Aproveitando que hoje só irei trabalhar no fim da tarde e que a empregada veio para repor o dia que estava me devendo, vou postear mais uma parte desta história. Quem sabe até consiga chegar até o final!... Hoje os funcionários da fundação terão seu dia de confraternização numa chácara perto da cidade, mas não sei se vão mesmo aproveitá-lo porque a metereologia anunciou um dia frio e chuvoso, então acho que vão ficar só olhando para a piscina e devorando a carne do churrasco embaixo da cobertura do quintal. Bom, eu não sou muito -nada, para falar a verdade- de comemorações com colegas de trabalho. A gente se dá super bem, mas não sei se eu agüentaria ficar um dia inteiro com eles na onda divertimento. Eu sou meio parada, contemplativa, e detesto brincadeiras de mal gosto -que costumam acontecer neste tipo de festa- e eles estão a fim de se esbaldar e botar pra fora tudo que seguraram ao longo do ano, inclusive algumas verdades - ditas em tom de chacota, é claro- com respeito aos nossos chefes... Mas acho que pode ser inofensivo, porque vão ter bebido tanta cerveja e comido tanta carne que nem vão entender direito do que estão falando, então... Fora isso, mesmo com festa e tudo, eu vou ter de apresentar na praça hoje à noite, a não ser que chova. Ontem estava um frio inacreditável, nem parecia dezembro! Todo mundo veio de agasalho, cachecol e parca e eu quase congelei enquanto meus alunos apresentavam. Ainda bem que acabou valendo a pena, porque pegamos as pessoas saindo da missa, então tivemos um público razoável e as crianças continúam encantadas com os personagens... Bom, pelo menos isso, porque hoje acordei totalmente quebrada por conta do frio! Então, estou sentada aqui com o aquecedor do lado, porque continua frio e nublado, ameaçando chover e com um ventinho para lá de gelado. Acho que hoje vou bem mais agasalhada para a praça porque não pretendo acordar amanhã que nem hoje... Bom, pelo menos vou poder aproveitar a tarde toda para descansar ou escrever mais um pouco, então, mãos à obra!
"Laetentur caeli; et exulter terra
conmoveatur maré et plenitudo eius:
grandebunt campi, et omnia
quas in eis sunt..."
-Mas quanta soberba, infeliz!...- murmurou frei Silvestre com a voz sufocada, resistindo o turbilhão que queria engoli-lo.
-Me perdoa, padre... Me perdoa se te deixei zangado.- disse então o mendigo, rompendo de pronto o feitiço ao abaixar a cabeça com ar contrito, diminuindo, transformando-se agora só nisso: um esmoleiro -A minha soberba é grande, é verdade, padre... Me perdoa, sei que és um homem muito ocupado em teus deveres.- acrescentou tornando a olhar para ele, cheios de dourada claridade e compreensão seus olhos, caindo feito uma tocha acessa nas cinzas agonizantes de seu coração.
Frei Silvestre se empertigou, piscando.
-Como sabes tu...?- exclamou, recuando, e num alento de medo acrescentou -Por acaso te conheço?...
-O que sabem os homens das coisas de Deus?... Eu não sei nada, só que vim.- lhe respondeu o mendigo abatendo com súbito cansaço a cabeça castanha.
Frei Silvestre cerrou as mandíbulas. De repente, aquela poderia ser a resposta para as suas dúvidas, saída da boca ressequida e terrosa deste homem transparente.
-Vim caminhando sem parar desde Nocera, de pronto avistei vosso mosteiro e bati na porta. Abriu o bom irmão porteiro, teve compaixão de mim e me deixou entrar.... Por favor, não brigues com ele; só fez o que Deus ditou ao seu coração.
Frei Silvestre resfolegou, impaciente, e maldisse o irmão porteiro, que era o culpado de tudo isto, e que não passava de um velho bobo e sentimental a quem qualquer um podia enganar com umas poucas palavras bem recitadas e um olhar choroso. Mas o coitado não servia já para nenhum outro trabalho, pois estava velho demais e esquecia as coisas, ou então cansava-se facilmente e dormia; sofria de dores nos ossos e estava quase cego, por isso tinham lhe dado este serviço, no qual não havia muito para fazer, já que raramente recebiam visita, e assim o ancião frade podia sentar-se e cochilar no catre ou aquecer-se junto do forninho de barro. Além disso, aquilo o fazia sentir-se útil e importante ao invés de uma carga para a comunidade.
Porém, com certeza aconteceu que este sem-vergonha tinha percebido a fraqueza do velho e aproveitou a chance para enrolá-lo com seu palavreado esperto e assim enfiar-se no mosteiro para encher a pança e dormir ao sol até fartar-se... O peito de frei Silvestre se estufou, enfurecido... Mas a ele não podia enganar. Ele não era velho nem se comovia com facilidade. Conhecia muito bem os tipos da sua laia; tinha-os visto centenas de vezes nas praças e mercados, nas portas das igrejas e conventos, ao longo dos caminhos, nas pontes, nos saguães das casas dos ricos e dos palácios, sempre esfomeados e em farrapos, com a mão estendida feito uma garra para apanhar as moedas e os pedaços de pão, sujos e espertos, enganando as pessoas de boa fé para encher seus insaciáveis estômagos e bolsos, contando uma e outra vez suas velhas e tristes histórias com a voz lacrimosa e os olhos úmidos com seu fácil choro, correndo de um lugar pra outro feito a peste, mostrando a sua asquerosa miséria e rindo quando ninguém estava olhando. Eram todos uns preguiçosos astutos e pidões que se burlavam descaradamente do mundo e a sua caridade.
O monge abandonou suas desagradáveis relfexões e olhou de novo para este andrajoso e famélico mentiroso que tentava iludi-lo com seus contos e frases bonitas, se bem tinha que admitir que era meio diferente dos outros. Este falava de Deus e as suas palavras eram estranhas e chegavam fundo em sua alma, causando-lhe uma indefinível inquietude... Mas era um safado, um ator, um pidão, o que mais?... E de pronto lhe pareceu repulsivo, desprezível, grosseiro, indigno de qualquer misericórdia... O coração de frei SiIvestre transbordava de cólera e desdém quando se dirigiu a ele, e a sua voz soou áspera e rude ao arrastar-se fora da sua garganta.
-Onde já se viu descaramento como o teu...- cuspiu, fazendo um esgar para segurar a sua raiva -Como ousas me falar de Deus, tu a mim?... Afasta-te do meu caminho, sei muito bem quem és e o que procuras neste lugar.
O mendigo ergueu a cabeça ao escutar suas últimas palavras, sacudido seu corpo enxuto e pequeno por um repentino estremecimento, e olhou para ele intensamente, empalidecendo. Pareceu que algo terrível se abatera sobre ele, e tornou a tremer. Em sua face emaciada pintou-se uma súbita e mortal angústia e um doloroso cansaço, como se fosse desabar aos pés de frei Silvestre. Instintivamente, este recuou e se ergueu, desconcertado por aquela repentina mudança.
-Tu sabes?...- murmurou o mendigo, e levantou uma mão em sua direção -E não quererias, por caridade, dizer-me, padre?...- mas frei Silvestre não lhe respondeu e ele abaixou a cabeça; a sua voz tornou-se quase inaudível -Eu só sei que não desejo ser ninguém, nem ter nada.- tornou a olhar para ele e juntou as mãos no peito, crispadas e pálidas, meio trêmulas -Por acaso já não fiz o bastante para esquecer de mim mesmo? Ainda sou alguém?... Me diz, padre, o que preciso fazer? Onde devo me perder paa encontrar Deus? Tu deves saber, padre.- e aguardou, sem deixar de olhar para ele com aquela intensa e perturbadora claridade que o atravessava, que enxergava além, para algo que se refletia em suas pupilas como uma labareda que abrasava a pele áspera e ressecada de seu rosto ingrato.
Frei Silvestre virou as costas bruscamente, apertando os lábios, e sentiu que uma garra estrangulava seu coração. Pois, não era aquela a sua própria pergunta, dirigida noite e dia ao Criador, a pergunta sem resposta? Não era este homem o espelho da sua própria luta, do seu próprio caminho e da sua mesma esperança?... Mas este homem era algo mais. Era uma mistura de fracasso e triunfo, de procura e encontro, de ignorância e entendimento, de céu e terra. Era uma parte humana e mortal e, mesmo assim, podia ver em seus olhos outra parte, distante, luminosa, perfeita, inatingível, pura... Que tipo de homem era este? Por que tinha vindo?...
Frei Silvestre levou o punho ao peito e fechou os olhos com força. Franziu a testa e respirou fundo. Alguma coisa estava acontecendo ali, algo fora do seu controle, que bagunçava a sua existência dura e triste à procura da perfeição feito o vento bagunça e leva embora as folhas mortas. Parecia que seu corpo e a sua alma lutavam para separar-se e parti-lo ao meio. Algo lhe doía em algum profundo e distante lugar, algo clamava desde alí... Empertigou-se, tenso e dolorido, fazendo um imenso esforço, e despregou os lábios, tentando vencer a vertigem e a magia poderosa do homem.
-A fé minha, eu te conheço bem, desgraçado.- murmurou sufocadamente, escutando a sua própria respiração contida e as batidas surdas de seu coração desbocado.
"Afferte Domino, pratriae gentium,
afferte Domino, gloriam et honorem:
afferte Domino gloriam nomini eius..."
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Silvestre - parte VI
E aproveitando esta amanhã ainda fresca e o alívio que o relaxante muscular que tomei ontem à noite está me proporcionando até agora, aqui vai mais uma parte desta história. Queria poder postá-la até o final de uma vez, para acabar com o suspense, mas estava vendo que ainda falta bastante, então, vão ter de se resignar e aguardar mais um pouco pelo final. De repente neste fim de semana que -até agora- tenho livre graças à apresentação da escola de ballet, na qual os alunos que estão nesta pequena peça de natal que estamos apresentando na praça estão participando, consigo terminar de postar este "conto-sem-fim!"...
Então, e antes que algo inesperado me apareça, aqui vai a parte VI de "Silvestre". Já é uma dificuldade porque estou sendo obrigada a digitar mais devagar por causa da dor nos braços e nas mãos e por menos tempo do que desejaria, então, preciso aproveitar enquanto ela é suportável. E isso é agora!.
E esse algo penetrou pelas portas fechadas, transpassou os altos muros, surgiu da terra fresca e grávida, espalhou-se sobre o lugar todo feito um vento, envolvendo as coisas, detendo a sua marcha natural, separando-o do mundo conhecido para submergi-lo numa otra dimensão: a dimensão insondável de Deus. Algo como uma piedosa carícia aplacou os sons, as cores, os perfumes, as formas, feito uma silenciosa e invisível explosão, um olhar oniciente que assinalasse aquele lugar, aquele instante, àquele homem desapercebido que já nada esperava.
Frei Silvestre passou veloz junto ao poço. Uma macieira florida o cobriu com a sua sombra. Seu velho hábito ondulou, envolto um súbito redemoinho de vento, e o pó dançou aos seus pés, apagando suas pegadas da vereda. Um raio de sol pousou nele, surgindo deslumbrante por trás da grande cruz de ferro que coroava a torre maior. As pombas alçaram vôo quando ele passou e as árvores sussurraram por cima da sua cabeça, espalhando seu aroma.
E então, o viu.
Primeiro não prestou realmente atenção nele, mesmo se passou do seu lado, pois ele não lhe dirigiu palavra alguma nem o tocou. Não, estava simplesmente sentado ali, no último dos bancos que flanqueavam a vereda, aquele que se abrigava sob a oliveira prateada.
Porém, agora frei Silvestre se deteve. Mas não o fez abruptamente, como se tivesse visto o homem de repente, senão aos poucos, diminuindo o passo como se uma força misteriosa e irresistível o chamasse, sussurando em sua volta, como se algo tivesse sido tocado e despertado no profundo do seu secreto e adormecido interior. Uma estranha e poderosa vibração proveniente daquele banco roubou a sua atenção, seu impulso, seu pensamento... Até que, vencido por aquilo, acabou parando por completo e ficou parado ali, imóvel e desconcertado, como se tentasse resistir, a alguns metros da umbrosa porta da capela. As finas folhas do seu breviário aberto viraram desordenadamente, produzindo um leve crepitar.
"Notum fecit Dominus
salutare suum: in conspectu gentium
Revelavit iustitia suam
in ella mandavit Dominus
misericordiam suam:
et cante canticum eius..."
O homem estava ali, atrás dele, ele sabia, quieto e calado, quase como se formasse parte de tudo e, no entanto, separado e único, tão real e presente que todo o resto parecia tornar-se confuso e distante... Frei Silvestre teve a impressão de que aquela silhueta que sequer podia definir enfiava-se nele profunda e repentinamente, como se pretendesse soltar raizes e, sem saber por quê, um calafrio o percorreu. Aquela imagem tinha sido como uma flecha disparada certeiramente em seu coração por uma mão sábia e forte, e de alguma forma que não conseguia compreender, havia sido ferido por ela.
Finalmente, o monge empertigou-se devagar, erguendo a cabeça, retesando o corpo como se se preparasse para... Para quê?... Se virou, olhou para ele. Soube como era. Era um mendigo. Trajava farrapos, ia descalço e, com certeza, tinha fome... E também olhava para ele. Na face do monge pintou-se a incredulidade, uma faísca de receio, algo de decepção... Porém, no segundo seguinte sentiu-se devorado por aqueles olhos escuros que pareciam arder, acendendo toda a face e o ar em volta dela. Instintivamente recuou o corpo e seus dedos apertaram-se sobre a aveludadas páginas do seu breviário.
-O que fazes aqui?- lhe perguntou rudemente, sem aproximar-se. Sentia-se de alguma forma agredido, exposto diante daquele homem.
O mendigo não respondeu de imediato, nem fez movimento algum; não fez nada. Tão somente o contemplava com atenta placidez e confiança, como se soubesse desde sempre quem era ele, como se esperasse ser prontamente reconhecido, com uma pincelada de brilhante mansidão fulgurando em seu rostro magro e pálido, sulcado de pó e orvalho. As mãos, curiosamente delicadas, porém, sujas e cheias de machucados, descansavam no colo, uma sobre a outra, e em sua leveza, pareciam ser capazes de aliviar qualquer dor só fazendo um leve movimento, erguendo-se ou apontando. Seus pés, um junto fo outro sobre o musgo úmido das pedras, diziam ter percorrido todos os caminhos do mundo, do universo, do tempo e da dor, tão lastimosamente chagados apareciam, cobertos de terra, pateticamente frágeis, tão humildes e sofredores que inspiravam piedade e ternura. E seu rosto... Ah, esse rosto...
Haec dies fecit Dominus:
exultemus et laetemur in ea.
Benedictus qui venit in nomine Domini:
Deus Dominus, et illuxit nobis..."
Apesar da doçura e quietude que a imagem daquele homem exalava, da afabilidade e singeleza do seu porte, da sua cinzenta e esfarrapada insignificância, aquela sensação de inquietude, de subterráneo perigo, de alguma coisa desprendendo-se dele e aproximando-se, ocasionando-lhe aquele incômodo receio, agigantou-se de um sopro no peito de frei Silvestre. Parecia que seu pesadelo estava prestes a atacá-lo novamente... Fez um gesto indefinível e contido, pois não entendia o motivo de semelhante e tão absurda contradição entre o que seus olhos viam e o que seu coração sentia. Não era por acaso uma mesma pessoa? Então, como era que deste jeito se disociava?... Esquadrinhou com mais atenção o desconcertante homem diante dele, tentando penetrar em seus pensamentos, adivinhar suas intenções para assim desarmá-lo de uma vez. Olhou intensamente para ele, tomado pela raiva, pelo medo, arranhando, cavucando... Porém, aquilo foi como enfiar as mãos na água. Transpassou-o num instante, sem que ele opusesse resistência, e nada achou além. Tocou fundo sem precisar mergulhar, porque o homem se mostraba tal e como era. Não ocultava nada, não trazia nada, nada reclamava. Era simplesmente, quem se encontrava ali.
Então, o monge teve medo de que se tratasse de algum louco, um doido que não tinha compreendido as suas palavras, e já aborrecido por esta nova demora no cumprimento dos seus deveres e por aquela estúpida sensação de perigo que arranhava seu estômago, se dispunha a repeti-las, dando um profundo suspiro de paciência, quando o homem falou. E foi tanto o sobressalto do monge ao escutar a sua voz, que segurou o fôlego e quase deu um pulo.
-O irmão porteiro me deixou entrar- expressou o homem em voz baixa, e o ar da manhã pareceu vibrar junto à sua boca.
Por um momento, frei Silvestre ficou em estático silêncio, estupidamente supreso, acreditando reconhecer aquela voz -que talvez provinha de algum canto remoto e esquecido da sua memória. Seria alguém com quem cruzou em alguma das suas peregrinações pela cidade à procura de esmola?- e novamente o percorreu aquele inexplicável calafrio. Porém, em seguida se recompôs e disse a si mesmo que era impossível que alguma vez tivesse conhecido este homem, pois não passava de um mendigo, um esmoleiro, um qualquer ignorado pelo mundo.
-Pois não devia tê-lo feito.- lhe replicou então, com agrura, fechando de um golpe seu breviário, chateado pela sua própria insegurança diante deste desgraçado -Por acaso não sabes que é proibido entrar aqui? Este é um lugar de oração, não de esmolas.
Então, o mendigo se levantou, com um movimento que resultou imperceptível para os olhos do monge, e olhou para ele por um momento, envolvendo-o numa suave e cálida onda de luz, penetrando sem medo pelas suas pupilas para precipitar-se nas trevas de suas entranhas, diluindo-se no ar móvel e argentado.
- Mas esmola também é uma prece.- lhe respondeu, sem deixar de olhar para ele, porém como se olhasse também para algo além.
Frei Silvestre desviou os olhos, perturbado, sentindo que uma chicotada de gélido vento o açoitava, fazendo-o encolher. De repente quis ir embora, terminar a conversa, expulsá-lo do mosteiro, gritar com ele, empurrá-lo para afastá-lo do seu caminho, da sua vida, na qual parecia infiltrar-se e amarrar-se a cada segundo que passava de um jeito inflexível, definitivo, que ele não conseguia impedir. Desejou que este homem esquisito e perturbador sumisse das suas vistas, que ao estralar os dedos se esvanecesse na brisa e deixasse de amedrontá-lo desta maneira ridícula e humilhante. Sentia em sua presença algo ameaçador. Sentia que o espiava, que aguardava alguma coisa. Mas, que poderia esperar dele a não ser um pedaço de pão ou um copo d'água?...E, no entanto, ele aguardava, como aquele crucifixo em sua cela... E esse rosto, aquela face serena e segura que de algum jeito o machucava profundamente...
Então, e antes que algo inesperado me apareça, aqui vai a parte VI de "Silvestre". Já é uma dificuldade porque estou sendo obrigada a digitar mais devagar por causa da dor nos braços e nas mãos e por menos tempo do que desejaria, então, preciso aproveitar enquanto ela é suportável. E isso é agora!.
E esse algo penetrou pelas portas fechadas, transpassou os altos muros, surgiu da terra fresca e grávida, espalhou-se sobre o lugar todo feito um vento, envolvendo as coisas, detendo a sua marcha natural, separando-o do mundo conhecido para submergi-lo numa otra dimensão: a dimensão insondável de Deus. Algo como uma piedosa carícia aplacou os sons, as cores, os perfumes, as formas, feito uma silenciosa e invisível explosão, um olhar oniciente que assinalasse aquele lugar, aquele instante, àquele homem desapercebido que já nada esperava.
Frei Silvestre passou veloz junto ao poço. Uma macieira florida o cobriu com a sua sombra. Seu velho hábito ondulou, envolto um súbito redemoinho de vento, e o pó dançou aos seus pés, apagando suas pegadas da vereda. Um raio de sol pousou nele, surgindo deslumbrante por trás da grande cruz de ferro que coroava a torre maior. As pombas alçaram vôo quando ele passou e as árvores sussurraram por cima da sua cabeça, espalhando seu aroma.
E então, o viu.
Primeiro não prestou realmente atenção nele, mesmo se passou do seu lado, pois ele não lhe dirigiu palavra alguma nem o tocou. Não, estava simplesmente sentado ali, no último dos bancos que flanqueavam a vereda, aquele que se abrigava sob a oliveira prateada.
Porém, agora frei Silvestre se deteve. Mas não o fez abruptamente, como se tivesse visto o homem de repente, senão aos poucos, diminuindo o passo como se uma força misteriosa e irresistível o chamasse, sussurando em sua volta, como se algo tivesse sido tocado e despertado no profundo do seu secreto e adormecido interior. Uma estranha e poderosa vibração proveniente daquele banco roubou a sua atenção, seu impulso, seu pensamento... Até que, vencido por aquilo, acabou parando por completo e ficou parado ali, imóvel e desconcertado, como se tentasse resistir, a alguns metros da umbrosa porta da capela. As finas folhas do seu breviário aberto viraram desordenadamente, produzindo um leve crepitar.
"Notum fecit Dominus
salutare suum: in conspectu gentium
Revelavit iustitia suam
in ella mandavit Dominus
misericordiam suam:
et cante canticum eius..."
O homem estava ali, atrás dele, ele sabia, quieto e calado, quase como se formasse parte de tudo e, no entanto, separado e único, tão real e presente que todo o resto parecia tornar-se confuso e distante... Frei Silvestre teve a impressão de que aquela silhueta que sequer podia definir enfiava-se nele profunda e repentinamente, como se pretendesse soltar raizes e, sem saber por quê, um calafrio o percorreu. Aquela imagem tinha sido como uma flecha disparada certeiramente em seu coração por uma mão sábia e forte, e de alguma forma que não conseguia compreender, havia sido ferido por ela.
Finalmente, o monge empertigou-se devagar, erguendo a cabeça, retesando o corpo como se se preparasse para... Para quê?... Se virou, olhou para ele. Soube como era. Era um mendigo. Trajava farrapos, ia descalço e, com certeza, tinha fome... E também olhava para ele. Na face do monge pintou-se a incredulidade, uma faísca de receio, algo de decepção... Porém, no segundo seguinte sentiu-se devorado por aqueles olhos escuros que pareciam arder, acendendo toda a face e o ar em volta dela. Instintivamente recuou o corpo e seus dedos apertaram-se sobre a aveludadas páginas do seu breviário.
-O que fazes aqui?- lhe perguntou rudemente, sem aproximar-se. Sentia-se de alguma forma agredido, exposto diante daquele homem.
O mendigo não respondeu de imediato, nem fez movimento algum; não fez nada. Tão somente o contemplava com atenta placidez e confiança, como se soubesse desde sempre quem era ele, como se esperasse ser prontamente reconhecido, com uma pincelada de brilhante mansidão fulgurando em seu rostro magro e pálido, sulcado de pó e orvalho. As mãos, curiosamente delicadas, porém, sujas e cheias de machucados, descansavam no colo, uma sobre a outra, e em sua leveza, pareciam ser capazes de aliviar qualquer dor só fazendo um leve movimento, erguendo-se ou apontando. Seus pés, um junto fo outro sobre o musgo úmido das pedras, diziam ter percorrido todos os caminhos do mundo, do universo, do tempo e da dor, tão lastimosamente chagados apareciam, cobertos de terra, pateticamente frágeis, tão humildes e sofredores que inspiravam piedade e ternura. E seu rosto... Ah, esse rosto...
Haec dies fecit Dominus:
exultemus et laetemur in ea.
Benedictus qui venit in nomine Domini:
Deus Dominus, et illuxit nobis..."
Apesar da doçura e quietude que a imagem daquele homem exalava, da afabilidade e singeleza do seu porte, da sua cinzenta e esfarrapada insignificância, aquela sensação de inquietude, de subterráneo perigo, de alguma coisa desprendendo-se dele e aproximando-se, ocasionando-lhe aquele incômodo receio, agigantou-se de um sopro no peito de frei Silvestre. Parecia que seu pesadelo estava prestes a atacá-lo novamente... Fez um gesto indefinível e contido, pois não entendia o motivo de semelhante e tão absurda contradição entre o que seus olhos viam e o que seu coração sentia. Não era por acaso uma mesma pessoa? Então, como era que deste jeito se disociava?... Esquadrinhou com mais atenção o desconcertante homem diante dele, tentando penetrar em seus pensamentos, adivinhar suas intenções para assim desarmá-lo de uma vez. Olhou intensamente para ele, tomado pela raiva, pelo medo, arranhando, cavucando... Porém, aquilo foi como enfiar as mãos na água. Transpassou-o num instante, sem que ele opusesse resistência, e nada achou além. Tocou fundo sem precisar mergulhar, porque o homem se mostraba tal e como era. Não ocultava nada, não trazia nada, nada reclamava. Era simplesmente, quem se encontrava ali.
Então, o monge teve medo de que se tratasse de algum louco, um doido que não tinha compreendido as suas palavras, e já aborrecido por esta nova demora no cumprimento dos seus deveres e por aquela estúpida sensação de perigo que arranhava seu estômago, se dispunha a repeti-las, dando um profundo suspiro de paciência, quando o homem falou. E foi tanto o sobressalto do monge ao escutar a sua voz, que segurou o fôlego e quase deu um pulo.
-O irmão porteiro me deixou entrar- expressou o homem em voz baixa, e o ar da manhã pareceu vibrar junto à sua boca.
Por um momento, frei Silvestre ficou em estático silêncio, estupidamente supreso, acreditando reconhecer aquela voz -que talvez provinha de algum canto remoto e esquecido da sua memória. Seria alguém com quem cruzou em alguma das suas peregrinações pela cidade à procura de esmola?- e novamente o percorreu aquele inexplicável calafrio. Porém, em seguida se recompôs e disse a si mesmo que era impossível que alguma vez tivesse conhecido este homem, pois não passava de um mendigo, um esmoleiro, um qualquer ignorado pelo mundo.
-Pois não devia tê-lo feito.- lhe replicou então, com agrura, fechando de um golpe seu breviário, chateado pela sua própria insegurança diante deste desgraçado -Por acaso não sabes que é proibido entrar aqui? Este é um lugar de oração, não de esmolas.
Então, o mendigo se levantou, com um movimento que resultou imperceptível para os olhos do monge, e olhou para ele por um momento, envolvendo-o numa suave e cálida onda de luz, penetrando sem medo pelas suas pupilas para precipitar-se nas trevas de suas entranhas, diluindo-se no ar móvel e argentado.
- Mas esmola também é uma prece.- lhe respondeu, sem deixar de olhar para ele, porém como se olhasse também para algo além.
Frei Silvestre desviou os olhos, perturbado, sentindo que uma chicotada de gélido vento o açoitava, fazendo-o encolher. De repente quis ir embora, terminar a conversa, expulsá-lo do mosteiro, gritar com ele, empurrá-lo para afastá-lo do seu caminho, da sua vida, na qual parecia infiltrar-se e amarrar-se a cada segundo que passava de um jeito inflexível, definitivo, que ele não conseguia impedir. Desejou que este homem esquisito e perturbador sumisse das suas vistas, que ao estralar os dedos se esvanecesse na brisa e deixasse de amedrontá-lo desta maneira ridícula e humilhante. Sentia em sua presença algo ameaçador. Sentia que o espiava, que aguardava alguma coisa. Mas, que poderia esperar dele a não ser um pedaço de pão ou um copo d'água?...E, no entanto, ele aguardava, como aquele crucifixo em sua cela... E esse rosto, aquela face serena e segura que de algum jeito o machucava profundamente...
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