segunda-feira, 29 de março de 2010

Os solitários - parte II

Um pouquinho atrasada, mas aqui vai a segunda parte da história... E não se preocupem, porque à partir desta semana prometo que vou me organizar como gente decente e retomar os horários, rotinas, dietas e exercícios que andei abandonando por conta da volta da minha filha para casa. Então, passada a novidade, pretendo sériamente retornar à minha existência ordenada e criativa (literáriamente falando) o que inclui não demorar tanto para postar novas histórias.
Então, aqui vai a segunda parte desta.

Então, ele deitou na cama e começou a falar, mas sem olhar para mim, pois estava naquela idade em que a timidez é praticamemnte uma doença, sobretudo em se tratando de fazer confissões e esclarecer dúvidas... Em resumo, seu drama se reduzia à impossibilidade de arrumar uma namorada que a sua família aprovasse e que não fosse chamada de "baranga" pela sua irmã. Como era possível que nunca acertasse na escolha? Por acaso ele tinha algum letreiro escrito na testa que atraia somente esse tipo de garota?.
-Mas, por que você fica com elas se sabe que não são legais e que todo mundo vai te criticar?- inquiri, perplexa, pois percebi que ele também não gostava dessas meninas.
-Mas todo mundo na turma tem namorada ou paquera alguém!... Como eu vou andar por aí sozinho? Eles vão rir de mim e começar a me botar todo tipo de apelidos estúpidos!- explicou Sérgio, sinceramente aflito -Você não conhece esses caras, Angélica, são fogo. Quando querem judiar de alguém não descansam até te derrubar.
-Então é por isso que você se mete com a primeira que aparece? Só para eles não tirarem sarro de você?- perguntei, cada vez mais espantada com o comportamento tiránico e machista daqueles rapazes -Por que você anda com eles se são tão sacanas e te obrigam a fazer o que você não quer?.
-Eles não me obrigam a nada!.- se defendeu Sérgio, incorporando-se de um pulo na cama -Eu faço porque quero, porque gosto de fazer parte da turma, tá bom?
-E você acha que esse sacrifício vale a pena?...- retruquei eu, começando a irritar-me com aquela sua atituide tão infantil e submissa -Olha só para você!... Francamente, não esperava isso de você, Sérgio.
Ele se levantou e foi até a porta.
-Tudo bem, eu sabia que você não ia entender mesmo.- declarou, zangado -É melhor eu ir dar uma volta por aí... De repente encontro uma outra baranga para namorar.- concluiu, desaparecendo pelo corredor em penumbras.
Fiquei sentada na cama durante alguns minutos, meditando sobre tudo aquilo; sobre o sofrimento secreto do meu amigo, sobre a influência absurda daquela turma sobre ele e sobre o que era obrigado a suportar só para não se tornar motivo de chacota e humilhação entre eles. Me pareceu algo injusto e revoltante, pois Sérgio era um bom rapaz que, infelizmente, sem perceber estava arrumando encrenca só para exorcizar a sua insegurança e firmar a sua posição dentro do grupo... Será que ele não era capaz de perceber que aquela provação não valia a pena? Logo tudo isso passaria e então seria tarde demais para consertar os erros que estava cometendo. A adolescência é tão breve, mas não sei por quê nos passa aquela sensação de que vai durar para sempre e de que nada mais será importante depois dela; e é justamente aí que mora o perigo, pois em busca de aprovação e segurança podemos acabar abrindo portas ou percorrendo caminhos que nos levem ao desastre... E foi isso que percebi ao escutar o relato de Sérgio, igual ao de tantos outros dos quais havia ficado sabendo. Se alguma coisa não fosse feita, ele acabaria ferrando-se legal e seria mais um na estatística de desgraças por causa de más influências.
Decidida a solucionar aquele impasse que começava a ficar perigoso, levantei da cama e voltei para a festa com passos firmes. Quando cheguei onde a turma estava reunida, a Karen me perguntou pela câmera, mas eu disse que tínhamos uma coisa bem mais importante ara resolver do que tirar uma fotografia para o nosso currículo. Consciente de que estava quebrando a promessa que fizera ao Sérgio, levei todo mundo um canto e expliquei a situação. Todos ficaram muito preocupados -sobretudo a Karen, que nem de longe imaginava que algo assim estava acontecendo com seu irmão- e decidimos pensar juntos numa solução, mas nada que desse na cara, para que o Sérgio não desconfiasse que eu havia traído a sua confiança.
-Mas foi por uma boa causa.- me consolou o Thiago ao ver a minha expressão de culpa.
Ficamos um bom tempo sentados naquele canto cogitando todo tipo de projetos e saídas, enquanto a festa rolava, mas dali a pouco a nossa presença foi requisitada para a eleição das primeiras finalistas ao papel de noiva e tivemos que adiar as nossas deliberações até o fim da festa. Ficamos de nos encontrar numa das barracas para continuar a conversa e em seguida fomos tomar os nossos lugares na mesa do júri. Eu fiquei rodando por aí, conferindo se tudo estava à contento, quando de repente vi, sentada na barraca da pescaria e rodeada por uma dúzia de crianças que se acotovelavam para pegar uma das varas, uma moça pequena e franzina, de cabelos ruivos penteados em duas grossas tranças, vestido de flores amarelas e verdes e umas sardas pintadas nas bochechas. Nunca a vira antes, jamais comparecera a nenhuma das reuniões que havíamos convocado e nem participara da confecção de enfeites, pratos ou fantasias. De longe parecia tão criança quanto a turma que tomava conta da sua barraca, e de vez em quando atirava um olhar de desamparo e aflição para as pessoas que dançavam, comiam e se divertiam, como que pedindo socorro, mas ninguém reparava nela. Por momentos parecia que iria naufragar em meio àquela maré de crianças gritando, pulando e brigando para pegar os prêmios. Ela tentava, sem sucesso, impor um pouco de ordem na garotada batendo palmas e afastando-os para que não brigassem, mas a sua voz mal se ouvia... Intrigada, fiquei a observá-la de longe, perguntando-me quem seria e como tinha ido parar naquela barraca. De quem teria sido a idéia de botá-la ali achando que teria autoridade suficiente para lidar com aquele bolo de crianças afobadas e gritonas?, me perguntei, sentindo pena da sua situação, que parecia ficar mais desesperadora a cada minuto... Como era meu dever de organizadora evitar esse tipo de atrito, decidi ir até lá dar-lhe uma mão, pois já estava vendo lágrimas assomarem aos seus grandes olhos verdes.
-Vamos ver, vamos ver, criançada!- exclamei com uma voz alta e grossa, para impressionar as feras -O que está rolando aqui?
Sobressaltadas, as crianças pararam imediatamente de gritar e pular e se viraram para mim. A moça ruiva me olhou também, com a expressão de quem vê um anjo aparecer às tres da tarde em plena praça pública, soltou um imenso suspiro de gratidão e limpou disfarçadamente as lágrimas.
-Eu quero uma vara!.- gritou um moleque gordo e birrento, com um bigode preto todo torto pintado na boca.
-Mas eu cheguei primeiro!- berrou um outro empurrando-o para colocar-se na sua frente. Este estava todo suado e as sardas pintadas em suas bochechas tinham virado uma mancha avermelhada que avançava até as grandes orelhas.
-Isso não é verdade!- interveio uma menina, ostentando um chapéu cheio de flores e com duas tranças de nylon pretas costuradas nele -Eles furaram a fila, tia!...- e todas as outras crianças aprontaram um berreiro, concordando com a coleguinha.
-Muito bem, muito bem! Calma aí, não vamos chegar a lugar nenhum com esta bagunça!- exclalmei, batendo palmas para fazê-los calar -Vamos organizar a fila de novo e ninguém... ninguém, eu disse!- repeti com voz de trovão e olhos faiscantes diretamente pregados nos dois meninos causadores da confusão- Ninguém vai furar a fila!.
Num instante, as crianças formaram uma fila bem comportada e silenciosa, lançando-me de vez em quando umas olhadelas de puro respeito e contrição que me fizeram sorrir entre dentes. Dominado o motim daquela irrequieta tripulação, peguei um banquinho e sentei ao lado da moça ruiva, que também me olhava com profunda admiração e respeito.
-Que alívio!...- comentou, sorrindo -Se não fosse você chegar, eu não sei o que teria feito!.
-Provavelmente teria saído fugindo ou engolido todas as varas de pescar.- lhe respondi, sentindo que tinha ganho a sua confiança -Você é daqui?- inquiri em seguida.
-Acabei de chegar dos Estados Unidos. Estava fazendo intercâmbio.- me respondeu ela, já relaxada.
-Então não está muito enturmada ainda, não é mesmo?- indaguei, começando a esboçar meu plano de ataque.
-Nâo, não conheço quase ninguém. Tem muita gente nova no bairro, mas mesmo assim quis participar da festa. Lá nos Estados Unidos não tem nada assim.
-É, só o Brasil para festar tanto!... Agora tem que recuperar o tempo perdido!.
Ambas rimos e continuamos conversando enquanto as crianças, agora com menos bagunça e gritaria, disputavam os prêmios. A moça chamava-se Heloisa e era a filha mais nova de uma das moradoras da rua, a dona Helena. Ficara três anos fora aperfeiçoando seu inglês e voltara há duas semanas para retomar seus estudos e a sua vida aqui, mas ainda estava com um pouco de dificuldade para se adaptar, sobretudo ao clima. Tinha dezessete anos e, o mais importante, nenhum namorado ou paquera. Ainda não tinha tido oportunidade de ir a nenhuma festa e a maioria dos seus programas eram em família, pois os pais e irmãos queriam matar a saudade com todo tipo de mimos, passeios, visitas a parentes e longas conversas na varanda ou na praça do bairro. Me confessou que às vezes se sentia meio sufocada com tanta atenção, mas eu lhe disse que isso era normal. A sua família queria aproveitar a sua presença antes que ela encontrasse novos amigos e começasse a ficar menos tempo em casa e mais no shopping, na balada ou na casa de colegas.
-Mas desse jeito nunca vou poder conhecer ninguém!.- reclamou, impaciente -Eles estão o tempo todo no meu pé!
-Calma que isso passa, Helô- ri eu, divertida com a sua alfição -Dê um tempo a eles, seja paciente.
Suspirando com resignação, ela concordou. Então eu disse que tinha que circular por aí para verificar se tudo estava correndo bem e saí da barraca, prometendo voltar assim que pudesse. Na verdade, eu queria era encontrar meus amigos para contar-lhes do meu pequeno e precioso achado, pois o plano que começara a bolar no instante em que vi Heloísa, já estava completo. Nâo podia falhar, ela era perfeita demais.
Foi assim que fizemos aquela loucura inesquecível e que terminou da forma menos esperada. O Robson e o Samuel foram procurar o Sérgio para pedir-lhe que fosse até a casa da Karen buscar algumas coisas que começavam a faltar na festa: sacos de pipoca e açúcar para caramelizar as maçãs do amor. Demoraram um pouco a convencê-lo, pois ele alegou que não formava parte da comissão organizadora e portanto não tinha por quê ficar correndo atrás do que quer que fosse, mas o Robson e o Samuel acabaram por quebrar a sua resistência prometendo-lhe uma pequena "ajuda de custo" para a compra do seu novo aparelho de som... Quando contaram para nós sobre aquele suborno descarado, alguns reclamaram, pois teriam de tirar dos lucros do trabalho para cumprir aquele acordo, mas eu os lembrei do nosso objetivo, que era bem mais importante e nobre do que perder algumas notas de dez e cinquenta.
-Gente, o que é isso?...- os repreendi -É o nosso amigo Sérgio! Ou já se esqueceram? Vamos ter muitas outras festas para recuperar o dinheiro, mas não vamos ter outro amigo como ele!.
Então, todos pararam de reclamar, envergonhados, e decidiram continuar com o plano.
Eu e a Jussara fomos até a barraca da Heloísa e eu a chamei com a desculpa de que precisava de ajuda para pegar uns caixotes de maçãs da despensa da casa da Karen. Ela me olhou meio esquisito, pois deve ter percebido que a Jussara, que estava do meu lado, era bem mais forte do que ela e provavelmente se perguntou por que não pedia a ela para me ajudar, mas como se sentia em dívida comigo pelo incidente com as crianças, se prestou de bom grau a me acompanhar. Deixamos a Jussara em seu lugar, certas de que diante da sua imponência, a garotada não ousaria bagunçar, furar a fila ou tentar pegar os prêmios sem a vara, e fomos até a casa da Karen.
-Os caixotes estão na despensa, Helô, vai adiante que eu vou na cozinha perguntar para a mãe da Karen de quantos está precisando.- disse eu, sorrindo com a maior cara de pau e rezando para que os meninos tivessem levado o Sérgio até lá e ele já estivesse mergulhado entre os pacotes de açucar e os saquinhos de pipoca -É só virar por aquele corredor, sair na área e você vai dar de cara com a despensa.
Inocente das nossas armações e esperanças, Heloísa obedeceu com seu belo sorriso e se dirigiu até o quatinho que eu havia indicado, abriu a porta e entrou. Imediatamente, eu corri até lá e, sem que ela percebesse, fechei a porta muito devagar, torcendo para que ela não rangesse, puxei a chave do meu bolso e tranquei os dois lá dentro sem o menor remorso.
A verdade é que nenhum de nós sabe até hoje o que foi que aconteceu dentro da despensa naquela noite. O Sérgio e a Helô nunca quiseram nos contar, para nos castigar pela nossa armação, porém, todos concluímos que aquele encontro forçado devia ter sido não só planejado por nós, mas também por alguém lá em cima que estava com a mesma idéia na cabeça, porque quando fomos abrir a porta do quarto, lá pelas quatro da madrugada, quando a festa já estava no fim, ambos saíram de lá de mãos dadas e um sorriso bobo no rosto e nem quiseram saber das nossas explicaçõees estapafúrdias para semelhante "acidente"... Simplesmente foram embora conversando e rindo como se aquilo tivesse sido a coisa mais normal do mundo. Todos nos quedamos pasmos, pois estávamos preparados para um ataque de fúria, lágrimas, recriminações e até algum soco ou maldição até a quinta geração, mas não para aquela cena de filme romântico!.
-Pôxa!...- exclampou a Karem, de olhos arregalados -Que sucesso!... Do jeito que o Sérgio é esquentado, podia ter acontecido qualquer coisa, e ao invés disso... Olha eles lá! Não estou nem acreditando, galera!.- então, virou-se para nós e com voz emocionada acrescentou: -Nem sei como agradecer, gente... Vocês foram demais. Confesso que não acredtei que um plano tão maluco fosse dar certo, mas parece que o universo também estava conspirando para juntar esses dois solitários.
-O que tem que acontecer sempre acontece- sentenciou a Teresa, com seu costumeiro ar de pitonisa, e todos rimos.
-Bom, galera, eu acho que agora sim é hora de tirarmos aquela foto! -exclamei eu -Esta festa foi mesmo um sucesso.
-A melhor de todas!- concordou o Samuel -Vai buscar a câmera!
Então tiramos esta foto que está em meu álbum agora, com toda a turma na área da casa da Karen, que já não é mais a zul e nem tem telhado de eternite, mas conserva as nossas lembranças mais queridas. Vejo os rostos dos meus amigos: o André e a namorada, a Júlia, a Jussara e seu sorriso de gato, o Samuel fazendo chifrinho na cabeça do Rogério, que sempre aparecia tão sério nas fotos, a Karen de braços abertos e rindo, o Robson com as mãos no bolso, apoiado no muro com aquele sorriso meio tímido e o cabelo na testa... Lembro das suas vozes, dos seus gestos, da alegria daquela noite muito louca, do cheiro de quentão e pipoca, da música caipira ecoando na rua iluminada pelos balões e cruzada por centenas de bandeirinhas coloridas... O Sérgio e a Heloísa não aparecem nesta foto, mas não porque estavam zangados com a gente... Deles eu tenho uma outra foto: ela com seu vestido branco, o véu rendado e a coroa de flores amarelas enfeitando seus cabelos ruivos penteados num elegante coque, e o Sérgio muito elegante com o terno cinza e a flor amarela na lapela, cabelos impecavelmente ajeitados e a aliança brilhando no dedo anular esquerdo. A outra foto que tenho é a deles com os dois filhos, o Samuel e a Liza. Ele, gordinho e bochechudo, de cabelos ruivos encaracolados e enormes olhos verdes e ela, um bebê ainda, com uma touquinha branca destacando seus cabelos pretos e a mãozinha estendida para a câmera, como se quisesse pegá-la... O sorriso é o mesmo do Sérgio.

segunda-feira, 22 de março de 2010

'Os solitários"- parte I

Eu sei que disse que postaria esta história no fim de semana, mas as coisas não saíram bem como eu esperava, então tive que deixar para hoje. Ainda bem que entro no trabalho só às 17:00, quando todo mundo está saindo e indo para casa, ( acreditem ou não, meu horário mudou de novo!) então acho que vou ter tempo suficiente para postar as duas crônicas, em português e em espanhol... Isso se não esqueço de acordar da minha soneca depois do almoço!... Nâo, mas hoje vou no posto de saúde tomar vacina contra a gripe suína, então não posso bobear. Não pretendo pegar uma baita fila de grávidas (esta semana é para elas, doentes crônicos e cardiopatas), então tenho que ir lá pelo meio da tarde se não quero ficar para sempre esperando ou pegar alguma dessas viroses que baixam na gente toda vez que somos origados a permanecer mais do que uma hora num destes centros de saúde -que de saudáveis não têm nada...
Então, antes de ser cruel e friamente espetada pela agulha nada gentil de uma enfermeira, aqui vai a primeira metade deste conto, que também faz parte daqueles que me foram encomendados no desafio de "escrever sobre qualquer coisa", lançado pelos meus alunos de redação:



Quando olho para esta foto não posso evitar dar risada ao lembrar de tudo que aprontamos durante aquela festa junina na casa da Karen e das consquências da nossa brincadeira. Ninguém esperava que as coisas saíssem daquele jeito, mas apesar de tudo, não acredito que nenhum de nós tenha se arrependido mais tarde. Jà dizem que Deus escreve certo por linhas tortas e suponho que isto se aplica neste caso, porque Ele não poderia ter escolhido linhas mais tortas do que nós para levar à cabo seus planos!...
Como fazíamos todo ano, começamos a planejar aquela festa junina com quase dois meses de antecedência. Desta vez, ela aconteceria na rua onde morava a Karen e cabia a nós a organização e divulgação do evento, pois desfrutávamos de um certo prestígio em nossa pequena cidade devido ao sucesso das festas de rua que organizávamos. Nelas, todo mundo se divertia, dançava e cantava, não faltava comida ou bebida, havia lugar para todos, sempre conseguíamos alguma dupla para que fizesse uma apresentação ao vivo e a nossa decoração era de primeira. Mas o melhor de tudo era que nunca saiu briga em nenhuma das festas e nem a polícia recebeu reclamações da vizinhança por causa de música alta demais ou gritaria. Isto fazia com que as pessoas sempre nos chamassem para organizar seus eventos de rua e comparecessem em peso para se divertirem sem ter que se preocupar com nada. Assim, naquele ano, um grupo de moradores entrou em contato conosco através da nossa amiga Karen -que vivia naquela rua- nos pedindo para tomar conta do acontecimento. É claro que topamos, pois além de ganhar um dinheirinho extra, poderíamos nos divertir um pouco e deixar a nossa amiga com uma tremenda moral diante dos vizinhos. Então, no início de abril, convocamos uma reunião para repartir as tarefas e abrimos um caixa destinado à compra dos itens imprescindíveis para que tudo saísse como esperávamos. Aos poucos, fomos estocando amendoim, batata doce, pipoca, gengibre, fogos de artifício, chapéus de palha, balões, bandeirinhas coloridas, barbante, galhos de eucalipto e tábuas para a construção das barracas. Agendamos a locação de mesas e cadeiras, toalhas e enfeites e combinamos com uma dupla sertaneja da própria cidade para que fizessem uma apresentação por noite. Também fomos atrás de um bom som e de músicas típicas e percorremos os arredores catando galhos secos para construir a nossa fogueira. Tudo isto ia sendo cuidadosamente guardado na casa da Karen, que poco antes da festa já estava parecendo o esconderijo de Ali Babá e os quarenta ladrões. As nossas adquisições tomavam conta do quintal, da área, dos quartos, a despensa, os armários e até da garagem, de maneira que o coitado do seu André, pai da Karen, era obrigado a deixar seu fusca na intempérie em prol da nossa causa. Quando reclamava demais, pois as pombas e pardais estavam estragando a já lascada pintura do carro, a sua esposa o levava para um canto e dava-lhe um sermão cheio de paixão e gestos espalhafatosos que ninguém conseguia escutar, e dali a pouco seu André voltava, manso feito um cordeirinho e com um sorriso amarelo em sua cara miúda e, suspirando fundo, ia lá fora, pegava a mangueira e passava as próximas duas horas esfregando a sujeira dos pássaros do teto e o capô do fusca verde bandeira.
-Bem que podia esfregar até sair toda essa cor horrorosa- resmungava a sua esposa, observando-o desde a janela da sala -Onde já se viu pintar um carro de verde bandeira? Eu tenho vergonha de sair nele!...
-Mas, mãe...- retrucava a Karen, conciliadora -O carro já tinha essa cor quando o pai o comprou do seu Kemil
Então, a mãe fazia um gesto de desdém e voltava para a cozinha dizendo:
-Comprasse um carro de outro que tivesse melhor gosto, então.
A Karen desabava no sofá e, dando um suspiro de resignação, olhava para nós e se encolhia de ombros.
-Nâo sei por quê a minha mãe tem tanta birra daquele carro. Implicou com ele desde o primeiro momento em que o viu!
-Talvez seja porque o pai nem perguntou a ela sobre a compra e simplesmente apareceu um dia aqui com esse fusca como um fato consumado.- explicava o Sérgio, irmão caçula da Karen -Você sabe que a mãe gosta de saber tudo que se passa nesta casa... Até o que não devia.- acrescentava, amuado.
A Karen dava-lhe uma olhada reprovadora e dizia:
-Sim, mas com essas barangass que você anda namorando, é para a gente se preocupar mesmo.
-O que você quer dizer com isso?...- exclamava o Sérgio, todo ouriçado -Nâo são barangas!... Para a sua informação...
-Gente, gente...- intervinha eu então, apaziguadora -Lembrem-se de que estamos aqui por causa da festa. Vamos deixar os assuntos pessoais para outra ocasião.
Sérgio fazia um esforço para engolir a sua raiva e a Karen cruzava os braços no peito e olhava em outra direção. Naquele minuto parecia que aqueles dois nunca mais iriam se dirigir a palavra novamente, mas nós sabíamos que dali a pouco esqueceriam tudo e estariam numa boa. Já nos havíamos acostumado com aquilo, pois parecia que o único tema de discussão entre eles eram as famosas namoradas do Sérgio, que ninguém em casa aprovava. Toda vez que nos reuníamos para definir os detalhes da festa, de alguma maneira o tema vinha à tona e os dois acabavam brigando... Um verdadeiro desperdiço de energia, pensava eu, já que nunca conseguiam concordar em nada, sobretudo no que dizia respeito às tais namoradinhas.
As coisas caminhavam como esperado e perto do final de maio estávamos com tudo pronto. O único que ficou para os vizinhos fazerem foi a confecção das fantasias, para as quais até tínhamos organizado um desfile no último domingo com direito a prêmio e tudo, o que despertou uma acirrada concorrência entre as mulheres, que passavam horas na máquina de costura, ou de agulha na mão, para confeccionar a fantasia mais caprichada e original. Também organizamos um desfile para escolher a noiva, o que suscitou outro torneio de rendas, babados, coroas, luvas, buquês e véus... Mas a verdadeira complicação se deu na hora de escolher os jurados, pois a maioria era parente das candidatas, de modo que eles preferiram deixar esta tarefa para nós, que não tínhamos nada a ver com ninguém dali.
Chegado o primeiro final de semana estávamos todos ansiosos para ver se tudo iria sair como planejado. Passamos a semana toda construindo barracas, pendurando bandeirinhas, colando balões e preparando paçoca, pé de moleque, maçãs confeitadas, canjica e quentão... O cheio do gengibre demorou alguns dias para desaparecer de vez dos meus dedos e passei bastante tempo sem nem olhar para amendoim e batata doce, mas no fim tudo valeu a pena porque aquele primeiro fim de semana foi um sucesso absoluto. Todo mundo veio à caráter e disposto a se divertir, comer e dançar até cair.
No meio da festa, a Karen me pediu para pegar a sua câmera e tirar uma foto da equipe com a rua enfeitada e iluminada ao fundo.
-Mais uma para o nosso currículo.- expressou, satisfeita, com um sorriso de orelha a orelha.
Fui sem demora apanhar a câmera na casa, que estava uma loucura com todo aquele entre e sai de pessoas carregando bandejas, garrafas, bacias de canjica e paçoca, mais algumas na cozinha mexendo nas enormes panelas de quentão e fritando pastéis e outras no tanque da área lavando toneladas e toneladas de pratos, talheres e copos. Também tropecei com gente na sala que estava enchendo bexigas e desembrulhando mais prêmios para a pescaria, pois as crianças já tinham levado todos... Enquanto me dirigia até o quarto da Karen dei uma rápida olhada em tudo aquilo e sorri, pois era realmente gostoso ver toda aquela gente trabalhando unida e feliz pelo sucesso da empreitada.
-É assim que as coisas funcionam- disse para mim mesma, entrando pelo corredor que levava até os quartos.
Abri a porta e entrei rapidamente, acendi a luz e me dirigi até o armário no qual a Karen tinha-me dito que guardava a câmera. Ele já estava escancarado e ostentava uma incrível desordem de sapatos, roupas, bolsas e caixas de todos tipos, tamanhos e cores. As gavetas estavam abertas e reviradas e algumas peças jaziam no chão, misturadas com as flores de papel crepom que faziam parte dos arranjos das mesas.
-Nossa!...- exclamei, parando diante da quela confusão -Como é que vou encontrar alguma coisa aqui?...
Me abaixei e praticamente mergulhei dentro do armário para ver se conseguia descobrir onde, no meio das saias, meias, soutiens, calças e chinelos, poderia estar a bendita câmera... A idéia de desistir de registrar o sucesso da equipe em mais uma festa junina veio à minha cabeça enquanto puxava as alças do maiô vermelho da Karen, que estava enroscado numa mala preta no fundo do armário. Será que uma foto -mais uma- valia esta aventura nos territórios virgens da bagunça privada da minha amiga?... Comecei a pensar que não, sobretudo quando senti que a alça se rasgava ruidosamente com meu último puxão. Então, tirei o corpo de dentro do armário e fiquei ajoelhada no chão, despenteada e molhada de suor, ofegante e com as costas doendo. Funguei e tentei arrumar meu cabelo, segurando o maiô pela alça rasgada. Olhei para ele e engoli em seco.
-Putz, a Karen vai me matar.- murmurei, aflita.
Então, uma voz masculina veio das minhas costas, suave e gentil, interrompendo as minhas considerações.
-Você está precisando de ajuda aí?.- perguntou, com uma sombra de riso no tom.
Sobressaltada, larguei o maiô e me virei. Sentado na cama em meio às almofadas e bichos de pelúcia que a Karen colecionava, estava o Sérgio, sorrindo para mim.
-Ai, mas que susto você me deu!...- exclamei, pegando de novo o maiô e escondendo-o rapidamente atrás das costas -O que você está fazendo aquí, no escuro?...
Ele se encolheu de ombros e soltou um suspiro. Parecia chateado e meio triste, o que era um fato totalmente inusual nele.
-Ah, está muita bagunça e muita gente lá fora.- respondeu, com gesto desanimado.
Eu me levantei e fui até a cama, sentando-me ao seu lado.
-Você está bem, Sérgio?- perguntei, perscrutando a sua face miúda, na qual se destacavam os olhos de um azul profundo.
-Estou.- respondeu ele, dando de ombros, e ficou brincando com a franja da colcha.
-Ah, não está, não... Eu te conheço! Se você não está lá fora bagunçando com os outros é porque algo de muito grave está acontecendo.- repliquei, preocupada, apoiando a minha mão em seu braço -Vai, me conta, o que é?.
Ele ergueu a cabeça e me fitou por alguns segundos, como que avaliando a possibilidade de se abrir comigo, mas não disse nada.
-Vai, Serginho, você sabe que pode confiar em mim.- o animei, sorrindo -Prometo que guardo seu segredo... se você guardar o meu...- ajuntei, mostrando-lhe o maiô com a alça rasgada.
Então, ele abriu um leve sorriso.
-Vai!.- insisti, jogando o maiô de volta no armário -Somos amigos ou não somos?.
Então, ele deitou na cama ae começou a falar...


segunda-feira, 1 de março de 2010

A primeira impressão

Bom, e como prometi - e agora de computador absolutamente novo, veloz e eficiente graças ao meu filho- aqui vai a terceira história. Esta pertence a uma série que foi escrita durante um curso de redação que dei há algum tempo na Fundação Cultural onde trabalho. Na verdade, foi um desafio lançado pelos alunos, provocado pela minha afirmação de que se pode escrever sobre qualquer coisa e fazer algo com qualidade, não importa quão ruim o tema possa parecer. Isto falando literáriamente, é claro, pois há textos sobre temas específicos, científicos, políticos ou essas coisas, que simplesmente não dá para redigir de uma forma menos árida. Então, o desafio foi que eles escolheriam o tema e as personagens e eu teria de escrever um conto até a próxima aula, isto é, na semana seguinte. Eu poderia acrescentar personagens e anedotas, mas deveria desenvolver o tema de acordo com seus apontamentos e em alguns casos, com consulta prévia, é claro, me seria permitido mudar o final... Admito que, no fim, acabou passando de brincadeira para um desafio extremamente entretido e revelador, fascinante até, e de quebra, consegui provar que a minha tese estava certa... Deviam ver os tijolos que me entregaram para desenvolver! Alguns foram pura e simples crueldade! (eles riam ao me entregar as suas anotações) Quase acabei afogada com alguns deles e outros foram mesmo uma prova de fogo para as minhas capacidades criativas. Mas no fim, tudo deu certo, e gostei tanto do resultado que decidi publicar os melhores contos neste blog. Alguns definitivamente não fazem parte do meu estilo de texto, mas acho que mesmo assim valeram a pena.
Então, aqui está o primeiro. Espero que o desfrutem!



A farmácia estava alarmantemente congestionada, parecia que todo mundo tinha decidido aparecer por lá na mesma hora e nós, balconistas, quase não estávamos conseguindo dar conta de decifrar receitas, responder perguntas e apanhar xaropes, comprimidos, gotas, pomadas e cápsulas das prateleiras. Várias vezes acabei trombando com algum colega no estreito espaço no qual nos movimentávamos atrás do balcão. Para piorar a situação, o telefone não parava de tocar e os clientes pareciam estar sofrendo de um caso severo de impaciência coletiva. Todos queriam ser atendidos na hora, sem importar a ordem de chegada!... Nesse tipo de situação todos nós ficávamos extremamente tensos, pois éramos obrigados a ser atentos e prestativos com as pessoas -não importa quão mal-educadas ou afobadas elas fossem- rápidos e eficientes no atendimento e ainda ficar de olho em qualquer atitude suspeita, pois sabíamos que tinha pessoas que se aproveitavam daqueles momentos de maior movimento para chegar discretamente junto das prateleiras e, com um movimento quase imperceptível, surrupiar alguma mercadoria e sair sem ser notado. E, claro, o prejuízo acabava sobrando para nosso bolso no fim de mês. Nosso chefe não perdoava esse tipo de descuido.
Naquela hora, eu me repartia entre o balcão e o caixa e precisava de um grande esforço de concentração e calma para não me embaralhar com os trocos e as receitas, por isso, quando vi o homem entrar, fiquei um instante imóvel e, ao perceber que ele se aproximava em minha direção, tive a repentina certeza de que me veria envolvida em algum tipo de situação desagradável. Imediatamente procurei com os olhos alguém que pudesse me substituir no caixa ou então, que viesse atender aquele homem, mas todos estavam tão ocupados quanto eu.
-Putz... Desta não escapo.- disse em voz baixa, empertigando-me como para enfrentar algum tipo de perigo.
O homem tinha mesmo um aspecto medonho: magro e de cabelos longos e desgrenhados, vestido com roupas sujas e surradas, uma em cima da outra, de cores indefinidas e cheias de manchas; rosto barbudo e com grandes olheras escuras, sapatos deformados e cobertos de barro, unhas compridas e pretas. Caminhava um pouco cambaleante e carregava um saco de juta com alguma coisa informe dentro. Eu o percebi assim que entrou, olhando em volta com um ar meio perdido, e fiquei com a mão no ar, segurando a nota que acabara de receber de um freguês. Um vento que parecia um mau pressentimento soprou desde meu estômago, que se encolheu... O que uma criatura como aquela podia querer aqui? Provavelmente uma esmola, mas nós estávamos terminantemente proibidos de dá-la a quem quer que fosse, e se o fizêssemos, é claro que a quantia -não importava quão pequena- seria descontada do nosso salário. Nosso chefe tampouco era adepto a esse tipo de política paternalista, como ele a chamava.
-Esmola para vagabundo em meu estabelecimento não!- pregava com voz dura -Se quiserem alguma coisa eles que vão trabalhar!
Enquanto guardava a nota no caixa e procurava algumas moedas para dar de troco, observei que o homem continuava a se aproximar devagar. Despedi o cliente com um gentil e sorridente "obrigado, volte sempre" que nem eu mesma acreditei, e fechei a gaveta da registradora rapidamemnte. Quando ergui a cabeça de novo, o homem estava diante de mim.
De perto era ainda mais desagradável, pois seus dentes estavam pretos e exalava um forte cheiro a suor e álcool. Se a primeira impressão é a que vale, como dizia a minha mãe, então o melhor que eu podia fazer era pegar o telefone e ligar para a polícia, pois aquele personagem só podia significar encrenca.
Sentindo-me cada vez mais insegura e acanhada diante dele, tornei a olhar em volta à procura de ajuda, mas ninguém estava disponível. Então, resignada, respirei fundo, tomei coragem e o encarei com um sorrisinho amarelo.
-Pois não, em que posso ajudá-lo?. preguntei, inclinando-me em sua direção. O cheiro era quase insuportável.
-Me dá alguma coisa para dor aí.- respondeu ele, com uma voz roufenha que me sobressaltou.
Me ocorreu a idéia de perguntar-lhe se teria como pagar pelo remédio, mas desisti. Era óbvio que pretendia levá-lo de graça. Bom, talvez valesse a pena um desconto em meu salário com tal de me livrar deste mendigo... Nesse momento, se aproximou uma cliente para pagar e tive de voltar para o caixa. Enquanto abria a gaveta com mãos trêmulas, escutei o homem repetir:
-Me dá algo para dor aí, dona. É para levar lá pra baixo.
Me perguntei o que seria "lá pra baixo", e lembrei que atrás da farmácia ficava a delegacia. Seria que ele queria levar o remédio para algum colega que estava detido lá? Ou seria que era para ele mesmo?... Dei uma olhadela nele ao tempo que entregava o troco à cliente, mas não me pareceu que estivesse sofrendo de algum tipo de dor. Mostrava-se um pouco hesitante, mas fora isso, parecia bem.
-Olha moço...- disse eu então, sorrindo o mais gentilmente que pude -Neste momento estou ocupada no caixa, por que você não pede para aquele senhor ali, que é um dos nossos vendedores?- sugeri, apontando para um dos meus colegas.
O homem seguiu com os olhos escuros a direção que a minha mão indicava, e demorou alguns segundos para localizar a pessoa. Em seguida, tornou a me encarar, com uma expressão na qual se misturavam a perplexidade e uma ponta de revolta, como se adivinhasse que aquela era uma desculpa para não atendê-lo, e curvou os lábios para baixo, com um quê de desprezo. Inclinou-se para mim e sussurrou, apoiando as mãos no vidro do balcão:
-A moça está com medo de mim?...
Eu fiquei parada por alguns segundos, sentindo-me apanhada em flagrante, e não fui capaz de sustentar seu olhar.
-Não, moço, imagine!...- gaguejei, enrubescendo -É que estou mesmo ocupada! Por que você não vai...?
-Eu não vou lhe fazer mal, moça...- insistiu ele, endireitando-se. A marca gordurosa das suas mãos ficou estampada no vidro -Não precisa ter medo, não.- e antes de que eu pudesse argumentar mais alguma coisa, ele se afastou em direção ao meu colega, que naquele momento se virava para atender o telefone.
Quando o mendigo chegou junto do balcão, as pessoas que estavam ali se afastaram discretamente. Ele olhou para elas, deixando seu saco no chão, e soltou uma risadina sarcástica.
Eu fiquei imóvel no caixa, sentindo meu coração palpitar com força e as pernas meio bambas por causa do incidente, porém, em seguida um grande alívio me invadiu ao perceber que havia conseguido me livrar daquele sujeito tão desagradável. Desde onde me encontrava, agora ociosa, o observei fazer o pedido ao meu colega. Mas este continuou falando ao telefone e não lhe deu atenção. O homem repetiu o pedido, em voz mais alta, mas o balconista fez um gesto displicente e virou as costas. O homem ficou ali, olhando para ele por alguns minutos, sem saber o que fazer e, finalmente, vencido pela sua indiferença, se abaixou e apanhou seu saco. Parecia profundamemnte contrariado... Não soube por quê, mas de repente aquela cena me despertou uma inesperada sensação de tristeza. Até tive o impulso de pegar o remédio e dá-lo ao homem, mas algo me deteve. A primeira impressão que dele tivera era muito forte ainda e me impedia de agir de outra forma. Então, engoli aquele crescente desconforto que aos poucos tomava conta de mim e fiquei onde estava, limitando-me somente a observar.
O homem, muito chateado, dirigiu-se com passos inseguros até a saída, mas antes de alcançar a calçada, voltou-se para nós e exclamou, apontando-nos com a sua mão imunda:
-Já entendi o recado, não precisa humilhar também!...- e acrescentou, em voz baixa e ameaçadora: -E depois, quando matam um, ainda dizem que nós é que somos ruins!- deu uma última e furiosa olhada para nós e saiu, botando bruscamemnte o saco no ombro. Num instante seu vulto perdeu-se no meio das pessoas que passavam.
Todos ficamos paralisados durante alguns segundos, evidentemente chocados com as palavras do mendigo. Alguns clientes comentavam em voz baixa o incidente, outros pegaram apressadamente seus remédios e saíram da farmácia. Alguém se queixou por ter de tolerar esse tipo de sujeito, que devia estar internado em alguma instituição ao invés de andar por aí perturbando pessoas de bem. Outra deu uma rápida conferida na sua bolsa... O clima ficou tenso e pesado, tivemos que fazer um esforço para retomar nosso jeito amável e sorridente e assim fazer com que os clientes esquecessem do homem e as suas palavras... Mas eu fiquei assustada. Será que aquilo era uma ameaça? Iria regressar mais tarde, quem sabe acompanhado, para atacar-nos ou depredar a farmácia? Estaria aguardando na esquina, escondido, para cobrar-me a minha falta de caridade?... Mas parecia uma criatura acostumada e resignada a sofrer impotente esse tipo de tratamento, tanto, que foi capaz de adivinhar certeiramente meu receio e as minhas excusas para não atendê-lo. As suas palavras davam voltas e mais voltas em minha mente e quanto mais as ouvia e lembrava da expressão de perplexidade e revolta em sua face dura e sofrida, aquela sensação de tristeza e desconforto que tomara conta de mim se tornava mais forte e dolorosa... Aos poucos, aquela primeira impressão de repulsa e medo diante da sua figura foi desaparecendo, transformando-se e mostrando-me uma outra realidade: um homem sozinho e desamparado, talvez sentindo dores, com fome, quem sabe morrendo de vontade de tomar um banho, sem saber onde dormiria esta noite, vagueando pelas ruas sem destino, talvez carregando lembranças de pessoas amadas que ficaram pelo caminho. Um ser humano que dependia da caridade de quem o desprezava e humilhava para conseguir até as coisas mais básicas. Uma criatura que nada possuía e nada esperava, marcada pelo fracasso e a miséria, provavelmente dono de uma história da qual nós aprenderíamos muito, se só tivêssemos tempo paa ouvi-la. Mas nós vivemos ocupadosdemais com os nossos próprios problemas e interesses, com as nossas lutas mesquinhas e fúteis como para prestar atenção em alguém feito ele.
Envergonhada e esmagada pelo peso dos meus preconceitos, tive vontade de largar tudo e correr para me esconder em algum buraco onde jamais ninguém me encontrasse. Percebi que quem realmente me aguardava na esquina para me cobrar e minha falta de caridade não era bem aquele mendigo mas a minha própria consciência, que na imagem daquele homem me mostrava a hipocrisia e o egoismo que permeavam a maioria das minhas ações pensamentos e decisões, mesmo sem eu perceber. Mas estavam ali e vinham à tona em cada situação... Por que tanto medo do nosso semelhante? Por que julgar sem conhecer? Por que condenar sem saber se existe mesmo alguma culpa? Por que não perdoar os erros alheios? Por que exigir para nós o que não somos capazes de dar?... Por que a aparência é tão importante que nos impede a aproximação, a confiança, a misericórdia?
Enquanto voltava lentamente ao meu trabalho atrás do balcão com as receitas e as cápsulas, cheguei à conclusão de que, afinal, talvez a minha mãe estivesse errada e a primeira impressão nem sempre é a que conta, pois há muitas coisas que ignoramos por trás dela e que, se nos déssemos ao trabalho de conhecer, talvez mudassem a nossa opinião com respeito a alguém... Aquele incidente, que deixara mau coração pesado e entristecido, enchia minha cabeça de perguntas que agora não mais podia responder: E se eu tivesse perguntado? E se eu tivesse me interessado mesmo? E se eu tivesse escutado? E se eu tivesse prestado mais atenção? E se eu tivesse deixado meus preconceitos e medos de lado? E se eu não tivesse me deixado levar pela primeira impressão?...