quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Silvestre - parte VII

Aproveitando que hoje só irei trabalhar no fim da tarde e que a empregada veio para repor o dia que estava me devendo, vou postear mais uma parte desta história. Quem sabe até consiga chegar até o final!... Hoje os funcionários da fundação terão  seu dia de confraternização numa chácara perto da cidade, mas não sei se vão mesmo aproveitá-lo porque a metereologia anunciou um  dia frio e chuvoso, então acho que vão ficar só olhando para a piscina e devorando a carne do churrasco embaixo da cobertura do quintal. Bom, eu não sou muito -nada, para falar a verdade- de comemorações com colegas de trabalho. A gente se dá super bem, mas não sei se eu agüentaria ficar um dia inteiro com eles na onda divertimento. Eu sou meio parada, contemplativa, e detesto brincadeiras de mal gosto -que costumam acontecer neste tipo de festa- e eles estão a fim de se esbaldar e botar pra fora tudo que seguraram ao longo do ano, inclusive algumas verdades - ditas em tom de chacota, é claro- com respeito aos nossos chefes... Mas acho que pode ser inofensivo, porque vão ter bebido tanta cerveja e comido tanta carne que nem vão entender direito do que estão falando, então... Fora isso, mesmo com festa e tudo, eu vou ter de apresentar na praça hoje à noite, a não ser que chova. Ontem estava um frio inacreditável, nem parecia dezembro! Todo mundo veio de agasalho, cachecol e parca e eu quase congelei enquanto meus alunos apresentavam. Ainda bem que acabou valendo a pena, porque pegamos as pessoas saindo da missa, então tivemos um público razoável e as crianças continúam encantadas com os personagens... Bom, pelo menos isso, porque hoje acordei totalmente quebrada por conta do frio! Então, estou sentada aqui com o aquecedor do lado, porque continua frio e nublado, ameaçando chover e com um ventinho para lá de gelado. Acho que hoje vou bem mais agasalhada para a praça porque não pretendo acordar amanhã que nem hoje... Bom, pelo menos vou poder aproveitar a tarde toda para descansar ou escrever mais um pouco, então, mãos à obra!


                                                          "Laetentur caeli; et exulter terra
                                                          conmoveatur maré et plenitudo eius:
                                                          grandebunt campi, et omnia
                                                          quas in eis sunt..."
    -Mas quanta soberba, infeliz!...- murmurou frei Silvestre com a voz sufocada, resistindo o turbilhão que queria engoli-lo.
    -Me perdoa, padre... Me perdoa se te deixei zangado.- disse então o mendigo, rompendo de pronto o feitiço ao abaixar a cabeça com ar contrito, diminuindo, transformando-se agora só nisso: um esmoleiro -A minha soberba é grande, é verdade, padre... Me perdoa, sei que és um homem muito ocupado em teus deveres.- acrescentou tornando a olhar para ele, cheios de dourada claridade e compreensão seus olhos, caindo feito uma tocha acessa nas cinzas agonizantes de seu coração.
    Frei Silvestre se empertigou, piscando.
    -Como sabes tu...?- exclamou, recuando, e num alento de medo acrescentou -Por acaso te conheço?...
    -O que sabem os homens das coisas de Deus?... Eu não sei nada, só que vim.- lhe respondeu o mendigo abatendo com súbito cansaço a cabeça castanha.
    Frei Silvestre cerrou as mandíbulas. De repente, aquela poderia ser a resposta para as suas dúvidas, saída da boca ressequida e terrosa deste homem transparente.
    -Vim caminhando sem parar desde Nocera, de pronto avistei vosso mosteiro e bati na porta. Abriu o bom irmão porteiro, teve compaixão de mim e me deixou entrar.... Por favor, não brigues com ele; só fez o que Deus ditou ao seu coração.
     Frei Silvestre resfolegou, impaciente, e maldisse o irmão porteiro, que era o culpado de tudo isto, e que não passava de um velho bobo e sentimental a quem qualquer um podia enganar com umas poucas palavras bem recitadas e um olhar choroso. Mas o coitado não servia já para nenhum outro trabalho, pois estava velho demais e esquecia as coisas, ou então cansava-se facilmente e dormia; sofria de dores nos ossos e estava quase cego, por isso tinham lhe dado este serviço, no qual não havia muito para fazer, já que raramente recebiam visita, e assim o ancião frade podia sentar-se e cochilar no catre ou aquecer-se junto do forninho de barro. Além disso, aquilo o fazia sentir-se útil e importante ao invés de uma carga para a comunidade.
    Porém, com certeza aconteceu que este sem-vergonha tinha percebido a fraqueza do velho e aproveitou a chance para enrolá-lo com seu palavreado esperto e assim enfiar-se no mosteiro para encher a pança e dormir ao sol até fartar-se... O peito de frei Silvestre se estufou, enfurecido... Mas a ele não podia enganar. Ele não era velho nem se comovia com facilidade. Conhecia muito bem os tipos da sua laia; tinha-os visto centenas de vezes nas praças e mercados, nas portas das igrejas e conventos, ao longo dos caminhos, nas pontes, nos saguães das casas dos ricos e dos palácios, sempre esfomeados e em farrapos, com a mão estendida feito uma garra para apanhar as moedas e os pedaços de pão, sujos e espertos, enganando as pessoas de boa fé para encher seus insaciáveis estômagos e bolsos, contando uma e outra vez suas velhas e tristes histórias com a voz lacrimosa e os olhos úmidos com seu fácil choro, correndo de um lugar pra outro feito a peste, mostrando a sua asquerosa miséria e rindo quando ninguém estava olhando. Eram todos uns preguiçosos astutos e  pidões que se burlavam descaradamente do mundo e a sua caridade.
    O monge abandonou suas desagradáveis relfexões e olhou de novo para este andrajoso e famélico mentiroso que tentava iludi-lo com seus contos e frases bonitas, se bem tinha que admitir que era meio diferente dos outros. Este falava de Deus e as suas palavras eram estranhas e chegavam fundo em sua alma, causando-lhe uma indefinível inquietude... Mas era um safado, um ator, um pidão, o que mais?... E de pronto lhe pareceu repulsivo, desprezível, grosseiro, indigno de qualquer misericórdia... O coração de frei SiIvestre transbordava de cólera e desdém quando se dirigiu a ele, e a sua voz soou áspera e rude ao arrastar-se fora da sua garganta.
    -Onde já se viu descaramento como o teu...- cuspiu, fazendo um esgar para segurar a sua raiva -Como ousas me falar de Deus, tu a mim?... Afasta-te do meu caminho, sei muito bem quem és e o que procuras neste lugar.
    O mendigo ergueu a cabeça ao escutar suas últimas palavras, sacudido seu corpo enxuto e pequeno por um repentino estremecimento, e olhou para ele intensamente, empalidecendo. Pareceu que algo terrível se abatera sobre ele, e tornou a tremer. Em sua face emaciada pintou-se uma súbita e mortal angústia e um doloroso  cansaço, como se fosse desabar aos pés de frei Silvestre. Instintivamente, este recuou e se ergueu, desconcertado por aquela repentina mudança.
    -Tu sabes?...- murmurou o mendigo, e levantou uma mão em sua direção -E não quererias, por caridade, dizer-me, padre?...- mas frei Silvestre não lhe respondeu e ele abaixou a cabeça; a sua voz tornou-se quase inaudível -Eu só sei que não desejo ser ninguém, nem ter nada.- tornou a olhar para ele e juntou as mãos no peito, crispadas e pálidas, meio trêmulas -Por acaso já não fiz o bastante para esquecer de mim mesmo? Ainda sou alguém?... Me diz, padre, o que preciso fazer? Onde devo me perder paa encontrar Deus? Tu deves saber, padre.- e aguardou, sem deixar de olhar para ele com aquela intensa e perturbadora claridade que o atravessava, que enxergava além, para algo que se refletia em suas pupilas como uma labareda que abrasava a pele áspera e ressecada de seu rosto ingrato.
    Frei Silvestre virou as costas bruscamente, apertando os lábios, e sentiu que uma garra estrangulava seu coração. Pois, não era aquela a sua própria pergunta, dirigida noite e dia ao Criador, a pergunta sem resposta? Não era este homem o espelho da sua própria luta, do seu próprio caminho e da sua mesma esperança?... Mas este homem era algo mais. Era uma mistura de fracasso e triunfo, de procura e encontro, de ignorância e entendimento, de céu e terra. Era uma parte humana e mortal e, mesmo assim, podia ver em seus olhos outra parte, distante, luminosa, perfeita, inatingível, pura... Que tipo de homem era este? Por que tinha vindo?...
    Frei Silvestre levou o punho ao peito e fechou os olhos com força. Franziu a testa e respirou fundo. Alguma coisa estava acontecendo ali, algo fora do seu controle, que bagunçava a sua existência dura e triste à procura da perfeição feito o vento bagunça e leva embora as folhas mortas. Parecia que seu corpo e a sua alma lutavam para separar-se e parti-lo ao meio. Algo lhe doía em algum profundo e distante lugar, algo clamava desde alí... Empertigou-se, tenso e dolorido, fazendo um imenso esforço, e despregou os lábios, tentando vencer a vertigem e a magia poderosa do homem.
    -A fé minha, eu te conheço bem, desgraçado.- murmurou sufocadamente, escutando a sua própria respiração contida e as batidas surdas de seu coração desbocado.
                                                      "Afferte Domino, pratriae gentium,
                                                      afferte Domino, gloriam et honorem:
                                                      afferte Domino gloriam nomini eius..."
 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Silvestre - parte VI

    E aproveitando esta amanhã ainda fresca e o alívio que o relaxante muscular que tomei ontem à noite está me proporcionando até agora, aqui vai mais uma parte desta história. Queria poder postá-la até o final de uma vez, para acabar com o suspense, mas estava vendo que ainda falta bastante, então, vão ter de se resignar e aguardar mais um pouco pelo final. De repente neste fim de semana que -até agora- tenho livre graças à apresentação da escola de ballet, na qual os alunos que estão nesta pequena peça de natal que estamos apresentando na praça estão participando, consigo terminar de postar este "conto-sem-fim!"...
    Então, e antes que algo inesperado me apareça, aqui vai a parte VI de "Silvestre". Já é uma dificuldade porque estou sendo obrigada a digitar mais devagar por causa da dor nos braços e nas mãos e por menos tempo do que desejaria, então, preciso aproveitar enquanto ela é suportável. E isso é agora!.


    E esse algo penetrou pelas portas fechadas, transpassou os altos muros, surgiu  da terra fresca e grávida, espalhou-se sobre o lugar todo feito um vento, envolvendo as coisas, detendo a sua marcha natural, separando-o do mundo conhecido para submergi-lo numa otra dimensão: a dimensão insondável de Deus. Algo como uma piedosa carícia aplacou os sons, as cores, os perfumes, as formas, feito uma silenciosa e invisível explosão, um olhar oniciente que assinalasse aquele lugar, aquele instante, àquele homem desapercebido que já nada esperava.
    Frei Silvestre passou veloz junto ao poço. Uma macieira florida o cobriu com a sua sombra. Seu velho hábito ondulou, envolto um súbito redemoinho de vento, e o pó dançou aos seus pés, apagando suas pegadas da vereda. Um raio de sol pousou nele, surgindo deslumbrante por trás da grande cruz de ferro que coroava a torre maior. As pombas alçaram vôo quando ele passou e as árvores sussurraram por cima da sua cabeça, espalhando seu aroma.
    E então, o viu.
    Primeiro não prestou realmente atenção nele, mesmo se passou do seu lado, pois ele não lhe dirigiu palavra alguma nem o tocou. Não, estava simplesmente sentado ali, no último dos bancos que flanqueavam a vereda, aquele que se abrigava sob a oliveira prateada.
    Porém, agora frei Silvestre se deteve. Mas não o fez abruptamente, como se tivesse visto o homem de repente, senão aos poucos, diminuindo o passo como se uma força misteriosa e irresistível o chamasse, sussurando em sua volta, como se algo tivesse sido tocado e despertado no profundo do seu secreto e adormecido interior. Uma estranha e poderosa vibração proveniente daquele banco roubou a sua atenção, seu impulso, seu pensamento... Até que, vencido por aquilo, acabou parando por completo e ficou parado ali, imóvel e desconcertado, como se tentasse resistir, a alguns metros da umbrosa porta da capela. As finas folhas do seu breviário aberto viraram desordenadamente, produzindo um leve crepitar.
                                            "Notum fecit Dominus
                                            salutare suum: in conspectu gentium
                                            Revelavit iustitia suam
                                            in ella mandavit Dominus
                                            misericordiam suam:
                                            et cante canticum eius..."
     O homem estava ali, atrás dele, ele sabia, quieto e calado, quase como se formasse parte de tudo e, no entanto, separado e único, tão real e presente que todo o resto parecia tornar-se confuso e distante... Frei Silvestre teve a impressão de que aquela silhueta que sequer podia definir enfiava-se nele profunda e repentinamente, como se pretendesse soltar raizes e, sem saber por quê, um calafrio o percorreu. Aquela imagem tinha sido como uma flecha disparada certeiramente em seu coração por uma mão sábia e forte, e de alguma forma que não conseguia compreender, havia sido ferido por ela.
    Finalmente, o monge empertigou-se devagar, erguendo a cabeça, retesando o corpo como se se preparasse para... Para quê?... Se virou, olhou para ele. Soube como era. Era um mendigo. Trajava farrapos, ia descalço e, com certeza, tinha fome... E também olhava para ele. Na face do monge pintou-se a incredulidade, uma faísca de receio, algo de decepção... Porém, no segundo seguinte sentiu-se devorado por aqueles olhos escuros que pareciam arder, acendendo toda a face e o ar em volta dela. Instintivamente recuou o corpo e seus dedos apertaram-se sobre a aveludadas páginas do seu breviário.
    -O que fazes aqui?- lhe perguntou rudemente, sem aproximar-se. Sentia-se de alguma forma agredido, exposto diante daquele homem.
    O mendigo não respondeu de imediato, nem fez movimento algum; não fez nada. Tão somente o contemplava com atenta placidez e confiança, como se soubesse desde sempre quem era ele, como se esperasse ser prontamente reconhecido, com uma pincelada de brilhante mansidão fulgurando em seu rostro magro e pálido, sulcado de pó e orvalho. As mãos, curiosamente delicadas, porém, sujas e cheias de machucados, descansavam no colo, uma sobre a outra, e em sua leveza, pareciam ser capazes de aliviar qualquer dor só fazendo um leve movimento, erguendo-se ou apontando. Seus pés, um junto fo outro sobre o musgo úmido das pedras, diziam ter percorrido todos os caminhos do mundo, do universo, do tempo e da dor, tão lastimosamente chagados apareciam, cobertos de terra, pateticamente frágeis, tão humildes e sofredores que inspiravam piedade e ternura. E seu rosto... Ah, esse rosto...
                                                       Haec dies fecit Dominus:
                                                       exultemus et laetemur in ea.
                                                       Benedictus qui venit in nomine Domini:
                                                       Deus Dominus, et illuxit nobis..."
    Apesar da doçura e quietude que a imagem daquele homem exalava, da afabilidade e singeleza do seu porte, da sua cinzenta e esfarrapada insignificância, aquela sensação de inquietude, de subterráneo perigo, de alguma coisa desprendendo-se dele e aproximando-se, ocasionando-lhe aquele incômodo receio, agigantou-se de um sopro no peito de frei Silvestre. Parecia que seu pesadelo estava prestes a atacá-lo novamente... Fez um gesto indefinível e contido, pois não entendia o motivo de semelhante e tão absurda contradição entre o que seus olhos viam e o que seu coração sentia. Não era por acaso uma mesma pessoa? Então, como era que deste jeito se disociava?... Esquadrinhou com mais atenção o desconcertante homem diante dele, tentando penetrar em seus pensamentos, adivinhar suas intenções para assim desarmá-lo de uma vez. Olhou intensamente para ele, tomado pela raiva, pelo medo, arranhando, cavucando... Porém, aquilo foi como enfiar as mãos na água. Transpassou-o num instante, sem que ele opusesse resistência, e nada achou além. Tocou fundo sem precisar mergulhar, porque o homem se mostraba tal e como era. Não ocultava nada, não trazia nada, nada reclamava. Era simplesmente, quem se encontrava ali.
    Então, o monge teve medo de que se tratasse de algum louco, um doido que não tinha compreendido as suas palavras, e já aborrecido por esta nova demora no cumprimento dos seus deveres e por aquela estúpida sensação de perigo que arranhava seu estômago, se dispunha a repeti-las, dando um profundo suspiro de paciência, quando o homem falou. E foi tanto o sobressalto do monge ao escutar a sua voz, que segurou o fôlego e quase deu um pulo.
    -O irmão porteiro me deixou entrar- expressou o homem em voz baixa, e o ar da manhã pareceu vibrar junto à sua boca.
    Por um momento, frei Silvestre ficou em estático silêncio, estupidamente supreso, acreditando reconhecer aquela voz -que talvez provinha de algum canto remoto e esquecido da sua memória. Seria alguém com quem cruzou em alguma das suas peregrinações pela cidade à procura de esmola?- e novamente o percorreu aquele inexplicável calafrio. Porém, em seguida se recompôs e disse a si mesmo que era impossível que alguma vez tivesse conhecido este homem, pois não passava de um mendigo, um esmoleiro, um qualquer ignorado pelo mundo.
    -Pois não devia tê-lo feito.- lhe replicou então, com agrura, fechando de um golpe seu breviário, chateado pela sua própria insegurança diante deste desgraçado -Por acaso não sabes que é proibido entrar aqui? Este é um lugar de oração, não de esmolas.
     Então, o mendigo se levantou, com um movimento que resultou imperceptível para os olhos do monge, e olhou para ele por um momento, envolvendo-o numa suave e cálida onda de luz, penetrando sem medo pelas suas pupilas para precipitar-se nas trevas de suas entranhas, diluindo-se no ar móvel e argentado.
    - Mas esmola também é uma prece.- lhe respondeu, sem deixar de olhar para ele, porém como se olhasse também para algo além.
    Frei Silvestre desviou os olhos, perturbado, sentindo que uma chicotada de gélido vento o açoitava, fazendo-o encolher. De repente quis ir embora, terminar a conversa, expulsá-lo do mosteiro, gritar com ele, empurrá-lo para afastá-lo do seu caminho, da sua vida, na qual parecia infiltrar-se e amarrar-se a cada segundo que passava de um jeito inflexível, definitivo, que ele não conseguia impedir. Desejou que este homem esquisito e perturbador sumisse das suas vistas, que ao estralar os dedos se esvanecesse na brisa e deixasse de amedrontá-lo desta maneira ridícula e humilhante. Sentia em sua presença algo ameaçador. Sentia que o espiava, que aguardava alguma coisa. Mas, que poderia esperar dele a não ser um pedaço de pão ou um copo d'água?...E, no entanto, ele aguardava, como aquele crucifixo em sua cela... E esse rosto, aquela face serena e segura que de algum jeito o machucava profundamente...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Silvestre - parte V

Faltando somente a última apresentação da escola de teatro da Fundação, já começo a me preparar para trabalhar em horários "civilizados" e a me despedir de ensaios, apresentações e surpresas do tipo: "Tem que montar um negócio para amanhã!"... Se supõe que à partir do dia 29 vou ficar mais cumprindo horário do que outra coisa -exceto talvez por algumas reuniões de planejamento de projetos para o ano que vem com a turma de adultos e umas aulas de butoh para uma amiga que está precisando- até o dia 20, em que sairemos em férias coletivas. Acho que o estresse vai diminuir bastante e vou ter mais tempo livre para retomar as minhas rutinas saudáveis de vida, como meditar, escrever, escutar música, brincar com as minhas cadelinhas e todas essas coisas que fui obrigada a deixar meio de lado por conta do excesso de trabalho. Na verdade, todos estamos extremamente cansados e fazendo mesmo um grande esforço para cumprir esta última maratona junto com a turma infanto-juvenil para que eles possam ter a sua apresentação de encerramento. Mas acho que os sacrifícios vão valer a pena, porque a peça está ficando mesmo boa. O público vai gostar, com certeza... Também no início de dezembro vou saber os resultados dos exames que fiz para tentar descobrir o motivo destas dores no corpo que andam me assolando já faz um par de mêses. Então, como vêem, muita coisa vai se resolver nas próximas duas semanas, e espero que com um saldo positivo.
    E aproveitando o frescor desta manhã -porque anda fazendo um calor de matar nestes últimos dias- e as minhas mãos ainda sem muita dor o cãibra, vou postar mais um pedaço desta história, que já está começando a parecer uma novela mexicana de tão comprida!...


    Sim, fugia. Corria do seu próprio coração, que batia enlouquecidamente atrás das suas costelas saltadas, cheio de inveja... Porque esta era a verdade. No fundo do seu ser, ali onde nem ele mesmo podia admitir, sentia uma inveja venenosa e inexpressável daqueles príncipes da corte do Senhor, que viviam e morriam no luxo e a ociocidade, rodeados de consideração e honrarias. Aqueles emissários celestiais cujas palavras eram lei, cujas breves e despreocupadas preces ascendían velozes ao céu e eram prestamente escutadas e atendidas. Esses divinos personagens que tinham o paraiso assegurado, sem importar se faziam algo para merecê-lo, pois lhes pertencia por direito próprio... Eram importantes demais como para que Deus os enviasse para o inferno. Porque eram eles, eram os prediletos, os eleitos, os afortunados, sempre da mão do Pai... Eram eles.
    Já frei Silvestre, tinha certeza de que Deus não o escutava, não importava quão alto chorasse ou suplicasse, nem as horas que ficasse ali tentando, com os joelhos intumescidos e feridos, os olhos inflamados  e a garganta dilacerada, ele estava completa e fatalmente certo  de que não o escutava. A Sua resposta era sempre o silêncio, o frio, a escuridão. O nada.
    -Meu Deus, tende misericórdia deste pecador...- murmurou em voz alta, juntando os dedos trêmulos embaixo do queixo. A sua voz era um alento de dor -Devolvei-me o calor... Devolvei-me a luz... Devolvei-me a fé, oh, meu Deus...- gemeu.
    Chorou em silêncio, sentindo que seu coração vencido e abandonado era feito um campo estéril, ressecado, queimado pelo sol recalcitrante da sua própria amargura e desilusão. Um campo que, apesar de todos seus esforços e  perseverança, na verdade nunca tinha sido semeado com a boa semente do Senhor, aquela que da fruto e alimenta. Um campo que nunca parecia estar suficientemente adubado e arado. E que talvez nunca estaria, pois a sua estação de fertilidade parecia ter passado.
    Mas, se ele tivesse sabido o que o aguardava, nada teria temido, porque após o último grito, triunfante, Deus lhe esperava de braços abertos.
    O sino da torre maior começou a badalar de pronto, quebrando o fantasmal silêncio do mundo e de seu próprio interior, chamando a maitines, e frei Silvestre se incorporou de um pulo, como se alguém o tivesse cutucado para trazê-lo de regresso. Ficou um momento imóvel, em pé junto do catre, tentando lembrar o significado daquele som profundo e sereno, cheio de majestade e melancolia. Sentia-se estranhamente insensível, como fora de si, e teve de fazer um esforço para voltar à realidade. Olhou em volta e piscou; apalpou o peito, as coxas, a face... Sim, era ele mesmo, e estava efetivamente ali, em sua cela dentro do mosteiro... Mas, o que tinha feito durante todo este tempo? Sonhar, meditar, rezar? Tinha tido alguma visão, ou quiçá dormia?...
    Os pássaros começaram a cantar, pularan pelos galhos, voaram pra o telhado. O monge esfregou os olhos com força, inclinou-se para apanhar seu breviário e foi até a porta. Parou ali. Correu a tranca e abriu devagar... Ficou quieto, apoiado no umbral da porta, olhando para a leve claridade que banhava o verde jardim. Uma rajada de fresca e perfumada brisa o acariciou. Era o mes de Abril, a primavera começava a florescer, cheia de cor e alegria, pintando os caminhos e campos, os trigais de douradas espigas, as ruas com vasos de flores que se abriam ao sol nas sacadas e janelas, as árvores de fresco e novo verde, os velhos muros de pedra, os rostos das crianças, dos velhos e dos jovens que, ansiosos, preparavam-se para receber o amor e fazer promessas.
    Frei Silvestre roçou suavememne a madeira áspera com a sua bochecha, iluminada a face por uma fugaz esperança, mas voltando em seguida a ficar nublada pela triste resignação. E disse para si mesmo, suspirando:
    "Bom, e talvez esta primavera traga também algo para mim..."
    Porém se encolheu, receoso do seu pensamento, pois lhe pareceu ousado e presunçoso, porque, afinal, quem era ele para esperar nada?... Mas o que ele ignorava era que a primavera não só faz florescer a terra ao sopro divino da vida, mas também o coração frio e adormecido do homem.
    O sino tinha parado de tocar e o silêncio reinava novamente. Os irmãos já se encontravam na capela e o ofício estava para começar. De repente, frei Silvestre percebeu isto, saindo da sua ensonhação e, endireitando-se, piscou e soltou uma exclamação de desgosto, olhando em volta com expressão de alarme, receoso de que alguém tivesse estado observando-o. Recolheu o hábito, fazendo um gesto de contrariedade, e fechou a porta com um gesto rápido e firme, que levantou o pó no chão, e em seguida se afastou pela vereda com passos apressados.
    Enquanto avançava, cabizbaixo e com a boca apertada e o cenho franzido, repreendia-se com aspereza pela sua fraqueza. Sonhar, divagar, folgar, afastar o pensamento de Deus para ocupar-se de si mesmo. Quem havia visto jamais semelhante insençatez num religioso, nele? Parecia um noviço, ou pior ainda, comportava-se feito um daqueles jovens volúveis e fantasiosos que com freqüência chegavam à porta do mosteiro, humildes e devotos, jurando ter vocação... O que diriam os irmãos se soubessem?...Soltou o alento de uma vez, mexendo negativamente a cabeça. O que eram estas bobagens de pressentimentos e mensagens? Era uma loucura, isso sim, uma armadilha de Satanás, pois, por que motio haveria de mudar agora a sua vida?... Mas frei Silvestre não sabia que dentro dele, muito profundo e calado, palpitava este anelo, como uma doce esperança em meio a sua aridez, e que não nada poderia silenciá-lo.
    Virou à direita, seguindo o caminho de pedras, e encarou a sombria e severa capela, onde já podia escutar os irmãos recitando os salmos com as suas vozes graves e monótonas, ritmicas e cheias de serenidade e fervor, abstraidas do mundo...
                                                      "Cantate Domino canticum novum:
                                                      quia mirabilia fecit.
                                                      Sanctificiavit Filium suum dextera eius:
                                                      et brachium sanctus eius..."
    Frei Silvestre apressou o passo ao tempo que abria seu breviário e o folheava rapidamente, tentando achar o texto.
    -Mas que falta imperdoável!... Se alguém me visse!...- repetiu, apetando os lábios num gesto de ira e remorso.
    E em sua pressa e desgosto, não reparou que acabara de transpor o umbral dos seus pressentimentos e que eles o aguardavam ali, do outro lado. Não percebeu que algo tinha descido do infinito para mudar tudo, calada e sutilmente, porém de modo irreversível, apanhando-o em seu caminho.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Silvestre - parte IV

Acabei de conferir a minha agenda deste mes e descobri que TODOS os finais de semana vou ter apresentação!... Se não é o espetáculo de encerramento do curso, é o musical, o desfile do município ( a nossa maldição anual, quando pagamos todos os nossos pecados) ou a peça de encerramento da turma infanto-juvenil, aquela que peguei porque o contrato da professora acabou e eles iriam ficar sem mostrar nenhum trabalho. Em resumo, estou até o pescoço!... Mas mesmo assim, pretendo arranjar algum tempo (talvez entre meia-noite e 6 da manhã) para poder mantê-los atualizados. E como hoje é dia de finados, vou aproveitar a manhã para postar outra parte desta história. Vou ter de ensaiar à tarde, então, é agora ou nunca!...


   Frei Silvestre olhou em torno com desânimo,  curvadas as costas, pálida e olherenta a face, emaciada, ingrata, com a barba rala e descuidada, e fez um esgar de desprezo ao abranger a pobre cela. Jà a conhecia de cor, pois nunca tinha nela nada de novo, nada melhor. Nem sequer ele mesmo era diferente... As quatro paredes de pedra, nuas, gretadas, úmidas e tomadas pelo mofo. O banquinho de palha num canto, a mesquinha janela retangular com barrotes enferrujados; uma prateleira de pedra  cheia de poeira onde descansava seu breviário, junto com um resto de vela de sebo, uma bacia e uma jarra de metal; o catre de tábuas e palha, o cobertor surrado. Na frente, a porta de grossa madeira clara e pregos de ferro preto. Nenhum enfeite supérfluo, nenhuma tentadora comodidade. O chão frio, desnivelado... Mais parecia aquilo uma caverna do que outra coisa, disse para si mesmo... E a um lado, na parede mais sombria, o pequeno  crucifixo de madeira e gesso, que era como todo o resto ali: d espintado, feio, vulgar, pobre, cinzento, anônimo... Que olhava para ele. Estava sempre observando-o desde ali, semi oculto na penumbra, imóvel e silencioso, em eterna agonia, sempre prestes a expirar, insignificante, como se não estivesse ali... E apesar disto, mais real e presente do que todo o resto, inclusive ele mesmo.
    O monge o contemplou em silêncio, como se pretendesse penetrar nele e ler seus pensamentos... O que era que ele queria?, tornou a se perguntar, como fazia sempre que se deparava com ele. Porém, agora não mais esperava uma resposta, pois tinha-se resignado amargamente com seu silêncio.... Fei Silvestre desviou o olhar, turvo de repente, e abaixou a cabeça, sentindo uma patada de raiva no peito, magoado no mais profundo por aquele divino desprezo que não conseguia compreender e, menos ainda, aceitar. Porque frei Silvestre sabia com certeza que Deus não o amava. Contra toda lógica e parecendo uma blasfêmia, mesmo desafiando tudo quanto tinha lhe sido ensinado à respeito da Sua incomensurável bondade, misericórdia e amor, ele sabia que estava certo: Ele não o amava, e esta certeza o desconcertava e o enfurecia, mesmo se lutava para evitar tais sentimentos, porque se considerava humilhado, enganado. Ele tinha abandonado tudo para segui-Lo, batalhava ferozmente dia após dia, se esforçava até quase quebrar-se, cheio de santo zelo e retidão, sem permitir-se jamais um alívio, uma alegria, um repouso, semelhante a um guerreiro alucinado, ébrio pelo fragor da batalha, que continua em frente cega e ousadamente, sem raciocinar direito; sem pensar em nada além de lutar, ferir, transpassar, cercear, matar o inimigo afundando a sua afiada espada até a empunhadura, ofuscado pelo frenesi que o empurra a alcançar a suprema meta: a glória.
    Mas que glória podia ele esperar se toda sua corgem, seu zelo e a sua perseverança passavam despercebidos, se eram como o vento no deserto, como a erva na colheita, como tocos mortos ou terra erma no mundo de Deus? Como podia esperar alcançar a sua meta indene se não recebia sequer um pequeno sinal, uma palavra de alento, um olhar de consoladora aprovação?... Vinte anos levava aguardando, vinte eternidades de silêncio, de expectativa, de vã esperança, de decepção. Mas o céu continuava proibido para ele, fechado, enclausurado atrás das nuvens. Ao erguer a vista não enxergava senão o sol, a lua, as estralas, as nuvens, a imensidão azul cruzada por ventos, aves, aromas e ecos. E de todos eles sentia inveja, pois chegavam mais perto do que ele, que daquelas alturas só recebia chuva, calor, luz, neve, escuridão. Qual um intransponível muro estava mudo e distante, como tinha estado ao longo de toda sua vida. Jamais havia podido aproximar-se nem um palmo e nenhuma mão misericordiosa se havia estendido para ajudá-lo a pular, a voar, a chegar ao fim. A glória pela qual suspirava era desconhecida para ele, que vivia sepultado no anonimato de um mosteiro, na pobreza e a aridez, sem consolo, sem ninguém que lavasse e enfaixasse as suas feridas e lhe prodigasse uma carícia. Abandonado de tudo e de todos. Enterrado em vida... Bom, e afinal de contas, esta cela não era mesmo seu túmulo?.
    Não, o Senhor não o amava, se repetia com sombria tristeza. As sombras continuavam a cercá-lo, ameaçando-o e rindo dele e das suas bobagens. Parecia até que a luz não queria entrar em sua cela, receosa de ser engolida pelas trevas da sua própria angústia, que procurava a escuridão... Sentiu-se velho, cansado, inútil... Ergueu a cabeça devagar e olhou para a janela de pedra como pedindo graça e misericórdia para aquela claridade que dava vida ao mundo. Será que ela não poderia botar um pouco de vida nele? Não poderia fazer os anos voltarem, devolver-lhe aquela juventude que em sua louca bebedeira de fé o levou a escolher este árido e longo caminho que parecia não levar a lugar algum?.
    "De que me serviu tudo isso? Para que lutei todo este tempo?... Fracassei", disse a si mesmo, e algo como uma chicotada o percorreu inteiro, enroscando-se nele, estrangulando-lhe a garganta, rasgando-o, jogando-lhe aos pés esta realidade tremenda e esmagadora feito um monte de lixo.
    E assim se sentiu ele: como um nada, como se realmente não existisse, como se tivesse morrido, como se alguém tivesse ridicularzado intencionalmente seus soberbos e fantásticos sonhos de santidade, pois eis aqui que não era ninguém... Não compreendia. Não compreendia mesmo. O que tinha feito de errado? Pois alguma coisa devia estar muito equivocada... Mas ele passava e repassava a sua vida naquele mosteiro e via que em sua cuia havia sempre menos sopa, que seu leito era duro e falto de calor, com uma pedra como travesseiro. Lembrava que seu hábito aparecia mais velho e remendado do que os dos outros irmãos, que as suas preces pareciam durar séculos e estavam sempre cheias de veemência e concentração, ajoelhado ele, imóvel nas baldosas da capela, com os lábios apertados e as costas enrijecidas. As suas penitências e cilícios eram terríveis e seus jejuns tão freqüentes que às vezes precisava escorar-se nas paredes para caminhar. Era trabalhador e não desperdiçava palavras, era obediente, jamais saía de seus lábios uma reclamação ou uma petição pessoal, cumpria perfeitamente as suas obrigações, fazia todas as coisas que os santos preceitos mandavam. Era objeto de admiração e respeito entre os irmãos pelo seu zelo e devoção, coisa que secretamente o deixava orgulhoso, mesmo se tinha certeza de que não devia ser assim... Mas, se Deus não mostrava a sua complacência incentivando-o a seguir pela senda divina, não era então justificável que ele incentivasse a si mesmo? Pois não só de fé vive o homem, mas também dos elogios e da aprovação do mundo...
    No entanto, mesmo se perante toda a comunidade ele era um modelo de religioso e já o tinham como candidato seguro aos altares (mesmo se jamais havia realizado um milagre) o céu permanecia em ominoso silêncio. Na escura intimidade de seu coração, frei Silvestre percebia perfeitamente a indiferença ostensiva de Deus... Mas, por quê, se tinha feito quanto sabia para agradá-Lo, Ele parecia ignorá-lo, humilhando-o assim? Isso era algo que não podia confessar diante da ingênua comunidade. Nunca!.
    "Transforma-te no último dos Seus servos, e então o próprio Deus esquecerá de tí", refletiu com amargor, pois era exatamente isto que tinha acontecido com ele. A força de tentar com tanto afinco não se sobressair diante dos Seus olhos, simplesmente tinha desaparecido... E naquele instante se lembrou daqueles notórios dignatários da igreja a quem tantas vezes havia encontrado nas ruas, passeando seu senhorio cheio de pompa e luxo, trajados com ricos tecidos bordados de pedraria, túnicas de seda, capas de brocado, de ondulante e suave veludo, com suas pálidas e ociosas mãos carregadas de jóias, calçados com pele e finos couros , bem comidos e bebidos, sorridentes, esplêndidos e cheios de santa benevolência e lucidez, passeando seus olhos brilhantes e orgulhosos pelos pecadores à sua volta, repartindo com grandes espaventos as sobras dos seus banquetes aos mendigos que, feito ele mesmo, se aproximavam do cortejo ávidos e com os olhos injetados, feito espectros fugidos do averno, cheios de supersticioso terror, que se misturava com o ódio e a inveja.... E frei Silvestre olhava espantado para estes infelizes, que grunhiam e brigavam feito cachorros por um osso de porco ou de galinha com uns fiapos de carne pendurados, por um pedaço de pão branco untado em molho de vinho e especiarias, ou por um punhado de azeitonas e cebolas e, cheio de horror e náuseas, afastava-se dali, apertando com força a sua cuia vazia contra o peito, ofegando, esgueirando-se silenciosamente pelas ruas mais afastadas, escuras e retorcidas, fugindo como se alguém o perseguisse...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Silvestre - parte III

Bom, considerando que duas apresentações do musical e alguns ensaios extra numa mesma semana podem deixar a gente meio acabada, acho que estou desculpada por ter deixado vocês na mão com a publicação desta história e dos blogs... Mas, como agora tenho dois maravilhosos dias de folga por conta do feriado da padroeira do Brasil (o que também vai me servir  como tomada de fôlego para os dias que restam da semana, em que terei mais uma apresentação, montagem e ensaios. Quer dizer: mais uma semana de domingo à domingo. Mas tudo bem, está valendo a pena apesar do cansaço de todo mundo. Coisas boas estão começando a aparecer em nosso horizonte) vou aproveitar para botar estes escritos em dia, ok?
     Então, aqui vai a terceira parte desta estória.


    -Oh, Jesus...- gemeu, desconsolado, cobrindo o rosto com a manta desfiada -Por que a minha mente cria estas coisas tão terríveis com semelhante realismo?...
    Enrolou-se no cobertor, enrodilhando-se na cama, tremendo e esfregando furiosamente as têmporas e os olhos para apagar aquelas visões. Em sua cabeça devia existir alguma espécie de demônio, tinha certeza, e era ele quem abria os caudais descontrolados da sua imaginação e fazia com que acreditasse em todas aquelas fantasias absurdas que o atormentavam sem cessar... Mas, por que motivo o Senhor permitia que aquele espírito maligno tomasse conta dele e afastasse a sua mente da oração e das coisas santas? Que tipo de contradição era aquela? Por que enviava esta penitência, capaz de quebrar qualquer um, digna de um vil pecador, a alguém feito ele, que lhe servia fielmente e o amava acima de tudo? Por que o martirizava desta forma impiedosa?... Porém, como sempre ao longo da sua vida, não conseguia compreender estas coisas e ninguém respondia às suas perguntas.
    O monge esticou lentamente uma mão para fora da manta, tateando o áspero chão junto da cama para apanhar seu terço, porém, todo ele tremia de tal forma que não conseguiu segurá-lo e ele caiu nas pedras, produzindo apenas um sussurro abafado... Frei Silvestre ficou olhando para ele durante alguns segundos, com os dedos ainda esticados, e um esgar indefinível cruzou pela sua pálida face. Parecia que a pele puxava dolorosamente sobre os ossos até deixar transparecer as suas brancas arestas... Tornou a se encolher, como ferido por uma chicotada, e mordeu o lábio inferior numa tentativa de segurar o grito furioso que explodia em sua garganta. Tremia da cabeça aos pés. Sim, assim era, e sabia bem que continuaria a tremer ao longo de todo aquele interminável e penoso dia que tinha por diante. Tremeria no refeitório, derramando a sopa sobre a mesa; no coro, incapaz de ler os salmos em seu breviário. Tremeria na horta, enquanto capinava a terra sob o tórrido sol que se refletia no solo pardo e sedento. E tremeria ainda com mais violência na capela, ajoelhado diante do altar, na frente daquele crucifixo de madeira que não parava de olhar para ele lá de cima, mudo e quieto, com os olhos fixos nele, somente nele, transpassando-o, afundando-o no chão, cercando-o de fogo, seguindo todos seus movimentos, até os mais insignificantes... Aguardando, ele sabia, espreitando-o feito uma ave de rapina. Esperando, inabalável, paciente, seguro... Aguardando ele não sabia o quê.
    Porque, ah, sim, também estava o frio entre as estranhas e impiedosas penitências que Deus decidira lhe impor. Um frio mortal que tomava conta dele o tempo inteiro, sem dar-lhe trégua jamais, não importava quão perto se achasse do fogo, nem quantas camisas de boa e grossa lã vestisse, ou quão quente bebesse a sua cuia de sopa, e tempouco quão duro trabalhasse na horta, pois seu suor era feito gelo derretido que escorregasse pelo seu corpo exaurido. Era um frio que parecia vir do ar que respirava, da terra que pisava, de tudo quanto via, tocava ou escutava. Tudo exalava aquele gelo sobrenatural e pertinaz. Parecia emergir misteriosamente do seu próprio hábito gasto e cheio de remendos, da sua pele, das suas entranhas sempre famintas, dos seus ossos ateridos. Filtrava-se em seus membros e seu cérebro desde seu próprio sangue, desde cada uma das suas células, mantendo-o naquele inverno perene. Algumas vezes achava que não conseguria suportá-lo nem um segundo mais e irrompia em soluços, rendido e exausto. Porém, em outras ocasiões se rebelava e a sua boca apertada enchia-se de maldições, seu peito impotente e inundado de escuro ressentimento... No entanto, no fim, sempre corria para se esconder em algum canto afastado, onde os outros irmãos não fossem chamá-lo, e ali, encolhido e cheio de confusão e medo, abraçava a si mesmo com as mãos pálidas e frias como as de um morto e virava o rosto para a parede, receando que a sua expressão de angustiado pânico ficasse ali congelada... E às vezes era tal seu secreto desespero que, abandonando a enxada, ou a foice, ou jogando o breviário aberto sobre o catre, corria até a capela, quase sem perceber por onde ia, e caia de joelhos nas lajotas coloridas e lustrosas, tremendo o queixo e respirando feito um animal ferido, cambaleando, cheio de ousadia e temor ao mesmo tempo, quase incapaz de segurar o terço de madeira e cânhamo entre seus dedos descarnados que tremiam sem que ele pudesse impedi-lo... Então, erguia o rosto cinzento e esbaforido e suplicava a Deus, lhe exigia, lhe ordenava, cego em seu desespero, que acabasse com aquele martírio enlouquecedor. Porém, logo se arrependia do seu rompante e, assustado, inclinava a testa até encostá-la no chão e tornava-se humilde e choroso, e prometia aceitar qualquer provação, qualquer sacrifício, todas as doenças e desgraças que Ele tivesse a bem lhe enviar. Receoso da sua própria e irreflexiva coragem, mas sem por isso voltar atrás, oferecia-se para ser argila em suas mãos e, ingenuamente, jurava comer menos, fazer mais penitência, orar mais, dormir menos horas ainda, sem perceber que aquilo que pedia com tanta vêemência lhe estava sendo dado e que ele era incapaz de suportar... Mas qualquer coisa valia, não importava quão descabida pudesse parecer, com tal que este hálito gélido que soprava incansavelmente sobre ele e corroia as suas entranhas e seu coração o abandonasse para sempre.
    -O frio não, Senhor... Nâo mais, tem misericórdia de mim...
    E ali permanecia ajoelhado durante horas, que pareciam dolorosas eternidades, com a testa encostada no chão, humilhado, envolto seu frio na penumbra ainda mais fria da capela solitária, em absoluto silêncio, sem mover-se, até sentir que todos  seus músculos estavam enrijecidos e dormentes e os joelhos cruelmente aderidos às lajotas.
    Porém, quando finalmente ousava erguer a cabeça num penoso esforço, segurando o fôlego, os olhos avermelhados e lacrimejantes, repetindo seu clamor mais uma vez com cada célula de seu ser, no havia nada. Nada... Tudo continuava igual: o silêncio, a penumbra, a solidão... E ele se sentia desconcertado e olhava em volta, surpreso por ainda encontrar-se ali, por nada ter mudado afinal; procurando, farejando no ar sereno para descobrir o sinal, a mensagem, a faísca divina que tinha caído do céu para que ele a pegasse... Mas nada havia e, cheios de desapontamento, seus olhos fundos retornavam ao crucifixo e o monge acreditava descobrir nas pupilas agonizantes o fugaz e certo lampejo de um reproche.
    -Mas, Senhor!...- gemia então, exasperado, trincada a ferocidade da sua voz pela chorosa impotência que tomava conta dele -O que mais queres? Já não te ofereci tudo? Por que então me olhas desse jeito?... Fala comigo, Senhor! Eu te obedecerei!- exclamava, desesperado, erguendo as magras mãos abertas para a cruz impenetrável, como se desejasse arrancá-la daquela parede e obrigá-la a falar -Mas como posso eu saber nada se Tu nada me dizes?.- e a sua voz se tornava dura e desafiadora, como se estivesse no limite da sua paciência, para murmurar: - Fala comigo!... Me responde! Por que não o fazes?...
    E tornava a suplicar, com uma vozinha, encolhendo-se, cheio de submissão e fervor, e aguardava então, estático, com a vista pregada na imagem, o peito cheio de inconfessável ânsia, o fôlego apertado, sibilante, submergido na agonia da sua ousada esperança, com a boca aberta, suspensa nesse instante de santa expectativa, de bendito e orgulhoso anelo, quase desfalecido.
    Porém, nada se mexia naquela cruz. Nenhuma voz surgia desses lábios de madeira, nem se tendia para ele sua divina mão. Nâo havia luz que o cegasse, nem som ou visão alguma que o arrebatasse num êxtase. Sua consciência continuava tão clara e fria que chegava a machucá-lo. Tudo aparecia mais opaco, mais próximo e feio, comum, esmagador, vulgar, repulsivo. E o frio continuava ali, fazendo-o tremer. Não, não havia milagre algum.
    Um estertor o sacudia então  e seu corpo em tensão esmorecia como se atingido por um raio, cheio de amargor e ira, e apertava a boca para não blasfemar, exaurido, vencido, mais gelado e apavorado do que antes, sabendo que o céu o ignorava... Incorporava-se, cambaleando, quase sem forças, e abandonava a capela apoiando-se nas paredes feito um bêbado. A luz do exterior machucava as suas retinas, os sons o atordoavam, os cheiros lhe embrulhavam o estômago. Sentia-se ridículo, ludibriado. O mundo o machucava com a sua realidade terrena e prosaica, banal... E quando os irmãos se afastavam respeitosamente para não perturbá-lo, ingenuamente convencidos de que uma visão celestial ou um toque seráfico o tinha deixado em tal estado, ele continuava seu caminho sem vê-los, mudo e cabisbaixo, e os deixava acreditar, envergonhado de confessar a verdade. E a verdade era que o frio continuava ali.
    Frei Silvestre se incorporou pesadamente em seu catre, recuperado dos seus pesadelos, e afastou o cobertor com um gesto displicente. Ficou sentado ali, sem mover-se, sentindo o corpo endurecido e dolorido por causa daquele inóspito colchão de palha em que jazia, lutando contra a modorra e o cansaço que aguilhoavam suas pálpebras, escutando o protesto do seu ventre vazio feito um no, com a cabeça cheia de zunidos e luzes que explodiam diante dos seus olhos, ofuscando-o. Se mexeu, incerto, e suspirou. Jogou a cabeça para atrás e fechou os olhos. Parecia que mergulhava no nada, lenta e caladamente. Apoiou os pés nus no chão e seu rude contato o fez estremecer de dor. Abaixou bruscamente a cabeça e agarrou com força a trave da cama... Seu corpo, martirizado por todos os rigores aos quais o submetia continuamente, quase não tolerava aquele contato. Tudo tinha-se transformado em sofrimento para ele: o adejar das pombas no telhado, a água fria do poço, o sussurro do vento nas árvores, a chuva batendo na terra. A fria suavidade das baldosas, as cores vivas da natureza, a parca comida, o som profundo e reverberante do sino chamando à oração, o roce das contas do seu terço passando entre os dedos. Até a tênue claridade que assomava timidamente pela janela da sua cela feria seus olhos irritados e insones. Olhos secos, ferozes, cheios de zelo e veemência e, ainda assim, apagados e frios feito cinzas... Quem poderia ler em seu fundo e adivinhar como ele era? Quem poderia chegar até eles? Pois aquele que tentasse haveria de mergulhar nas trevas e no fogo.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Silvestre - parte II

Bom, finalmente estou tendo um pouco de tempo extra para poder continuar a postagem desta história que, com certeza, vocês já devem ter esquecido. Então, dêem uma lida na primeira parte e continúem com esta. Como é uma história meio longa, será dividida em mais do que três partes, uma a cada fim de semana, e vou fazer um esforço para não interromper as publicações, mesmo se tiver ensaios e apresentações (o que, pelo que estou vendo, vai acontecer com mais frequência do que desejaria. O sucesso do musical está sendo ótimo, mas ele me deixa com menos tempo para fazer outras coisas que gosto) caso contrário, vocês vão acabar desistindo de abrir este blog e todos meus contos vão ficar a ver navios... E, é claro, não tenho a menor intenção de que isto aconteça.!.. Então, aqui vai, finalmente, a continuação do conto.


-Acorda, acorda, que a tua hora está perto!...- tinha ouvido bradar em algum lugar e, dando um pulo, incorporou-se bruscamente em seu catre e olhou em volta com os olhos desorbitados e brilhantes e o coração batendo desenfreadamente contra as costelas. Parecia-lhe que elas iriam se quebrar a qualquer minuto.
-Acorda, frei Silvestre!- gritou de novo a voz, parecendo o estalo ensurdecedor de um raio, fazendo-o tremer e encolher-se.
Em seguida, um silêncio mortal, apavorante.
Passou-se um minuto e então frei Silvestre ousou fazer um leve movimento.
-Quem... Quem é?...- cochichou, quase sem despregar os lábios, e levou uma mão fechada ao peito, sentindo um espasmo de terror debatendo-se ali.
Porém, não recebeu nenhuma resposta. Não havia mais ninguém ali, sabia disso perfeitamente e, no entanto, tinha escutado. Tão clara como a sua própria voz, aquela outra voz desconhecida chamando-o desde o nada, aproximando-se, crescendo, esticando seus dedos viscosos para agarrá-lo.
E enquanto permanecia assim, petrificado, com os punhos e mandibulas cerrados, escutando as batidas retumbantes do seu coração, aguardando em muda angústia -pois sabia que a voz tornaria a falar- sentiu mais uma vez aquele negro presentimento abatendo-se sobre ele feito uma imensa onda que o devorava, aquela estranha e certa expectativa por algo que não conseguia definir e que se tornava mais forte a cada dia, mais real e medonho. Parecia algo vivo que se aproximava pouco a pouco e estava sempre acaçapado em um canto escuro, preparando-se para dar o bote... O sentiu. Sim, estava ali, ocupando cada centímetro do seu corpo e da sua alma. Praguejou em silêncio, fazendo um gesto de desespero, impotente diante daquele estranho e vívido pesadelo do qual não conseguia fugir... Gemendo, seu corpo magro se retesou, rangeu, se firmou.
-A tua hora está perto! Está perto!...- repetiu a voz, e continuou gritando assim, com rítmica veemência, traspassando com seu som estrondoso seus timpanos, a sua pele, os ossos do crânio, o cérebro, até atingir a medula mesma do seu ser e provocar-lhe uma dor tão aguda que o deixou sem respiração, contorcendo-se em estóico silêncio. Parecia que se desagregava num milhão de partículas em carne viva, cada uma sofrendo separadamente, ardendo feito brasas, fugindo dele. Uma dor que era como morrer e despencar para o inferno. Uma dor que nada mitigava.
Estremeceu, fechando os olhos e fazendo uma careta, e levou os dedos às têmporas, oprimindo-as com força para tentar aplacar aquele horripilante tumulto que começava a transbordar da sua cabeça. Mexeu os lábios para rezar, mas de repente, todas as santas palavras tinham sido engolidas pelo barulho. Parecia que havia esquecido de todas elas, completa e irremediavelmente. A sua mente em branco se esforçava para agarrá-las e trazê-las até a sua garganta, mas a sua voz, sepultada naquele inferno que o cercava aos poucos, asfixiou-se, acabando por sumir completamente. Achou que berrava, que despertaria todos, sentia a garganta enrouquecida e seca, dolorida, estraçalhada pelo esforço, mas na verdade era incapaz de emitir qualquer som.
Angustiado e impotente, no limite das suas forçaçs, gemeou em voz alta, balançando lentamente o corpo, com a cabeça enfiada entre os ombros.
-A tua hora está chegando, está chegando, frei Silvestre!...- bradou a voz, ecoando em todos os cantos do seu corpo enfraquecido e trêmulo como se quisesse desarticulá-lo.
As suas mãos pálidas e descarnadas se arrastaram até a sua boca e em seguida até seus ouvidos, numa estéril tentativa por encontrar o silêncio... Enrodilhou-se no catre, enquanto o som da voz parecia encher todo o ar e tomava corpo, volume e rosto, esgueirando-se até ele para soltar uma gélida baforada em seu rosto. A sentia respirar e crescer à sua volta feito um polvo. Horrorizado, a via erguer-se diante dele e tomar impulso para atacá-lo e, bem no segundo em que ia cair sobre ele e devorá-lo, desaparecia... Esvanecia de repente, feito uma miragem de fumaça varrida por uma rajada de vento misericordioso, uma sombra que a luz do sol faz fugir. Era como se jamais tivesse existido. Tudo terminava assim, abruptamente, e ficava a cela em silêncio, vazia, quieta. As coisas tornavam a ver-se tal e como eram: reais, nítidas, próximas, banais... E frei Silvestre jazia ali, encolhido e trêmulo entre os cobertores revoltos do seu catre, murmurando uma prece desconexa, lutando para entender o sentido de tudo isto, que mesmo sendo completamente absurdo era ainda tão terrivelmente real que resultava impossível ignorá-lo.
Frei Silvestre permaneceu por um longo tempo imóvel, feito um novelo contra o canto da parede onde tinha tentado esconder-se, com os músculos rígidos e doloridos por causa da tremenda tensão, quase sem respirar, ensopado em cascatas de frio suor e olhando em volta com as pupilas dilatadas. Ainda se sentia assaltado por fugazes visões e sensações que surgiam do nada e esvaneciam-se além, deixando seu palpitante rastro no ar escuro e irreál da cela. Vozes, rostos, murmúrios, presenças mutantes e ameaçadoras pareciam povoar as sombras, refletindo-se nas paredes gretadas. O monge olhou para elas com os olhos arregalados, qual se receasse que fossem cair em cima dele a qualquer momento, esmagando-o como a uma barata. As via alçar-se e desmoronar, as suas louças cinza rachando e esmigalhando. As escutava grunhir, arrastar-se, sair dos seus alicerces...
Engolindo um soluço de angústia, frei Silvestre deu uma rápida olhada para a janelinha de barrotes no alto da parede esquerda, e rogou fervorosamente para que amanhecesse de uma vez. Mas a visão daquele quadrado de céu sereno vagamente iluminado o atemorizou ainda mais, então tornou os olhos avermelhados para o muro. Nesses momentos tudo parecia ameaçá-lo. Sentia-se em perigo iminente e teve de fazer um esforço sobre-humano para não pular naquele minuto da cama e sair correndo ao pátio. O que o segurava ali dentro era a imagem das colunas, os arcos e corredores, as imensas árvores centenárias que alçavam seu sombrio e sussurrante verdor para o firmamento fantasmal, a vereda empedrada, áspera e cheia de musgo, e a torre maior, ereta e negra nas alturas, coroada pela grande cruz de ferro. Tudo aquilo, iluminado pelo resplendor espectral do amanhecer, submerso numa dimensão de mortal quietude e silêncio, era mais do que podia suportar... E se algo pior o assaltasse lá fora?... Não, preferia as paredes de sua pequena e mísera cela, pois mesmo que parecessem oscilar diante dos seus olhos, na verdade não se mexiam. Estavam firmemente plantadas ali há mais de cinquenta anos e provavelmente continuariam no mesmo lugar por mais cinquenta. Era tolo e vulgar pensar aquelas bobagens, como se fosse um servo ignorante e supersticioso, disse o monge para si mesmo, suspirando. Mas a expressão de receio continuou contraindo os músculos da sua face... É que, lá no fundo, não conseguia deixar de acreditar que aquela cela estreita, nua, lôbrega e solitária seria um dia seu túmulo. Por que aquela idéia tinha-se imposto em sua mente? Por que a sua certeza sobre este fato era tanta? Não sabia, como não sabia muitas coisas eme sua vida, mas estava estranha e fatalmente convencido de que assim ocorreria.
E ao pensar naquilo, frei Silvestre tremeu involuntariamente, pois a verdade era que a morte o apavorava, assim como o juizo perante Deus e a inapelável e cruel sentença que ouviria da sua boca. E em seu temor já via a si mesmo rodeado de mãos que o empurravam ferozmente, gritando aos quatro ventos todos seus pecados e rindo com selvagem prazer, para precipitá-lo no mais profundo do averno. Enquanto isso, os anjos do Senhor, formosos e resplandecentes, contemplavam a cena com expressão vazia, sem mexer um dedo para ajudá-lo, flutuando gentilmente em seu argentado nimbo de bem-aventurança, fazendo de conta que ele e a sua condenação não existiam... E ali, nas chamas eternas era jogado e ficava, agonizando sem morrer jamais, vítima de todos os horrores e sofrimentos imagináveis que, na verdade, eram a expressão de um só, que era o pior de todos: ser afastado da face divina e perfeita de Deus depois de tê-la admirado uma única vez, durante um segundo. Aquele sim era o verdadeiro castigo, a dor, a miséria suprema dos condenados: verem-se abandonados por Deus pelo resto dos tempos, após tê-lo conhecido.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Silvestre

Bom, e como prometi ontem (porque, claro, surgiu uma entrevista na tevê de última hora e tive que largar tudo para ir lá) aqui está a primeira parte desta história. Ela pertence a uma série que pretende se transformar num livro e que narra os encontros de várias pessoas, dos mais diferentes tipos, com Francisco de Assis, e como este encontro transformou as suas vidas. Então, antes de que surja alguma outra surpresa em meu agitado dia-a-dia que me impeça de postar este texto, aqui vai. Espero que gostem!


O céu começou a clarear e uma tênue pincelada de luz surgiu no distante horizonte e correu pela terra silenciosa, quieta e confiada em seu profundo sono. Emergiram da escuridão as formas azuladas e fantasmais das casas, as árvores, os cercados, as colinas, os campos e hortas floridas e perfumadas. A água fria e cristalina dos riachos cantarolou, fazendo eco nas quietas lacunas e na úmida profundidade noturna dos poços. A passarada se agitou, irrequieta entre a folhagem das árvores, atirou umas notas à madrugada e calou em seguida, aguardando...
Das chaminés de algumas granjas elevou-se uma fina coluna de fumaça esbranquiçada e por trás das persianas ainda fechadas flamejou a chama avermelhada de uma pequena lamparina de óleo. Espalhou-se pelo ar o aroma do pão recém assado, ferveram as caldeiras na lareira, que aquecia o quarto quase nu, rangeram mesas e banquinhos, alguma voz deixou escapar uma sílaba sem resposta... As galinhas cacarejaram. As vacas, ovelhas, cabras, cavalos e os cachorros no curral ergueram a cabeça para o firmamento cristalino e farejaram, alertas para a luz.
A nascente claridade arrastou-se por entre as espigas maduras, pulou pedras e cercados, fez cócegas no lombo forte e peludo dos bois, vadeu as correntezas e as poças que ainda persistiam da última chuva e se aproximou, deslizando calmamente através das laranjeiras, levando umas rajadas do seu perfume. Roçou a poeira dos caminhos, que se levantou em ígneos e desordenados redemoinhos; beijou delicadamente as diminutas florzinhas que cresciam corajosamente entre as pedras e o mato... Caminou mais um pouco, tomando fôlego, e pegando um grande impulso, elevou-se e tocou o alto e sombrio muro que resguardava a cidade. Rastejou ao longo dele, penetrando em suas gretas, remexendo o pó dos anos que ali se aninhava, aquecendo a sua áspera e imponente superfície. Mas logo correu, tropeçando em suas arestas e fendas, descobrindo em sua passagem o esconderijo de uma lagartixa, uma mosca presa na armadilha mortal da aranha, as pegadas invisíveis das formigas e o musgo tenro que cochilava nas rachaduras, ainda perolado pelo orvalho noturno... Percorreu as paredes de cima a baixo, fazendo-o surgir da noite em toda sua amedrontadora solidez e majestade. E finalmente, esgueirando-se e ocultando-se, alcançou o enorme portão de madeira e ferro que, agora fechado, dava passagem para o interior da cidade. Ele era tão maciço e inexpugnável quanto o próprio muro, com arco de meio-ponto e flanqueado por grossas colunas esculpidas. Imponente e intimidador, parecia avisar a quem por ele passasse que nada escapava ao seu olhar de guardião.
A luz se deteve ali por alguns momentos e suspirou, arrefeceu um pouco, diluindo-se nas sombras misteriosas do portal soberbo, como se lhe jurasse obediência. As altas torres que se erguiam, negras e difusas contra o céu ainda em penumbras e as ruas retorcidas e estreitas que subiam e desciam em completo desordem, qual se estivessem fugindo umas das outras, assustaram-na por alguns instantes, pois nada se movia ali dentro. Mais parecia um cemitério com as suas lápides brancas e cinzas, empoeiradas e esquecidas por homens e deuses... Porém, os homens que moravam nesta cidade chamada Assis, a famosa, a próspera, a hospitaleira Assis, não estavam mortos nem esquecidos. Eles tão só dormiam, sonhando seus secretos sonhos, planejado suas secretas batalhas e saboreando suas secretas e pequenas vitórias temporais... Somente dormiam, bem alimentados e agasalhados, e sonhavam...
Mas, finalmente, a luz deu um pulo, ultrapassou o muro e adentrou lenta e sigilosamente pela cidade escura, sentindo seu pulso forte e ambicioso, seu hálito obstinado e empreendedor, quase esmagador, tocando sutilmente seu imenso e esplêndido corpo de fera deitada, satisfeita e sorridente, despreocupada dos homens e dos céus... À sua passagem, a luz foi tingindo com seu resplendor de ressurreição as velhas paredes emboloradas, os postigos, as escadarias onde os mendigos e os cachorros se enrodilhavam, tremendo de frio, as sacadas com seus vasos de cravos, malvas, samambaias e azaléias, vistosos gerânios, cheirosas alfavacas e hortelãs; foi dando cor às telhas pardas e vermelhas, ao chão úmido e irregular, aos leões de mármore que rugiam silenciosamente na porta da catedral de são Rufino, mostrando as presas descomunais para os paroquianos que passavam por eles à caminho de confessar seus pecados e comer o pão sagrado, para logo sair absolvidos e aliviados. Continuou seu percurso, abrindo-se caminho entre muros, telhados, portais, torres e pátios, desfraldando-se feito uma bandeira através das vielas e becos mais afastados e tenebrosos, cheios de sujeira e miséria, nus sob seu implacável fulgor, e pelos elegantes jardins e terraços de lajotas, os frescos passadiços, pontes e arcos das moradias e palacetes dos ricos senhores e suas famílias.
E foi deste jeito, correndo e alumiando, até chegar ao outro extremo da cidade, onde parou de supetão diante de uma pequena e enferrujada porta de metal, na parede oeste do velho mosteiro... Ali ficou, cintilando, imóvel, como se aguardasse algo, um sinal, uma voz, uma ordem... E de pronto, surgiu desde o interior feito uma explosão, um vagalhão, uma labareda ofuscante, o pressentimento certo de uma benção, da mão do Criador segurando as coisas na sua palma e botando as forças divinas para trabalhar. E a luz se fez mais pura e serena, resplandecente, submissa àquela outra luz, pois soube que aquele era o lugar que procurava. Era aqui que haveria de se unir a Deus para cegar um homem.
Sentindo-se tomada por grande reverência, deu uma olhadela no interior escuro e silencioso pela pequena grade e, elevando-se um pouco para o céu para assim se fazer divina e poderosa, atravessou o muro e se dirigiu para o poço esculpido que ficava no centro do pátio. Parou ali e aguardou, refletindo-se na água...
Foi então que frei Silvestre abriu os olhos...

terça-feira, 22 de junho de 2010

A velhinha na cadeira de balanço - parte II

E como prometido, aqui está a segunda parte do conto, após alguns atrasos provocados pelo football, as vuvuzelas y alguns alunos imaturos...
Sempre gostou de lembrar, de contar histórias, de reviver capítulos da sua vida e de tirar lições proveitosas deles, e tinha uma memória feliz e fiel, que trazia de volta cada episódio como se tivesse acabado de acontecer. Adorava quando todos sentavam à sua volta para escutá-la. No entanto, as lembranças de hoje eram diferentes, carregadas com outros significados. Hoje tratava-se de fazer escolhas viscerais, que não preenchessem seu cérebro humano, mas conformassem seu novo corpo; então não vinham à sua mente as peripécias, as palavras ou as pessoas feito fantasias nebulosas ou perturbadoras, mas os detalhes preciosos, tudo aquilo que passara inadvertido ou se perdera na azáfama efêmera do dia-a-dia neste mundo... Então, dando um profundo suspiro, fechou docemente os olhos e viu os cachos de flores amarelas enfeitando as árvores na rua, uma menininha sentada no muro, chorando desconcolada, sozinha. Viu um pardal banhando-se numa poça de água da chuva, o gato esticado ao sol, o cachorro correndo ao encontro do amo, a professora de francês em seus lindos sapatos vermelhos de salto alto, o pátio barulhento do colégio, as freiras através das grades do claustro, o poço da fazenda, os campos de trigo, o riacho, os cavalos. O olhar enamorado do seu filho, as árvores do jardim balançando com o vento, murmurando, desfiando segredos, abraçando-se nas alturas. As estrelas nas noites silenciosas, a casinha branca de telhas vermelhas no topo da colina verde, o silêncio majestoso das montanhas e a conversa rítmica e constante das ondas morrendo na praia. A borboleta celestial adejando sobre a coroa vermelha da flor, o sino da igreja chamando os fiéis com a sua mensagem de fidelidade e paraíso... A velhinha na cadeira de balanço atirava o olhar pelos corredores da sua vida e se admirava dos tesouros que ali tinha guardado sem perceber. Agora se dava conta de que eram eles os que verdadeiramente tinham dado forma e significado a sua existência. Era naquelas coisinhas simples e ternas, naqueles detalhes banais onde se escondiam os grandes segredos da vida; flashes de divina e infantil consciência que ficaram impressos indelevelmente dentro dela. Era isto que sustentava seus dias e embalava as suas noites, tecia as suas esperanças e construía seus sonhos; era o que tinha lhe dado força e coragem para continuar, para esperar, para vencer. Percebia agora que não haviam sido os grandes momentos, as penas e as alegrias que todos conheciam e partilhavam, mas as pequenezas, as pinceladas mais íntimas e insignificantes, os detalhes escondidos os que tinham enriquecido a sua vida e a tornado útil e plena de sabedoria e compaixão... O amor não era, afinal de contas, nada daquilo que pensara e hoje, já perto do fim, estava ansiosa por experimentar o que ele era de verdade. Amor não eram paixões, delírios, gestos espantosos, sublimes e desvairados; não era possessão, cobiça, troca de interesses, tirania, solidão à dois. Não, a sublimidade do amor estava, precisamente, na simplicidade, no equilíbrio, na consciência com que deve ser vivenciado, como um todo harmonioso e vital, imortal. Entendia agora que não tinha sabido amar de verdade, mas não se lamentava por isso, pelo contrário, uma cálida gratidão agitava-se em seu peito porque compreendia que somente agora estava preparada para aprender. Agora era que a sua vida começava de verdade. Estava deixando de engatinhar e erguendo-se sobre seus pés. Logo começaria a andar e poderia percorrer todos os caminhos. Todos. Não é que dava a sua vida passada por perdida ou mal aproveitada, pois algo lhe dizia que toda ela -mesmo cheia de erros e misérias- a tinha conduzido até aqui, até esta cadeira de balanço na varanda perfumada pelas trepadeiras, a estas reflexões e lembranças, a estas conclusões, à espera... E seu coração se agitava, incendiado de ternura e compaixão por tudo e por todos. Se sentia enamorada, seduzida, cheia de mil emoções e desejos que agora podia satisfazer plenamemnte, pois eram desejos do espírito, não mais da carne. Sua alma tinha atingido a maturidade necessária para saber que estes desejos não são humanos, mas divinos, e que isto significa que nos aproximamos de Deus, que transcendemos, que nos apropriamos do que sempre nos pertenceu... As horas sem fim passadas naquela cadeira de balanço, enquanto todos se perguntavam se já estaria próxima a hora de sua morte, se deveriam interná-la, se precisariam contratar uma enfermeira, tinham sido para ela um lento, profundo, revigorante aprendizado, uma preparação, o impulso que antecede ao salto. Tinha sido como se uma cortina se descerrasse aos poucos diante dos seus olhos e lhe desvendasse todos os segredos do paraíso. Ao longo daquelas horas sentia-se voltando ao seu ser original, desfazendo-se de todas as camadas artificiais e das ilusões, os artifícios e disfarces que ainda a recobriam. Era uma libertação que excedia qualquer explicação... As forças humanas a abandonavam, seu corpo miúdo e frágil tornava-se leve, suave, inesperadamente ágil e veloz porque liberto do seu lastro, e debatia-se numa luta consciente para aceitar cortar os últimos laços, para voltar para casa. Os braços do infinito se abriam diante dela... E ela aguardava, dia após dia, apagando-se um pouco mais por fora, renascendo por dentro.
E uma manhã, quando abriu a porta da rua e arrastou a sua cadeira de balanço até a varanda, como fizera todos estes anos, parou de repente, como se tivessse divisado algo na tênue claridade da paisagem, algo diferente, alguma coisa longamente esperada. Foi como se o primeiro raio de sol lhe tivesse revelado algo... Entreabriu os lábios num sorriso indefinível e ficou parada ali, junto da cadeira, segurando a almofada de retalhos, olhando para a rua silenciosa e imóvel... Aos poucos, a viu crescer, enquanto ela se aproximava sem pressa, mas não sentiu medo... Era esquisito, nenhuma ansiedade ou receio despertou em seu peito; a sua respiração continuou calma, rítmica... Enquanto as feições dela se delineavam e começava a perceber seu suave sussurro e o perfume do seu hálito frio, se sentia tomada por uma estranha alegria, por uma serenidade desconhecida, poderosa, um pouco desconcertante... Quem diria que era assim? De todas as coisas simples que havia descoberto, esta era a mais simples, pura e direta, a prova de que a vida nada esconde de nós, mas que somos nós quem fugimos do que ela tem para nos mostrar... Movendo-se lentamente, sem tirar os olhos dela, sentou-se na cadeira, como se nada de diferente estivesse acontecendo, e juntou as mãos no colo. Ela aguardou, compreensiva, sabendo que era bem vinda. O resto da casa dormia ainda. Este era um encontro solitário, pessoal, definitivo. A velhinha se sentiu contente, pois viu que para esta viagem não era preciso levar bagagem, pelo contrário, tudo devia ser abandonado, menos as lembranças e ações caras ao coração. A velhinha sorriu, satisfeita: com certeza tinha feito boas escolhas, pois não eram seus braços carregados de bugigangas nem seu coração acorrentado a paixões, não era seu corpo fantasiado de glórias, não eram suas poses, não eram suas ambições nem os seus pecados ou boas ações o que estava levando. Era, simplesmente, seu ser, e estava certa de que desta vez só isso bastaria. Não sentiu pena por aqueles que ficavam. Na verdade, a coisa toda lhe pareceu lógica, natural, e todo o resto se apagou de um sopro. A sua via inteira se reduziu a este encontro. Face a face. Mãos vazias. Pronta. Serena. Aliviada. Levemente ansiosa. Muito curiosa... Apoiou a cabeça no encosto da cadeira e fechou lentamente os olhos, com um último e emocionado olhar sobre aquele quadro que tão bem conhecia e amava, e começou a balançar devagar... Então a sentiu perto, muito perto, tão perto que pareceu transpasá-la, e seu hálito gélido abraçá-la, cercando seu coração. Foram como mil agulhas penetrando em seu corpo e desagregando-o feito uma gentil e silenciosa explosão. De alguma forma, teve consciência de que tinha deixado de ser ela mesma, única, carne, sangue, ossos, mente, história, e havia se integrado ao todo, à eternidade. Foi um pulo para o abismo do desconhecido, uma breve e estranha dor, como um pequeno reclamo do seu corpo diante do adeus; porém, assim que pulou, tudo se encheu de luz e se sentiu bem vinda, amada, aguardada... Teve tempo de esboçar um sorriso e suspirar... E já não estava mais.
Quando a sua filha mais velha levou para ela a bandeja com o café da manhã, a cadeira de balanço ainda se mexia, rangendo tristemente, como se a própria morte a impulsionasse.

domingo, 13 de junho de 2010

A velhinha na cadeira de balanço - parte I

Era para ser ontem, mas, como sempre, surgiu um pequeno imprevisto -visitas surpresa com toda a atenção, cortesia e petiscos que isto implica e, ainda por cima, sem hora para ir embora- e tive de adiar a postagem para hoje, mas o importante é que, finalmente, vou postá-la, porque já estou prometendo esta história faz quase um mês!... Acho que agora que as coisas com meu musical entraram na fase de ensaios gerais vou ter um pouco mais de tempo e organização para me dedicar a estes dois blogs de histórias. Tenho muitas para corrigir e postar (descobri uma pasta velha enfiada no fundo de um armário cheia de contos que até tinha esquecido!) pois não quero que se percam, e ainda têm outras idéias rondando a minha cabeça para novos contos... Bom, como podem ver, não é por falta de inspiração ou material que não posto com maior freqüência, é só uma questão de tempo e organização, mas como sou uma fiel representante dos leoninos, vou conseguir dar conta de tudo.. Me aguardem!.
Então, aqui está a primeira parte deste conto, que é um dos preferidos da minha irmã, então vai dedicado a ela.
Logo cedo, quando o sol apenas despontava por trás das colinas que circundavam a cidade e a neblina ainda gotejava sobre a paisagem adormecida, a velhinha abria lentamente a porta da rua e com as suas mãos enrugadas e trêmulas, já deformadas pela artrite, arrastava com grandes esforços a pesada cadeira de balanço até a varanda. Ficava ali durante algum tempo, ajeitando-a aqui e ali, afofando as almofadas e sacudindo o cobertor, botando-a na melhor posição para poder ter uma vista o mais abrangente possível da rua e das pessoas que por ela passariam, e quando ficava satisfeita, dava uma olhada em volta e respirava fundo o perfume das flores e trepadeiras que enfeitavam os pilares e o telhado da varanda -todas plantadas por ela- Então, fazia uma pequena pausa e seus olhos meio apagados pousavam-se com especial carinho no ipê que crescia junto ao muro de tijolo. Era o mesmo que ela e seu esposo haviam plantado quando construíram aquela casa: uma mudinha mirrada e pálida que parecia não ter futuro algum, mas que com os cuidados e o adubo que ela lhe oferecera, acabou tornando-se aquela árvore forte, alta e esguia, que duas vezes por ano enfeitava a rua e enchia a calçada e a grama com a sua delicada chuva de flores amarelas. Todos reclamavam por ter de ficar varrendo-as, mas ela permanecia extasiada observando-as se abrir e depois cair, feito asas de borboleta ou lágrimas de ouro, até a árvore ficar completamente nua e o chão coberto por um tapete dourado... Lembrando agora aquele espetáculo glorioso, esboçava um lento sorriso de cumplicidade e murmurava algumas palavras que tão só ela e a árvore podiam escutar e compreender, e suspirava de novo, o coração apertado pela saudade...
Tendo terminado seu ritual, sentava-se, quieta e silenciosa, balançando suavemente, e atirava o olhar pela rua afora, atenta a tudo que estava acontecendo ou podia acontecer. Seu corpo miúdo, quase o de uma criança, envolto naquelas roupas surradas e descoloridas do século passado que ela se negava a abandonar, permanecia ali, imóvel e expectante por horas a fio, tomado por aquela incerta e quase imperceptível ansiedade, como se esperasse ser testemunha de algum milagre espantoso, de alguma revelação ou de um encontro memorável. Nâo pronunciava uma palavra; parecia totalmente absorta, distante, imersa em mundos longínquos e misteriosos que só ela era capaz de enxergar, e ninguém se perguntava em que estaria pensando, o que estaria sentindo; simplesmente a deixavam permanecer ali, pois deste jeito dava menos trabalho. O café da manhã, o almoço e o jantar lhe e ram servidos numa bandeja na varanda mesmo, visto que tinha se mostrado impossível convencê-la a ir até a copa e se juntar ao resto da família na hora das refeições. E ela comia um pouquinho, feito um pardal, sem se importar muito com o que houvesse em seu prato. Passava o dia todo em profundo silêncio, balançando suave e ritmicamente em sua velha cadeira, sem prestar atenção nas pessoas da casa atarefadas ao seu redor, no barulho, as vozes, os pequenos atritos domésticos, a correria dos cachorros e o incessante falatório do papagaio na gaiola pendurada na área traseria e da televisão ou do rádio. Nâo reparava nos que entravam e saíam, passando apressadamente por ela e jogando-lhe um beijo ou algumas palavras de cortesia que soavam feito o zunido de algum inseto, nem naqueles que a saudavam desde a calçada e lhe perguntavam pela saúde ou simplesmente acenavam ou sorriam para ela... Nada distraia a sua atenção daquela espécie de espera na qual parecia viver ultimamente. Às vezes alguém se aproximava da cadeira e se sentava junto dela para lhe fazer companhia por alguns minutos e conversar sobre coisas banais, reclamar um pouco, falar dos mortos, dos preços, de doenças e lembranças, e a velhinha virava seus olhos transparentes para aquele rosto que deveria ser mais familiar e ficava a contemplá-lo, surpresa e desconcertada, sem saber muito bem qual resposta deveria dar àquele monólogo cheio de expressões que não conseguia compreender. Parecia como que atorodoada, ausente, e sentia uma vibração súbita e violenta golpear-lhe os ossos doloridos e penetrar-lhe o cérebro enquanto escutava o tom monótono e amargurado, cheio de disfarçadas nuances, daquele que falava com ela achando que era como confessar-se com uma porta. Mas ela percebia, ela descobria com secreto e infantil espanto todos os tons, cada intenção: cobiça, inveja, mágoa, maledicência, culpa, frustração, tristeza, fracasso... Deus, tanto fracasso!... Mas, por que vinham contar para ela? Só porque estava velha demais para julgá-los ou criticá-los, para fazer-lhes cobranças ou puni-los? Porque, em seu estado mental, o único que podia fazer era limitar-se a escutar, mesmo sem compreender, o que era um alívio para quem falava?...
Não podia afirmar com certeza que lembrava a sua idade, mas isto não a tinha feito perder a sensibilidade nem a percepção das coisas à sua volta. Muito pelo contrário, sentia-se agora dona de uma intuição muito mais clara e precisa, de uma atenção focada naquilo que realmente importava, de uma percepção capaz de penetrar todos os disfarces e barreiras que as pessoas constroem para se esconder. Então, a sua imobilidade e seu silêncio não eram sinais de senilidade, como escutava todo mundo cochichar, mas uma demonstração de bom senso. Agora que todos os furacões, vendavais e terremotos provocados pelas paixões da juventude haviam se extinguido, ela sentia como se uma nova porta tivesse se aberto diante dos seus sentidos e atrás dela apareciam paisagens misteriosas e surpreendentes, semeadas de novas aventuras e promessas, de novos desafios e projetos, de outros patamares a serem alcançados, de novos degraus a serem galgados, e tudo isto era algo absolutamente fascinante, delicioso, mesmo se meio assustador. E, sinceramente, depois de tudo que havia escutado dizer sobre a velhice, isto era o que menos esperava encontrar!... Mas passadas as necessidades e aflições, as ambições e realizações de oito décadas, seu corpo parecia ter começado finalmente a entrar nos eixos, a se transformar, adquirindo novos sentidos, novas capacidades, uma nova consciência, um outro ritmo, lento e saboroso, profundo, tão profundo que às vezes ela mesma se espantava. Haviam ruído as vaidades, haviam-se diluído os apegos, haviam mudado as ambições; as angústias sobre o futuro, a família e o trabalho eram coisas do passado. Tinham se esvancecido pouco a pouco -tão lentamente que ela nem tinha percebido- as paixões, as grandes iras, os profundos abismos e as labaredas medonhas que teve de enfrentar enquanto amadurecia e lutava para conquistar seu próprio espaço no mundo. Ano após ano tinha comido a sua fruta e finalmente chegara ao caroço... E ele era tão surpreendente, tão inusitado e ao mesmo tempo óbvio, que com freqüência lhe despertava um sorriso maroto nos lábios apergaminhados. Pois o que ele continha senão a semente de uma nova vida? Qual o segredo escondido em seu corpo seco e endurecido, tão parecido com o dela mesma? Nada menos do que o ciclo perfeito e infinito da criação, e ela estava convencida de que isto se aplicava fielmente a ela mesma e que, depois da morte, uma nova existência viria tomar conta da sua alma... O que mais precisava, então? Nada a inquietava, nada a amedrontava, não tinha urgência de nada. Esta era a última revelação e, depois de conhecê-la, todo o resto perdia importância... Por isso sentava-se toda manhã em sua cadeira de balanço e aguardava, expectante. Às vezes se perguntava o que viria a seguir, como tudo aconteceria, se sentiria alguma coisa ou tudo seria como um profundo suspiro, como um piscar lento e embaçado, mas não se aprofundava demasiado nestas questões e preferia deixar os acontecimentos nas mãos do destino, que tão generoso tinha-se mostrado até agora...
O mundo agitado e barulhento ao seu redor era como uma miragem povoada de fantasmas que agiam de forma ilógica e afobada, presos em seus medos e erros, em suas mágoas, em suas perdas. Então, a velhinha na cadeira de balanço fechava aos olhos e, dando-se mais um impulso, continuava a balançar, quieta e calada, preferindo voltar-se para as coisas simples e naturais que a rodeavam, e com as quais agora podia se comunicar, do que gastar a pouca energia que lhe restava tentando entender ou participar daquele filme non-sense onde a sua própria família era a protagonista. E olhando para estas coisas simples ao longo das horas sem fim, sentia-se acordar para o milagre que elas continham, para as suas mensagens e lições, para a sua presença por tantos anos ignorada.
Então, de repente, como num relance, caia na conta de quanto tempo tinha vivido ali, percorrendo aquela mesma rua ao ir e voltar do trabalho, da padaria, da igreja, da escola das crianças. Quantos anos tinha perambulado por aqueles quartos arrumando, varrendo, lavando, cozinhando, enfeitando! Quantos finais de semana tinha desfrutado daquele jardim e suas cores e perfumes, da sombra murmurante das árvores, os filhos correndo e gritando, o cheiro do churrasco se espalhando pelo ar e enchendo de água a boca de todos! Em quantos entardeceres havia saído até a varanda para contemplar os últimos raios do sol balançando naquela mesma cadeira, umas vezes de mãos dadas com o esposo, outras com uma criança no colo, umas poucas com um livro ou escutando a música que vinha do radinho da cozinha, no inverno ou no verão, para dar ao seu corpo cansado e magoado por todas as penas quotidianas um pouco de sossego, de intimidade, de reestruturação... Quantos domingos tinha entrado ao amanhecer na igreja fria e sombria e tinha se ajoelhado para receber o "pão dos anjos", após deixar na sua própria mesa o café fresco e o leite, o pão ainda quente e a manteiga, o bolo de fubá fatiado e cheiroso coberto com o guardanapo branquíssimo. Aquele era o outro pão de que precisava para viver, pois seu corpo era forte e ativo, assim como seu espírito, então precisava ser constantemente alimentado com coisas boas e frescas... A velhinha fechava os olhos diante daquela espécie de filme que desfilava pela sua mente, e parecia-lhe tudo tão próximo e tangível que as vezes até esticava uma das mãos para tocá-lo... Então, cochichavam que delirava... Mas não era nada disso; eles que continuassem pensando aquilo se os deixava mais tranqüilos. Nâo, aquilo tudo não era delírio, mas um relatório minucioso e precioso de tudo que levaria com ela quando chegasse o instante da partida, e o gesto no ar era a tentativa de aprisioná-lo e guardá-lo em seu coração... E quando percebia o aque estava fazendo, sentia-se subitamente estremecida pela certeza da vinda daquele novo e estranho capítulo em sua vida: a despedida.
Semana que vem posto a segunda parte deste conto. Espero que gostem!

sábado, 3 de abril de 2010

"Leal"

Como já disse, este fim de semana prolongado está sendo uma benção porque, como fiz tudo que tinha que fazer antes, agora tenho todos os três dias para relaxar e escrever, que é a coisa que mais gosto neste mundo. Na verdade não tinha pensado postar outra história esta semana, mas quando acabei de escrever a de "Leal", achei que vocês iriam querer conhecer. Esta não faz parte de nenhum desafio lançado pelos meus alunos, mas é uma história real que aconteceu há um par de anos e que me pareceu digna de ser registrada e publicada. Vocês vão ver por quê quando a lerem. Então, aqui vai:


Ficava olhando para aquele cachorro deitado no meio da rua, sozinho e com aquele ar de quem está à espera de algum acontecimento extraordinário -que para ele seria a chegada do seu dono, como para qualquer cachorro- e não podia evitar me perguntar qual seria a sua história, pois era um animal tão peculiar que obviamente devia tê-la. Cada dia eu encontrava com ele, infalivelmente deitado bem no meio da rua, quando ia e voltava do trabalho e, mesmo que eu o chamasse e até lhe oferecesse um dos meus famosos biscoitos, ele continuava a me ignorar olimpicamente. Era como se ninguém existisse à sua volta, como se tudo que importasse fosse aquele acontecimento pelo qual aguardava com uma lealdade mais do que perfeita... Fui ficando tão curiosa com respeito a ele que, indagando aqui e ali com os vizinhos, acabei descobrimdo que, na verdade, não tinha nem dono nem casa, pois a família à qual pertencia havia se mudado para outro bairro e, simplesmente, o tinha abandonado sem o menor escrúpulo. No entanto, o pobre cão, ignorante da cruel decisão dos seus donos, continuava fincado ali, diante do portão da sua antiga casa, esperando que eles aparecessem para buscá-lo... Na chuva e no sol, de noite ou de dia, lá estava ele, olhos fixos no portão, corpo alerta a qualquier sinal de movimento ou som. Era comovente e revoltante ao mesmo tempo, pois nada podíamos fazer, já que ele rejeitava ou ignorava qualquer aproximação.
No entanto, e sabe-se lá por que cargas d'água, o cão começou aos poucos a se interessar pelo ir e vir de uma van verde que saía todo dia cedo apanhar os estudantes e retornava no fim da tarde, após tê-los entregue em suas casas. Passou a esperar por ela todo dia, fazendo uma festa cada vez que aparecia na esquina e vinha estacionar diante do portão após terminado seu roteiro diário. De repente, o veículo pareceu tornar-se o centro da sua existência, ninguém entendia por quê... O motorista -e novo morador da casa onde o cachorro vivera, o que nos proporcionou uma explicação bastante razoável para seu comportamento- não lhe dava a mínima atenção apesar de todas as cabriolas, pulos e frenéticas abanadas de rabo com que o pobre cachorro o recebia toda vez que estacionava e descia da van. Acho que, de alguma forma, o animal voltou a sentir que tinha um dono, mesmo se não podia entrar na casa e era obrigado a ficar vagueando pelas redeondezas e fuçar nas latas de lixo para não morrer de fome... Às vezes o homem, talvez compadecido ou tocado pela fidelidade do cão, jogava-lhe algumas sobras, pois apesar de não demonstrar afeição por ele, parecia uma boa pessoa, e isto era o suficiente para o cachorro permanecer ali... E, como antes, não estava em absoluto interessado no resto da humanidade, não tinha nenhum intenção de fazer amizade nem com as pessoas nem com os outros cães que eventualmente apareciam na rua. Ele, simplesmente, os ignorava feito um rei. Só tinha olhos para o homem da van verde, mesmo percebendo que este não correspondia à sua fidelidade e afeição. Era humilde e carente o suficiente como para aceitar alegremente o átimo de simpatia que ele lhe dispensava, e o trauma da sua repentina perda o fazia agarrar-se desesperadamente à única imagem familiar ligada ao que ainda considerava seu lar... "Será que o antigo dono também tinha uma van?", me perguntava eu, aflita.
Também ficava constantemente preocupada por essa sua mania de deitar ao sol bem no meio da rua, como se fosse o dono dela. Quem morava por perto, ao chegar perto da casa, reduzia a velocidade e desviava, sabendo que ele estaria deitado ali, mas um dia, algum motorista desavisado poderia atropelá-lo e com certeza o homem da van não teria condição de socorrê-lo, pois acho que para ele bastava apenas não deixá-lo morrer de fome na frente da vizinhança.
Todo dia eu passava e ficava olhando para ele por alguns minutos, tantava falar com ele, fazer amizade, seduzi-lo com meus biscoitos, mas nada além do veículo verde parecia ter alguma importância para aquele cachorro... Então, eu seguia para o trabalho, ou para casa, tecendo mil conjecturas sobre o que teria acontecido aos seus dondos para largá-lo assim, da noite para o dia.
As coisas continuaram assim até eu sair de férias e ficar durante um mês me bronzeando nas limpas e cristalinas praias de Bombinhas. Quando voltei e passei por aquela rua para ir ao trabalho, percebi, alarmada, que o animal não estava mais ali. Imediatamemnte, pensei que meus temores haviam se realizado e algum carro tinha-o atropelado... Meu coração se encolhleu, faltou-me o ar. Aquilo me pareceu a maior das injustiças! Um animal assim tão nobre e fiel ter um fim daqueles!... Angustiada, quase chorando, fui fireto à casa do dono da van, bati palmas e aguardei, torcendo as mãos, a que alguém viesse atender. E foi justamente ele quem veio, com seu andar pesado e lento, um amável sorriso em sua face morena de pequenos olhos escuros. Assim que me viu, ergueu uma mão e acenou para mim, acentuando o sorriso... Essa simpatia toda seria para esconder alguma coisa ruim?, me perguntei, mais aflita ainda.
Mas o homem -de quem nem sabia o nome ainda- chegou junto do portão, o abriu e saiu à rua com um ar tão tranquilo e aberto, que deduzi que as notícias não eram ruins. Talvez até o oposto.
-Oi, tudo bem?...- cumprimentei, meio sem graça, mas eu sabia que ele sabia por que eu estava ali, então decidi relaxar e ser sincera e direta -Será que o senhor, por acaso, não sabe o que foi daquele cachorro que ficava deitado ali na rua, em frente da sua casa?... Nossa, eu ficava tão preocupada com esse costume dele ficar bem no meio do asfalto! Vai que alguém não o percebe e passa por cima!...
O homem abriu mais o sorriso, e um lampejo de divertida indulgência passou pelos seus olhos. Acho que sabia que estava diante de uma alma totalmente franciscana.
-É verdade, até eu ficava preocupado vendo ele deitado ali- disse com extrema amabilidade.
-Pois é...- concordei, começando a ficar impaciente -Então? O senhor não sabe...?
-Pois é...- repetiu ele, meio zombeteiro -E tão preocupado estava que peguei aquele cachorro maluco e o levei para a fazenda do meu irmão, que estava precisando de um cão para cuidar da casa.- disse, de uma vez, e ficou me observando com expressão de trunfo.
-Nossã, não acredito!...- exclamei, genuinamente aliviada e feliz -O senhor fez mesmo isso?...
O homem se remexeu, entre constrangido e lisonjeado, e me deu uma olhada de cumplicidade que me fez compreender a verdadeira natureza do seu coração. Era uma pessoa realmente boa, e mais um forte candidato ao meu altar de santinhos anônimos.
-Sabe, dona, eu fiquei tão chateado quando me contaram o que os antigos donos fizeram com ele, que tive a intenção de adotá-lo imediatamente... Um animal fiel assim não merece esse tipo de tratamento, não é mesmo? Eles é que não souberam dar-lhe valor, mas eu não ia deixar ele largado assim!... O problema é que a minha filhinha é alérgica a pêlo de animal, senão teríamos uma dúzia de gatos e cachorros, então não pude levá-lo para dentro de casa... Mas acredite que perdi noites de sono tentando saber o que faria com o cão... Até que, conversando um dia com meu irmão, ele me disse que estava precisando de um cachorro para cuidar da casa no sítio... Pronto, estava aí a solução! Como o animal gostava tanto de mim, não tive problema para pegá-lo e colocá-lo na van... Fez uma festa que só vendo! Coitado, finalmente teria um lar e donos que gostassem mesmo dele... Porque meu irmão é doido como eu por cachorros, sabe? Então, não podia deixá-lo em melhores mãos, a senhora não acha?... Será que fiz certo?...- inquiriu de repente, meio inseguro -E se os antigos donos inventam de aparecer por aqui?...
Eu fiquei olhando para ele durante alguns segundos, acendendo mentalmente a velinha para este novo santinho em meu altar, e tive vontade de me jogar no pescoço dele e enchê-lo de beijos e lágrimas.
-Imagine!... Que antigos donos que nada! Esses aí são mais animais do que o cachorro!... O senhor fez a coisa certa, não tenha dúvida. Essa era a recompensa justa para um animal feito aquele- disse, sentindo que meu coração ficava leve e grato e que o mundo era bem melhor por este homem existir nele.
Nos despedimos polidamente, segurando a nossa emoção -afinal, nem seu nome eu sabia!- e quando estava para atravessar a rua e seguir meu caminho, ele me chamou de novo:
-Moça!...- eu parei e me virei. Ele dera uns passos em minha direção e sorria feito um garoto -Ele se chama "Leal"...- disse em voz baixinha, como se fosse nosso segredo -Nome legal, né?...
Eu assenti, sorrindo também, me despedi de novo e virei a esquina, soltando um enorme suspiro de contento.
-"Leal"...- falei baixinho -Se tem anjo da guarda de cachorro, você tem um sensacional...- e acrescentei, acelerando o passo e dando uma furtiva olhada para o cé: -É, você gosta mesmo de todos, não é? Nem cachorro escapa ao seu amor!...