domingo, 16 de fevereiro de 2014

"A outra"

    Bom, como já disse, esta é a última história enviada pelos meus alunos que posto. À partir da próxima vez, os contos serao da minha autoria, pois ao que parece "desencantei" e estou cheia de ideias para desenvolver. Acho que estar finalmente num lugar próprio, com um computador só meu e todo o tempo do mundo -entre uma tarefa doméstica e outra, é claro- destravou as minhas musas e elas estao à toda!... Espero que curtam este último conto e que desfrutem ainda mais os meus!...


    Renato conheceu Tatiane numa sexta-feira no fim da tarde, quando entrou num barzinho do centro após terminar a su palestra no salao de conferências do hotel onde estava hospedado. Os amigos o convidaram a tomar um drinque no bar, mas ele preferiu sair a caminhar um pouco, se afastar do turbilhao de executivos, estagiários, simpatizantes, fazenderos e pecuaristas e desfrutar do que esta nova cidade tinha a oferecer. Sempre que viajava e chegava num lugar que nao conhecia, cumpria primeiro com as suas obrigacoes profissionais e depois se permitia um relaxante passeio pelas ruas do centro para conhecer o comércio, os restaurantes, as lojas e barzinhos, onde geralmente entabulava alguma conversa interessante com algum morador local. Gostava de conhecer as histórias, os personagens e a idiossincrasia de cada lugar que visitava, pois se sentia fascinado pela diversidade de cada um deles.
    -Este país é a coisa mais interessante que existe!- costumava comentar com seus colegas -A gente nunca sabe o que vai encontrar na próxima cidade que visitar.
    Naquela sexta-feira se sentiu mais cansado que de costume, pois a palestra fora cheia de perguntas e interrupcoes e pairava no ar uma inquietacao que acabou por contagiá-lo, fazendo-o perder sua habitual serenidade. O público, formado por fazendeiros e empresários ansiosos e com muitas dúvidas, queria que ele fosse até as propriedades para ver de perto a situacao, como se isto fosse ajudar a encontrar solucones mais rápidas e efetivas para seus problemas. Recebeu inúmeras propostas, mas recusou todas, pois seu trabalho nao era esse e, além do mais, tinha que cumprir uma agenda pré-estabelecida pela sua empresa, portando nao podia demorar-se mais do que o previsto em cada cidade. Por isso, escolheu aquele barzinho perto do hotel, pois lhe pareceu tranquilo e discreto. Realmente, nao estava a fim de bagunca.
    Entrou com passos lentos e foi até o balcao, onde um homem magro e alto limpava alguns copos com um pano úmido. Parou diante dele e sentou num dos bancos de couro vermelho.
    -Por favor, me veja um uísque com gelo.- pediu com um sorriso cansado.
    -É para já.- disse o barman, sorrindo gentilmente, e foi até a prateleira pegar a garrafa.
    Enqanto isso, Renato deu uma olhada no local, que ainda estava meio vazío: parede vermelho escuro, mesas e bancos de madeira clara com toalhas xadrez, pequenos lustres espalhados em cima das mesas, alguns quadros mostrando os tipos de bebidas e porcoes servidos no estabelecimento, um arranjo de velas e flores numa garrafa em cima de cada mesa, piso de madeira brilhante. Uma suave música no ar, uma agradável penumbra que convidava à conversa e à descontracao... Renato gostou. Deu mais uma olhada pelo lugar e foi entao que viu Tatiane, sentada sozinha numa das mesas do fundo, com um copo de suco na mao e um livro aberto em cima da mesa. Imediatamente seus olhos pararam nela: tinha cabelos escuros e compridos, feicoes delicadas e uma boca pequena e sensual levemente colorida de vermelho. Brincos discretos, pulseira prateada, terninho preto e blusa cor-de-rosa combinando com seus sapatos. Renato ficou encantado por aquela figura solitária no canto do bar e quando o barman colocou seu drinque no balcao, ele se virou e perguntou, sentindo com surpresa seu coracao bater forte:
    -Desculpe, mas o senhor conhece aquela moca sentada lá no fundo?
    O homem olhou na direcao que ele indicava, franziu a testa, pensou um pouco e finalmene respondeu, estralando a língua:
    -Nao, moco, conheco nao.- e acrescentou, iniciando um sorriso de cumplicidade -Mas ela vem todo dia a esta hora. Eu acho que estuda na facultade que fica aqui perto.
    -É mesmo?...- replicou Renato, sem tirar os olhos da moca, bebendo seu uísque com ar distraído -Será que...?
    -Nunca a vi acompanhada- disse o barman, com ar conspiratório, como se tivesse lido seus pensamentos.
    -É mesmo?.- repetiu Renato, olhando para ele com interesse -O senhor sabe mais alguma coisa sobre ela?
    Sentindo-se importante, o homem se inclinou para Renato, apoiando-se no balcao, e segredou em seu ouvido:
    -Eu acho que ela estuda para ser professora. Está sempre carregando uns livros enormes sobre pedagogia e essas coisas. Às vezes aparecem alguns colegas dela e ficam na mesa conversando de provas e estágios.
    -Entao deve estar no último ano- concluiu Renato, bebendo mais um gole e olhando disfarcadamente para a moca, que parecia totalmente abstraída em sua leitura. Em seguida, voltou-se para o barman e perguntou -O senhor acha que tenho alguma chance?...
    Este sorriu com malícia e deu uns tapinhas no ombro de Renato.
    -Arrisque, meu rapaz. A moca vale a pena. E depois, o pior que pode acontecer é ela lhe dar um tremendo fora e você ter que ficar aqui bebendo sozinho.
    Renato sorriu, conquistado pela simpatia do homem e, tomando fôlego, piscou um olho para ele e se dirigiu para a mesa onde Tatiane estava sentada. O homem fez um sinal de positivo com a mao e voltou a limpar copos, mas sem tirar os olhos do casal. Estava curioso por saber em que daria aquele encontro.
    Renato chegou à mesa e parou, esperando que a moca o notasse, mas ela estava tan compenetrada em sua leitura que nem o percebeu. Levou o copo aos lábios e sorveu lentamente seu suco, arrumou uma mecha de cabelo que tinha caído sobre a testa e suspirou. Renato contemplava cada pequeno gesto seu em fascinado silêncio, e as coisas teriam continuado assim nao fosse um estrondo a sacudir o local. Ambos deram um pulo e olharam para o bar, onde o balconista acabara de derrubar uma pilha de latas de cerveja.
    -Desculpem!...- exclamou, todo atrapalhado -Escorregou!..- e riu, mostrando as maos, mas Renato pôde perceber o rápido olhar de cumplicidade que lhe dirigiu.
     Tatiane entao pecebeu que Renato estava ao seu lado e, um pouco surpresa, o cumprimentou com um sorriso e um breve "Olá".
    -Será que posso me sentar um instante?- perguntou ele, tentando nao parecer abusado. Interiormente rezava para que ela nao pensasse que se tratava de uma cantada barata.
    Ela o fitou por alguns segundos, como que avaliando-o, e pareceu esbocar uma negativa, mas reconsiderou e, fechando seu livro, assentiu com a cabeca. Renato suspirou aliviado, depositou seu copo na mesa e afastou o banquinho.
    -Com licenca.- disse, polidamente, ao que ela respondeu com uma suave risada que o deixou ainda mais encantado -Qual é seu nome?
    -Tatiane, e o seu?- respondeu ela, com uma voz melodiosa.
   -Renato.
    De repente, ele teve medo de nao ter nada para conversar com ela e a coisa acabar ali mesmo. Sentiu-se inseguro e nervoso como nunca antes e se remexeu no banquinho, procurando alguma coisa inteligente para engatar a conversa. O silêncio tornava-se a cada momento mais constrangedor. Renato comecou a suar.
    -Você é daqui?- perguntou entao Tatiane, sorrindo. Ela transmitia uma serenidade contagiante.
    -Nao, estou só a negócios- respondeu ele, comecando a relaxar -Vim dar uma palestra no Hotel Luxor.
     -Palestra sobre o quê?- ela parecia estar genuinamente interessada, o que animou Renato.
    -Sobre agronomia.
    -Você é agrônomo? Que interessante, e qual a sua área?
   -Desenvolvimento de sementes. Como reproduzir, como melhorar, plantar e comercializar- explicou ele, confiante, refletindo-se nos olhos escuros de Tatiane.
    -E você viaja muito?
    -Constantemente. Eu moro em Curitiba, mas trabalho para uma multinacional, entao estao sempre me mandando para outras cidades divulgar os produtos e a tecnología.
    Ela riu, recostando-se na parede.
    -Nossa, entao você deve sofrer à beca quando vem nestas cidadezinhas do interior!
    Ele se empertigou no banquinho, receando tê-la ofendido, e adquiriu um ar de desculpa ao responder.
    -Nao, imagine! Eu adoro cidade pequena! Elas têm um algo todo especial...
    -É, sei...- o interrompeu ela, irônica -Poeira, lojas cafonas, cavalos na rua, uma única locadora com filmes velhos, paralelepípedos, uma turma de velhotes conversando e jogando truco e um monte de cachorros se cocando ao sol- e tornou a rir, divertida com a expressao aflita de Renato.
    -Nao, acredite, nao é nada disso. Eu gosto mesmo de conversar com as pessoas e conhecer a história do lugar, percorrer as ruas, visitar as igrejas e os cemitérios...
    -Cemitérios?- o interrompeu ela, espantada -O que você encontra de interessante em visitar um cemitério?
    Ele a fitou um momento antes de responder. De perto era ainda mais bonita.
   -Tem muitas histórias lá dentro. Você pode deduzir ou imaginar muita coisa estudando túmulos, sabía?
    Ela ficou séria de novo e apoiou os cotovelos na mesa. Aquele rapaz era mesmo diferente, ou entao o mais engenhoso conquistador barato que já conhecera.
    -Pelo que vejo, você gosta de histórias.- disse, olhando para ele com um novo interesse.
    -Adoro. E você?
    -Gosto, mas prefiro as que têm números.
    -Como assim, números?
    Entao, ela pegou o livro que estava lendo e o abriu.
    -Matemática- explicou, virando algumas páginas cheias de números e cálculos para ele -Eu adoro matemática. Estou no último ano de faculdade.
    -Vai ser professora?
    Ela negou com a cabeca.
    -Pretendo fazer doutorado e trabalhar em pesquisas espaciais- respondeu com firmeza, como se receasse que ele nao aprovasse.
    -Nossa, entao você é barra pesada mesmo!- exclamou ele, admirado.
    Ela sorriu, lisonjeada, e bebeu um gole de seu suco.
    -Pois é...- expressou, olhando para ele com um ar desafiador -Agora está arrependido de ter vindo falar comigo?
    -Por que você diz isso?...
    Ela pareceu um pouco aborrecida e suspirou.
    -Porque ninguém gosta de mulher barra pesada, inteligente demais.
    Agora foi a vez dele rir.
    -Por que eu iria querer conquistar uma descerebrada?- exclamou, mas se calou em seguida, percebendo a sua gafe.
    Ela ficou olhando para ele em silêncio, pois também tinha percebido o deslize, e já estava comecando a pegar as suas coisas para ir embora, quando ele a deteve.
    -Porfavor, nao vá.- disse, segurando-a pelo braco. -Nao sou o que você está pensando. Me desculpe...
    -Você mesmo acabou de confessar- lhe cortou ela, com frieza -Deve arrematar uma conquista em cada cidade que visita, nao é mesmo?
    -Na, isso nao é verdade!... Eu gostei de você desde o primeiro momento em que a vi sentada aqui. Eu juro! Na estou tentando nada desonesto!... Por favor, acredite em mim.- suplicou ele, genuinamente aflito -A última coisa que queria era magoá-la...
    Ela hesitou mais alguns momentos, mas alguma coisa no tom de Renato, em seu olhar, no seu toque, acabou por convencê-la a ficar. Tornou a sentar, deixou a bolsa e o livro na mesa e ficou olhando para ele em silêncio, como estudando-o.
    -Obrigado- expressou ele, sorrindo aliviado.
    -Só espero nao me arrepender mais tarde- disse Tatiane, ainda séria. Mas em seguida abriu um sorriso que espantou aquele clima tenso como um vento varre as nuvens para que o sol brilhe novamente.
   Entao, uma vez vencidas as desconfiancas, passaram o resto da velada conversando animadamente, rindo, trocando histórias e experiências, contando seus planos e alguns segredos. O homem do balcao, muito feliz, serviu-lhes mais suco e as porcoes que eram a especialidade da casa, mas eles estavam tan envolvidos na conversa, permeada de olhares e toques cheios de emocao, que mal provaram a comida.
    Perto das dez da noite, Tatiane lembrou de repente que tinha ficado de encontrar seu pai no terminal às dez e quinze e que quase nao teria tempo de chegar. Levantou-se apressadamente, pegou as suas coisas e comecou a se despedir.
    -Infelizmente vou ter de ir. Meu pai já deve estar no terminal me esperando- disse, um pouco triste, com aquele pressentimento de que tudo terminava ali tomando conta de seu coracao -É uma pena, mas... Acho que a gente nao vai se ver de novo- concluiu, estendendo a mao para ele num gesto estranhamente formal.
    Renato se levantou também, sentindo que a situacao escapava ao seu controle e que estava prestes a perder Tatiane. Seu coracao batia, desbocado, negando-se a aceitar o fato. Entao decidiu arriscar.
    -Podemos nos encontrar amanha à noite, aqui mesmo?...- perguntou de supetao, segurando a mao de Tatiane com inesperada forca. E como ela demonstrara hesitacao, el insistiu, com mais intensidade -Por favor!
    Ela ainda duvidou, mas acabou concordando. Seu coraco talvez nao estivesse enganado e Renato era mesmo diferente. Quicá valesse a pena confiar nele e arriscar.
    -A que horas amanha?- perguntou entao, comecando a se afastar em direcao à saída.
    -Oito e meia está bem para você?
    -Ótimo... Nos vemos amanha entao.- disse ela, abrindo a porta e saindo.
    Renato teve vontade de segui-la, ou de ir até a rua e ficar observando-a até ela desaparecer, mas se conteve e voltou ao balcao para pedir outro drinque.
    -Deu tudo certo, hein?- comentou o barman, esbocando um sorriso maroto -Essa aí você nao perde!- exclamou, enchendo seu copo.
    -Espero que nao- disse Renato em voz baixa, sem levar em conta o duplo sentido das palavras do homem, que já devia ter presenciado centenas de encontros parecidos. Mas neste caso, nao se tratava de algo passageiro e vulgar. Renato tinha a clara sensacao de que havia sido fisgado e de que nao adiantava lutar contra esse sentimento.
    -É amor?...- murmurou, enquanto bebia o último gole. Nao tinha certeza, mas sabia que era algo diferente de tudo que já sentira até entao. E também sentia que valia a pena investir nesta relacao.
    Mal conseguiu dormir e levantou cedo, desceu para tomar café e saiu para dar uma volta. Sua palestra comecava às três da tarde, entao tinha tempo de sobra para se preparar. Foi na igreja, foi no pequeno shopping de lojas em sua maioria cafonas e ultrapassadas, numa locadora que só tinha filme velhos, e numa banca de jornal. Sentou na praca para ler, mas ao invés disso, ficou observando os cachorros deitados se cocando ao sol e os velhos conversando em volta de uma mesa de truco, os cavalos que passsavam pela rua levantando poeira e os paralelepípedos que enfeitavam a calcada da praca... Tudo lhe lembrava Tatiane, mal conseguia pensar em outra coisa. Só esperava que iso nao atrapalhasse a sua palestra.
    Mas, como sempre, seu profissionalismo venceu e nao teve nenhum tropeco durante a apresentacao, após a qual voltou para seu quarto e decidiu dar uma cochilada, pois queria estar bem disposto para seu encontro à noite. Também, desta maneira o tempo passaria mais rapidamente... Pediu para ser acordado às sete da noite. Daria tempo de tomar uma ducha e se trocar com calma, talvez até para ir na floricultura vizinha ao hotel e comprar um pequeno buquê para Tatiane. Com certeza, ela iria adorar... E assim com tudo planejado, deitou-se e dali a pouco dormia profundamente.
    Pontualmente às sete, o telefone tocou. Era o gerente para acordá-lo. Renato pulou da cama, foi para o chuveiro, onde demorou mais do que o habitual, se enxugou, fez a barba cuidadosamente, passou gel no cabelo, botou uma discreta locao pós-barba e voltou ao quarto para se vestir. Bom, nao tinha muita escolha, pois fora os dois ternos e o par de sapatos pretos que usava nas palestras, só tinha calcas jeans, camisetas e tênis. Mas preferiu ser formal e acabou botando um dos ternos, com gravata e tudo, e até um lenco no bolso da jaqueta. Assim trajado, se olhou no espelho e suspirou.
    -Nossa, até parece que vou pedir a moca em casamento!- disse, brincalhao.
    Sorrindo diante da sua própria ansiedade, enfiou a mao no bolso para conferir se a carteira estava ali e finalmente saiu e desceu até o saguao. Deu uma olhada no relógio e viu que ainda lhe restavam alguns minutos para ir na floricultura. Saiu rapidamente pela porta giratória e entrou na loja, que ficava ao lado do hotel. Sem duvidar escolheu um pequeno ramalhete de rosas de várias cores, embrulhadas em celofane, pagou e se dirigiu até o bar com passos decididos... Olhou novamente o relógio. Chegaria exatamente na hora marcada.
    Quando abriu a porta do bar, o homem do balcao parecia estar esperando por ele, pois de imediato brindou-lhe seu melhor sorriso e já foi preparar um drinque. Renato acenou para ele foi sentar na mesma mesa que ele e Tatiane ocuparam na noite anterior.
    Porém, ele bebeu o primeiro drinque, o segundo, e já se preparava para pedir o terceiro, e Tatiane ainda nao aparecia. Renato olhava incessantemente para seu relógio e uma enorme angústia tomava conta dele, pois o tempo transcorria, implacável, e a porta do bar no se abria para mostrar a figura que ele tanto ansiava ver. Entraram algumas pessoas: dois homens, uma turma de estudantes, uma mulher sozinha, um senhor de idade que sentou no balcao e ficou bebericando a sua cerveja e observando os fregueses como se estivesse fazendo uma avaliacao de cada um... Mas Tatiane nao apareceu. Após uma hora e meia de espera, Renato dirigiu um olhar de desespero e decepcao para o barman, e este lhe espondeu encolhendo os ombros. Tampouco sabia o que houvera.
    Mil perguntas e conjecturas passavam pela cabeca de Renato enquanto estava sentado no banco, rodeado pela aconchegante penumbra do local. Será que havia sido uma brincadeira dela? Ou será que quis simplesmente se vingar porque achou que ele só estava tentando se aproveitar dela? No fim teria sido tudo uma encenacao? Será que ela era tao certa quanto parecia ou era do tipo que costuma se engracar com o primeiro que aparece para depois dar-lhe o fora?... Talvez ela nao acreditasse de verdade em suas desculpas e tivesse decidido dar-lhe o troco deixando-o ali plantado a noite toda... Fazendo rodar nervosamente o copo na mesa, Renato se debatia entre mil teorias, tentando chegar a alguma conclusao que explicasse o comportamento de Tatiane, pois nao lhe parecia uma jovem leviana. Por fim, deu uma última olhada no relógio -já eram mais de duas horas de atraso!- bebeu o último gole e se levantou da mesa, disposto a ir embora e esquecer o desagradável incidente.
    -Sou um idiota mesmo- murmurou, procurando a sua carteira no bolso da jaqueta -O pessoal do interior é tao fútil e superficial quanto o da capital.
    Mas quando estava indo em direcao ao caixa para pagar a sua conta, a porta do bar se abriu e entrou Tatiane. Renato estacou no meio do recinto e ficou olhando para ela. Estava ainda mais bonita do que na noite anterior, mas parecia de alguma forma diferente, mais vivaz, falando em voz alta, com os cabelos presos num coque enfeitado com presilhas coloridas e uma maquiagem carregada, brincos compridos e uma calca jeans desfiada, camiseta com um desenho em lentejoulas, muitas pulseiras e anéis e uns tamancos com tiras de strass... Renato ficou paralisado, sem acreditar no que estava vendo. Como podia parecer tao diferente de ontem? Deu uma rápida olhada para o barman, mas ele parecia tao perplexo quanto ele... Logo atrás de Tatiane entrou um barulhento grupo de jovens, do qual ela fazia parte, e no fim, correndo e rindo, entrou um rapaz de cabelo comprido e jaqueta de couro, que foi até ela e a abracou.
    -Você estava fugindo de mim?- exclamou, beijando-a.
    Ela soltou uma gargalhada e o empurrou, mimosa.
    -Eu? Imagina!... Nem que quisesse!- respondeu, pendurando-se do seu pescoco.
    Em seguida, o animado grupo se dirigiu até uma mesa e pediu a atencao do garcom com assobios, gritos e batidas na mesa.
    O que mais espantaba Renato era o fato de que ela nem sequer o procurou com os olhos quando entrou. Era como se ele nem estivesse ali! A indiferenca de Tatiane era realmente revoltante. Se queria humilhá-lo e fazê-lo pagar pela sua suposta ousadia de ontem, tinha encontrado a maneira certa. Renato tinha vontade de que a terra se abrisse naquele segundo e o tragasse até fundo do inferno, de onde nunca mais pretendia voltar. Mas, como pôde se enganar desse jeito com ela? Ela era ssim mesmo, essa moca desinibida e bagunceira, ou era aquela outra discreta e séria que queria fazer pesquisa espacial?... A cabeca de Renato estava dando um nó. O frio da decepcao gelou seu coracao, sentiu-se mais idiota ainda e decidiu sair logo dali, antes que ela inventasse de se aproximar para envergonhá-lo ainda mais. Deu uma última olhada para ela, que naquele momento se recostava no peito o rapaz de cabelo comprido, e se dirigiu até o caixa, segurando a sua raiva e seu despeito. Pagou sem dizer uma palavra, rumou em direcao à porta, a abriu com forca e fez mencao de sair, mas bateu de frente com uma outra pessoa que vinha entrando. Ele teve de se escorar no batente para nao cair, enquanto via uma pilha de livros se esparramar pelo chao, batendo em suas pernas e pes. A pessoa que tinha trombado com ele se abaixou rapidamente e comecou a pegar os livros. Renato olhou para ela e viu uma cascata de cabelos pretos e sedosos cobrindo os ombros e o rosto.
    -Ai, desculpe, moco..- disse a mulher em tom aflito -É que estou com muita pressa... Nem vi você saindo!...
    Renato piscou e se endireitou. Aquela voz... Ele conhecia aquela voz!... Imediatamente se virou para o interior e olhou para a mesa onde Tatiane e a sua turma continuavam zoando. Nisso, a moca acabou de apanhar seus livros e já estava de pé diante dele. Renato virou-se para ela e piscou novamente.
    -Você!...- gaguejou, tornando a olhar para a mesa. -Mas você...
    Era Tatiane.
    -Por favor, me desculpe!...- exclamou ela, ainda ofegante e agitada -Aconteceu um imprevisto e nao consegui chegar antes!... Por favor, me perdoe.
    Renato virou-se para ela e ficou a contemplá-la sem dizer nada. O barman abriu os bracos e fez um gesto de "nao estou entendendo nada!"
    Tatiane olhou para Renato, que a fitava com semblante sério e fechado e, pegando-o pelo braco, o levou de volta ao interior do bar.
    -Mas eu posso explicar, tenha paciência comigo... Eu nao contava com que...
    -Espera aí!.- a interrompeu Renato, parando bruscamente, e apontando para a mesa onde "a outra" Tatiane se encontrava, acescentou: -O que é aquilo?... Quem é ela? Você pode...?
    Tatiane se empinou para olhar por cima do seu ombro, e quando viu a cena que ele apontava, fez um gesto de surpresa e abriu a boca como para dizer algo, mas em seguida soltou uma risada e comecou a caminhar em direcao à mesa.
    -Ah, isso!- exclamou, pegando Renato pela mao e levando-o junto.
    -Mas, o que...?- protestou ele, arredio.
  Quando chegaram junto da mesa, Tatiane se inclinou e tocou o ombro da moca sentada no colo do rapaz de cabelo comprido e disse, sorrindo:
    -Olá, mana!... Tudo bem? Curtindo a happy hour?- em seguida se ergueu e, estendendo a mao para o Renato acrescentou, muito formal: -Renato, conheca a Lívia, minha irma gêmea.
    Esta soltou um grito de alegría e se jogou no pescoco de Tatiane, que a abracou com algo de reprovacao.
    -A sua irma gêmea?...- repetiu Renato, totalmente perdido -Mas você nao me disse... E por que você demorou tanto? Eu já estava pensando que ela... Que ela e ele...- se confundiu, apontando para o rapaz de cabelo comprido.
    -O Rodrigo é meu namorado.- explicou Lívia, voltando para os bracos do rapaz. E olhando maliciosamente para a irma ajuntou: -É teu namorado, maninha?
    Tatiane enrubesceu até a raiz dos cabelos e fez um gesto indefinido, mas nao respondeu. Renato a pegou pelo braco e se afastaram da mesa com um breve aceno de despedida.
    -Você pode me explicar o que houve aqui?... Nao estou entendendo nada!- lhe pediu, comecando a impacientar-se com tanta confusao.
    Entao, ela o levou até uma mesa, pediu um suco e um uísque para ele e acomodando seus livros com estudada lentidao, olhou para ele com gesto brincalhao e pegou em sua mao.
    -Nunca tire conclusoes apressadas.- comecou, e Renato soltou um suspiro, comecando a relaxar -Eu cheguei tarde assim porque tive que ir até a faculdade dar uma prova que estava devendo. A professora me ligou hoje de manha para avisar-me que disporia de um horário no fim da tarde para aplicar a prova. Era a minha única chance, caso contrário acabaria tendo problemas na matéria. E como ontem nos despedimos com algo de pressa por causa do meu encontro com meu pai, esqueci de pedir seu telefone, de maneira que nao tive como avisá-lo sobre meu atraso.- contou calmamente -Aquela é a minha irma gêmea que, como você viu, é totalmente diferente de mim. Mas nao se preocupe, muita gente já fez confusao conosco e às vezes tivemos uns tremendos desgostos por causa disso. Por sorte, sempre conseguimos esclarecer tudo.
    -Pôxa!..- disse renato, esbocando um sorriso meio envergonhado -Como fui estúpido ao supor que você...!
    Mas ela nao o deixou continuar e, inclinando-se, beijou-o suavemente na face.
    -Está melhor agora que sabe o que realmente aconteceu?- inquiriu, com uma pincelada de ironía  na voz.
    -Por um momento me perguntei se nao tinha perdido o juízo- comentou ele, sorrindo -Pensei que você estava gozando com a minha cara!... Mas nao podia ter me enganado tanto com respeito a você- murmurou, aproximando seu rosto ao dela -Você é exatamente como pensei.
    O barman jogou os cubos de gelo no copo e com um largo sorriso de satisfacao em seu rostro magro, cortou uma rodela de limao, botou uma cereja e em seguida despejou o licor transparente no copo. Mas desta vez nao entregou para ninguém. Erguendo o drinque no ar como se estivessse fazendo um brinde, virou-se na direcao
em que Renato e Tatiane trocavam segredos e afagos, e exclamou, para desconcerto de todos:
    -À verdade, pois ela sempre trunfa!- e bebeu o copo de uma vez.
    Desde a mesa, Renato virou-se e piscou um olho para ele, ergueu seu copo também e brindou à cumplicidade, à verdade e ao futuro que via abrir-se à sua frente, refletido nos olhos escuros e Tatiane.



  

domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Sete dias"

    Como prometi, aqui está o conto desta semana. Estou a todo vapor já trabalhando em outros -já que vocês nao me enviam nenhuma idéia para eu desenvolver- para mantê-los muito interessados. Pensei que iria ficar um tempo sem internet depois da mudanca ao novo apê, mas os caras foram suuuper legais e vieram no mesmo dia instalar a coisa toda, entao, o trabalho nao pára!... E aqui vai!
    Este, na verdade é um exercício que eu dava em minhas aulas, e que consistia em observar alguém durante uma semana e fazer uma espécie de relatório romanceado sobre suas atividades. Se possível, e quando nao se tratasse de alguém conhecido, o aluno devia fazer contato com a pessoa para assim ter mais informacao para seu relato. Era um teste para vencer a timidez para muitos alunos!... Mas, em geral, conseguiam fazer o pedido e dali saíram textos bem interesantes, que provavam o poder de observacao, empatia e criatividade do aluno. Sao histórias simples, porém importantes para quem as vive.


    Primeiro dia: Logo cedo, uma jovem mulher empurrando um carrinho de bebê passou apressadamente diante da minha casa. Eu estava saindo para trabalhar e quase trombei com ela, esbarrei no carrinho e a minha bolsa caiu no chao. Quando me abaixei para pegá-la, desculpando-me pela minha distracao, vi um bebê de uns cinco meses que, um pouco assustado, olhava fixo para mim com seus pequenos olhos azuis enquanto mastigava a sua chupeta. Fez uns barulhinhos engracados, como para me repreender pelo meu descuido, e se esticou todo, querendo sair do carrinho.
    -Me desculpe, é que estou meio atrasada para o trabalho e nem percebi que você estava vindo...- expressei, erguendo-me e sorrindo para ela, que apenas fez um gesto com a cabeca e se abaixou para acalmar o bebê.
    -Tudo bem, eu também estou com pressa. Tenho que deixar o Gabriel aqui com a minha mae para ir trabalhar..- me respondeu,séria.
    Em seguida se despediu com um breve aceno e continuou seu caminho. Enquanto me afastava, volvi a cabeca para ver onde ela parava e descobri que a sua mae era a dona Solange, uma vizinha que eu conheci havia dois anos num pono de ônibus à caminho do centro da cidade. Durante a longa espera acabamos entabulando uma agradável conversa e ela me contou seus planos de se mudar para a minha rua. Já estava de olho numa data perto da minha casa, onde poderia ter um quintal espacoso no fundo para poder cultivar a sua horta. Só faltava acertar o preco e logo comecaria a construir a sua casa.
    -Nada muito grande, é claro. Eu moro sozinha e nao preciso de tanto espaco.- me explicou, entusiasmada.
    Pouco tempo depois, ela conseguiu comprar a data e construiu a tao sonhada casinha, toda de material e pintada de branco e amarelo. Na frente fez um jardim e no fundo, como planejara, plantou a sua horta e alguns pés de jabuticaba, limao e laranja... Todo dia pode-se vê-la aguando as flores e cuidando da horta, botando seus canários embaixo das árvores e varrendo a calcada. É uma senhora muito ativa e alegre, que gosta de conversar e cumprimentar todos que passam, mesmo que nao os conheca.
    Agora, enquanto me afastava, pude vê-la saindo no portao para receber a filha e o neto, que logo pegou no colo e beijou ruidosamente. A filha lhe entregou uma sacola, provavelmente com as coisas do bebê, e se despediu rapidamente, afastando-se em direcao oposta à minha. Dona Solange estava para entrar, carregando a sacola e o bebê, e empurrando o carrinho com a mao livre, quando me viu e fez sinal para que me aproximasse. Eu acenei de volta, dei uma olhada em meu relógio e conclui que ainda dispunha de alguns minutos para conversar com ela. Me aproximei entao, sorrindo, e a cumprimentei.
     -Nossa, como você está sumida!- exclamou ela, colocando a crianca de volta no carrinho.
   -É que a minha vida anda meio corrida ultimamente.- respondi, ajudando-a com a sacola, que comecava a escorregar do seu ombro - Acho que até eu mesma ando me vendo pouco!-  brinquei.
    Ela lancou o olhar pela rua abaixo, na direcao em que a sua filha se fora, e fez um gesto de preocupacao, dizendo:
   -A minha filha, sabe?... Aquela moca que estava aqui, você viu?- eu assenti com a cabeca -Este é o Gabriel, o filhinho dela...- abaixou-se e fez um afago no menino, que já estava quase dormindo, bem agarradinho com seu rinoceronte de pelúcia -Coitada, comecou a trabalhar e todo dia tem que vir aqui deixar o bebê, porque nao tem quem cuide dele lá onde mora. Eu dou almoco, faco mamadeira, troco fralda, dou banho e janta e ela vem buscar à noite quando sai do trabalho... E é todo dia a mesma coisa.- disse, com voz queixosa -Eu gosto de tomar conta do Gabriel, ele quase nao dá trabalho, coitadinho. É uma crianca tao boa!... Depois, alguém tem que ajudar a minha filha para que possa trabalhar, mas confesso que nao estou agüentando. Tenho muita dor nas costas e nas pernas, mas nao posso deixar a minha filha na mao, nao é verdade?... O marido dela inventou de comprar uma data num bairro afastado que nao tem nem asfalto nem esgoto ainda, e a iluminacao é péssima. Eu tentei convencê-lo a comprar em outo lugar que fosse mais perto, até cheguei a discutir com ele, mas como é teimoso, insistiu em ficar lá porque era mais barato e me assegurou que logo, logo a prefeitura ia asfaltar e colocar esgoto e que outras pessoas já estavam construindo por lá também, entao nao iriam estar tao isolados. Nao fiquei muito convencida, nao, mas o que posso fazer? O marido nao é meu. Nao sei como a minha filha se sujeitou a ir morar naquele descampado!.
    -Aí fica difícil, é verdade.- concordei eu.
    -Ainda por cima, o homem me inventa  agora e comecar a estudar à noite e a minha filha é obrigada a ficar sozinha naquele fim de mundo até ele voltar da escola, quase meia-noite. Se você soubesse o medo que a coitadinha passa!... Outro dia mesmo, ela estava lá, esperando por ele, sozinha com o bebê, quando de repente escutou uns barulhos no quintal. Disse que parecia alguém querendo pular a cerca -porque nem muro tem ainda!- A pobre teve que criar coragem e ir ver o que estava acontecendo. Quando abriu a porta viu dois vultos pulando para dentro do quintal!... Ainda bem que eles têm aqueles dois cachorros enormes, porque foi o que  salvou a minha filha de sabe-se Deus o quê!... Os dois animais comecaram a latir ao ver os intrusos, entao a minha filha foi até onde eles estavam amarrados e os soltou. Eles saíram em disparada atrás dos homens e os obrigaram a fugir. Mas imagine se eles tivessem tido armas! Atiram nos cachorros e depois vao atrás da minha filha!... Nem lhe conto como ela estava quando o marido chegou em casa. Me contou que aprontou o maior berreiro e ele quase teve que vir me buscar para que fosse acalmá-la. Mas mesmo assim, nem pensa em se mudar. Sinceramente, nao sei o que esse homem tem na cabeca.- resmungou dona Solange, séria -E olha que já falei para ele que no quarteirao aqui de cima estao vendendo uma data perfeita para eles!...
    Eu olhei meu relógio e me sobressaltei. O tempo tinha voado, precisava correr! Entao me despedi da minha amiga e me dirigi rapidamente até o ponto de ônibus, deixando-a na calcada com o carrinho e a sacola... Queria ter podido ficar para ajudá-la, mas tinha meus próprios compromissos a cumprir.

Segundo dia: Levantei um pouco mais tarde, pois era meu dia de folga. Tomei sossegadamente meu café, me troquei e saí na varanda para respirar o ar fresco da manha. Ainda com o relato da dona Solange na memória, fui até o portao e dei uma olhada em direcao da sua casa na esperanca de vê-la varrendo a calcada como todo dia, ou talvez brincando com Gabriel, mas tudo estava fechado e silencioso. De imediato me perguntei se ela nao teria ido passar a noite na casa da filha por causa do episódio dos dois sujeitos que invadiram o quintal. A coitada devia ter ficado tremendamente assustada e como o marido nao estava disposto a mudar de idéia sobre ir morar num bairro mais perto e com uma estrutura melhor, a dona Solange se propôs a ficar com ela até ele voltar das aulas ou, quem sabe, até dormir por lá, regressando de manha com o pequeno Gabriel. Pensei que seria uma boa saída para o problema, mas também imaginei o quao difícil seria para dona Solange ter de se deslocar todo fim de tarde até a casa da filha e deixar a sua própria abandonada. Supus que sentiria falta do conforto da sua cama, do seu sofá, da sua varanda, estranharia as panelas, os pratos e os móveis, o silêncio -já que a nossa rua é bastante barulhenta- mas acima de tudo, tive certeza de que o pior seria a falta de privacidade. Dona Solange morava sozinha há anos e se acostumara a ser independente, mas como ela mesma me dissera havia algum tempo: "Mae é mae para a vida toda e os filhos estao sempre acima de tudo, nao importa o sacrifício que isso nos custe". Entao, pensei que se, efetivamente era isso o que tinha acontecido, nao devia estar arrependida.
    Fiquei mais um pouco no portao espiando a casa e pensando em ir até lá dar uma aguada nas plantas da varanda e no jardim, que eram o xodó da dona Solange, mas suspus que ela as teria regado antes de sair. Sorrindo al imaginar a mulher vivaz, organizada e abnegda que tinha como vizinha, voltei para dentro, perguntando-me se eu seria capaz de agir assim quando tivesse meus próprios filhos.

Terceiro dia: Quando saí na rua de manha cedo para buscar o pao e o leite, vi vários carros estacionados diante da casa da dona Solange e um entra e sai de gente com tigelas, garrafas de refrigerante, sacolas com verdura e fruta, pacotes de carne e formas de lasanha. A música já tocava alto nas caixas de um dos carros e pairava no ar o característico cheiro do carvao esquentando para o churrasco. A dona Solange nao se divisava por ali; com certeza já estava na cozinha preparando seu famoso frango com polenta e organizando as tarefas para as criancas terem o que fazer e nao ficarem por aí aprontando: arrumar mesas e cadeiras, botar as toalhas, dispor pratos, guardanapos, copos e talheres na área coberta. Uma rede de coloridas franjas tinha sido pendurada na varanda e os pequenos a disputavam entre gritos e empurroes. Alguns rapazes jogavam uma pelada no meio da rua e outros somente observavam, com uma lata de cerveja na mao e aquele ar de displicência característico da idade... Imaginei a felicidade da dona Solange com a casa cheia -aliás, foi uma surpresa ver que tinha tantos parentes!- pois é uma mulher hospitaleira e adora exibir seus dotes culinários e receber visitas para convesar e trocar receitas. Ela até já confidenciou os ingredientes do seu delicioso pavê de maracujá para a minha mae e todo último final de semana do mês nos deliciamos com ela na hora do almoco!.

Quarto dia: Hoje quando saí para o trabalho ainda tinha um par de carros estacionados na frente da casa da dona Solange, o que significava que alguém tinha ficado para pousar depois da reuniao. Tudo estava silencioso, mas dava para escutar o murmúrio da água caindo lá atrás. Dona Solange estava levantada e cumpria com seus sagrados deveres de cada manha. Dali a pouco apareceu na varanda com a vassoura e seu avental xadrez, deu uma enérgica varrida e afofou as almofadas das cadeiras, enrolou a rede, ajeitou as cadeiras em volta da mesa e finalmente desceu para o quintal. Ali recolheu a bagunca de latinhas, pratos e copos descartáveis, guardanapos e restos de comida com aquela expressao séria de quem reprova tanta desordem, e botou tudo num saco de lixo que tinha trazido. Em seguida, soltando um suspiro e erguendo-se, rspirou fundo o ar fresco da manha e sorriu, fechando os olhos. Deixou passar alguns segundos e logo foi até o portao, abriu e saiu à rua para comecar a varrer. Foi entao que me viu. Instantaneamente um brilhante sorriso distendeu a sua face enrugada.
    -Menina, você está aí!- exclamou, acenando para mim.
    -Bom dia, dona Solange- respondi, aproximando-me. Hoje nao estava atrasada.
    -Nossa, você viu ontem? Só faltava o papa cair aqui em casa!- disse, rindo -Todo mundo veio!...- apontou para a varanda, franzindo os lábios -Mas olha só a bagunca que fizeram!... Devia acordá-los e fazê-los arrumar, você nao acha?.
    -Festa é assim mesmo- respondi, sorrindo -Daqui a pouco eles acordam e a senhora traz para cá para ajudá-la.
    Ela riu baixinho e fez uma careta.
    -Coitados, ficaram até tarde,  me da dó...- olhou para mim, meio envergonhada -Eu nao tenho jeito, nao é mesmo? A gente nao cansa de malcriar e depois reclama.- e riu de novo.
   -É que quando se trata da família a gente sempre amolece. Eu também sou assim com meus irmaos.- disse eu, apoiando a mao em seu ombro delgado -E como vai o assunto da sua filha?
    Aí ela ficou séria. Se apoiou na vassoura e suspirou.
    -Esse cabeca dura do meu genro... Estou tentando trazê-lo para que dê uma olhada naquela data na rua de cima, lembra que lhe falei dela?
    -Lembro, e?
    -Nada, o teimoso nao quer nem saber. Que já comprou aquela outra, que daqui a pouco acostumam, que vai melhorar o policiamento, que vai construir um muro... Puras desculpas para nao ceder! Mas aonde já se viu, arriscar assim a seguranca da mulher e do filho?- exclamou, impaciente.
    -E a filha da senhora nao pode conversar com ele para tentar convencê-lo de, pelo menos, dar uma olhada na data?- sugeri, apenada pela situacao da minha amiga.
   -Eu falei com ela, mas nao sei, nao. O cara é muito turrao demais...- respondeu dona Solange, desanimada.
    Eu olhei meu relógio. Nao queria chegar atrasada de novo.
    -Bom, preciso ir andando, dona Solange... Pôxa, mas que pena que o genro da senhora seja tao difícil. Tinha que pensar no bem-estar da sua filha e seu neto, né?- disse sinceramente aflita.
    -Isso lhe digo eu, mas ele...- e fez um gesto de displiscência, encolhendo os ombros.
    Comecei a me afastar.
    -Mas quem sabe ele nao recapacita e topa vir ver aquela data, se empolga e decide comprá-la.- expressei, sorrindo para dar-lhe ânimo.
    Ela fez cara de desalento.
    -Ele diz que nao tem mais dinheiro, mas eu já lhe expliquei que o dono da data está disposto a fazer algum tipo de troca... Mas aí ele alega que nao tem nada para trocar... E eu fico olhando para aquela data lazarenta onde está morando... Mas ele, nada.
    -Vamos torcer!- exclamei, e acenei para ela, que me respondeu meio sem vontade. 
    Quando subi no ônibus, ela estava varrendo enérgicamente a calcada, como querendo espantar seus desgostos.

Quinto dia: Hoje parece que a dona Solange foi de novo passar o dia na casa da filha, porque quando saí para a rua, a casa estava fechada  e silenciosa. No fim da tarde, quando regressava, as persianas já estavam abertas e os canários na varanda, mas nada de dona Solange. Usualmente, nessa hora ela sai para sentar um pouco em sua cadeira de balanco contemplar a paisagem e cumprimentar os vizinhos que voltam do trabalho, mas hoje a cadeira estava vazia... Fiquei realmente preocupada, mas achei melhor nao ir perturbar. Também decidi nao perguntar nada caso nos encontrássemos na manha seguinte. Com certeza, se ela nao estava ali fora era porque precisava ficar sozinha para resover seus assuntos e eu nao ía interrompê-la nem tampouco ficaria fazendo perguntas que quica ela nao estivesse a fim de responder. Queria muito poder ajudá-la, mas nao podia ser enxerida... Fui jantar e assistir novela, tentando nao pensar nisso, mas mesmo assim, naquela noite demorei para dormir.

Sexto dia: Hoje a dona Solange reapareceu, mas só consegui avistá-la de longe, no ponto da esquina, quando pegava o ônibus antes do meu, muito bem arrumada -inclusive de salto alto- e apressada. Tentei alcancá-la, mas o ônibus já comecara a andar, entao fiquei ali, olhando para ela através do vidro sujo do veículo, enquanto se deslocava agilmente pelo corredor e sentava do outro lado. Nao consegui distinguir a expressao do seu rosto, entao todas as minhas perguntas ficaram sem resposta... Ela estava indo para o centro, com certeza, coisa que raramente fazia, só e ocasioes muito específicas. Entao, me perguntei, preocupada: que ocasiao seria aquela?... Mas nao tive resposta e quando cheguei à noite em casa, a dela continuava fechada e silenciosa, o que significava que nao tinha voltado ainda. Nossa, mas que diligência tao demorada era aquela?...

Sétimo dia: Hoje quando saí para o trabalho me surpreendi ao encontrar aquele bolo de gente no jardim da frente da dona Solange, todos vestidos com shorts e regatas, calcas de moletom e tênis. Um  grande caminhao de cacamba branca estava estacionado na calcada e reinava muita confusao, mas do tipo positivo. Todos riam e falavam em voz alta, iam daqui para lá dando ordens e carregando caixas de papelao vazias até o caminhao. Nao entendia o que estava acontecendo, mas definitivamente nao era uma das reunioes que dona Solange costumava organizar. De longe a vi, também de camiseta, calca e tênis, empurrando o carrinho do Gabriel, que mexia bracos e pernas e sorria para todos, encantado com a agitacao à sua volta. Ela me pareceu muito feliz. Nao pude me segurar e fui até ela. Afinal, o suspense estava me matando!
   -Bom dia, dona Solange!
 -Bom dia, minha filha!- respondeu ela, abrindo os bracos. Parecia realmente esfuziante.
   -Nossa, mas que bom ver a senhora assim tao animada! -disse eu, cumprimentando-a com um beijo -Mas e o que é tudo isto? Está organizando outra reuniao?
   -Nada disso, minha filha!... Estou organizando é uma mudanca!- exclamou.
   -Como assim, dona Solange? A senhora vai se mudar daqui?- perguntei, surpresa.
  -Nao, eu nao!...- apontou para o carrinho -Mas a minha filha vai!- e soltou uma gargalhada gostosa, abaixando-se para estampar um sonoro beijo na bochecha gorducha do neto -Hoje vai ser um dia e tanto!... Entao, se me desculpa, com licenca, minha filha.- concluiu, sem deixar de sorrir. Em seguida se virou para o pessoal e comecou a dar ordens e distribuir tarefas feito um mariscal de campo.
    Eu me despedi, sorrindo também. É claro que a dona Solange nao podia estar assim de contente porque estava organizando outro almoco, mas por algum fato muito mais relevante. Como o de ter convencido o genro a se mudar daquele fim de mundo para a rua de cima. Com certeza foi ela quem intermediou a negociacao com o dono do terreno que, por algum misterioso motivo, acedeu trocar o daqui por aquele outro. Mas isso nao interessava agora. O importante era que a sua filha e seu neto estariam pertinho e poderia desfrutar da sua companhia quando quisesse, sem ter de largar a sua casa e suas rotinas para ir se enfiar naquelas quebradas perigosas ajudar a sua filha cuidar do Gabriel. Tanto tinha insistido que conseguira.
    Virei a esquina em direcao ao ponto de ônibus ainda com a imagem daquele grupo animado e barulhento tomando conta da rua para auxiliar na mudanca e instintivamente me perguntei se algum dia eu teria uma família igual. A dona Solange afirma que só por isso já vale a pena viver.