domingo, 11 de maio de 2014

"A chantagem"

    E como prometi, aqui está, finalmente, o conto. Demorou, porém, mas vale tarde do que nunca, nao é mesmo?. Espero que o desfrutem tanto quanto eu ao escrevê-lo. Já estava quase completo em minha cabeca, só faltava um empurraozinho de vontade e disciplina, entao sentei, decidida a pari-lo, e, numa hora e meia mais ou menos, estava pronto... Promessa cumprida!.



    Seu estômago estava roncando, tanto que nao o deixava cochilar. Sentado no banco do passeio sob aquele plácido sol de comeco de verao, Mário tentava se recompor da noite passada, na qual se reuniu com seus amigos e se foram de farra até de madrugada, bebendo tudo que puderam comprar com as esmolas do dia: vinho, cerveja, coca cola, rum, vodka... Comeram uns dois sacos de batatas fritas e alguns sanduíches de mortadela e queijo, mas fora isso, a coisa foi pura bebedeira, entao estava com o estômago nas costas, parecendo um saco vazio e enrugado. A sua enorme panca nao o delatava, mas na verdade estava morrendo de fome. Nao lembrava se tinha dormido no mesmo banco, enrolado em seu cobertor imundo e desfiado, ou se algum amigo o tinha invitado para o refúgio e depois ele tinha vindo até o passeio terminar de passar a bebedeira... A coisa era que já tinha fucado em todas suas sacolas e nas lixeiras próximas e nao tinha encontrado nada digno de um bom café da manha. Era cedo demais para as sobras dos funcionários dos prédios, os estudantes ou os médicos do centro de saúde. Tudo era do dia anterior, entao já estava revirado e meio podre. Logo os garis passariam e limpariam as lixeiras, aí sim poderia entao se esbaldar com os restos de café, tortas, mistos quentes, bolos e iogurtes dos transeuntes. Mas por enquanto, a coisa estava féia. Além da tremenda dor de cabeca pela mistura de bebidas, comecava a sentir-se fraco e tonto, com frio e uma tremedeira que já conhecia muito bem.... Aproximaram-se dele um par de cachorros, magricelas e pidoes, de pêlo áspero e despenteado, e ficaram olhando para ele mexendo o rabo, esperando alguma coisa, como sempre. As pombas também andavam rodeando por alí, arrulhando e enchendo o peito, acostumadas às suas migalhas. Porque isso tinha de bom o Mário: tudo que conseguia o compartia, já fosse com os animais ou com outros mendigos que perambulavam por ali e que às vezes estavam em pior situacao do que ele. Pelo menos ele tinha um par de sapatos -uns tênis que estavam pequenos e nao tinham cadarcos, mas que mantinham seus pes quentes na madrugada- uma parca, piolhenta e toda rasgada, mas com um bom recheio, que vira e mexe escapava pelos buracos. Tinha um gorro de la meio roído pelas tracas e um arremedo de luvas feito com um par de meias furadas... Sim, definitivamente, estava melhor do que muitos. Até tinha seu lugares fixos onde ir buscar comida, nos quais era prontamente atendido, entao era difícil que passasse fome ou sede. E sempre tinha as lixeiras, é claro, onde nunca faltava um meio copo de café ou chá, uns restos de fruta ou salada, pedacos de pizza ou sanduíches, de repente pastéis e uma vez até um bom pedaco de bolo com velinha e tudo. Aquela vez foi muito genial, porque imaginou que estava de aniversário e acendeu a vela e cantou "Parabens para você" e tudo, assoprou e pediu um desejo, mas depois nao lembrou qual era porque, como estava comemorando, aproveitou para beber todas e acordou na porta de uma igreja que nao conhecia...
   Seu estômago tornou a grunhir, revirando-se, irrequieto. Mário mudou de posicao e suspirou. Estava com fome, mas tinha preguica de levantar-se dali e ir atrás do seu café da manha. Estava gordo demais. Todo mundo falava isso para ele, mas ele nao dava ouvidos.
    -Nao me atrapalha em nada.- lhes respondia, com a sua voz surpreendentemente suave e culta.
    Talvez por isso as pessoas aproximavam-se dele para pedir-lhe informacao ou bater papo, a despeito do fedor insuportável que despedia. Porque aquela era a sua maior característica: seu mal cheiro. E nao era só que era desagradável, é que, simplemente, fedia. Todos sabiam que estava chegando ou que tinha estado em algum lugar pela caatinga que o antecedia ou que deixava para atrás. Era uma mistura insalubre de merda, suor, orina, comida rancosa, umidade e todo tipo de coisa, consequência de nao tomar um banho fazia anos. Uma crosta preta e áspera cobria boa parte de seu corpo, especialmente as expostas à intempérie, e seu cabelo e barba eram feito um gorro e um cachecol cinzentos e despenteados onde se perdiam os piolhos e os restos de comida.
    -E para que vou tomar banho?- discutia quando alguém tentava convencê-lo para que se asseasse um pouco, pelo seu próprio bem -A sujeira me mantém quentinho!
    E provávelmente era verdade, porque a crosta era tao grossa que o frío nao devia penetrar por ali.
    O curioso era que o Mário nao era um daqueles mendigos loucos e ignorantes que andavam por aí gritando e importunando às pessoas com a sua miséria. Nao, ele tinha uma espécie de digna independência. Nunca alguém o via estender a mao para pedir ou se atravessar diante de alguem para expôr seus dramas e provocar lástima. Nada disso, ele caminhava devagar, feito um rei pelos seus domínios, carregando aquele monte de sacolas, pacotes, jornais -porque adorava sentar-se ao sol para ler as notícias do dia- cobertores e às vezes uma bengala, e se virava sozinho. Suass malhores amigas eram as lixeiras do passeio, sempre cheias de surpresas para sua insaciável fome. Era incrível, as pessoas jogavam fora todo tipo de coisas, inclusive umas que ainda serviam. Era assim que tinha arrumado seus tênis, a parca e o cobertor. Uma vez até achou um travesseiro quase novo, com fronha e tudo, mas aí chegou um outro mendigo, um esfarrapado que andava mostrando a bunda porque nao tinha um cinto para amarrar as calcas que estavam grandes demais, e ficou olhando para ele enquanto ele conferia e afofava o travesseiro, sorrindo ao imaginar-se com a cabeca descansando nele. E o cara tinha uns olhos enormes de sofrimento e carência, umas maos magras e azuis de frío e uma boca que parecia mastigar o ar de tanta fome, que ficou com pena e acabou entregando-lhe seu tesouro com seu mais gentil sorriso. O homem o fitou por alguns instantes, estupefato, pois se se tratasse de um outro, nesse momento estariam aos murros para ver quem ficava com o travesseiro. Mas o Mário era um cavalheiro, todo mundo sabia disso. Entao, o outro mendigo pegou o travesseiro, tremendo, o apertou contra o peito e se afastou, balbucindo umas palavras de agradecimento, olhando por cima do ombro de vez em quando, com medo de que o Mario se arrependesse e viesse atrás dele para pegá-lo de volta. Mas o Mario jamais faria uma coisa dessas. Simplesmente nao estava em seu manual de boas maneiras.
    Em contrase, as pessoas nao tinham esse tipo de compaixao com ele, nao sabia se pelo seu porte orgulhoso e seu ar distante e autosuficiente. Ninguém lhe oferecia roupa, comida ou dinheiro. Lhe perguntavam coisas, cumprimentavam-no, podiam sorrir para ele, mas nao tinham pena dele . Será que parecia intimidador? Ou era muito gordo e descuidado? Tinha aspecto de doente e por isso as pessoas tinham receio de se aproximar demais? Ou era porque estava sempre sozinho?... Demorou para perceber, mas finalmente descobriu o que era que afastava as pessoas: seu fedor. Era incrível como a gente podia se melindrar com essas coisas. Mas para ele era algo natural, estava acostumado, o cheiro lhe dava aquela sensacao de lar, de seguranca, de identidade... O problema eram os outros. Nunca se desfaria desta característica que o fazia sentir único, porém, nao podia deixar de perceber que a mesma era um obstáculo quando se tratava de conseguir coisas, entabular conversas  com outros que nao fossem mendigos tan fedidos quanto ele mesmo. Todos cobriam o nariz, desviavam o rosto, faziam caretas e franziam a boca, inegávelmente desgostosos. E isto significava que nao teria outro meio de se alimentar a nao ser fucar nas lixeiras, o que nao lhe desagradava por completo, mas é que às vezes ficava com vontade de uma coisa diferente, mais fresca, inteira, sem estar misturada com outros restos, moída, mesclada e meio azeda... Como fazer, entao?...
    E uma vez fez o teste. Era tudo ou nada. Era uma manha em que estava muito frio e ele dava tudo por uma boa xícara de café com leite e um misto quente, mas onde consegui-los? Ele sabia onde tinha, mas com certeza nao iriam dar-lhe um desses assim nada mais, porque sim, pela sua linda cara... Mas mesmo assim, decidiu se arriscar e foi até a lanchonete da esquina. Talvez poderia ser um cachorro quente com tudo ou um pastel ao invés do misto quente, qualquer coisa, estava morrendo de fome e de frío... Empurrou a porta e entrou, devagarzinho, tímido, ensaiando um sorriso de desculpa. O local pareceu parar no segundo que ele cruzou o umbral. Todos fizeram uma cara esquisita e se viraram para ele, obviamente escandalizados e nauseados pelo fedor que invadia o salao. Alguns clientes, inclusive, se levantaram e foram embora, cobrindo os narizes.
    -O que o senhor vai querer?- perguntou um dos garcons, bem de longe, com uma vozezinha incêdula e ofendida.
    -Eu  queria...- comecou a dizer o Mário, encolhendo-se, humilde.
    E nesse momento surgiu da cozinha um cara que parecia ser o dono e, olhando para o Mário com desdém e impaciência, o interrompeu e ordenou para o garcom com voz áspera:
    -Dê-lhe o que quiser e que va embora logo.- e retornando para a cozinha exclamou, abanando-se com um pano de prato: -Pelo amor de Deus, está empesteando o lugar!...
    Entao, o garcom, sem aproximarse, lhe perguntou, com fingida amabilidade:
    -O que é que o cavalheiro vai querer?.- e automáticamente preparou a sua caderneta e a caneta.
    Mário ficou alguns instantes paralisado, incrêdulo, sem entender muito bem o que estava acontecendo. Porém, aos poucos, comecou a dar-se conta de que estava numa posicao de vantagem e que, por causa de seu mal cheiro, podia esbaldar-se e pedir o que bem quisesse. Incrível! Finalmente a carnica lhe servia para algo!.
    - Bom...- comecou, empertigando-se, solene, sério -Eu vou querer, se for possível, uma xícara grande de café com leite, três pastéis, um pedaco de bolo e um misto quente... por favor.- concluiu, muito memticuloso, e sorriu, secretamente satisfeito ao ver o garcom anotando dedicadamente seu pedido, qual se se tratasse de um cliente vip. Mas que sensacao boa!.
    O rapaz correu até a cozinha, cuja porta de vaivém se fechou atrás dele com um sussurro, e Mário escutou uma pequena e breve discussao lá dentro. Tornou a sorrir. Queria escolher uma mesa para se ajeitar e desfrutar da sua refeicao, mas quando deu o primeiro passo, ouviu-se uma voz estentórea lá do fundo:
    -E que va comer lá fora, pelo amor de Deus!... Eu já vou ter que dedetizar este local depois que for embora!.
    Um segundo depois reapareceu o rapaz com seu pedido, porém nao numa bandeja, mas em sacolas plásticas. Aproximou-se, mal disfarcando a sua repugnância, e lhe entregou as sacolas.
    -Seu pedido, cavalheiro. Muito obrigado.- disse, e se afastou em seguida, indo se esconder num canto do salao, onde achou que talvez o fedor nao o alcancasse.
    Mário pegou as sacolas, um pouco desconcertado, e sorriu gentilmente, fez uma pequena reverência e se virou para sair. Nao ia ficar com frescuras e dar uma de ofendido agora. A coisa já estava o suficientemente boa como para que querer se melindrar. Foi para a rua e procurou seu banco favorito para sentar-se e tomar seu café da manha... Fechou os olhos com prazer e suspirou. Pois bem, ali tinha uma utilidade para a sua carnica: uma discreta e efetiva chantagem que poderia fazer com que ganhasse muita coisa boa. Porém, nao podia abusar, senao acabaria saindo o tiro pela culatra. Só de vez em quando, quando tivesse vontade de se dar um gostinho. Para o resto dos dias ainda tinha suas amigas, as lixeiras.