segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Outono inspirador"

    Hoje já nao está aquele céu azul de ontem, mas o sol aquece agradávelmente nossos ossos, entao a inspiracao continua viva e bem disposta. Por isso, como prometi ontem, aqui vao dois contos novos. Espero que aproveitem o feriado para sentar-se e lê-los, e que curtam muito.




                                                             O PINTOR



Era a primeira coisa que o Joaquim via ao abrir os olhos cada manha e também a última quando os fechava à noite: o rosto da Emília. A conhecia fazia anos, era uma das garotas do coro da banda na qual ele tocava o violao os fins de semana. O resto dos dias, ia no passéio Huérfanos e pintava. Tinha seu lugar do lado de um prédio público, um cantinho sombreado, espacoso e perto dos banheiros púbicos, que ele mantinha escrupulosamente limpo... Era um artista eclético, pois fazia de tudo um pouco: cavalos,  bailarinas, paisagens rurais e urbanos, vasos de flor, abstratos... Já tinha seus fregueses e sempre tinha gente parando em seu lugar para admirar e comprar seus quadros. O que ninguém percebia era que todas as mulheres que ele pintava -bailarinas, fadas, parisienses em ruas melancólicas, provocantes musas cobertas com tecidos de seda- tinham a mesma cara: a da Emília... Todo fim de semana era aquela tortura. Subir no palco e tentar se concentrar na música ao invés de ficar embelezado contemplando a beleza da garota, lutando para criar coragem e aproximar-se dela para lhe declarar seu amor... Nao conseguia. Todas as vezes parecia que o coracao ia pular de seu peito, as pernas fraquejavam, a boca secava. Entao, a olhava de longe, a acariciava com cada suspiro, a desejava com cada acorde, a abracava com as cordas do seu velho violao... mas nao se aproximava dela.
    Entao, a pintava. E seu amor crescia com cada pincelada e lhe doía a alma cada vez que alguém comprava um quadro e o levava embora, pois a sua amada estaria na casa de um outro e nao na dele...
    Desconsolado e com uma inspiracao interminável e frustrada, sabia que muita gente possuia algo de Emília, menos ele.




                                                   A RAJADA DE VENTO


    O prédio estava clausurado fazia um par de anos, as persianas de metal abaixadas, cheias de pixacoes e terra, urina de cachorros e bêbados, a lajota vermelha que aparecia embaixo delas coberta por uma grossa camada de barro, insetos mortos, restos de comida e bosta de pomba. A construcao estava na justica já fazia um tempo porque um grupo de defensores do património histórico tinham interposto uma demanda para tentar salvar o prédio ao lado, que era uma pequena e decadente obra de arte de paredes vermelhas e enfeites brancos que, infelizmente, por dentro estava totalmente em ruínas, feito uma casca de ovo vazía prestes a se quebrar.
    María passava todo día diante daquele prédio e lamentava a sua decadência, pois realmente parecia ter vivido dias de glória, quando o bairro tinha um outro status... Mas, bom, nestes tempos, o único que as construtoras queriam era erguer as suas torres de mil apartamentos de 50 metros quadrados e nao estavam nem aí se para isto tinham que demoler verdadeiras obras de arte arquitetónicas, relíquias histórias e bairros inteiros que, se fossem reformados e bem cuidados, poderiam transformar-se em belos roteiros turísticos. Entao, Maria passava diante do prédio condenado e só podia soltar um suspiro de disconformidade...
    Até que um dia, na parte em que estavam as persianas metálicas, percebeu que entre a abertura no fim da persiana e o chao havia uma estreita fresta pela qual passava uma rajada de vento e que, nesse espaco, tinha ficado presa uma pena de pomba. Era branca, vaporosa, já meio suja, e estava prisioneira numa mistura de teias de aranha, bolas de pelo e terra. Porém, cada vez que o vento soprava, ela se esticava pra fora, tentando libertar-se. Quem sabe sonhava com voltar para a sua dona e se elevar acima das torres iguais, as antenas e gruas que ocupavam toda a paisagem. Talvez desejava passear por algum parque, rolar pelas calcadas, brincalhona, escalar pelo tronco de uma árvore e contemplar o mundo entre as suas folhas.
    Maria ficou olhando para a pena por um momento, sorrindo, conquistada pelo seu empenho, mas logo continuou seu caminho. E no dia seguinte, ali estava a peninha danzando na rajada de vento, e no outro, e no seguinte... María estava realmente admirada pela persistência e coragem daquela modesta pena branca. "Tomara eu tivesse essa forca e esse otimismo, essa coragem e essa perseveranca em minha vida", pensou, sentindo-se repentinamente animada. Andava com alguns problemas, porém, ver aquela peninha se esforcando tanto todo dia para aproveitar as rajadas de vento e ser livre, tocou seu coracao. Dediciu imitá-la entao. E continuou seu caminho, respirando fundo, sorrindo e com o corpo ereto e a alma fortalecida.
    Quando passou no dia seguinte, a peninha já nao estava mais.

domingo, 2 de abril de 2017

De novo os fins de semana...

    E ainda aproveitando o sol eslêndido, e o ventinho, sento para postar o conto, como prometi a vocês, voltando às publicacoes nos fins de semana.




                                                       BRIGA DE CAES


    Se conheceram numa briga de caes. Os deles mesmos: A "Buba" e a "Cata", que se cruzaram na rua e imediatamente se odiaram. A "Buba", uma cadelinha já velhinha, de raca, longos pêlos marrom e uma charmosa franjinha. A "Cata" uma vira-latinha com um olho preto e o outro branco, patinhas curtas e pêlo despenteado. O dono da "Buba", um gringo de olhinhos azuis e uma barba já branca, pele pálida e um chapeuzinho de explorador, bermuda e camisa xadrez. A dona da "Cata", uma senhora esbelta e sorridente, de cabelo curtinho e passos decididos... E entre afastar as cadelas e segurá-las para que nao matassem uma à outra, cruzaram um silencioso cumprimento. Alguns dias se encontravam e sorriam mutuamente, puxando com forca a coleira de seus animais. Às vezes se passavam vários dias sem se ver, porém, aos poucos, foram aumentando os sorrisos e acrescentaram algumas palavras, mas como ele era gringo e a dona da "Cata" nao falava muito inglês, a conversa nao durava muito, além de que as cadelas logo comecavam a latir e a querer se jogar uma em cima da outra. Porém, parece que o gringo comecou a fazer algum tipo de curso e de repente falava com a senhora num espanhol bem decente e ela tentava responder num inglês bastante aceitável.
    Assim, dia após dia, em cada encontro foram se conhecendo melhor, perguntando enderecos entre latidos, grunhidos e embestidas de suas mascotas, trocaram telefones e após mais alguns meses, de repente pareceu que as cadelas cansaram de latir e querer se matar e passaram somente a se oliscar de longe. Isso era o máximo que podiam esperar delas. No fim das contas, eram totalmente diferentes, assim como seus donos, entao os obrigavam a manter distância sob a ameaca de um escândalo daqueles.
    Dois anos se passaram e o gringo e a senhora continuam a se falar de longe, mesmo se o homem morre de vontade de convidá-la para um café e ela pinta os lábios e veste uma roupa bonita por se encontra com ele... Mas as cadelas continúam a se odiar e assim, o homem nao consegue se aproximar da senhora para invitá-la pra sair. Parece que os animais impuseram uma espécie de limite físico e seus donos sentem-se obrigados a respeitá-lo... De repente, quando uma das cadelas morrer...

domingo, 19 de fevereiro de 2017

"O encontro"

    E aqui vai o conto deste fim de semana. O próximo acho que será publicado em algum dia da semana, mas nao se preocupem, estará ali para que o curtam!...



                                                             O ENCONTRO



    Eram quatro esquinas. Em uma tinha um restaurante chinês. Na outra um prédio público. Na terceira um mercado e na quarta um restaurante de comida peruana... Gente apressada, séria, alguns com seus uniformes do escritório, outros levando sacolas, caixas, carrinhos. Alguns aproveitando o fim da tarde para uma cervejinha com os colegas, ou para fazer compras de última hora. Os motoristas de ônibus e carros, impacientes, buzinando como se o mundo fosse acabar, achando que o cara na sua frente estava se divertindo naquele taco e nao queria avancar para ir logo pra casa. As pessoas se esquivando na calcada lotada, parecendo um río revolto e barulhento: o caos da cidade numa sexta-feira às seis da tarde.
    E de pronto, desde uma das esquinas, um homem soltou um grito e comecou a adejar com os bracos.
 -Coruja!... Coruja!- gritava, fazendo com que alguns transeúntes virassem brevemente a cabeca para olhá-lo com curiosidade e desconcerto.
    E na esquina oposta, um outro sujeito, com um chapéu de feltro, jaquetinha curta e botas, levantou de uma mesa que estava na calcada, diante de uma lanchonete, e também gritou:
    -Pataco!... Aquí, Pataco!...- e tirou o chapéu, comecando a mexê-lo pra cá y pra lá, quase acertando os que passavam, que, fazendo cara féia, o esquivavam.
    Entao, da terceira esquina, saindo do restaurante peruano, apareceu um outro homem, gordo e de grandes bigodes cinzentos, que olhou para o outro lado, fez uma cara de alegre surpresa e, abrindo os bracos, comecou a correr em direcao da calcada da frente gritando:
    -Pataco!... Coruja!... Rapazes, mas o que estao fazendo por aqui?- e atravessou a rua, rindo estrondosamente, ao mesmo tempo que os outros dois o faziam.
    Encontraram-se na quarta esquina, onde bem nesse instante saia do mercado um senhor de cabelos grisalhos carregando um monte de sacolas. Ao esbarrar com eles parou bruscamente, assim como os outros três. Se entreolharam, abrindo idênticos sorrisos de sincera alegría e emocao, meio incrêdulos, e finalmente se aproximaram para se abracarem efusivamente.
    -Mas, como é possível, rapaziada?... Quando chegaram na cidade?...
    -Eu cheguei ontem e vim ver as novidades.
    -Eu trouxe a minha sogra, que tinha médico.
    -Eu vim comprar uma dessas porcarias tecnológicas pro meu neto... Vocês sabem que hoje em día essa garotada só gosta dessas coisas...
    E diante desta tremenda casualidade, os quatro decidiram que tinham que comemorar e foram almocar juntos. Pois coincidências feito esta entre amigos que moram longe nao acontecem todo día.
    

domingo, 22 de janeiro de 2017

"Agora sim!

    Acho que agora sim a coisa engrenou! Já tenho uns cinco ou seis contos escritos, prontos para publicar, e as idéias nao param de vir à minha cabeca, apesar da preocupacao com todo este assunto dos incêndios, a fumaca, o pó das cinzas em todo lugar e o calor insuportável que estamos tendo que agüentar por causa deles...



                                                          AVANCAR


    Ali estava a sacolinha de nylon vermelha, esmagada contra a grade quadriculada do corredor do museu pela forca do vento. De repente, ele parava e ela sentia que sairia daquela armadilha e poderia avancar um pouco, porém, ninguém percebia a sua presenca, que lutava para se libertar do duro metal preto. Nao tinha nada em contra do vento. Geralmente era seu amigo e a levava até lugares inesperados, lindos, misteriosos, cheirosos, com música e pássaros. Adorava quando a pegava e a jogava para cima, por entre os prédios e antenas; cruzava com pombas, gaivotas, sabiás e até gavioes. Passava veloz e dancante na frente das sacadas onde se secava a roupa, floresciam os vasos, os cachorros cochilavam na sombra e as caixas se empilhavam junto com as bicicletas, mesinhas, colchoes e, no natal, as luzes, enfeites e guirlandas... Sim, o vento era seu amigo, tinha lhe ensinado a dancar, mas hoje estava de mau humor e insistia em mantê-la no chao, espremida contra aquela grade, brincando cruelmente com a sua sede de avancar, de conhecer, de se elevar e se sentir livre, à salvo dos garis e os caminhoes de lixo... O que fazer entao?Ter paciência e entender que ele estava tendo um mal dia?... O problema era que, se nao a deixava ir embora logo, alguém poderia pegá-la e jogá-la no lixo e aí seria o fim de tudo.
    E de repente veio um garoto. Um menino de cabelo preto e olhos puxados que, ao vê-la, abriu um sorriso e se aproximou pulando. Parecia encantado com ela. Talvez pela sua cor vermelha brilhante... A sacolinha aguardou, expectante... O que iria fazer aquele garotinho?... Ele chegou junto dela e de um puxao a desenroscou da grade, ficou olhando pra ela por alguns instantes e de repente pareceu ter uma idéia. A botou aberta contra o vento, deixou que se enchesse e, abrindo muito a boca, com os olhinhos brilhantes, a soltou... A sacolinha saiu voando, veloz, livre, se contorcendo de pura felicidade. E de cima olhou para o menino, que pulava e ria, revoando na calcada cheia de gente, encantado com a sua danca louca por entre os prédios, e de pronto pensou: "Ele nao é tao diferente de mim"...




                                            IGUAL AOS OUTROS


    Andava pelo bairro sem rumo, sujo e fedido, falando sozinho, com o olhar sempre perdido em algum lugar indefinido. Às vezes passava o dia todo sentado numa escadaria ou na calcada, encostado numa parede, discursando e comendo o que conseguia nas lanchonetes, padarias e restaurantes das redondezas. Os funcionários lhe davam pao, ou algum refrigerante, uns restos de comida chinesa, de frango frito ou batatas, e ele comia tudo. "Estômago de avestruz", o apelidaram, mas isto nao queria dizer que de vez em quando nao andasse com as calcas todas cagadas... Ninguém falava com ele ou o cumprimentava. Quando aparecia, simplesmente, os empregados corriam para pegar uma sacola de papel ou um prato de plástico, jogavam uns restos dentro e entregavam para ele, segurando a respiracao para nao sentir ânsias pelo fedor horroroso do homem. Nao era ninguém. Nao era nada além de um desgosto repulsivo que passeava por aí sujando e assustando às criancas. Inverno e verao com a mesma roupa: a parca imensa e dura de sujeira, as calcas daquela cor indefinida, rígidas de mijo e fezes, sapatos quase podres, se desfazendo, o cabelo comprido e despenteado, já meio branco, barbudo, dentes pretos, unhas compridas e quebradas... Um desastre ambulante do qual todos queriam distância.
    Até que um dia, alguém venceu todas estas barreiras e o agarrou, cortou-lhe o cabelo, o barbeou, lhe deu um banho, botou nele roupa e sapatos novos, cortou as unhas e até lhe jogou umas gotas de colônia. Sem alarde, o devolveu à rua e ali estava o mendigo, transformado, caminhando entre a gente, irreconhecível, igualzinho a um tipo decente e sao. E agora as pessoas, sem reconhecer nele o sujeito asqueroso e assustador que vagueava pelo bairro, o cumprimentavam quando aparecia na porta dos restaurantes e lanchonetes, se aproximavam e perguntavam o que desejava, batiam papo com ele relaxados, confiados, ficavam ao seu lado sem melindres... Porque era como os outros.
    E seu benfeitor olhava de longe e ria.

domingo, 20 de novembro de 2016

"A inspiracao está de volta!"

    E finalmente, como prometi a vocês, e após este longo jejum, cá estou de volta com meus contos. Tenho uma folha cheia de idéias e torco para que esta boa onda nao acabe nunca mais, pois nao só é boa e entretida para vocês -isso espero!- mas para mim também... Entao, aqui vao os dois primeiros e espero que curtam!



                                                             NUVENS


    Aquela parecia um passarinho com as asas abertas. Lá, uma torre com uma bandeira. Aqui em cima um cachorro com três patas. Sobre a árvore retorcida e sem folhas tinha uma que lhe pareceu a cara deu seu avô, com a barba e o chapéu, igualzinho. A Tuca esticou o pescoco para divisar outro pedaco de céu pela janelinha cheia de mofo e desenhos obscenos... Sim, lá no fundo podia adivinhar uma borboleta que, aos poucos, foi se transformando numa panela fumegante. Lembrou da sopa da sua mae, lá na mesa da velha casa rodeada de salgueiros y choupos, onde podia se ouvir o cantarolar de um riachuelo e os gorjeios dos bem-te-vi, os sabiás e os pardais... Entao, a nuvem se transformou em algo alado e imenso que se abria sobre o pátio de concreto trincado, de muros cobertos de palavroes, ressentimento, vinganca, saudade, desencanto... Mas as nuvens nao se importavam com nada daquilo. La em cima, livres e garotas, brincavam com o vento e a imaginacao dos mortais. Havia que seguir seu ritmo e a sua criatividade, havia que subir até elas, misturar-se com as suas brancas ondas sempre em movimento e se deixar levar, porque naquela cela estreita, escura e fedida da cadeia de mulheres era o único jeito de lembrar que a beleza ainda existia e como era ser livre.




                                           A ESCADA


    A gente passaba diante do prédio de tijolos mil vezes repintados e descascados, com um primeiro andar de decadentes sacadas coloniais tristemente enfeitadas com vasos de gerânios e samambaias, tênis secando no sol e antenas de televisao enroscando-se entre os fios, os restos de pipas, penas secas e roupas penduradas num varal de arame ou corda, e nao podia deixar de desviar o olhar para a escada que dava acesso àquele primeiro andar. No térreo tinha uma barbearia, uma loja de objetos de isopor e espuma e um bar de vidros pretos de cujo interior saíam às vezes gargalhadas, música e um forte cheiro de incenso barato... Porém, a escada era o que mais chamava a atencao. Erguia-se, torta e opaca, com um corrimao grudado à parede empoeirada, os degraus afundados, descascados, mil vezes lustrados por cima da sujeira, e sumia numa curva entre a parede e o teto. Parecia forte e teimosa, mas nao conseguia esconder a sua decrepitude, a sua tristeza. Talvez há muito tempo aquele prédio já tinha sido bonito, bem cuidado, com classe até, com cortinas de renda branca e sacadas dignas, bem iluminado, de quartos espacosos e bem decorados, e nao como estava hoje, subdividido em dezenas de quartinhos entulhados, sujos, opacos, aos quais se chegava subindo por aquela escada maltratada e assustadora. Em sua decadência, ela parecia querer contar todas as histórias, mostrar todas as personagens e as suas indignidades, pénúrias e sacrifícios, a escuridao na qual viviam, os apertos pelos que passavam e as esperancas que ainda tinham de, quem sabe algum dia, nao ter que subir mais por aqueles degraus que rangiam escandalosamente a sua miséria.

domingo, 21 de agosto de 2016

"Inverno"

    E como prometi ontem, aqui vao mais dois contos novos para o fim de semana. Agora preciso comecar a procurar nova inspiracao, olhar à minha volta, escutar e traduzir as minhas experiências em histórias, pois estes sao os últimos da safra anterior, antes da maldita virose... Mas com dias tao lindos acho que nao vou ter problemas, pois sair caminhando por aí  vai ser uma delícia...



                                                   INVERNO


O inverno tinha chegado, sem dúvida. Todos corriam para sair cedo do trabalho e ir embora para casa. Eram apenas cinco e meia da tarde e já as sombras comecavam a tomar conta da cidade. Os cachorros e seus amos passeavam com passos apressados, os donos dos quiosques de doces e jornais tiravam as suas mercadorias e as guardavam em caixas, os carros buzinavam, impacientes, pois as luzes vermelhas pareciam durar uma eternidade. Todos pensavam numa xícara de chá fumegante, umas torradas, um prato de boa e reconfortante sopa, um macarrao com cheiro de alfavaca, o aquecedor ligado, o ambiente acolhedor e quentinho. Até os mendigos se apressavam para nao perder um lugarzinho nos albergues... Menos o Tito. Ele ia sem rumo pela rua, embrulhado num velho e surrado cobertor, com a sua sacola de plástico pendurada no ombro, encolhido em sua camisa esburacada e suas calcas finas demais. Nem meias tinha e o gelo do cimento subia pelas solas dos seus pés e percorria todo seu corpo, fazendo-o tremer... Olhava com secreta inveja para aqueles que iam a caminho dos seus lares, nao importava se eram ricos ou pobres. Tinham um teto, uma família, um prato de comida quente, uma xícara de café, quem sabe um aquecedor... Mas ele tinha vergonha de ir se enfiar num albergue com todos aqueles mendigos fedidos e  briguentos, imundos, doentes, decadentes, bêbados... Tinha uma cama, um chuveiro, um prato de feijao com arroz, um pouco de dignidade... Mas isso nao era o bastante para ele. Estava na rua, arruinado por maus negócios, ele, que teve tudo, abandonado, com frío e fome, mas era incapaz de aceitar caridade.
    De repente comecou a chover. Foi como um balde de água gelada que bateu nele desde o céu... E o Tito ficou parado ali, na calcada deserta, cabisbaixo, sentindo que a sua alma ia embora junto com a água que escorría pelo cimento.





                                                      A VINGANCA


    Tinha arrumado aquele trampo por pura sorte, porque o outro cara tinha ficado doente bem no dia anterior e ele era o próximo na lista. Nao era o melhor do mundo, mas teria seu dinheirinho todo fim de mês e a coisa era bem fácil. O prédio era enorme e estava abandonado fazia um par de anos. Iriam demoler para construir um novo, porém até que isto acontecesse, tinha que ser vigiado para que ninguém invadisse ou depredasse. Eric nao entendia como um só guarda iria conseguir tomar conta de tanto corredor, escadaria e salas, banheiros alagados, equipamentos cheios de teias de aranha, buracos nas paredes, manchas de umidade e paredes descascadas, mas se era isso que precisava fazer, o faria o melhor que pudesse. Se dizia pela vizinhanca que o tal prédio estava assombrado, que tinham assassinado gente alí, que entravam viciados e vagabundos por um passadico subterráneo, que podiam agredi-lo, que estava tomado por ratos e baratas gigantes... Mas ele só precisava ficar na entrada, numa poltrona de escritório velha e desengoncada, com uma mesinha onde botou a sua tevê, sua garrafa térmica com café, a marmita e o caderno onde devia anotar tudo que encontrasse ou chegasse a acontecer... Eric nao podia evitar um sorriso toda vez que olhava para as páginas brancas e a caneta... Mas o que poderia acontecer alí? Estava vazío!...
    E assim passava a semana toda, sozinho e assistindo tevê ou fazendo cruzadinhas, espiando pela fresta da porta para a rua, para as pessoas que passavam sem percebê-lo. Ninguém sabia que ele estava ali... E aos poucos, a solidao e o tédio comecaram a se enfiar na sua cabeca e seu coracao. Parecia que tinha uma fronteira invisível que o separava daquele mundo iluminado e móvel lá fora. Dentro era tao quieto e escuro, cheio de pó, velho, às vezes até dava medo... E as vozes comecaram a chamá-lo, a dizer seu nome em sussurros, a atrai-lo desde o fundo dos corredores e escadarias, dos quartos com cheiro de mofo, das portas cobertas de teias de aranha e farpas, por entre as vigas trincadas. Eric tentava nao escutá-las, dizendo a si mesmo que era só coisa da sua imaginacao, produto do ócio e do tédio, da falta de companhia... Porém, as vozes se fizeram mais fortes e claras, até que ele nao resistiu ao seu feitico e, deixando a poltrona e a tevê ligada, subiu a pomposa e decadente escadaría, tropecando em tijolos, pedacos de madeira e vidros, e foi sumindo na penumbra, até que o prédio imponente e silencioso o engoliu, acrescentando-o à sua lenda de assombracoes, porque se ele ia ser demolido, o mínimo que podia fazer era levar uns quantos junto com ele.

domingo, 3 de julho de 2016

    E como prometido, aqui vao os contos deste fim de semana chuvoso e muito, mas muito frío.




                                                             O ENCONTRO


    O cachorro andava perambulando por alí já fazia um tempo. Se alimentava daquilo que os transeuntes deixavam cair no chao nas lanchonetes e cafeterias ou do que escapava das lixeiras. As criancas, sempre compassivas e sorridentes, lhe jogavam pedacos de pao, salsichas ou batatas fritas quando as maes nao estavam olhando e ele agradecia a sua bondade com um entusiasta abanar de rabo. O problema era quando tentava se aproximar para fazer amizade. Aí, as pessoas tornavam-se repentinamente agressivas e cheias de nao-me-toques e o escorracavam a pontapés e bolsadas e o coitado era obrigado a correr e se esconder embaixo dos bancos... Ficava deitadinho ali, olhando com olhos compridos para as famílias que se divertiam e riam lá longe. Ele queria tanto ter alguém assim, para se deitar do seu lado, para sair e dar um passeio, compartilhar a comida e jogar bola! Mas toda vez que se aproximava demais dos humanos, eles tinham a mesma reacao. Era porque estava meio sujinho? Ou porque era grande e peludo demais? Ou, quem sabe,  fedia muito?... Nao sabia com certeza, mas nunca conseguia uma carícia, nem sequer com o sapato.
    Até que encontrou o mendigo. Estava deitado junto de uma árvore, fugindo do calor e da sede, quando o viu chegar, sujo, despenteado, com um casacao velho e engordurado e um tênis de cada cor. Estava barbudo e o cao pôde sentir seu fedor desde onde se encontrava... Porém, estava mais atento ao que o homem trazia na mao: uma sacola com comida. Talvez nao o chutasse se se aproximava... No fim das contas, eram bem parecidos... O mendigo sentou no chao, apoiando-se na parede, e botou a apetitosa sacola no colo. Olhou em volta e disse alguma coisa, fez uns gestos e riu. Evidentemente, nao estava muito bem da cabeca, talvez fosse arriscado se aproximar... Mas o conteúdo daquela sacola cheirava tao gostoso! O cachorro estava babando e, sem conseguir resistir, se levantou e foi decididamente em direcao do homem. Parou bem na sua frente e ficou a olhá-lo fixo enquanto ele tirava uns pedacos de frango e comecava a mordiscá-los. Parecia que nao tinha percebido a presenca do cachorro que, ao dar-se conta disto, se aproximou mais um pouco. Era uma espécie de duelo. E após alguns minutos, o cao saiu vitorioso. Ainda sem olhar para ele o mendigo tirou outro troco de frango e deu para ele, balbucindo algo ininteligível. Nao sorriu para ele nem o afagou. O cachorro era feito um acidente para ele, algo que de algum jeito o obrigava a tomar uma atitude. Porém, nao parecia ter consciência do que fazia. Simplesmente o fazia.
    O cachorro devorou o frango, abanando o rabo, e deitou do lado do homem, satisfeito, coisa que este nem pareceu perceber. Continuou a comer e falar sozinho. E de repente, como se seu cérebro se iluminasse, estendeu uma das suas maos imundas e de unhas compridas e pretas e afagou desajeitadamente a cabeca do animal. Virou o rosto barbudo e queimado pelo sol e pelo frío e sorriu para ele com uns dentes marrons. Por alguns segundos percebeu... Mas aquilo foi o bastante para o cao. Finalmente tinha achado seu dono. E o mendigo tinha achado um companheiro.
    E ali estao todo dia, junto da parede, um do lado do outro. Um por acaso. O outro por fidelidade.




                                                        SEM LUZ


    A tempestade estava feroz lá fora. Carmem olhava para ela desde o sofá da sala. O vento fazia cantar todos os sinos da sacada e o céu se iluminava com o resplandor repentino dos raios, seguidos por trovoes que faziam tremer os vidros... Nao havia o que fazer a nao ser ficar ali quentinha e protegida, e aguardar até que acabasse. Sentia pena por todos os que estavam lá fora, pelos que tinham sido obrigados a ir trabalhar, pelos que estavam nos pontos de ônibus, congelados e ensopados. Realmente, ela tinha muita sorte. Pelo menos, para agüentar o mal tempo tinha a televisao, o computador, uma xícara de chá e a música do rádio... Até que, de repente, o inesperado: acabou a forca.
    Carmem ficou um momento imóvel, desconcertada, como se nao acreditasse no que acabara de acontecer. O apartamento ficou escuro e em total silêncio. O que fazer?... Pois nada, a nao ser aguardar a que a forca voltasse. Carmem permaneceu sentada no sofá e olhou à sua volta, sentindo aquela mudanca, aquela espécie de nada na qual podia escutar claramente cada som, cada rangido ou corrente de ar, a sua própria respiracao, os movimentos externos e internos do seu corpo imóvel. Podia escutar tudo, dentro e fora, porém, o mais surpreendente e estranhamente agradável era que podia, depois de muito tempo, escutar seus pensamentos, perceber seus sentimentos, acompanhar as evolucoes das suas idéias e sensacoes. E como estas percepcoes se tornavam claras e profundas! Tudo parecia adquirir novas dimensoes e significados. Havia uma quietude que ultrapassava o silêncio fisico e atingia algo fundo dentro dela, algo que parecia querer se manifestar fazia muito tempo, uma realidade diferente, mais pura e próxima, menos invasiva, mais clara e pessoal... A falta de luz fazia com que tivesse um inesperado e profundo encontro com ela mesma. Era tao só ela naquela sala silenciosa e em penumbras, sem rádio, sem televisao, sem computador... De repente podia entender o valor de um claustro, da vocacao para o silêncio, da ausência de toda aquela contaminacao visual e auditiva que a rodeava e a embrutecia, a entontecia, a confundia, lhe roubava a essência, a capacidade -o dom, a graca- de perceber a ela mesma e os outros, de escutar, de sentir mais profunda e serenamente, de entrar dentro dela mesma e se encarar, se descobrir, se descifrar, se entender, se perdoar e se amar. De ser o que realmente era.
     Quando escutou o apito da geladeira percebeu que a forca tinha voltado. Foi como sair de um transe, um episódio que dificilmente esqueceria... Se levantou e ligou a televisao, ligou o computador e a música do rádio tornou a tomar conta do apartamento...