domingo, 7 de fevereiro de 2016

"O leitor"

   E como promessa é dívida, aqui vao os contos deste fim de semana:



                                                     "O LEITOR"


    O mercado Tirso de Molina é uma loucura nessa hora. Centenas de pessoas passando, gritando, levando carrinhos, sacolas, carriolas cheias de verdura e fruta. Às vezes tem grupos cantando, fazendo discurso, homenagem à Nossa Senhora do Carmo, turmas de turistas atentos e curiosos. Do primeiro andar vêm os gritos dos empregados das lanchonetes que anunciam seus menus a todo pulmao, tentando seduzir os que passam, Tem cachorros deitados no frescor dos corredores, outros latindo, criancas correndo e gritando, maes nervosas, maridos cansados e entediados, cantores de rua, cheiro de coentro, de aipo, peixe frito e frango assado. Brincadeiras e desafios entre os trabalhadores, gargalhadas, pregoes, o rumor feroz da rua filtrando-se pelas paredes de tijolo, pombas sempre famintas e gatos desconfiados... E ele está ali, sentado num dos bancos que rodéiam as colunas de cimento. Cabeca baixa, olhar absorto, imóvel. Um homem velho, mal vestido, com uma sacola gasta e cheia de remendos ao seu lado, sapatos esburacados, cabelo engomado e cinzento, rosto fino, flácido, mal barbeado. O mundo enlouquece à sua volta e ele lê. Segura um velho livro, cujas páginas estao soltas e amareladas, com a capa gasta e escurecida. Parece uma borboleta querendo fugir dentre seus dedos ossudos, porém, ele o segura com forca, com carinho, com gratidao. Nada existe para ele além das palavras impressas no papel que uma vez fora branco. Se delicia, vira cada folha com respeito, com expectacao, como se foram algo sagrado... Este homem pode nao ser nada nesta vida, mas é um leitor.





                                             "A PROMESSA"


    Aquilo era o único que tinha, a única certeza, a promessa de cada dia: seu garfo de plástico preto. O pegou de uma mesa no terraco de uma lanchonete depois que os fregueses foram embora e antes que o garcom viesse limpar. Ainda tinha colados uns pedacinhos de torta e cheirava a framboesa e creme. Com um gesto rápido, o agarrou com forca e o enfiou no bolso, afastando-se rapidamente pela rua sentindo, por alguma razao desconhecida, que tinha achado um pequeno e valioso tesouro... No dia seguinte, a sua aventura pelas portas dos fundos das lanchonetes e restaurantes foi afortunada: rendeu-lhe uma generosa porcao de macarrao com frango, umas fatias de tomate e cebola, umas batatas fritas meio gordurentas e uma concha de sopa do fundo da panela. Estreou seu garfo com um brilhante sorriso de felicidade, sentindo que ele tinha mesmo lhe trazido sorte. Quando acabou, o limpou cuidadosamente com um guardanapo e o guardou novamente no bolso. Os dias que se seguiram foram bons também. Os donos dos locais e os garcons comportaram-se de um jeito excepcionalmente generoso e até um suquinho e um refrigerante lhe deram de presente... Definitivamente, aquele garfinho tinha algum tipo de poder. Será que o tornava mais simpático diante das pessoas? Despertava-lhes mais compaixao? Acendia a sua generosidade? Na verdade, nao fazia idéia, mas nao estava a fim de quebrar o encantamento e se desfazer dele. Pensou em acrescentar uma colher, mas de repente achou que o garfo poderia, de algum jeito, "se ofender" e parar de dar-lhe sorte. Entao, tudo que era líquido simplesmente o sorbia e assim deixava a exclusividade do uso para o garfo preto.
    Todo dia de manha, ao acordar, o primeiro que fazia era conferir embaixo do caixote que estava junto do colchao no qual dormia, se o talher ainda estava ali, e quando seus dedos rocavam o plástico flexível e já meio gasto, uma onda de alívio e otimismo o percorria, pois a promessa continuava valendo. Aquele seria outro dia bom.