Bom, hoje tem um outro conto que me enviaram e que vou postear para vocês. Espero que gostem e que me enviem as suas ideias. Lembrem que pode ser em espanhol ou em português, porque os traduzo para os dois idiomas.... Nao perco a esperanca!... O próximo vai ser meu de novo, daqui a duas semanas. Isso se nao estiver de mudanca, porque aí nao vai dar, já que estarei sem internet... Mas nao fiquem preocupados, que logo, logo estou de volta... Me aguardem!
Quando olho para esta foto nao posso evitar dar risada ao lembrar de tudo que aprontamos durante aquela festa junina na casa da Katy e das conseqüências das nossas brincadeiras. Ninguém esperava que as coisas saíssem daquele jeito, mas apesar de tudo, nao acredito que nenhum de nós tenha se arrependido mais tarde. Já dizem que Deus escreve por linhas tortas e suponho que isto se aplica neste caso. Quer dizer, nós é que fomos as linhas tortas.
Como fazíamos todo ano, comecamos a planejar aquela festa junina cocm quase dois meses de antecedência. Desta vez, ela aconteceria na rua onde morava a Katerin e tocava a nós a organizacao e divulgacao do evento, pois desfrutávamos de um certo prestígio na cidade devido ao sucesso das festas de rua que organizávamos. Nelas, todo mundo se divertia, dancava e cantava, nao faltava comida ou bebida, havia lugar para todos, sempre conseguíamos alguma dupla que fizesse uma apresentacao ao vivo e nossa decoracao era de primeira. Mas o melhor de tudo era que nunca saiu briga em nenhuma das festas e nem a polícia recebeu reclamacoes por causa da música alta ou gritaria. Isto fazia com que as pessoas sempre nos chamassem para organizar as suas festas juninas e comparacessem em peso para se divertirem sem ter que se preocupar com nada. Assim, naquele ano, um grupo de moradores entrou em contato conosco através da nossa amiga Katerin -que vivia naquela rua- nos pedindo para tomar conta do evento. É claro que topamos, pois além de ganhar um dinheirinho extra, poderíamos nos divertir um pouco e deixar a nossa amiga com uma tremenda moral diante dos vizinhos. Entao, no início de abril, convocamos uma reuniao para repartir as tarefas e abrimos um caixa destinado à compra dos itens imprescindíveis para que tudo saísse como esperávamos. Aos poucos fomos estocando amendoim, batata doce, pipoca, gengibre, fogos de artifício, chapéus de palha, baloes, bandeirinhas coloridas, barbante, galhos de eucalipto e tábuas para a construcao das barracas. Agendamos a locacao de mesas e cadeiras, toalhas e enfeites e combinamos com uma dupla sertaneja da própria cidade para uma apresentacao. Também fomos atrás de um bom som e de músicas típicas e percorremos os arredores catando galhos secos para construir a nossa fogueira. Tudo isto ia sendo cuidadosamente guardado na casa da Katy, que a poucas semanas da festa já estava parecendo o esconderijo de Ali Babá e os quarenta ladroes. As nossas adquisicoes tomavam conta do quintal, da área, dos quartos, a despensa, os armários e até da garagem, de maneira que o coitado do seu André, pai da Katy, era obrigado a deixar seu fusca na intempérie em prol da nossa causa. Quando reclamava demais, pois as pombas e pardais estavam estragando a pintura do carro, a sua esposa o levava para um canto e dava-lhe um sermao cheio de paixao e gestos espalhafotosos que ninguém conseguia escutar, e dali a pouco seu André voltava, manso feito um cordeirinho e com um sorriso amarelo em sua cara miúda e, suspirando fundo, ia lá fora, pegava a mangueira e passava as próximas duas horas esfregando a sujeira dos pássaros do teto e do capô do fusca verde bandeira.
-Bem que podia esfregar até sair toda essa cor horrorosa.- resmungava sua esposa, observando-o desde a janela da sala -Onde já se viu pintar um carro de verde bandeira?
-Mas, mae...- refutava a Katy, conciliadora -O carro já tinha essa cor quando o pai o comprou do seu Kemil.
Entao, a mae fazia um gesto de desdém e voltava para a cozinha dizendo:
-Comprasse um carro de outro que tivesse melhor gosto entao.
A Katy desabava no sofá dando um suspiro de resignacao, olhava para nós e se encolhia de ombros.
-Nao sei por que a minha mae tem tanta birra daquele carro. Implicou com ele desde o primeiro momento em que o viu.
-Talvez seja porque o pai nem perguntou a ela sobre a compra e simplesmente apareceu um dia aqui com esse fusca como um fato consumado, incluindo a cor.- explicava o Sérgio, irmao cacula de Katy -Você sabe que a mae gosta de saber tudo que se passa nesta casa... Até o que nao deveria.- acrescentava, amuado.
A Katy dava-lhe um olhar reprovador e dizia:
-Sim, mas com essas barangas que você anda namorando é para a gente se preocupar mesmo.
-O que você quer dizer com isso?...- exclamava o Sérgio, todo ouricado -Nao sao barangas!... Para sua informacao...
-Gente, gente...- intervinha eu entao, apaziguadora -Lembrem-se de que estamos aqui por causa da festa. Vamos deixar os assuntos pessoais para uma outra ocasiao.
Sérgio fazia um esforco para engolir a sua raiva e a Katy cruzava os bracos no peito e olhava em outra direcao. Naquele minuto parecia que aqueles dois nunca mais iriam dirigir-se a palavra novamente, mas nós sabíamos que dali a pouco esqueceriam tudo e estariam numa boa. Já nos havíamos acostumado com aquilo, pois parecia que o único tema de discussao entre eles eram as famosas namoradas do Sérgio, que ninguém em casa aprovava. Toda vez que nos reuníamos para definir os detalhes da festa, de alguma maneira o tema vinha à tona e os dois acabavam brigando. Um gasto de energia totalmente inútil, pensava eu, já que nunca conseguiam concordar em nada.
As coisas caminharam como esperado e perto do fim de junho estávamos com tudo pronto. O único que ficou para os vizinhos foi a confeccao das fantasias, para as quais até havíamos organizado um desfile no último domingo com direito a prêmio e tudo, o que despertou uma acirrada concorrência entre as mulheres, que passavam horas na máquina de costura, ou de agulha na mao, para confeccionar a fantasia mais caprichada e original. Também organizamos um desfile para escolher a noiva, o que suscitou outro torneio de rendas, babados, coroas, luvas, buquês e véus. Mas a verdadeira complicacao se deu na hora de escolher os jurados, pois a maioria era parente das concorrentes, de modo que eles preferiram deixar esta tarefa a nós, que nao tínhamos nada a ver com ninguém dali.
Chegado o primeiro fim de semana estávamos todos ansiosos para ver se tudo iria sair como planejado. Passamos a semana toda construindo barracas, pendurando bandeirinhas, colando baloes e preparando pacoca, pé de moleque, macas confeitadas, canjica e quentao... O cheiro do gengibre demorou alguns dias para desaparecer de vez dos meus dedos e passei bastante tempo sem nem olhar para amendoim e batata doce, mas tudo valeu a pena, pois aquele primeiro dia foi um sucesso absoluto. Todo mundo veio a caráter e disposto a se divertir, comer e dancar até cair.
No meio da festa, a Katy me pediu para pegar a sua câmera e tirar uma foto da equipe com a rua enfeitada e iluminada ao fundo.
-Mais uma para nosso currículo- expressou, satisfeita, com um sorriso de orelha a orelha.
Fui se demora apanhar a câmera na casa, que estava um loucura com todo aquele entra e sai de pessoas carregando bandejas, garrafas, bacias de canjica e pacoca, mais algumas na cozinha mexendo enormes panelas de quentao e fritando pastéis, e outras no tanque lavando toneladas e toneladas de pratos, talheres e copos.Também tropecei com gente na sala que estava enchendo bexigas e desembrulhando mais prêmios para a pescaria, pois as criancas já tinham levado todos... Enquanto me dirigia até o quarto da Katy dei uma rápida olhada em tudo aquilo e sorri, pois era realmente gostoso ver toda aquela gente trabalhando unida e feliz pelo sucesso da empreitada.
-É assim que as coisas funcionam- disse para mim mesma, entrando pelo corredor que levava até os quartos.
Abri a porta e entrei rapidamente, acendi a luz e me dirigi até o armário no qual a Katy tinha-me dito que guardava a câmera. Ele já estava escancarado e ostentava uma incrível desordem de sapatos, roupas, bolsas e caixas. As gavetas estavam abertas e reviradas e algumas pecas jaziam no chao, misturadas com as flores de papel crepom que faziam parte dos enfeites das mesas.
-Nossa!...- exclamei, parando diante daquela confusao -Como é que vou encontrar alguma coisa aqui?
Me abaixei e praticamente mergulhei dentro do armário para ver se conseguia descobrir onde, no meio das saias, soutias, calcas e chinelos, poderia estar a famosa câmera... A ideia de desistir de registrar o sucesso da equipe em mais uma festa junina veio à minha cabeca enquanto puxava as alcas do maiô vermelho da Katy, que estava enroscado numa mala preta no fundo do armário. Será que uma foto -mais uma- valia esta aventura nos territórios da bagunca privada de minha amiga?... Comecei a pensar que nao, sobretudo quando senti que a alca rasgava ruidosamente com meu último puxao. Entao, tirei o corpo de dentro do armário e fiquei ajoelhada no chao, despenteada e molhada de suor, ofegante e com as costas doendo. Funguei e tentei arrumar meu cabelo, segurando o maiô pela alca rasgada. Olhei para ele e engoli.
-Putz, a Katy vai me matar.- murmurei, aflita.
Entao, uma voz masculina veio das minhas costas, suave e gentil, interrompendo as minhas consideracoes.
-Você está precisando de ajuda?- perguntou, com uma sombra de riso no tom.
Sobressaltada, larguei o maiô e me virei. Sentado na cama em meio às almofadas e bichos de pelúcia que a Katy colecionava, estava o Sérgio, sorrindo para mim.
-Ai, mas que susto você me deu!- exclamei, escondendo rapidamente o maiô atrás das costas- O que você está fazendo aí no escuro?
Ele se encolheu de ombros e suspirou. Parecia chateado e meio triste, o que era um fato totalmente inusual nele.
-Ah, está muita bagunca e muita gente lá fora.- respondeu, desanimado.
Eu me levantei e fui até a cama, sentando ao seu lado.
-Você está bem, Sérgio?- perguntei, perscrutando a sua face miúda, na qual se destacavam os olhos de um azul profundo.
-Estou.- respondeu ele, dando de ombros, e ficou brincando com a franja da colcha.
-Ah, nao está, nao... Eu te conheco! Se você nao está lá fora baguncando com os outros é porque algo de muito grave está acontecendo.- repliquei, preocupada, apoiando a minha mao em seu braco -Vai, me contar, o que é?
Ele ergueu a cabeca e me fitou por alguns segundos, como avaliando as possibilidades de se abrir comigo, mas nao disse nada.
-Vai, Serginho, pode confiar em mim.- o animei, sorrindo -Prometo que guardo seu segredo... se você guardar o meu- ajuntei, mostrando-lhe o maiô com a alca rasgada.
Entao, ele abriu um leve sorriso.
-Vai!- insisti, jogando o maiô de volta no armário -Somos amigos ou nao somos?
Entao, ele deitou na cama e comecou a falar, mas sem olhar para mim, pois estava naquela idade em que a timidez é quase que uma doenca, sobretudo em se tratando de fazer confissoes e esclarecer dúvidas... Em resumo, seu drama se reduzia à impossibilidade de arrumar uma namorada que a sua família aprovasse e nao fosse chamada de "baranga" pela sua irma. Como era possível que nunca acertasse na escolha? Por acaso ele tinha algum letreiro escrito na testa que atraia somente esse tipo de garota?
-Mas por que você fica com elas se sabe que nao sao legais e que todo mundo vai te criticar?- inquiri, perplexa, pois percebia que ele também nao gostava dessas meninas.
-Mas todo mundo na turma tem namorada ou paquera alguém!... Como eu vou andar por aí sozinho? Eles vao rir de mim e botar todo tipo de apelidos estúpidos!- explicou Sérgio, sinceramente angustiado -Você nao conhece esses caras, Angélica, sao fogo. E quando querem judiar de alguém nao descansam até acabar contigo.
-Entao por isso você se mete com a primeira que aparece? Só para que eles nao tirem sarro de você?- perguntei, cada vez mais pasma com o comportamento machista e tirânico daqueles rapazes -Por que você anda com eles se sao tao sacanas e te obrigam a fazer o que você nao quer?
-Eles nao me obrigam a nada!- se defendeu Sérgio, sentando na cama -Eu faco porque quero, porque gosto de fazer parte da turma.
-E você acha que vale a pena esse sacrifício?- disse eu, comecando a irritar-me com aquela atitude tao infantil e submissa -Francamente, nao esperava isso de você, Sérgio.
Ele se levantou e foi até a porta.
-Tudo bem, eu sabia que você nao ia entender mesmo- declarou, zangado -É melhor eu ir dar uma volta por aí... De repente encontro uma outra baranga para namorar.- concluiu, desaparecendo pelo corredor em penumbras.
Fiquei sentada na cama durante alguns minutos, meditando sobre tudo aquilo; sobre o sofrimento secreto do meu amigo, sobre a influência absurda daquela turma sobre ele e sobre o que era obrigado a suportar só para nao se tornar motivo de piada entre eles. Me pareceu algo injusto e revoltante, pois Sérgio era um bom rapaz que estava arrumando encrenca só para exorcizar a sua inseguranca e afirmar a sua posicao no grupo. Será que ele nao era capaz de perceber que aquele sacrifício nao valia a pena? Logo tudo isso passaria e entao seria tarde demais para consertar os erros que estava cometendo. A adolescência é tao breve, mas nos passa a sensacao de que vai durar para sempre e de que nada mais será importante depois dela. E é aí que mora o perigo, pois em busca de aprovacao e seguranca podemos abrir portas e percorrer caminhos que nos levem ao desastre... E foi isso que percebi ao escutar o relato do Sérgio. Se alguma coisa nao fosse feita, ele acabaria ferrando-se legal.
Decidida a solucionar aquele impasse, levantei da cama e voltei para a festa com passos firmes. Quando cheguei onde a turma estava reunida, a Katy me perguntou pela câmera, mas eu disse que tínhamos uma coisa bem mais importante para resolver do que tirar uma fotografía para nosso currículo. Consciente de que estava quebrando a promessa que fizera ao Sérgio, levei todo mundo para um canto e expliquei a situacao. Todos ficaram muito preocupados -sobretudo a Katy, que nem de longe imaginava que algo assim estava acontecendo com seu irmao- e decidimos pensar juntos numa solucao, mas nada que desse na cara, para que o Sérgio nao desconfiasse que eu havia traído a sua confianca.
-Mas foi por uma boa causa.- me consolou Thiago ao ver a minha expressao de culpa.
Ficamos um bom tempo sentados naquele canto cogitando todo tipo de projetos e saídas, enquanto a festa rolava, mas dali a pouco a nossa presenca foi requerida para a eleicao das primeiras finalistas ao papel de noiva e tivemos que adiar as nossas deliberacoes até o final da festa. Ficamos de nos encontrar numa das barracas para continuar a conversa e em seguida fomos tomar os nossos lugares na mesa do júri. Eu fiquei rodando por aí, conferindo se tudo estava a contento, quando de repente vi, sentada na barraca da pescaria e rodeada por uma dúzia de criancas que se acotovelavam para pegar uma das varas, uma moca pequena e franzina, de cabelos ruivos penteados em duas grossas trancas, vestido com flores amarelas e verdes e umas sardas pintadas nas bochechas. Nunca a vira antes, jamais comparecera a nenhuma das reunioes que havíamos convocado e nem participara da confeccao de enfeites, pratos ou fantasias. De longe parecia tao crianca quanto a turma que tomava conta da sua barraca, e de vez em quando atirava um olhrar de desamparo e aflicao para as pessoas que dancavam, comiam e se divertiam, como que pedindo socorro, mas ninguém reparava nela. Por momentos parecia que iria naufragar em meio àquela maré de criancas gritando, pulando e brigando para pegar os prêmios. Ela tentava impor um pouco de ordem na garotada batendo palmas e afastando-os para que nao brigassem, mas a sua voz mal se ouvia... Intrigada, fiquei a observá-la de longe, perguntando-me quem seria e como tinha ido parar naquela barraca. A quem teria ocorrido a ideia de que ela teria autoridade suficiente para lidar com aquele bolo de criancas afobadas e gritonas?, me perguntei, sentindo pena da sua situacao, que parecia ficar mais desesperadora a cada minuto... Como era meu dever de organizadora evitar este tipo de atrito, decidi ir até lá e dar-lhe uma mao, pois já estava vendo as lágrimas assomarem aos seus grandes olhos verdes.
-Vamos ver, vamos ver, criancada!- exclamei com uma voz alta e grossa, para impressionar as feras -O que está rolando aqui?
As criancas pararam de gritar e pular e se viraram para mim, sobressaltadas. A moca ruiva olhou para mim com a expressao de quem vê um anjo aparecer às tres da tarde em plena praca pública, soltou um imenso suspiro de gratidao e limpou disfarcadamente as lágrimas.
-Eu quero uma vara!- gritou um menino gordo e birrento, com um bigode preto todo torto pintado sobre a boca.
-Eu cheguei primeiro!- berrou um outro, empurrando-o para colocar-se na sua frente. Este estava todo suado e as sardas pintadas nas suas bochechas tinham virado uma mancha avermelhada que avancava até as orelhas.
-Isso nao é verdade!...- interveio uma menina ostentanto um chapéu cheio de flores e com duas trancas de nylon pretas cosoturadas nele -Eles furaram a fila, tía!- e todas as outras criancas aprontaram um berreiro concordando com a coleguinha.
-Muito bem, muito bem! Calma aí, nao vamos chegar a lugar nenhum com esta bagunca!- exclamei, batendo palmas para fazê-los calar -Vamos organizar a fila de novo e ninguém... Ninguém, eu disse!- repeti com voz de trovao e olhos faiscantes diretamente pregados nos dois meninos causadores da confusao -Ninguém vai furar a fila.
Num instante, as criancas formaram uma fila bem comportada e silenciosa, lancando-me de vez em quando umas olhadelas de puro respeito e contricao que me fizeram sorrir entre dentes. Dominado o motim daquela irrequieta tripulacao, peguei um banquinho e sentei ao lado da moca ruiva, que também me olhava com profunda admiracao e respeito.
-Que alívio!...- comentou, sorrindo -Se nao fosse você chegar, eu nao sei o que teria feito!
-Provavelmente teria saído fugindo ou engolido todas as varas de pescar.- lhe respondi, sentindo que tinha ganho a sua confianca -Você é daqui?- inquiri em seguida.
-Acabei de chegar dos Estados Unidos. Estava fazendo intercâmbio- me respondeu ela, já relaxada.
-Entao nao está muito enturmada ainda, nao é mesmo?- indaguei, comecando a esbocar meu plano de ataque.
-Nao, nao conheco quase ninguém. Tem muita gente nova no bairro, mas mesmo assim quis participar da festa. Lá nos Estados Unidos nao tem nada assim.
-É, só no Brasil para festar tanto!... Mas agora tem que recuperar o tempo perdido!
Ambas rimos e continuamos conversando enquanto as criancas, agora com menos bagunca e gritaria, disputavam os prêmios. A moca chamava-se Heloisa e era a filha mais nova de uma das moradoras da rua, dona Helena. Ficara três anos fora aperfeicoando seu inglês e voltara havia duas semanas para retomar seus estudos e a sua vida aqui, mas ainda estava com um pouco de dificuldade para se adaptar, sobretudo com o clima. Tinha dezessete anos e, o mais importante, nenhum namorado ou paquera. Ainda nao tinha tido oportunidade de ir a nenhuma festa e a maioria dos seus programas era em família, pois os pais e irmaos queriam matar a saudade com todo tipo de mimos, passeios, visitas a parentes e longas conversas na varanda ou na praca do bairro. Me confessou que às vezes se sentia meio sufocada com tanta atencao, mas eu lhe disse que isso era normal. A sua família queria aproveitar a sua presenca antes que ela encontrasse novos amigos e comecasse a ficar menos tempo em casa e mais no shopping, na balada ou na casa de colegas.
-Mas desse jeito nunca vou conhecer ninguém!- reclamou, impaciente -Eles estao o tempo todo no meu pé!
-Calma, que isso passa, Helô- ri eu, divertida com a sua aflicao -Dê um tempo a eles, seja paciente.
Suspirando com resignacao, ela concordou. Entao eu disse que precisava circular por aí para verificar se tudo estava correndo bem e saí da barraca, prometendo voltar assim que pudesse. Na verdade, eu queria era encontrar meus amigos para contar-lhes do meu pequeno e precioso achado, pois o plano que comecara a bolar no momento em que vi a Heloísa, já estava completo. Nao podia falhar, ela era perfeita demais.
Foi assim que fizemos aquela loucura inesquecível e que terminou da forma menos esperada. O Robson e o Samuel foram procurar o Sérgio para pedir-lhe que fosse até a casa da Katy buscar algumas coisas que comecavam a faltar na festa: sacos de pipoca e acúcar para caramelizar as macas do amor. Demoraram um pouco a convencê-lo, pois ele alegou que nao formava parte da turma organizadora e portanto nao tinha por quê ficar correndo atrás do que quer que fosse, mas o Robson e o Samuel acabaram por quebrar a sua resistência prometendo-lhe uma pequena "ajuda de custo" para a compra do seu novo aparelho de som... Quando contaram para nós sobre aquele suborno descarado alguns reclamaram, pois teriam de tirar dos lucros do trabalho para cumprir aquele acordo, mas eu os lembrei do nosso objetivo, que era bem mais importante do que perder algumas notas de dez e cinqüenta.
-Gente, o que é isso?- os repreendi -É o nosso amigo Sérgio! Ou já se esqueceram? Vamos ter muitas outras festas para recuperar o dinheiro, as nao vamos ter outro amigo como ele!
Entao todos pararam de reclamar, envergonhados, e decidiram continuar com o plano.
Eu e a Jussara fomos até a barraca da Heloísa e eu a chamei com a desculpa de que precisava de ajuda para pegar o caixote de macas da despensa da casa da Katy. Ela me olhou meio esquisito, pois deve ter percebido que a Jussara, que estava do meu lado, era bem mais forte do que ela e provavelmente se perguntou por que nao pedia a ela para me ajudar, mas como se sentia em dívida comigo pelo incidente com as criancas, se prestou de bom grau a me acompanhar. Deixamos a Jussara em seu lugar, certas de que diante da sua imponência a garotada nao ousaria baguncar, furar a fila ou tentar pegar os prêmios sem a vara, e fomos à casa da Katy.
-Os caixotes estao na despensa, Helô, vai na frente que eu vou perguntar para a mae da Katy de quantos está precisando.- disse eu, sorrindo com a maior cara de pau e rezando para que os meninos tivessem levado o Sérgio até lá e ele já estivesse mergulhado entre os pacotes de acúcar e os saquinhos de pipoca -É só virar por aquele corredor, sair na área e você vai dar de cara com a despensa.
Inocente das nossas armacoes e esperancas, Heloísa obedeceu com seu belo sorriso e se dirigiu até o quartinho que eu havia indicado, abriu a porta e entrou. Imediatamente, eu corri até lá e, sem que ela percebesse, fechei a porta muito devagar, torcendo para que ela nao rangesse, puxei a chave do meu bolso e tranquei os dois lá dentro sem o menor remorso.
A verdade é que nenhum de nós sabe até hoje o que foi que aconteceu dentro da despensa naquela noite. O Sérgio e a Helô nunca quiseram nos contar, para nos castigar pela nossa armacao, porém todos concluímos que aquele encontro forcado devia ter sido nao só planejado por nós, mas também por alguém lá em cima que estava com a mesma idéia na cabeca, porque quando fomos abrir a porta do quarto lá pelas quatro da madrugada, quando a festa já estava no fim, ambos saíram de lá de maos dadas e um sorriso bobo no rostro e nem quiseram saber das nossas explicacoes estapafúrdias para semelhante "acidente"... Simplesmente foram embora conversando e rindo como se aquilo tivesse sido a coisa mais normal do mundo. Todos ficamos pasmos, pois estávamos preparados para um ataque de fúria, lágrimas, recriminacoes e até algum soco, mas nao para aquela cena de filme romántico!
-Pôxa!...- exclamou a Katy, de olhos arregalados - Que sucesso!... Do jeito que o Sérgio é esquentado, podia ter acontecido qualquer coisa, e ao invés disso... Olha eles lá! Nao estou nem acreditando, galera!- entao, virou-se para nós e com voz emocionada acrescentoou: -Nao sei como agradecer, gente... Vocês foram demais. Confesso que nao acreditei que um plano tao maluco fosse dar certo, mas parece que o universo também estava conspirando para juntar esses dois solitários.
-O que tem que acontecer sempre acontece.- sentenciou Tereza, com seu costumeiro ar de pitonisa, e todos rimos.
-Bom, galera, eu acho que agora sim é hora de tirarmos aquela foto!- exclamei eu -Esta festa foi realmente um sucesso!
-A melhor de todas!- concordou Samuel -Vai buscar a câmera!
Entao tiramos esta foto que está em meu álbum agora, com toda a turma na área da casa da Katy, que já nao é mais azul nem tem telhado de eternite, mas conserva as nossas lembrancas mais queridas. Vejo os rostos dos meus amigos: o André com a namorada, a Júlia, a Jussara e seu sorriso de gato, o Samuel fazendo chifrinho na cabeca do Rogério, que sempre aparecia tao sério nas fotos, a Katy de bracos abertos e rindo, o Robson com as maos no bolso, apoiado no muro com aquele sorriso meio tímido e o cabelo na testa... Lembro das suas vozes, dos seus gestos, da alegria daquela noite muito louca, do cheiro de quentao e de pipoca, da música caipira ecoando na rua iluminada pelos baloes e cruzada por centenas de bandeirinhas coloridas... O Sérgio e a Heloísa nao aparecem nesta foto, mas nao porque estavam zangados com a gente... Deles eu tenho uma outra foto: ela com seu vestido branco, o véu rendado e a coroa de flores amarelas enfeitando seus cabelos ruivos penteados num elegante coque e o Sérgio muito elegante com o terno cinza e flor amarela na lapela, cabelos impecavelmente ajeitados e a alianca brilhando no dedo anular esquerdo. Outra foto que tenho é a deles com os dois filhos, o Samuel e a Liza. Ele, gordinho e bochechudo, de cabelos ruivos encaracolados e enormes olhos verdes e ela, um bebê ainda, com uma touquinha branca destacando seus cabelos pretos e a maozinha estendida para a câmera, como se quisesse pegá-la. O sorriso é o mesmo do Sérgio...