Como prometido, e completamente inspirada pela chegada da primavera -e apesar de suas mudancas de humor, porque dizem que amanha vai chover- aqui vao os contos da semana. Vamos ver se o sol sai de novo e me inspiro, porque agora sim acabou meu estoque de histórias.... Mas, às vezes, uma chuvinha também pode nos trazer algumas boas ideias, nao é mesmo?...
TRICOTANDO
Faz frio na ponte. Muito frio. Todos tentam botar seus pontos de venda mais perto da rua, porque no meio da ponte passa um vento polar que ninguém aguenta. E também porque é mais fácil fugir da polícia quando se está nos extremos. Porque sao todos camelôs ilegais. Chegam todo dia com seu saco de mercadorias de segunda -ou receptadas- roupa usada, sapatos zurrados e todo tipo de quinquilharias de duvidosa qualidade, esticam um pano no chao (pronto para enrolar com tudo dentro caso aparecam os PM) e ali ficam o dia todo, oferecendo seus produtos a quem passa a caminho do mercadao... Batem papo, bebem um chazinho para espantar o gelo que sobe do río, brincam, cochilam apoiados na grade de metal, comem a sua marmita fria e poucas vezes voltam para casa com algum dinheiro. Mas continúam ali, teimosos, ousados. E tem de todo tipo: velhos, jovens, maes com seus filhos, avós, gordos, zangados, brincalhoes, desanimados... E está a mulher que tricota. É uma velhinha de cabelos completamente brancos, enrugada e magrinha feito um galho seco, de pele curtida e dura pela intempérie, umas maos ossudas, de dedos artríticos e unhas carcomidas. Parece que nem toda a roupa do mundo será capaz de aquecê-la. Ela vende temperos em saquinhos e algumas ervas medicinais, mas nao faz propaganda. Nao, está sempre caladinha, sentada em seu banquinho de plástico, com uma sacola de ráfia do lado e seu tricô. É um cachecol? Uma meia? Quem sabe uma blusa para alguma neta?.... O curioso é que parece que seu trabalho nao avanca, está sempre do mesmo tamanho. O que será que tricota na verdade? Seus sonhos de crianca? As suas esperancas quase mortas? Suas lembrancas? Seus medos?... Ninguém sabe, mas o certo é que parece que nao quer acabar essa prenda porque talvez tem receio de que, ao terminá-la, a sua vida termine também. Se mantem agarrada a ela através deste tricô de la descolorida. Como a esposa de Ulisses, que tricotava de dia e à noite desfazia tudo que tinha feito, a velhinha, na escuridao do seu quarto frio e úmido, enrola e desenrola numa bola de la seu destino.
SEU PEDRO
O cara era o máximo: gentil, bem-humorado, atento, alegre, antecipava-se aos desejos e perguntas de todos, sempre pronto a ajudar, fazendo bem mais do que era seu dever. Dava conselhos, escutava e fazia confidências, arrumava portas, torneiras, lustres. Nao deixava ninguém sem atender, sempre com aquele sorriso luminoso. Arrumava telefones imprescindíveis, perguntava pela saúde, a família, o trabalho. Conhecia a vida de todos e levava mensagens até os chefes, trazendo de volta notícias fidedignas sobre o que planejavam, o que escondiam, suas falhas e complós. Vaticinava com pontaria certeira as possíveis desgracas que poderiam acontecer e opinava sem medo sobre o que deveria ser feito para que todos vivessem felizes. Era um cara insubstituível, de verdade. Ninguém queria que fosse embora, sequer que se afastasse, pois após algum tempo comecaram a depender dele e suas acoes e conselhos, das suas advertências... Nada acontecia sem que seu Pedro nao soubesse e interviesse de algum jeito, mostrando-se sempre justo e sereno. No entando, ao mesmo tempo em que isto acontecia, comecaram a se gerar brigas e desacordos entre todos. Era como se alguém tivesse plantado a semente da discórdia. Acusavam uns aos outros e deixavam de se falar por bobagens, e diante de qualquer enfrentamento, acudiam ao seu Pedro para pedir conselho e sentenca, e como todos o respeitavam e gostavam dele, as coisas se acalmavam por um tempo. Mas logo alguém entrava em conflito e as discussoes entre todos voltavam, inclusive com os chefes e os outros que trabalham ali. Era como uma montanha russa que nao tinha fim. E o único que podia salvá-los desta tempestade era seu Pedro. Seu poder era indiscutível.
E à noite, já na sua cama, seu Pedro desligava a luz e sorria na escuridao, como se nao quisesse que ninguém o visse, e esfregava as maos com ar satisfeito. Sim, definitivamente, tinha todo mundo comendo na palma da sua mao.