem sequer ele mesmo era diferente... As quatro paredes de pedra, nuas, gretadas, úmidas e tomadas pelo mofo. O banquinho de palha num canto, a mesquinha janela retangular com barrotes enferrujados; uma prateleira de pedra cheia de poeira onde descansava seu breviário, junto com um resto de vela de sebo, uma bacia e uma jarra de metal; o catre de tábuas e palha, o cobertor surrado. Na frente, a porta de grossa madeira clara e pregos de ferro preto. Nenhum enfeite supérfluo, nenhuma tentadora comodidade. O chão frio, desnivelado... Mais parecia aquilo uma caverna do que outra coisa, disse para si mesmo... E a um lado, na parede mais sombria, o pequeno crucifixo de madeira e gesso, que era como todo o resto ali: d espintado, feio, vulgar, pobre, cinzento, anônimo... Que olhava para ele. Estava sempre observando-o desde ali, semi oculto na penumbra, imóvel e silencioso, em eterna agonia, sempre prestes a expirar, insignificante, como se não estivesse ali... E apesar disto, mais real e presente do que todo o resto, inclusive ele mesmo.
O monge o contemplou em silêncio, como se pretendesse penetrar nele e ler seus pensamentos... O que era que ele queria?, tornou a se perguntar, como fazia sempre que se deparava com ele. Porém, agora não mais esperava uma resposta, pois tinha-se resignado amargamente com seu silêncio.... Fei Silvestre desviou o olhar, turvo de repente, e abaixou a cabeça, sentindo uma patada de raiva no peito, magoado no mais profundo por aquele divino desprezo que não conseguia compreender e, menos ainda, aceitar. Porque frei Silvestre sabia com certeza que Deus não o amava. Contra toda lógica e parecendo uma blasfêmia, mesmo desafiando tudo quanto tinha lhe sido ensinado à respeito da Sua incomensurável bondade, misericórdia e amor, ele sabia que estava certo: Ele não o amava, e esta certeza o desconcertava e o enfurecia, mesmo se lutava para evitar tais sentimentos, porque se considerava humilhado, enganado. Ele tinha abandonado tudo para segui-Lo, batalhava ferozmente dia após dia, se esforçava até quase quebrar-se, cheio de santo zelo e retidão, sem permitir-se jamais um alívio, uma alegria, um repouso, semelhante a um guerreiro alucinado, ébrio pelo fragor da batalha, que continua em frente cega e ousadamente, sem raciocinar direito; sem pensar em nada além de lutar, ferir, transpassar, cercear, matar o inimigo afundando a sua afiada espada até a empunhadura, ofuscado pelo frenesi que o empurra a alcançar a suprema meta: a glória.
Mas que glória podia ele esperar se toda sua corgem, seu zelo e a sua perseverança passavam despercebidos, se eram como o vento no deserto, como a erva na colheita, como tocos mortos ou terra erma no mundo de Deus? Como podia esperar alcançar a sua meta indene se não recebia sequer um pequeno sinal, uma palavra de alento, um olhar de consoladora aprovação?... Vinte anos levava aguardando, vinte eternidades de silêncio, de expectativa, de vã esperança, de decepção. Mas o céu continuava proibido para ele, fechado, enclausurado atrás das nuvens. Ao erguer a vista não enxergava senão o sol, a lua, as estralas, as nuvens, a imensidão azul cruzada por ventos, aves, aromas e ecos. E de todos eles sentia inveja, pois chegavam mais perto do que ele, que daquelas alturas só recebia chuva, calor, luz, neve, escuridão. Qual um intransponível muro estava mudo e distante, como tinha estado ao longo de toda sua vida. Jamais havia podido aproximar-se nem um palmo e nenhuma mão misericordiosa se havia estendido para ajudá-lo a pular, a voar, a chegar ao fim. A glória pela qual suspirava era desconhecida para ele, que vivia sepultado no anonimato de um mosteiro, na pobreza e a aridez, sem consolo, sem ninguém que lavasse e enfaixasse as suas feridas e lhe prodigasse uma carícia. Abandonado de tudo e de todos. Enterrado em vida... Bom, e afinal de contas, esta cela não era mesmo seu túmulo?.
Não, o Senhor não o amava, se repetia com sombria tristeza. As sombras continuavam a cercá-lo, ameaçando-o e rindo dele e das suas bobagens. Parecia até que a luz não queria entrar em sua cela, receosa de ser engolida pelas trevas da sua própria angústia, que procurava a escuridão... Sentiu-se velho, cansado, inútil... Ergueu a cabeça devagar e olhou para a janela de pedra como pedindo graça e misericórdia para aquela claridade que dava vida ao mundo. Será que ela não poderia botar um pouco de vida nele? Não poderia fazer os anos voltarem, devolver-lhe aquela juventude que em sua louca bebedeira de fé o levou a escolher este árido e longo caminho que parecia não levar a lugar algum?.
"De que me serviu tudo isso? Para que lutei todo este tempo?... Fracassei", disse a si mesmo, e algo como uma chicotada o percorreu inteiro, enroscando-se nele, estrangulando-lhe a garganta, rasgando-o, jogando-lhe aos pés esta realidade tremenda e esmagadora feito um monte de lixo.
E assim se sentiu ele: como um nada, como se realmente não existisse, como se tivesse morrido, como se alguém tivesse ridicularzado intencionalmente seus soberbos e fantásticos sonhos de santidade, pois eis aqui que não era ninguém... Não compreendia. Não compreendia mesmo. O que tinha feito de errado? Pois alguma coisa devia estar muito equivocada... Mas ele passava e repassava a sua vida naquele mosteiro e via que em sua cuia havia sempre menos sopa, que seu leito era duro e falto de calor, com uma pedra como travesseiro. Lembrava que seu hábito aparecia mais velho e remendado do que os dos outros irmãos, que as suas preces pareciam durar séculos e estavam sempre cheias de veemência e concentração, ajoelhado ele, imóvel nas baldosas da capela, com os lábios apertados e as costas enrijecidas. As suas penitências e cilícios eram terríveis e seus jejuns tão freqüentes que às vezes precisava escorar-se nas paredes para caminhar. Era trabalhador e não desperdiçava palavras, era obediente, jamais saía de seus lábios uma reclamação ou uma petição pessoal, cumpria perfeitamente as suas obrigações, fazia todas as coisas que os santos preceitos mandavam. Era objeto de admiração e respeito entre os irmãos pelo seu zelo e devoção, coisa que secretamente o deixava orgulhoso, mesmo se tinha certeza de que não devia ser assim... Mas, se Deus não mostrava a sua complacência incentivando-o a seguir pela senda divina, não era então justificável que ele incentivasse a si mesmo? Pois não só de fé vive o homem, mas também dos elogios e da aprovação do mundo...
No entanto, mesmo se perante toda a comunidade ele era um modelo de religioso e já o tinham como candidato seguro aos altares (mesmo se jamais havia realizado um milagre) o céu permanecia em ominoso silêncio. Na escura intimidade de seu coração, frei Silvestre percebia perfeitamente a indiferença ostensiva de Deus... Mas, por quê, se tinha feito quanto sabia para agradá-Lo, Ele parecia ignorá-lo, humilhando-o assim? Isso era algo que não podia confessar diante da ingênua comunidade. Nunca!.
"Transforma-te no último dos Seus servos, e então o próprio Deus esquecerá de tí", refletiu com amargor, pois era exatamente isto que tinha acontecido com ele. A força de tentar com tanto afinco não se sobressair diante dos Seus olhos, simplesmente tinha desaparecido... E naquele instante se lembrou daqueles notórios dignatários da igreja a quem tantas vezes havia encontrado nas ruas, passeando seu senhorio cheio de pompa e luxo, trajados com ricos tecidos bordados de pedraria, túnicas de seda, capas de brocado, de ondulante e suave veludo, com suas pálidas e ociosas mãos carregadas de jóias, calçados com pele e finos couros , bem comidos e bebidos, sorridentes, esplêndidos e cheios de santa benevolência e lucidez, passeando seus olhos brilhantes e orgulhosos pelos pecadores à sua volta, repartindo com grandes espaventos as sobras dos seus banquetes aos mendigos que, feito ele mesmo, se aproximavam do cortejo ávidos e com os olhos injetados, feito espectros fugidos do averno, cheios de supersticioso terror, que se misturava com o ódio e a inveja.... E frei Silvestre olhava espantado para estes infelizes, que grunhiam e brigavam feito cachorros por um osso de porco ou de galinha com uns fiapos de carne pendurados, por um pedaço de pão branco untado em molho de vinho e especiarias, ou por um punhado de azeitonas e cebolas e, cheio de horror e náuseas, afastava-se dali, apertando com força a sua cuia vazia contra o peito, ofegando, esgueirando-se silenciosamente pelas ruas mais afastadas, escuras e retorcidas, fugindo como se alguém o perseguisse...
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