sábado, 29 de janeiro de 2011

Silvestre - parte X

E como prometi, e apesar de ter voltado ao trabalho na quarta e ter ficado com um calafrio na barriga ao ver tudo que me aguarda (ainda bem que amo meu trabalho!) aqui vai, FINALMENTE, a última parte desta história. Espero que, apesar da demora inaudita, gostem e voltem aqui para conferir as outras histórias que vou postar. Só que, à partir de agora, prometo não demorar tanto para postá-las, ok?.


    -Por acaso...? Por acaso tivestes...?- se interrompeu para engolir e deu um hesitante passo em direção a frei Silvestre -Por ventura tivestes... uma visão, irmão Silvestre?...- e ficou em suspense, cheio de santa reverência, sem ousar tocar no outro.
    Este girou lenamente para ele, como se as suas ingênuas palavras o tivessem trazido de regresso à realidade, e ficou a olhar para ele fixamente. A sua face foi ficando vermelha de raiva. Frei Ludovino recuou, amedrontado por aquele repentino e feroz talante.
    -Vos... Vos...- murmurou frei Silvestre, apontando-o, aproximando-se ameaçadoramente, agigantando-se à medida que a ira tomava conta dele -Por que faltasteis às regras e o deixasteis entrar?
    -Do que estáis falando?...- gaguejou frei Ludovino -Não vos compreendo...
    Frei Silvestre respirou fundo, segurando-se, e expulsou o ar de um golpe. Esperou alguns segundos para recobrar a serenidade e em seguida continuou.
    -Estou falando do esmoleiro que deixasteis entrar esta manhã.
    Frei Ludovino encolheu-se, enlaçando as mãos.
    -Ah, aquele pobre homem que parecia tão cansado...- admitiu abaixando a cabeça e brincando com a corda do seu hábito -Pois sim, eu o deixei entrar.- ergueu a vista e olhou para o outro, aflito e trêmulo -Por favor, não vos zangueis. Eu somente fiz o que Deus ditou ao meu coração... O infeliz parecia tão cansado...- repetiu -Perdoai-me...
    Frei Silvestre tremeu, afastando os olhos do velho frade, que olhava para ele suplicante e envergonhado. Sentiu que a sua pele vibrava, desencaixando-lhe os ossos. Frei Ludovino repetia exatamente las palavras do homem... O ar tremeu junto à sua boca, que se mexeu, mas sem pronunciar palavra alguma. A vertigem tornou a invadi-lo e levou uma mão à garganta. Queria fugir, esconder-se, desaparecer. Queria perguntar para Deus, mas não tinha coragem.
    -E podes me dizer, irmão, quem era esse homem?- disse após um instante, suavizando seu tom e a sua expressão -Vos sabéis?... Ele vos disse?- e aguardou, tremendo, sem respirar, pendurado dos lábios enrugados do frade diante dele.
    -Francisco... Francisco de Assis, foi o que ele disse.
    -Nada mais?
    -Não.
    -E vos, já tinhais ouvido alguma coisa sobre ele antes?
    Frei Ludovino hesitou, manuseando o terço de madeira, evitando olhar para ele.
    -Pois... Pois se dizem muitas coisas sobre ele, irmão Silvestre.
    Frei Silvestre empertigou-se, tocando inconscientemente o braço machucado.
    -Que coisas?.- inquiriu, e começou a tremer sem poder evitá-lo.
    -Bom... Bom, se diz que é um louco, um vagabundo, um charlatão... Mas também se diz... Também se diz que ele é...
    -O que mais?- exclamou frei Silvestre, inclinando-se em sua direção.
    -Também se diz, e que nosso pai todo-poderoso me perdoe se blasfemo, se diz que é um homem de Deus... Um santo.
    Frei Silvestre se ergueu, como se tocado por um ferro incandescente, e uma intensa palidez tomou conta da sua face. Sentiu que se elevava até o céu e que afundava na terra, que se dispersava e se comprimia até quase gritar de dor... Um santo!... Sentiu vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo... Um santo!... Dirigiu eus olhos escancarados até a porta de ferro no muro, lutando contra a sua incredulidade, seu pavor e a sua fé. Ainda estava aberta. Por que ninguém a tinha fechado? Por acaso estavam todos cegos?... E por que ele mesmo não a tinha fechado ao sair? Era por acaso um convite para segui-lo?... Mas qua garantia tinha de que ele era o que diziam que era? E se errava o caminho e se perdia e perdia tudo para sempre?... Abaixou a cabeça. Mas, tinha alguma coisa para perder? Somente seu pobre corpo, a sua mente, seu coração desiludido, seu fracasso, a sua dor... Tornou a apalpar o braço. Ainda doía. Ainda estava ali.
    -Um santo.- repetiu em voz baixa, mas ninguém o escutou, pois o irmão porteiro tinha ido embora, assustado com seu comportamento, e os demais estavam no refeitório tomando o desjejum.
    Olhou em volta, procurando alguém a quem perguntar, mas estava sozinho no pátio. Olhou para a porta de novo, angustiado, cheio de dúvidas.
    "Mas, como ter certeza?", se perguntou, e duas lágrimas escorreram pela sua face enrugada, "Para quem perguntar?... Não há ninguém, ninguém", e abaixou a cabeça, apertando os lábios com força.
    Deu meia volta e se dirigiu a sua cela, chorando silenciosamente por aquela dúvida que, à partir de hoje, ficaria enraizada para sempre em seu coração. Chegou diante da porta de madeira e pregos e parou, olhando para ela sem vê-la. Apoiou uma mão em sua superfície áspera e virou a cabeça para o pátio, cheio de desconsolo. O sol brilhava, a primavera florescia no jardim... E nada havia para ele.
    Empurrou a porta com desânimo e entrou, parando junto da cama. Olhou em torno... O mesmo de sempre, para sempre. Colocou o breviário sobre o banco, junto ao toco de vela, e ao incorporar-se seus olhos esbarraram com o pequeno, feio e deslustrado crucifixo na parede mais escura.
    Ficou imóvel, com a boca entreaberta, semi inclinado, fixo o olhar na imagem  que, por sua vez, o observava desde ali, ensangüentado e agônico, tão triste, tão cansado, tão misericordioso mesmo em meio à sua imensa dor... Era um rosto ingrato, faminto e estranhamente luminoso, que tudo parecia saber e perdoar... Que aguardava.
    Frei Silvestre se ergueu, deixando cair os braços, sem força. Essa face, esses olhos como dois poços de mel, essa imagem tão patética e  assustadoramente parecida àquela outra. Essa imagem na cruz aguardava a sua pergunta, assim como Francisco tinha esperado junto ao banco... A quem mais poderia dirigi-la? Quem outro poderia conhecer a resposta? Francisco tinha ido embora, mas o Criador estava ali.
    Quase sem perceber, ajoelhou-se no chão duro e ergueu as mãos até uni-las no queixo, e ao penetrar sua alma por aqueles olhos divinos que o contemplavam tão docemente, desapareceu num piscar de olhos todo aquele velho temor e ressentimento que o aprisionavam, a vergonha, o fracasso e a tristeza, a inveja; e cheio de nova esperança, elevou por fim a voz, que resoou forte e segura ente as paredes pétreas.
    -Senhor, devo eu segui-lo? Devo deixar tudo para ir com ele?...
    E desta vez não esperou o silêncio como resposta. Desta vez tinha certeza de que tinha sido ouvido. Abaixou a cabeça, fechou os olhos, recolheu-se dentro de si mesmo e abriu seu coração. Se sentiu nesse segundo como parte de tudo, livre, etéreo, sem correntes que o impedissem de lançar-se ao abismo celeste que se abria atrás daquela pequena e enferrujada porta de ferro... E foi a sua própria garganta, a sua língua, seu próprio céu da boca e seus lábios os que pronunciaram a resposta que tanto ansiava. Sua voz tornou a elevar-se, estranha e ausente, qual se cada palavra tomasse forma dentro do seu cérebro antes de emergir, serena, segura:
    -"Aquele que põe a mão no arado e olha para atrás, não é digno de vir atrás de Mim".
    Logo, se fez o silêncio e frei Silvestre permaneceu imóvel mais um momento, ajoelhado na penumbra, abstraído do correr do mundo, submerso na paz que finalmente encontrara, pálido, olherento, transparente, estático perante seu Criador.
    Depois, ergueu a cabeça e piscou, olhando pela janela de barrotes pela qual penetrava a luz do sol, escutou o adejar das pombas no telhado, respirou o aroma da natureza viva e nada daquilo o machucou. Tinha-se esquecido do seu corpo e suas dores e tentações. Só sabia que precisava ir atrás de Francisco e tinha certeza de que saberia encontrá-lo, porque ele o aguardava fora dali.
    Ficou em pé e sorriu. Olhou mais uma vez para a cela vazia e umbrosa... Bom, certamente tinha sido seu túmulo, pois o velho e amargo frei Silvestre morrera ali, agora... Suspirou e de pronto se sentiu um estranho naquele lugar, como um intruso. Então, foi até a porta, atravessou o jardim solitário e sussurrante com passo decidido e ágil, ereto, com a brisa fazendo-lhe cócegas no peito feito um vagalhão inebriante, e chegou diante da pequena porta de ferro, que ainda continuava aberta... Olhou para o bosque e o caminho de terra que se estendiam além, por onde ia Francisco e, então, sem olhar para atrás nem hesitar mais, cruzou o umbral de um passo, pegou a maçaneta e fechou a porta atrás de si. E quando escutou o rangido enferrujado, olhou de pronto para as suas mãos, para seus pés, o peito e os braços, e os percorreu, apalpando-os, oprimindo a pele, e um sorriso no qual se misturavam a emoção e a gratidão, a revelação, descerrou seus lábios... Porque já não mais estava com frio.
   

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Silvestre - parte IX

Como podem ver, estou muito a fim de cumprir a minha promessa de terminar de publicar esta história até o fim de semana, até porque já vou ter o domingo ocupado com o primeiro ensaio do musical, que será apresentado no dia 3 para os professores  da rede pública de ensino, o que significa teatro lotado, então temos que correr e retomar o ritmo de trabalho o mais rápido possível. Segundo vi ontem, a nossa agenda já está cheia, então... Mãos à obra! Eu não disse que a coisa ia apertar pro meu lado? Bom, mas é assim mesmo que eu gosto.
    Então, vamos a mais uma parte deste conto:


    Frei Silvestre mexeu a cabeça e respirou fundo. A sua vida e as suas crenças, tão firmes e bem administradas e levadas à cabo, pareciam cambalear diante dos seus olhos. Tudo era nada. A sua sabedoria era feito o vento nos campos, feito uma árvore de raízes mortas que agonizava, estrangulada por esta nova e terrível incerteza que se apoderava irremediavelmente dele. Era este o castigo supremo? Era o fim?... Encolheu-se, tremendo, aterrorizado. Mas lutou para não deixar transparecer seus sentimentos diante do homem que o observava em perfeita calma e transparência. Verdade que estava bem longe de poder responder a estas perguntas que enchiam de angústia e esperança seu coração doente, mas não iria se permitir demonstrar que tudo aquilo o inquietava, não iria pedir para aquele as respostas que ele próprio ignorava, nem tampouco iria se render agora e aceitar um milagre.
    Quase riu diante de tal idéia, porque ele sabia que os milagres não aconteciam assim. Como iria o Senhor lhe enviar um miserável infeliz feito este em resposta às suas preces? Por acaso ele merecia aquilo? Não, os emissários do céu eram formosos, resplandecentes e sem mácula, arrebatadores, rodeados por um nimbo de bem-aventurança, e seu contato não ocasionava dor nem temor, mas um inefável êxtase de amor, e tudo se enchia de luz, músicas e aromas celestiais, e ao falar, suas vozes eram embriagadoras, deixando na alma a paz perfeita e ausente. Era assim que acontecia, e não feito uma avalanche de fogo e luz que tudo arrasava, deixando-o imerso no terror e na incerteza, cheio de desconcerto e dor. E menos ainda se personificavam na imagem de um sujo morto de fome, mais ingrato e escuro que o pior ladrão ou feiticeiro, esfarrapado, famélico e cheio de soberba e insolência... Frei Silvestre pareceu crescer diante deste pensamento, recobrando seu ânimo. Não, não iria permitir que alguns truques bem feitos jogassem por terra a sua ordenada vida, que corria rumo à perfeição. Tudo isto não era nada além de algum tipo de alucinação. Atingir o  patamar onde se encontrava tinha lhe custado demasiado, toda uma existência de luta e dor. Já estava velho, cansado e resignado. Pelo menos, os homens o admiravam e falavam dele como um exemplo. Quiçá Deus não tinha disposto para ele outra coisa.
    E em sua cega negação debatia-se na ponte frágil e cambaleante que o sustentava sobre o precipício de Deus, teimando em não se jogar, em não se despir, em não se entregar.
                                                            "Ecce dabit voci suae vocem
                                                            virtutis, date gloriam Deo super
                                                            Israel: magnificentia et virtus
                                                            eius in nubibus..."
    E como se o homem tivesse escutado tudo quanto ele pensava, deu um passo em sua direção e o olhou nos olhos, cheio de compaixão e estranha ternura, e falou, abrindo os braços:
    -Mas, onde te encontras agora, frei Silvestre?... Após toda uma vida cheia de luta e dor, onde estás agora?...
    Frei Silvestre ergueu-se bruscamente ao escutar aquelas palavras precisas e cheias de sincera tristeza, e olhou para o mendigo com os olhos escancarados, levando uma mão aberta ao peito, como que escudando seu coração contra aquela estocada que, no entanto, o atravessou de lado a lado, desamando-o de uma vez por todas. Seu queixo tremeu e um gemido inarticulado brotou de sua boca quando tentou falar. Uma dor imensa dilacerou-o e sentiu-se calcinado pela labareda da verdade... Fechou os olhos com força, como se fosse incapaz de suportar a visão daquele que assim tinha falado. Seu corpo martirizado pareceu dissolver-se num redemoinho e, tropeçando, afastou-se até a oliveira, cobrindo o rosto com as mãos.
    -Vá embora... Vá embora, por favor...- murmurou, desabando no banco, tentando que ele não o visse chorar, mas s lágrimas corriam pelas suas bochechas murchas -Por que viestes?... O que queres?...
    O mendigo não se mexeu, mas ladeou a cabeça e lhe sorriu com doçura, mesmo se frei Silvestre não olhava para ele.
    -Eu somente vim.- respondeu calmamente.
     -Viestes para burlar-te de mim, infeliz.- lhe replicou o monge, cerrando as mandíbulas e os punhos -Viestes para me destruir, para me encher de dúvidas, para quebrar a minha fé. Viestes...
    -Eu somente vim.- repetiu o mendigo, e sem emitir outro som, encaminhou-se para a pequena porta de metal  enferrujado, na parede oeste do mosteiro, a abriu com suavidade e saiu por ela, sem virar-se para olhar o monge, que chorava amargamente sob a oliveira prateada.
                                                     "Mirabilis Deus in sanctus suis
                                                     Deus Israel: ipse dabit virtutem
                                                     et fortitudinem plebi suae
                                                     benedictus Deus..."
    O ofício tinha concluído. Um leve rumor chegou desde o interior da capela e os irmãos apressaram-se a sair para o desjejum.
    Ao escutá-los, frei Silvestre incorporou-se rapidamente, apanhou seu breviário do chão e ficou parado ali, junto do banco, muito ereto e calmo, como se nada tivesse acontecido. E era isto que pretendia com desespero: convencer a si mesmo de que, na verdade, nada tinha acontecido. Mas quando ergueu o braço e passou a manga pelos olhos úmidos, a dor da queimadura o fez estremecer... Ah, sim, porque ali estava, em sua pele, a marca daquilo que queria ignorar. Ali estava... Tremeu a sua alma hesitante e fechou os olhos, levando a mão à cabeça desgrenhada... Ali estava... Sentiu que tudo cambaleava ao seu redor, que escurecia, esvanecia. A face serena e clara do mendigo iluminou seu cérebro. Faltou-lhe o ar e estendeu torpemente uma mão aberta para não despencar no abismo... Mas alguém a pegou bruscamente, segurando-o, e o trouxe brutalmente de volta à fria terra..
    -Que vos sucede, frei Silvestre?... Vos sentis mal?.- a voz aguda e pigarreante do irmão porteiro, frei Ludovino, ecoou feito um trovão em seus ouvidos, fazendo-o encolher.
    -O quê?...- articulou, abrindo os olhos, cegado pelo sol.
    Olhou em volta, desconcertado, franzindo as sobrancelhas, esticando as mãos para equilibrar-se em meio àquele redemoinho de cores, sons e objetos que pareciam golpeá-lo com a sua proximidade tão real. Os arcos de pedra, as árvores, as colunas, os barrotes, a vereda, os altos muros e as torres que o cicundavam, maciças, enormes, cinzas, insultantes. E os irmãos que circulavam pelos corredores em direção ao refeitório, com seus hábitos pretos e seus capuzes... Eram seres humanos, de carne e osso, que iam comer. E eram tão reais, tão feios e mortais! Eram tão diferentes daquele outro!, pensou de pronto.
    -Irmão Silvestre, por caridade, dizei o que vos acontece!...- exclamou frei Ludovino chacoalhando-o suavemente -Falai!...
    Frei Silvestre virou-se para ele e o encarou, com expressão de estupor... Este velho desdentado, careca e de olhinhos brilhantes e esbugalhados, quem era? Não conseguia lembrar.
    -Deixai-me...- murmurou com voz rouca -Deixai-me só... Ide embora.- e se desvencilhou da sua mão magra e enrugada, virando-lhe as costas, cambaleante e sem conseguir se recompor.
    Então, a cara de frei Ludovino iluminou-se e sorriu, cheio de admiração e um pouco de medo, mostrando as suas gengivas peladas.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Silvestre - parte VIII

Bom, já dizem por aí que o que é bom dura pouco: meu mês de férias acabou ontem e hoje à tarde estou retornando à Fundação. Infelizmente não tive banco de horas este ano, fato que sempre me proprocionava até um mês a mais de férias. Mas tudo bem, apesar da minha saúde não estar cooperando muito, de não ter descansado quanto queria nem ter produzido o que esperava, estou bem disposta e otimista, curiosa para saber o que me tocará, pois com certeza algumas coisas vão mudar -a começar pelo aumento das minhas horas de trabalho e, por consequência, do meu salário, o que vai ser ótimo- e vou ter mais responsabilidades do que no ano passado. Bom, desde que não tenham a ver com coisas burocráticas ou turmas de crianças pequenas, para mim tudo bem. Adoro meu trabalho e estou ansiosa por começar com as aulas, montagens, ensaios y projetos. Pena que vou perder alguns dos meus melhores alunos por causa da faculdade ou o cérebro de mosquito de alguns pais, mas tenho certeza de que sempre encontrarei talentos entre as novas turmas. Afinal, há que ir em frente, há que encarar e curtir as novidades e vencer os desafios... A rotina tem seu lado saudável, porque organiza nossa vida e nos dá segurança, mas também não podemos acomodar-nos nela e parar no tempo e no crescimento. Então, vamos voltar com tudo, porque sempre é tempo de renovação e aprendizado, inclusive para nós, os professores!.
E aqui vai mais uma parte desta história-novena. Espero, sinceramente, poder terminar de publicá-la até o fim desta semana. Nem eu mesma estou agüentando mais olhar para ela!... Afinal, neste início de atividades vou ter muito pouca coisa concreta para fazer na fundação: arrumar armários, figurinos, material, ter reuniões com meu chefe para planejar as atividades, os eventos e as matrículas... Nada que me deixe tão exausta assim como para não conseguir digitar o fim deste conto, né?...


    O mendigo nada replicou. Houve um instante de silêncio, e quando frei Silvestre se virou para ver o que estava acontecendo, o homem avançou em sua direção. Aproximou-se dele sem que soubesse como, sem que pudesse fugir ou rejeitá-lo, esticou uma mão, uma daquelas mãos pequenas e frágeis, etéreas e sujas, e o tocou... A apoiou gentilmente em seu antebraço e o monge sentiu como se uma labareda invisível o ferisse até o osso, deixando-o tonto, e proferiu uma abafada exclamação de surpresa e dor. Foi como se o gelo  que cobria a sua pele tivesse trincado.
    Espantado, tentou recuar daquele igneo e misterioso contato, mas não conseguiu. Era incapaz de se mexer, de respirar, de gritar, de parar de olhar para ele. Era como se a sua imagem tivesse ficado gravada dentro do seu cérebro, apagando todo o resto. O rosto emaciado e barbudo do mendigo tornou-se apagado, seu sorriso consolador  borrado, ofuscando-o com aquele estranho resplendor que parecia emanar dele... Mas, o que tinha acontecido para transformá-lo assim? Como podia ter-se transfigurado deste jeito? O que tinha feito? O que tinha acontecido com aquela criatura mortal, ordinária e opaca com quem falava?... Frei Silvestre fechou os olhos com força e levou a mão livre ao rosto, lutando contra aquela vertigem medonha e a luz abrasadora. Seu breviário caiu no chão, mas ele não percebeu, nem sequer escutou o barulho que fez contra as pedras. Tudo girava ao seu redor, tudo afundava, esvanecia, explodia, desintegrando-se. Não havia nada. Tudo era a luz, esse fulgor cegante, esse calor penetrando-o, destruindo-o... E a mão leve e branca continuava apoiada em seu antebraço, e frei Silvestre soube certamente que aquela era a causa de tudo. Escutou o homem  dizer alguma coisa que não conseguiu compreender, mas a sua voz tornou a lhe parecer conhecida, pulando seu som suave e cheio de misericórdia desde o fundo do seu inconsciente.
    "Meu Deus, meu Deus!... Mas o que está acontecendo?", bradou em meio àquele cataclismo que o atropelava, mas a sua voz não soou, morrendo atás dos seus dentes cerrados.
   Mas de repente, o mendigo retirou a sua mão e tudo acabou. Voltou o sol, a brisa perfumada, as árvores verdes, o poço com seu rumor, o céu claro  e as frias pedras sob seus pés. Tudo sumiu como por encanto... Frei Silvestre piscou, incrêdulo e espantado ainda, e agarrou o braço no lugar onde tinha sido tocado, recuando com passo hesitante, equilibrando-se no limite do abismo celestial. A pele ardia, abrasada, machucada; a sentia ferida, chamuscada e, ainda assim, insensível, como se um halo a protegesse. Esregou os olhos e encarou o homem diante dele, junto do banco de pedra. Sim, ali estava. Era real.  Tinha corpo, volume, cor, cheiro, e emitia leves sons. Não era uma alucinação. Era este homem... Que também olhava para ele. E aguardava.
                                                 "Regnae terra, cantate Deo,
                                                 psallite Domino: psallite Dei
                                                 qui ascendit super caelum
                                                 caei as Orientem..."
    Uma inesperada e quase irreprimível vontade de chorar assaltou frei Silvestre, e a sua visão tornou-se escura. Seu coração batia desesperadamente, queimando-o ainda, pugnando por pular do seu peito e elevar-se, leve e pleno daquela estranha alegria que queria brotar em lágrimas. A sua cabeça girava  e a sua garganta se contraia, incapaz de expressar som algum que pudesse exprimir o que acontecia exatamente... Segurando-se com dificuldade e respirando entrecortadamente, fixou os olhos brilhantes e avermelhados no homem que aguardava. Recuou mais um passo.
    -Quem és tu?...- perguntou, com a voz estrangulada. Tremia, confundido entre o pavor e o deslumbramento.
    O mendigo não se mexeu.
    -Tu sabes, padre.- lhe respondeu em voz baixa, e ladeou a cabeça, esboçando um sorriso franco -Ias me dizer.
    Frei Silvestre se empertigou, fazendo um penoso esforço para recuperar a calma, o raciocínio, a superioridade lógica sobre aquele sujo e esfarrapado qualquer que sorria para ele tão afavelmente.. O contemplou com ceticismo e receio. Será que ele não tinha percebido nada? Não tinha se dado conta do que acabara de acontecer? Não podia acreditar. Como continuava ali, tão tranquilo?... Estremeceu, tomado pelas dúvidas. Ou seria que, na verdade, nada tinha mesmo acontecido?... Mas seu braço queimava, esta era a verdade; o machucava o roce da manga, tinha-se queimado. Seus dedos hesitantes apalparam a ferida por cima da lã do hábito e ali estava. Teve um sobressalto de dor e apertou  as mandíbulas... Ou será que sonhava, que jazia ainda no catre em sua celda e nada disto acontecia?... Afastou a cabeça bruscamente. Escutava os irmãos orando na capela. Bom, mas que tipo de bobagens e fantasmas estavam passando pela sua cabça? Quem era este miserável esmoleiro para assim abalá-lo? Por acaso era mais do que isso, um pobre diabo? Não o estava vendo? E parecia outra coisa? Não, o que era que pretendia aquele desprezível vagabundo maluco com tudo isto?... Uma sombra sulcou de pronto a face do monge, e seus nervos de contraíram... O que tinha acontecido DE VERDADE? O que este homem esperava? Porque evidentemente aguardava alguma coisa. Por que tinha chegado até o mosteiro? Por que este e não um outro qualquer dos que abundavam pelos caminhos? Por que o irmão porteiro tinha-o deixado entrar, quebrando as severas regras da clausura? Por que este homem tinha-se dirigido a ele e não a um outro irmão, falando daquele jeito, chegando tão certeiramente até a sua alma donente e resignada em sua amargura? Por que continuava ali parado, olhando-o e escutando-o quando deveria estar na capela com os outros? Por que abandonava seus sagrados deveres por causa desde enigmático mendigo?... Levou de novo a mão à garganta e engoliu. Sentia-se perdido, esmagado pelas dúvidas, cheio de confusão e medo, encurralado. Finalmente pego... Por que esta absurda vontade de chorar tomando conta dele? Por que assim, em meio a uma suave felicidade que não podia explicar?... Franziu a testa e se empertigou, sobressaltado... Por acaso  existia alegria no caminho para Deus?... Mas não era tudo um longo sofrer, uma eterna penitência e um grito de arrependimento até ser coroado com a benção divina? Existia então um alívio, um sorriso, um verso, uma música, um afago, o armistício?...