segunda-feira, 1 de maio de 2017

"Outono inspirador"

    Hoje já nao está aquele céu azul de ontem, mas o sol aquece agradávelmente nossos ossos, entao a inspiracao continua viva e bem disposta. Por isso, como prometi ontem, aqui vao dois contos novos. Espero que aproveitem o feriado para sentar-se e lê-los, e que curtam muito.




                                                             O PINTOR



Era a primeira coisa que o Joaquim via ao abrir os olhos cada manha e também a última quando os fechava à noite: o rosto da Emília. A conhecia fazia anos, era uma das garotas do coro da banda na qual ele tocava o violao os fins de semana. O resto dos dias, ia no passéio Huérfanos e pintava. Tinha seu lugar do lado de um prédio público, um cantinho sombreado, espacoso e perto dos banheiros púbicos, que ele mantinha escrupulosamente limpo... Era um artista eclético, pois fazia de tudo um pouco: cavalos,  bailarinas, paisagens rurais e urbanos, vasos de flor, abstratos... Já tinha seus fregueses e sempre tinha gente parando em seu lugar para admirar e comprar seus quadros. O que ninguém percebia era que todas as mulheres que ele pintava -bailarinas, fadas, parisienses em ruas melancólicas, provocantes musas cobertas com tecidos de seda- tinham a mesma cara: a da Emília... Todo fim de semana era aquela tortura. Subir no palco e tentar se concentrar na música ao invés de ficar embelezado contemplando a beleza da garota, lutando para criar coragem e aproximar-se dela para lhe declarar seu amor... Nao conseguia. Todas as vezes parecia que o coracao ia pular de seu peito, as pernas fraquejavam, a boca secava. Entao, a olhava de longe, a acariciava com cada suspiro, a desejava com cada acorde, a abracava com as cordas do seu velho violao... mas nao se aproximava dela.
    Entao, a pintava. E seu amor crescia com cada pincelada e lhe doía a alma cada vez que alguém comprava um quadro e o levava embora, pois a sua amada estaria na casa de um outro e nao na dele...
    Desconsolado e com uma inspiracao interminável e frustrada, sabia que muita gente possuia algo de Emília, menos ele.




                                                   A RAJADA DE VENTO


    O prédio estava clausurado fazia um par de anos, as persianas de metal abaixadas, cheias de pixacoes e terra, urina de cachorros e bêbados, a lajota vermelha que aparecia embaixo delas coberta por uma grossa camada de barro, insetos mortos, restos de comida e bosta de pomba. A construcao estava na justica já fazia um tempo porque um grupo de defensores do património histórico tinham interposto uma demanda para tentar salvar o prédio ao lado, que era uma pequena e decadente obra de arte de paredes vermelhas e enfeites brancos que, infelizmente, por dentro estava totalmente em ruínas, feito uma casca de ovo vazía prestes a se quebrar.
    María passava todo día diante daquele prédio e lamentava a sua decadência, pois realmente parecia ter vivido dias de glória, quando o bairro tinha um outro status... Mas, bom, nestes tempos, o único que as construtoras queriam era erguer as suas torres de mil apartamentos de 50 metros quadrados e nao estavam nem aí se para isto tinham que demoler verdadeiras obras de arte arquitetónicas, relíquias histórias e bairros inteiros que, se fossem reformados e bem cuidados, poderiam transformar-se em belos roteiros turísticos. Entao, Maria passava diante do prédio condenado e só podia soltar um suspiro de disconformidade...
    Até que um dia, na parte em que estavam as persianas metálicas, percebeu que entre a abertura no fim da persiana e o chao havia uma estreita fresta pela qual passava uma rajada de vento e que, nesse espaco, tinha ficado presa uma pena de pomba. Era branca, vaporosa, já meio suja, e estava prisioneira numa mistura de teias de aranha, bolas de pelo e terra. Porém, cada vez que o vento soprava, ela se esticava pra fora, tentando libertar-se. Quem sabe sonhava com voltar para a sua dona e se elevar acima das torres iguais, as antenas e gruas que ocupavam toda a paisagem. Talvez desejava passear por algum parque, rolar pelas calcadas, brincalhona, escalar pelo tronco de uma árvore e contemplar o mundo entre as suas folhas.
    Maria ficou olhando para a pena por um momento, sorrindo, conquistada pelo seu empenho, mas logo continuou seu caminho. E no dia seguinte, ali estava a peninha danzando na rajada de vento, e no outro, e no seguinte... María estava realmente admirada pela persistência e coragem daquela modesta pena branca. "Tomara eu tivesse essa forca e esse otimismo, essa coragem e essa perseveranca em minha vida", pensou, sentindo-se repentinamente animada. Andava com alguns problemas, porém, ver aquela peninha se esforcando tanto todo dia para aproveitar as rajadas de vento e ser livre, tocou seu coracao. Dediciu imitá-la entao. E continuou seu caminho, respirando fundo, sorrindo e com o corpo ereto e a alma fortalecida.
    Quando passou no dia seguinte, a peninha já nao estava mais.

domingo, 2 de abril de 2017

De novo os fins de semana...

    E ainda aproveitando o sol eslêndido, e o ventinho, sento para postar o conto, como prometi a vocês, voltando às publicacoes nos fins de semana.




                                                       BRIGA DE CAES


    Se conheceram numa briga de caes. Os deles mesmos: A "Buba" e a "Cata", que se cruzaram na rua e imediatamente se odiaram. A "Buba", uma cadelinha já velhinha, de raca, longos pêlos marrom e uma charmosa franjinha. A "Cata" uma vira-latinha com um olho preto e o outro branco, patinhas curtas e pêlo despenteado. O dono da "Buba", um gringo de olhinhos azuis e uma barba já branca, pele pálida e um chapeuzinho de explorador, bermuda e camisa xadrez. A dona da "Cata", uma senhora esbelta e sorridente, de cabelo curtinho e passos decididos... E entre afastar as cadelas e segurá-las para que nao matassem uma à outra, cruzaram um silencioso cumprimento. Alguns dias se encontravam e sorriam mutuamente, puxando com forca a coleira de seus animais. Às vezes se passavam vários dias sem se ver, porém, aos poucos, foram aumentando os sorrisos e acrescentaram algumas palavras, mas como ele era gringo e a dona da "Cata" nao falava muito inglês, a conversa nao durava muito, além de que as cadelas logo comecavam a latir e a querer se jogar uma em cima da outra. Porém, parece que o gringo comecou a fazer algum tipo de curso e de repente falava com a senhora num espanhol bem decente e ela tentava responder num inglês bastante aceitável.
    Assim, dia após dia, em cada encontro foram se conhecendo melhor, perguntando enderecos entre latidos, grunhidos e embestidas de suas mascotas, trocaram telefones e após mais alguns meses, de repente pareceu que as cadelas cansaram de latir e querer se matar e passaram somente a se oliscar de longe. Isso era o máximo que podiam esperar delas. No fim das contas, eram totalmente diferentes, assim como seus donos, entao os obrigavam a manter distância sob a ameaca de um escândalo daqueles.
    Dois anos se passaram e o gringo e a senhora continuam a se falar de longe, mesmo se o homem morre de vontade de convidá-la para um café e ela pinta os lábios e veste uma roupa bonita por se encontra com ele... Mas as cadelas continúam a se odiar e assim, o homem nao consegue se aproximar da senhora para invitá-la pra sair. Parece que os animais impuseram uma espécie de limite físico e seus donos sentem-se obrigados a respeitá-lo... De repente, quando uma das cadelas morrer...

domingo, 19 de fevereiro de 2017

"O encontro"

    E aqui vai o conto deste fim de semana. O próximo acho que será publicado em algum dia da semana, mas nao se preocupem, estará ali para que o curtam!...



                                                             O ENCONTRO



    Eram quatro esquinas. Em uma tinha um restaurante chinês. Na outra um prédio público. Na terceira um mercado e na quarta um restaurante de comida peruana... Gente apressada, séria, alguns com seus uniformes do escritório, outros levando sacolas, caixas, carrinhos. Alguns aproveitando o fim da tarde para uma cervejinha com os colegas, ou para fazer compras de última hora. Os motoristas de ônibus e carros, impacientes, buzinando como se o mundo fosse acabar, achando que o cara na sua frente estava se divertindo naquele taco e nao queria avancar para ir logo pra casa. As pessoas se esquivando na calcada lotada, parecendo um río revolto e barulhento: o caos da cidade numa sexta-feira às seis da tarde.
    E de pronto, desde uma das esquinas, um homem soltou um grito e comecou a adejar com os bracos.
 -Coruja!... Coruja!- gritava, fazendo com que alguns transeúntes virassem brevemente a cabeca para olhá-lo com curiosidade e desconcerto.
    E na esquina oposta, um outro sujeito, com um chapéu de feltro, jaquetinha curta e botas, levantou de uma mesa que estava na calcada, diante de uma lanchonete, e também gritou:
    -Pataco!... Aquí, Pataco!...- e tirou o chapéu, comecando a mexê-lo pra cá y pra lá, quase acertando os que passavam, que, fazendo cara féia, o esquivavam.
    Entao, da terceira esquina, saindo do restaurante peruano, apareceu um outro homem, gordo e de grandes bigodes cinzentos, que olhou para o outro lado, fez uma cara de alegre surpresa e, abrindo os bracos, comecou a correr em direcao da calcada da frente gritando:
    -Pataco!... Coruja!... Rapazes, mas o que estao fazendo por aqui?- e atravessou a rua, rindo estrondosamente, ao mesmo tempo que os outros dois o faziam.
    Encontraram-se na quarta esquina, onde bem nesse instante saia do mercado um senhor de cabelos grisalhos carregando um monte de sacolas. Ao esbarrar com eles parou bruscamente, assim como os outros três. Se entreolharam, abrindo idênticos sorrisos de sincera alegría e emocao, meio incrêdulos, e finalmente se aproximaram para se abracarem efusivamente.
    -Mas, como é possível, rapaziada?... Quando chegaram na cidade?...
    -Eu cheguei ontem e vim ver as novidades.
    -Eu trouxe a minha sogra, que tinha médico.
    -Eu vim comprar uma dessas porcarias tecnológicas pro meu neto... Vocês sabem que hoje em día essa garotada só gosta dessas coisas...
    E diante desta tremenda casualidade, os quatro decidiram que tinham que comemorar e foram almocar juntos. Pois coincidências feito esta entre amigos que moram longe nao acontecem todo día.
    

domingo, 22 de janeiro de 2017

"Agora sim!

    Acho que agora sim a coisa engrenou! Já tenho uns cinco ou seis contos escritos, prontos para publicar, e as idéias nao param de vir à minha cabeca, apesar da preocupacao com todo este assunto dos incêndios, a fumaca, o pó das cinzas em todo lugar e o calor insuportável que estamos tendo que agüentar por causa deles...



                                                          AVANCAR


    Ali estava a sacolinha de nylon vermelha, esmagada contra a grade quadriculada do corredor do museu pela forca do vento. De repente, ele parava e ela sentia que sairia daquela armadilha e poderia avancar um pouco, porém, ninguém percebia a sua presenca, que lutava para se libertar do duro metal preto. Nao tinha nada em contra do vento. Geralmente era seu amigo e a levava até lugares inesperados, lindos, misteriosos, cheirosos, com música e pássaros. Adorava quando a pegava e a jogava para cima, por entre os prédios e antenas; cruzava com pombas, gaivotas, sabiás e até gavioes. Passava veloz e dancante na frente das sacadas onde se secava a roupa, floresciam os vasos, os cachorros cochilavam na sombra e as caixas se empilhavam junto com as bicicletas, mesinhas, colchoes e, no natal, as luzes, enfeites e guirlandas... Sim, o vento era seu amigo, tinha lhe ensinado a dancar, mas hoje estava de mau humor e insistia em mantê-la no chao, espremida contra aquela grade, brincando cruelmente com a sua sede de avancar, de conhecer, de se elevar e se sentir livre, à salvo dos garis e os caminhoes de lixo... O que fazer entao?Ter paciência e entender que ele estava tendo um mal dia?... O problema era que, se nao a deixava ir embora logo, alguém poderia pegá-la e jogá-la no lixo e aí seria o fim de tudo.
    E de repente veio um garoto. Um menino de cabelo preto e olhos puxados que, ao vê-la, abriu um sorriso e se aproximou pulando. Parecia encantado com ela. Talvez pela sua cor vermelha brilhante... A sacolinha aguardou, expectante... O que iria fazer aquele garotinho?... Ele chegou junto dela e de um puxao a desenroscou da grade, ficou olhando pra ela por alguns instantes e de repente pareceu ter uma idéia. A botou aberta contra o vento, deixou que se enchesse e, abrindo muito a boca, com os olhinhos brilhantes, a soltou... A sacolinha saiu voando, veloz, livre, se contorcendo de pura felicidade. E de cima olhou para o menino, que pulava e ria, revoando na calcada cheia de gente, encantado com a sua danca louca por entre os prédios, e de pronto pensou: "Ele nao é tao diferente de mim"...




                                            IGUAL AOS OUTROS


    Andava pelo bairro sem rumo, sujo e fedido, falando sozinho, com o olhar sempre perdido em algum lugar indefinido. Às vezes passava o dia todo sentado numa escadaria ou na calcada, encostado numa parede, discursando e comendo o que conseguia nas lanchonetes, padarias e restaurantes das redondezas. Os funcionários lhe davam pao, ou algum refrigerante, uns restos de comida chinesa, de frango frito ou batatas, e ele comia tudo. "Estômago de avestruz", o apelidaram, mas isto nao queria dizer que de vez em quando nao andasse com as calcas todas cagadas... Ninguém falava com ele ou o cumprimentava. Quando aparecia, simplesmente, os empregados corriam para pegar uma sacola de papel ou um prato de plástico, jogavam uns restos dentro e entregavam para ele, segurando a respiracao para nao sentir ânsias pelo fedor horroroso do homem. Nao era ninguém. Nao era nada além de um desgosto repulsivo que passeava por aí sujando e assustando às criancas. Inverno e verao com a mesma roupa: a parca imensa e dura de sujeira, as calcas daquela cor indefinida, rígidas de mijo e fezes, sapatos quase podres, se desfazendo, o cabelo comprido e despenteado, já meio branco, barbudo, dentes pretos, unhas compridas e quebradas... Um desastre ambulante do qual todos queriam distância.
    Até que um dia, alguém venceu todas estas barreiras e o agarrou, cortou-lhe o cabelo, o barbeou, lhe deu um banho, botou nele roupa e sapatos novos, cortou as unhas e até lhe jogou umas gotas de colônia. Sem alarde, o devolveu à rua e ali estava o mendigo, transformado, caminhando entre a gente, irreconhecível, igualzinho a um tipo decente e sao. E agora as pessoas, sem reconhecer nele o sujeito asqueroso e assustador que vagueava pelo bairro, o cumprimentavam quando aparecia na porta dos restaurantes e lanchonetes, se aproximavam e perguntavam o que desejava, batiam papo com ele relaxados, confiados, ficavam ao seu lado sem melindres... Porque era como os outros.
    E seu benfeitor olhava de longe e ria.