domingo, 11 de maio de 2014

"A chantagem"

    E como prometi, aqui está, finalmente, o conto. Demorou, porém, mas vale tarde do que nunca, nao é mesmo?. Espero que o desfrutem tanto quanto eu ao escrevê-lo. Já estava quase completo em minha cabeca, só faltava um empurraozinho de vontade e disciplina, entao sentei, decidida a pari-lo, e, numa hora e meia mais ou menos, estava pronto... Promessa cumprida!.



    Seu estômago estava roncando, tanto que nao o deixava cochilar. Sentado no banco do passeio sob aquele plácido sol de comeco de verao, Mário tentava se recompor da noite passada, na qual se reuniu com seus amigos e se foram de farra até de madrugada, bebendo tudo que puderam comprar com as esmolas do dia: vinho, cerveja, coca cola, rum, vodka... Comeram uns dois sacos de batatas fritas e alguns sanduíches de mortadela e queijo, mas fora isso, a coisa foi pura bebedeira, entao estava com o estômago nas costas, parecendo um saco vazio e enrugado. A sua enorme panca nao o delatava, mas na verdade estava morrendo de fome. Nao lembrava se tinha dormido no mesmo banco, enrolado em seu cobertor imundo e desfiado, ou se algum amigo o tinha invitado para o refúgio e depois ele tinha vindo até o passeio terminar de passar a bebedeira... A coisa era que já tinha fucado em todas suas sacolas e nas lixeiras próximas e nao tinha encontrado nada digno de um bom café da manha. Era cedo demais para as sobras dos funcionários dos prédios, os estudantes ou os médicos do centro de saúde. Tudo era do dia anterior, entao já estava revirado e meio podre. Logo os garis passariam e limpariam as lixeiras, aí sim poderia entao se esbaldar com os restos de café, tortas, mistos quentes, bolos e iogurtes dos transeuntes. Mas por enquanto, a coisa estava féia. Além da tremenda dor de cabeca pela mistura de bebidas, comecava a sentir-se fraco e tonto, com frio e uma tremedeira que já conhecia muito bem.... Aproximaram-se dele um par de cachorros, magricelas e pidoes, de pêlo áspero e despenteado, e ficaram olhando para ele mexendo o rabo, esperando alguma coisa, como sempre. As pombas também andavam rodeando por alí, arrulhando e enchendo o peito, acostumadas às suas migalhas. Porque isso tinha de bom o Mário: tudo que conseguia o compartia, já fosse com os animais ou com outros mendigos que perambulavam por ali e que às vezes estavam em pior situacao do que ele. Pelo menos ele tinha um par de sapatos -uns tênis que estavam pequenos e nao tinham cadarcos, mas que mantinham seus pes quentes na madrugada- uma parca, piolhenta e toda rasgada, mas com um bom recheio, que vira e mexe escapava pelos buracos. Tinha um gorro de la meio roído pelas tracas e um arremedo de luvas feito com um par de meias furadas... Sim, definitivamente, estava melhor do que muitos. Até tinha seu lugares fixos onde ir buscar comida, nos quais era prontamente atendido, entao era difícil que passasse fome ou sede. E sempre tinha as lixeiras, é claro, onde nunca faltava um meio copo de café ou chá, uns restos de fruta ou salada, pedacos de pizza ou sanduíches, de repente pastéis e uma vez até um bom pedaco de bolo com velinha e tudo. Aquela vez foi muito genial, porque imaginou que estava de aniversário e acendeu a vela e cantou "Parabens para você" e tudo, assoprou e pediu um desejo, mas depois nao lembrou qual era porque, como estava comemorando, aproveitou para beber todas e acordou na porta de uma igreja que nao conhecia...
   Seu estômago tornou a grunhir, revirando-se, irrequieto. Mário mudou de posicao e suspirou. Estava com fome, mas tinha preguica de levantar-se dali e ir atrás do seu café da manha. Estava gordo demais. Todo mundo falava isso para ele, mas ele nao dava ouvidos.
    -Nao me atrapalha em nada.- lhes respondia, com a sua voz surpreendentemente suave e culta.
    Talvez por isso as pessoas aproximavam-se dele para pedir-lhe informacao ou bater papo, a despeito do fedor insuportável que despedia. Porque aquela era a sua maior característica: seu mal cheiro. E nao era só que era desagradável, é que, simplemente, fedia. Todos sabiam que estava chegando ou que tinha estado em algum lugar pela caatinga que o antecedia ou que deixava para atrás. Era uma mistura insalubre de merda, suor, orina, comida rancosa, umidade e todo tipo de coisa, consequência de nao tomar um banho fazia anos. Uma crosta preta e áspera cobria boa parte de seu corpo, especialmente as expostas à intempérie, e seu cabelo e barba eram feito um gorro e um cachecol cinzentos e despenteados onde se perdiam os piolhos e os restos de comida.
    -E para que vou tomar banho?- discutia quando alguém tentava convencê-lo para que se asseasse um pouco, pelo seu próprio bem -A sujeira me mantém quentinho!
    E provávelmente era verdade, porque a crosta era tao grossa que o frío nao devia penetrar por ali.
    O curioso era que o Mário nao era um daqueles mendigos loucos e ignorantes que andavam por aí gritando e importunando às pessoas com a sua miséria. Nao, ele tinha uma espécie de digna independência. Nunca alguém o via estender a mao para pedir ou se atravessar diante de alguem para expôr seus dramas e provocar lástima. Nada disso, ele caminhava devagar, feito um rei pelos seus domínios, carregando aquele monte de sacolas, pacotes, jornais -porque adorava sentar-se ao sol para ler as notícias do dia- cobertores e às vezes uma bengala, e se virava sozinho. Suass malhores amigas eram as lixeiras do passeio, sempre cheias de surpresas para sua insaciável fome. Era incrível, as pessoas jogavam fora todo tipo de coisas, inclusive umas que ainda serviam. Era assim que tinha arrumado seus tênis, a parca e o cobertor. Uma vez até achou um travesseiro quase novo, com fronha e tudo, mas aí chegou um outro mendigo, um esfarrapado que andava mostrando a bunda porque nao tinha um cinto para amarrar as calcas que estavam grandes demais, e ficou olhando para ele enquanto ele conferia e afofava o travesseiro, sorrindo ao imaginar-se com a cabeca descansando nele. E o cara tinha uns olhos enormes de sofrimento e carência, umas maos magras e azuis de frío e uma boca que parecia mastigar o ar de tanta fome, que ficou com pena e acabou entregando-lhe seu tesouro com seu mais gentil sorriso. O homem o fitou por alguns instantes, estupefato, pois se se tratasse de um outro, nesse momento estariam aos murros para ver quem ficava com o travesseiro. Mas o Mário era um cavalheiro, todo mundo sabia disso. Entao, o outro mendigo pegou o travesseiro, tremendo, o apertou contra o peito e se afastou, balbucindo umas palavras de agradecimento, olhando por cima do ombro de vez em quando, com medo de que o Mario se arrependesse e viesse atrás dele para pegá-lo de volta. Mas o Mario jamais faria uma coisa dessas. Simplesmente nao estava em seu manual de boas maneiras.
    Em contrase, as pessoas nao tinham esse tipo de compaixao com ele, nao sabia se pelo seu porte orgulhoso e seu ar distante e autosuficiente. Ninguém lhe oferecia roupa, comida ou dinheiro. Lhe perguntavam coisas, cumprimentavam-no, podiam sorrir para ele, mas nao tinham pena dele . Será que parecia intimidador? Ou era muito gordo e descuidado? Tinha aspecto de doente e por isso as pessoas tinham receio de se aproximar demais? Ou era porque estava sempre sozinho?... Demorou para perceber, mas finalmente descobriu o que era que afastava as pessoas: seu fedor. Era incrível como a gente podia se melindrar com essas coisas. Mas para ele era algo natural, estava acostumado, o cheiro lhe dava aquela sensacao de lar, de seguranca, de identidade... O problema eram os outros. Nunca se desfaria desta característica que o fazia sentir único, porém, nao podia deixar de perceber que a mesma era um obstáculo quando se tratava de conseguir coisas, entabular conversas  com outros que nao fossem mendigos tan fedidos quanto ele mesmo. Todos cobriam o nariz, desviavam o rosto, faziam caretas e franziam a boca, inegávelmente desgostosos. E isto significava que nao teria outro meio de se alimentar a nao ser fucar nas lixeiras, o que nao lhe desagradava por completo, mas é que às vezes ficava com vontade de uma coisa diferente, mais fresca, inteira, sem estar misturada com outros restos, moída, mesclada e meio azeda... Como fazer, entao?...
    E uma vez fez o teste. Era tudo ou nada. Era uma manha em que estava muito frio e ele dava tudo por uma boa xícara de café com leite e um misto quente, mas onde consegui-los? Ele sabia onde tinha, mas com certeza nao iriam dar-lhe um desses assim nada mais, porque sim, pela sua linda cara... Mas mesmo assim, decidiu se arriscar e foi até a lanchonete da esquina. Talvez poderia ser um cachorro quente com tudo ou um pastel ao invés do misto quente, qualquer coisa, estava morrendo de fome e de frío... Empurrou a porta e entrou, devagarzinho, tímido, ensaiando um sorriso de desculpa. O local pareceu parar no segundo que ele cruzou o umbral. Todos fizeram uma cara esquisita e se viraram para ele, obviamente escandalizados e nauseados pelo fedor que invadia o salao. Alguns clientes, inclusive, se levantaram e foram embora, cobrindo os narizes.
    -O que o senhor vai querer?- perguntou um dos garcons, bem de longe, com uma vozezinha incêdula e ofendida.
    -Eu  queria...- comecou a dizer o Mário, encolhendo-se, humilde.
    E nesse momento surgiu da cozinha um cara que parecia ser o dono e, olhando para o Mário com desdém e impaciência, o interrompeu e ordenou para o garcom com voz áspera:
    -Dê-lhe o que quiser e que va embora logo.- e retornando para a cozinha exclamou, abanando-se com um pano de prato: -Pelo amor de Deus, está empesteando o lugar!...
    Entao, o garcom, sem aproximarse, lhe perguntou, com fingida amabilidade:
    -O que é que o cavalheiro vai querer?.- e automáticamente preparou a sua caderneta e a caneta.
    Mário ficou alguns instantes paralisado, incrêdulo, sem entender muito bem o que estava acontecendo. Porém, aos poucos, comecou a dar-se conta de que estava numa posicao de vantagem e que, por causa de seu mal cheiro, podia esbaldar-se e pedir o que bem quisesse. Incrível! Finalmente a carnica lhe servia para algo!.
    - Bom...- comecou, empertigando-se, solene, sério -Eu vou querer, se for possível, uma xícara grande de café com leite, três pastéis, um pedaco de bolo e um misto quente... por favor.- concluiu, muito memticuloso, e sorriu, secretamente satisfeito ao ver o garcom anotando dedicadamente seu pedido, qual se se tratasse de um cliente vip. Mas que sensacao boa!.
    O rapaz correu até a cozinha, cuja porta de vaivém se fechou atrás dele com um sussurro, e Mário escutou uma pequena e breve discussao lá dentro. Tornou a sorrir. Queria escolher uma mesa para se ajeitar e desfrutar da sua refeicao, mas quando deu o primeiro passo, ouviu-se uma voz estentórea lá do fundo:
    -E que va comer lá fora, pelo amor de Deus!... Eu já vou ter que dedetizar este local depois que for embora!.
    Um segundo depois reapareceu o rapaz com seu pedido, porém nao numa bandeja, mas em sacolas plásticas. Aproximou-se, mal disfarcando a sua repugnância, e lhe entregou as sacolas.
    -Seu pedido, cavalheiro. Muito obrigado.- disse, e se afastou em seguida, indo se esconder num canto do salao, onde achou que talvez o fedor nao o alcancasse.
    Mário pegou as sacolas, um pouco desconcertado, e sorriu gentilmente, fez uma pequena reverência e se virou para sair. Nao ia ficar com frescuras e dar uma de ofendido agora. A coisa já estava o suficientemente boa como para que querer se melindrar. Foi para a rua e procurou seu banco favorito para sentar-se e tomar seu café da manha... Fechou os olhos com prazer e suspirou. Pois bem, ali tinha uma utilidade para a sua carnica: uma discreta e efetiva chantagem que poderia fazer com que ganhasse muita coisa boa. Porém, nao podia abusar, senao acabaria saindo o tiro pela culatra. Só de vez em quando, quando tivesse vontade de se dar um gostinho. Para o resto dos dias ainda tinha suas amigas, as lixeiras.


domingo, 9 de março de 2014

"O louco Jara"

    Demorei um pouquinho, mas finalmente consegui escrever meu terceiro conto, já com muita maior intimidade com o idioma, e devo dizer que foi todo um prazer. Tomara que vocês o desfrutem tanto quanto eu. Estou comcando a re-conhecer melhor meu país e sua gente e descobrindo, muito feliz, que sao uma fonte inesgotável de inspiracao. Espero que as minhas palavras consigam traduzir todo o encantamento que me provocam e que atinja seus coracoes com elas.
    E aqui vai:



    A luz comecou a entrar pelo buraquinho da cortina, aquele que o cigarro tinha feito. Era um raio fininho, bem fininho, meio azul. Já eram cinco horas? Nao sabia porque o despertador que sua mae tinha lhe dado de presente estava quebrado... O louco Jara se virou na cama, embrulhando-se no cobertor velho e fedido. Lencóis nao tinha, e nem pijama. Dormia vestido. Em Agosto estava frio demais como para domir só de cuecas... Olhou para o caixote que lhe servia de criado mudo. Havia três vidros amarelos, todos vazios. Os remédios tinham acabado e nao tinha grana pra comprar mais. É que tinha sido demitido semana passada. Tudo por causa dos cachorros, que andavam seguindo-o por toda parte. Mas que culpa tinha se eles gostavam dele? Já sabem como é viralatas: a gente da uma migalhinha e o infeliz comeca a te seguir pra todo lado. Que culpa ele tinha? Seu Bernanbé, aquele velho do inferno, era quem tinha comecado a se meter com os bichos e a gritar com ele porque latiam para os pedestres e reviravam os sacos de lixo.
    -Vai embora com as tuas porcarías, louco!- lhe gritava, na frente de todo mundo - Nao tá vendo a cagada que tao fazendo?... Já basta contigo cantando e gritando e perturbando as pessoas, Jara, chega!
    O louco nao se lembrava de quando foi que aqueles cachorros comecaram a segui-lo. De repente, foi naquela tarde em que foi comer um cachorro quente na barraquinha do seu Zé e deu uns pedacinhos de salsicha para um cao que andava por ali, puro osso e cara de fome. Parecia que tinha chafurdado na lama e mancava de uma pata dianteira. Pô, ficou com pena! Isso é um crime? O encontrou meio parecido com ele mesmo: cabeludo, sujo, magricela, perdido, pidao... Com os outros cachorros deve ter sido a mesma coisa, mas nao se lembrava.
    Já eram cinco horas?... O louco deu outra virada na cama. Já podia escutar os vizinhos acordando, saindo para comprar o pao, abrindo portas, se despedindo. Cheirinho de café... Foi entao que reparou que estava com fome. Nao comia nada desde ontem, sentia o estômago fundo e estava comecando a fazer uns barulhos engracados. Será que tinha sobrado algum pedaco de pao, uma maca, ou daquele feijao que a dona Carmem tinha lhe convidado antes de ontem?... Lembrando de como estavam gostosos, o louco se levantou de um pulo e foi acender seu fogareiro. Bom, a grade que tinha em cima dos tijolos, alí no quarto. Revirou um momento entre a desordem que tinha em cima de uma mesa de tábuas desiguais e encontrou os fósforos e a bacia com o feijao. Tirou o trapo que a cobria e a aproximou do rosto. Um desagradável cheiro de azedo encheu seu nariz.
    -Puta merda, estragou...- resmungou na penumbra. E num repentino arranco de raiva, abriu a porta do casebre e de um pontapé mandou a bacia pro meio da rua, soltando um palavrao.
    Um homem que passava teve de desviar para que nao caísse em cima dele, e lhe gritou:
    -O que há, louco? Tu ficou fino demais pra comer feijao e tá jogando na rua, hein?- e soltou uma gargalhada.
    O louco ficou olhando para ele, ofegante, tremendo de frio, e fez um som depreciativo com a boca, enquanto voltava para o interior da sua casa.
    -Tu quer comer, idiota?- disse, cocando os piolhos.
    Esse era seu problema. Ninguém o levava à sério. Todo mundo ria dele e viviam fazendo piada da sua roupa, seu  cabelo, seu radinho a pilha, seus sapatos, a sua falta de higiene... Que culpa tinha ele de ser tao pequeno e magro que toda a roupa que lhe davam ficava grande? Tampouco tinha baheiro em sua casa, nem espelho para cortar o cabelo. Nem tesoura tinha! E eles tinham a sua televisao, mas para ele só tinha restado esse radinho a pilha que seu pai lhe deu de presente quando fez quinze anos. Tremendo presente! Andava o dia todo com ele ligado, até que acabavam as pilhas e tinha de fazer alguns bicos para ganhar grana e comprar umas novas, porque seu pai tinha-lhe dito que juntara dinheiro para comprar-lhe o rádio, mas nao as pilhas. E ele nao vivia sem seu radinho. Botava os fones e saia pra rua, varrer a praca, e cantava a plenos pulmoes enquanto juntava os montes de lixo que as pessoas jogavam.
    -Como é que junta tanto lixo aqui?- tinha perguntado para seu Bernabé um dia, quando ainda eram amigos.
    -Isso é pra tu ver, louco. Os ricos sao pura fachada, mas no fundo sao tao porcos quanto tu e eu.- lhe respondeu o velho, olhando maroto para ele com seu olho bom. O outro tinham-lhe tirado porque pegou uma infeccao quando era mais novo, num fim de semana que foi na praia com seus amigos. Tinha entrado um bichinho, disseram, e o arrancaram sem compaixao. O louco estava convencido de que foi aí que seu Bernabé comecou a ficar amargo e chato. Era mandao e gritava com todos os garis, se achava o chefe e andava sempre com seu celular e seu caderninho, vigiando e acusando. Era ele quem tinha ido com o conto dos caes onde o chefe, o velho babaca, e quando o chamaram para comunicar-lhe que estava demitido, o único que lhe disse foi:
    -Eu te avisei, louco. Eu te avisei.
  Mas de qualquer jeito, ele ficou com vontade de meter-lhe o pé na bunda, por desgracado. Nao percebia o que tinha feito? Onde mais iriam lhe dar trabalho? O único que sabia fazer era varrer! E como ía comprar os remédios agora? O doutor do hospital tinha-lhe dito que nao podia deixar de tomá-los, senao iria comecar a fazer coisas ruins, esquisitas, perigosas. E ele nao queria isso. Ele queria estar bem. O trabalho na Prefeitutra tinha ajudado a que pudesse comprar os medicamentos mais baratos, mas agora que tinham-no mandado embora, como ía fazer?... Tremenda cagada que tinha feito o velho Bernabé. Se ele fizesse algo de ruim, a culpa seria dele.
    Já eram cinco horas?... Bom, o ceú estava comecando a clarear e a ruas ficavam barulhentas, os ônibus passavam com maior freqüência, os pontos estavam enchendo, tinha uns estudantes por aí, entao supus que a hora era essa mesmo, talvez um pouco mais tarde... Na mesa revirada achou um pedaco de pao seco, que engoliu em duas mordidas. Quem sabe os companheiros nao lhe convidavam uns goles de café ou um pedaco de sanduíche, ou um pastel. Eram boa gente seus colegas... Podia segurar a fome até chegar no parque.
    Vestiu a jaqueta -que ficava enorme, assim como as calcas e as botinas, mas nao tinha outra coisa, tinham-lhe pedido que devolvesse o uniforme- enrolou um pedaco de pano velho em volta do pescoco e saiu para a rua. Nao podia pegar ônibus, nem metrô, teria de ir andando. Iria demorar um monte, mas nao tinha o que fazer. Tomara nao encontrasse o Bernabé no parque. O velho era ruim. Nao gostava dele, nunca simpatizaram. O louco tinha certeza de que ficou feliz quando soube que tinham-no demitido. Ficava só dando-lhe bronca. Adorava deixá-lo em ridículo... Mas os outros nao. Esses eram boa gente, conversavam com ele, o escutavam, nao se importavam com seu radinho, nem que ele cantasse ou falasse em voz alta. Sempre compartiam algo do seu lanche com ele, lhe passavam a garrafa d'água, lhe diziam onde tinha que varrer... Eles sim eram seus amigos. Por isso nao queria perdê-los. Nao tinha outros amigos. Ninguém queria ficar com ele na favela, só os viralatas. Mas seus colegas nao reclamavam da sua roupa, do seu cabelo, da sua sujeira ou seu fedor. Trabalhavam juntos, de igual para igual.
    O louco Jara caminhava pela rua gelada, encolhendo-se dentro da enorme jaqueta, sentindo que o frío transpassava cada centímero do seu corpo miúdo; os sapatos arrastavam, grandes demais para seus pés, e o machucavam porque nao tinha meias. De repente via monstros. Mais adiante escutava vozes. A metade do caminho foi tomado pelo medo de ser assaltado. Quase ao chegar, exaurido e coberto de suor, lhe parecia que as imagens estavam todas tortas e borradas, que as pessoas estavam deformadas... E quando entrou no parque, lembrou que nao tinha trazido a coisa mais importante, e se nao a tinha, nao iriam deixá-lo trabalhar.
    Entao parou, angustiado, e olhou em volta. Andou um pouco, feito cachorro farejando a sua presa, aproximou-se dos postes, das lanchonetes, da lixeiras, as revirou. A sua angústia crescia a cada momento. Como iria trabalhar? Como iria convencê-los de que sabia fazer as coisas certas, de que podiam confiar nele, de que nao estava louco e que podia cumprir com seu dever? Que era igual aos demais? Porque se esbarrava com seu Bernabé tinha que estar trabalhando, senao o velho iria expulsá-lo a pontapés. Precisava estar varrendo...
    Mas finalmente, assomando de uma lixeira, encontrou o que procurava. Correu até ela e puxou dentre os desperdicos um pedaco de papelao e uma sacola de plástico amarelo, com ar vitorioso.
    -Agora sim!- exclamou, sorrindo.
    E comecou a varrer, empurrando as folhas, os papéis e restos de comida com o pedaco de papelao dentro da sacola de nylon. Estava fazendo a sua parte, e bem feita. Estava fazendo o que melhor sabia fazer: varrer.


    
    

domingo, 16 de fevereiro de 2014

"A outra"

    Bom, como já disse, esta é a última história enviada pelos meus alunos que posto. À partir da próxima vez, os contos serao da minha autoria, pois ao que parece "desencantei" e estou cheia de ideias para desenvolver. Acho que estar finalmente num lugar próprio, com um computador só meu e todo o tempo do mundo -entre uma tarefa doméstica e outra, é claro- destravou as minhas musas e elas estao à toda!... Espero que curtam este último conto e que desfrutem ainda mais os meus!...


    Renato conheceu Tatiane numa sexta-feira no fim da tarde, quando entrou num barzinho do centro após terminar a su palestra no salao de conferências do hotel onde estava hospedado. Os amigos o convidaram a tomar um drinque no bar, mas ele preferiu sair a caminhar um pouco, se afastar do turbilhao de executivos, estagiários, simpatizantes, fazenderos e pecuaristas e desfrutar do que esta nova cidade tinha a oferecer. Sempre que viajava e chegava num lugar que nao conhecia, cumpria primeiro com as suas obrigacoes profissionais e depois se permitia um relaxante passeio pelas ruas do centro para conhecer o comércio, os restaurantes, as lojas e barzinhos, onde geralmente entabulava alguma conversa interessante com algum morador local. Gostava de conhecer as histórias, os personagens e a idiossincrasia de cada lugar que visitava, pois se sentia fascinado pela diversidade de cada um deles.
    -Este país é a coisa mais interessante que existe!- costumava comentar com seus colegas -A gente nunca sabe o que vai encontrar na próxima cidade que visitar.
    Naquela sexta-feira se sentiu mais cansado que de costume, pois a palestra fora cheia de perguntas e interrupcoes e pairava no ar uma inquietacao que acabou por contagiá-lo, fazendo-o perder sua habitual serenidade. O público, formado por fazendeiros e empresários ansiosos e com muitas dúvidas, queria que ele fosse até as propriedades para ver de perto a situacao, como se isto fosse ajudar a encontrar solucones mais rápidas e efetivas para seus problemas. Recebeu inúmeras propostas, mas recusou todas, pois seu trabalho nao era esse e, além do mais, tinha que cumprir uma agenda pré-estabelecida pela sua empresa, portando nao podia demorar-se mais do que o previsto em cada cidade. Por isso, escolheu aquele barzinho perto do hotel, pois lhe pareceu tranquilo e discreto. Realmente, nao estava a fim de bagunca.
    Entrou com passos lentos e foi até o balcao, onde um homem magro e alto limpava alguns copos com um pano úmido. Parou diante dele e sentou num dos bancos de couro vermelho.
    -Por favor, me veja um uísque com gelo.- pediu com um sorriso cansado.
    -É para já.- disse o barman, sorrindo gentilmente, e foi até a prateleira pegar a garrafa.
    Enqanto isso, Renato deu uma olhada no local, que ainda estava meio vazío: parede vermelho escuro, mesas e bancos de madeira clara com toalhas xadrez, pequenos lustres espalhados em cima das mesas, alguns quadros mostrando os tipos de bebidas e porcoes servidos no estabelecimento, um arranjo de velas e flores numa garrafa em cima de cada mesa, piso de madeira brilhante. Uma suave música no ar, uma agradável penumbra que convidava à conversa e à descontracao... Renato gostou. Deu mais uma olhada pelo lugar e foi entao que viu Tatiane, sentada sozinha numa das mesas do fundo, com um copo de suco na mao e um livro aberto em cima da mesa. Imediatamente seus olhos pararam nela: tinha cabelos escuros e compridos, feicoes delicadas e uma boca pequena e sensual levemente colorida de vermelho. Brincos discretos, pulseira prateada, terninho preto e blusa cor-de-rosa combinando com seus sapatos. Renato ficou encantado por aquela figura solitária no canto do bar e quando o barman colocou seu drinque no balcao, ele se virou e perguntou, sentindo com surpresa seu coracao bater forte:
    -Desculpe, mas o senhor conhece aquela moca sentada lá no fundo?
    O homem olhou na direcao que ele indicava, franziu a testa, pensou um pouco e finalmene respondeu, estralando a língua:
    -Nao, moco, conheco nao.- e acrescentou, iniciando um sorriso de cumplicidade -Mas ela vem todo dia a esta hora. Eu acho que estuda na facultade que fica aqui perto.
    -É mesmo?...- replicou Renato, sem tirar os olhos da moca, bebendo seu uísque com ar distraído -Será que...?
    -Nunca a vi acompanhada- disse o barman, com ar conspiratório, como se tivesse lido seus pensamentos.
    -É mesmo?.- repetiu Renato, olhando para ele com interesse -O senhor sabe mais alguma coisa sobre ela?
    Sentindo-se importante, o homem se inclinou para Renato, apoiando-se no balcao, e segredou em seu ouvido:
    -Eu acho que ela estuda para ser professora. Está sempre carregando uns livros enormes sobre pedagogia e essas coisas. Às vezes aparecem alguns colegas dela e ficam na mesa conversando de provas e estágios.
    -Entao deve estar no último ano- concluiu Renato, bebendo mais um gole e olhando disfarcadamente para a moca, que parecia totalmente abstraída em sua leitura. Em seguida, voltou-se para o barman e perguntou -O senhor acha que tenho alguma chance?...
    Este sorriu com malícia e deu uns tapinhas no ombro de Renato.
    -Arrisque, meu rapaz. A moca vale a pena. E depois, o pior que pode acontecer é ela lhe dar um tremendo fora e você ter que ficar aqui bebendo sozinho.
    Renato sorriu, conquistado pela simpatia do homem e, tomando fôlego, piscou um olho para ele e se dirigiu para a mesa onde Tatiane estava sentada. O homem fez um sinal de positivo com a mao e voltou a limpar copos, mas sem tirar os olhos do casal. Estava curioso por saber em que daria aquele encontro.
    Renato chegou à mesa e parou, esperando que a moca o notasse, mas ela estava tan compenetrada em sua leitura que nem o percebeu. Levou o copo aos lábios e sorveu lentamente seu suco, arrumou uma mecha de cabelo que tinha caído sobre a testa e suspirou. Renato contemplava cada pequeno gesto seu em fascinado silêncio, e as coisas teriam continuado assim nao fosse um estrondo a sacudir o local. Ambos deram um pulo e olharam para o bar, onde o balconista acabara de derrubar uma pilha de latas de cerveja.
    -Desculpem!...- exclamou, todo atrapalhado -Escorregou!..- e riu, mostrando as maos, mas Renato pôde perceber o rápido olhar de cumplicidade que lhe dirigiu.
     Tatiane entao pecebeu que Renato estava ao seu lado e, um pouco surpresa, o cumprimentou com um sorriso e um breve "Olá".
    -Será que posso me sentar um instante?- perguntou ele, tentando nao parecer abusado. Interiormente rezava para que ela nao pensasse que se tratava de uma cantada barata.
    Ela o fitou por alguns segundos, como que avaliando-o, e pareceu esbocar uma negativa, mas reconsiderou e, fechando seu livro, assentiu com a cabeca. Renato suspirou aliviado, depositou seu copo na mesa e afastou o banquinho.
    -Com licenca.- disse, polidamente, ao que ela respondeu com uma suave risada que o deixou ainda mais encantado -Qual é seu nome?
    -Tatiane, e o seu?- respondeu ela, com uma voz melodiosa.
   -Renato.
    De repente, ele teve medo de nao ter nada para conversar com ela e a coisa acabar ali mesmo. Sentiu-se inseguro e nervoso como nunca antes e se remexeu no banquinho, procurando alguma coisa inteligente para engatar a conversa. O silêncio tornava-se a cada momento mais constrangedor. Renato comecou a suar.
    -Você é daqui?- perguntou entao Tatiane, sorrindo. Ela transmitia uma serenidade contagiante.
    -Nao, estou só a negócios- respondeu ele, comecando a relaxar -Vim dar uma palestra no Hotel Luxor.
     -Palestra sobre o quê?- ela parecia estar genuinamente interessada, o que animou Renato.
    -Sobre agronomia.
    -Você é agrônomo? Que interessante, e qual a sua área?
   -Desenvolvimento de sementes. Como reproduzir, como melhorar, plantar e comercializar- explicou ele, confiante, refletindo-se nos olhos escuros de Tatiane.
    -E você viaja muito?
    -Constantemente. Eu moro em Curitiba, mas trabalho para uma multinacional, entao estao sempre me mandando para outras cidades divulgar os produtos e a tecnología.
    Ela riu, recostando-se na parede.
    -Nossa, entao você deve sofrer à beca quando vem nestas cidadezinhas do interior!
    Ele se empertigou no banquinho, receando tê-la ofendido, e adquiriu um ar de desculpa ao responder.
    -Nao, imagine! Eu adoro cidade pequena! Elas têm um algo todo especial...
    -É, sei...- o interrompeu ela, irônica -Poeira, lojas cafonas, cavalos na rua, uma única locadora com filmes velhos, paralelepípedos, uma turma de velhotes conversando e jogando truco e um monte de cachorros se cocando ao sol- e tornou a rir, divertida com a expressao aflita de Renato.
    -Nao, acredite, nao é nada disso. Eu gosto mesmo de conversar com as pessoas e conhecer a história do lugar, percorrer as ruas, visitar as igrejas e os cemitérios...
    -Cemitérios?- o interrompeu ela, espantada -O que você encontra de interessante em visitar um cemitério?
    Ele a fitou um momento antes de responder. De perto era ainda mais bonita.
   -Tem muitas histórias lá dentro. Você pode deduzir ou imaginar muita coisa estudando túmulos, sabía?
    Ela ficou séria de novo e apoiou os cotovelos na mesa. Aquele rapaz era mesmo diferente, ou entao o mais engenhoso conquistador barato que já conhecera.
    -Pelo que vejo, você gosta de histórias.- disse, olhando para ele com um novo interesse.
    -Adoro. E você?
    -Gosto, mas prefiro as que têm números.
    -Como assim, números?
    Entao, ela pegou o livro que estava lendo e o abriu.
    -Matemática- explicou, virando algumas páginas cheias de números e cálculos para ele -Eu adoro matemática. Estou no último ano de faculdade.
    -Vai ser professora?
    Ela negou com a cabeca.
    -Pretendo fazer doutorado e trabalhar em pesquisas espaciais- respondeu com firmeza, como se receasse que ele nao aprovasse.
    -Nossa, entao você é barra pesada mesmo!- exclamou ele, admirado.
    Ela sorriu, lisonjeada, e bebeu um gole de seu suco.
    -Pois é...- expressou, olhando para ele com um ar desafiador -Agora está arrependido de ter vindo falar comigo?
    -Por que você diz isso?...
    Ela pareceu um pouco aborrecida e suspirou.
    -Porque ninguém gosta de mulher barra pesada, inteligente demais.
    Agora foi a vez dele rir.
    -Por que eu iria querer conquistar uma descerebrada?- exclamou, mas se calou em seguida, percebendo a sua gafe.
    Ela ficou olhando para ele em silêncio, pois também tinha percebido o deslize, e já estava comecando a pegar as suas coisas para ir embora, quando ele a deteve.
    -Porfavor, nao vá.- disse, segurando-a pelo braco. -Nao sou o que você está pensando. Me desculpe...
    -Você mesmo acabou de confessar- lhe cortou ela, com frieza -Deve arrematar uma conquista em cada cidade que visita, nao é mesmo?
    -Na, isso nao é verdade!... Eu gostei de você desde o primeiro momento em que a vi sentada aqui. Eu juro! Na estou tentando nada desonesto!... Por favor, acredite em mim.- suplicou ele, genuinamente aflito -A última coisa que queria era magoá-la...
    Ela hesitou mais alguns momentos, mas alguma coisa no tom de Renato, em seu olhar, no seu toque, acabou por convencê-la a ficar. Tornou a sentar, deixou a bolsa e o livro na mesa e ficou olhando para ele em silêncio, como estudando-o.
    -Obrigado- expressou ele, sorrindo aliviado.
    -Só espero nao me arrepender mais tarde- disse Tatiane, ainda séria. Mas em seguida abriu um sorriso que espantou aquele clima tenso como um vento varre as nuvens para que o sol brilhe novamente.
   Entao, uma vez vencidas as desconfiancas, passaram o resto da velada conversando animadamente, rindo, trocando histórias e experiências, contando seus planos e alguns segredos. O homem do balcao, muito feliz, serviu-lhes mais suco e as porcoes que eram a especialidade da casa, mas eles estavam tan envolvidos na conversa, permeada de olhares e toques cheios de emocao, que mal provaram a comida.
    Perto das dez da noite, Tatiane lembrou de repente que tinha ficado de encontrar seu pai no terminal às dez e quinze e que quase nao teria tempo de chegar. Levantou-se apressadamente, pegou as suas coisas e comecou a se despedir.
    -Infelizmente vou ter de ir. Meu pai já deve estar no terminal me esperando- disse, um pouco triste, com aquele pressentimento de que tudo terminava ali tomando conta de seu coracao -É uma pena, mas... Acho que a gente nao vai se ver de novo- concluiu, estendendo a mao para ele num gesto estranhamente formal.
    Renato se levantou também, sentindo que a situacao escapava ao seu controle e que estava prestes a perder Tatiane. Seu coracao batia, desbocado, negando-se a aceitar o fato. Entao decidiu arriscar.
    -Podemos nos encontrar amanha à noite, aqui mesmo?...- perguntou de supetao, segurando a mao de Tatiane com inesperada forca. E como ela demonstrara hesitacao, el insistiu, com mais intensidade -Por favor!
    Ela ainda duvidou, mas acabou concordando. Seu coraco talvez nao estivesse enganado e Renato era mesmo diferente. Quicá valesse a pena confiar nele e arriscar.
    -A que horas amanha?- perguntou entao, comecando a se afastar em direcao à saída.
    -Oito e meia está bem para você?
    -Ótimo... Nos vemos amanha entao.- disse ela, abrindo a porta e saindo.
    Renato teve vontade de segui-la, ou de ir até a rua e ficar observando-a até ela desaparecer, mas se conteve e voltou ao balcao para pedir outro drinque.
    -Deu tudo certo, hein?- comentou o barman, esbocando um sorriso maroto -Essa aí você nao perde!- exclamou, enchendo seu copo.
    -Espero que nao- disse Renato em voz baixa, sem levar em conta o duplo sentido das palavras do homem, que já devia ter presenciado centenas de encontros parecidos. Mas neste caso, nao se tratava de algo passageiro e vulgar. Renato tinha a clara sensacao de que havia sido fisgado e de que nao adiantava lutar contra esse sentimento.
    -É amor?...- murmurou, enquanto bebia o último gole. Nao tinha certeza, mas sabia que era algo diferente de tudo que já sentira até entao. E também sentia que valia a pena investir nesta relacao.
    Mal conseguiu dormir e levantou cedo, desceu para tomar café e saiu para dar uma volta. Sua palestra comecava às três da tarde, entao tinha tempo de sobra para se preparar. Foi na igreja, foi no pequeno shopping de lojas em sua maioria cafonas e ultrapassadas, numa locadora que só tinha filme velhos, e numa banca de jornal. Sentou na praca para ler, mas ao invés disso, ficou observando os cachorros deitados se cocando ao sol e os velhos conversando em volta de uma mesa de truco, os cavalos que passsavam pela rua levantando poeira e os paralelepípedos que enfeitavam a calcada da praca... Tudo lhe lembrava Tatiane, mal conseguia pensar em outra coisa. Só esperava que iso nao atrapalhasse a sua palestra.
    Mas, como sempre, seu profissionalismo venceu e nao teve nenhum tropeco durante a apresentacao, após a qual voltou para seu quarto e decidiu dar uma cochilada, pois queria estar bem disposto para seu encontro à noite. Também, desta maneira o tempo passaria mais rapidamente... Pediu para ser acordado às sete da noite. Daria tempo de tomar uma ducha e se trocar com calma, talvez até para ir na floricultura vizinha ao hotel e comprar um pequeno buquê para Tatiane. Com certeza, ela iria adorar... E assim com tudo planejado, deitou-se e dali a pouco dormia profundamente.
    Pontualmente às sete, o telefone tocou. Era o gerente para acordá-lo. Renato pulou da cama, foi para o chuveiro, onde demorou mais do que o habitual, se enxugou, fez a barba cuidadosamente, passou gel no cabelo, botou uma discreta locao pós-barba e voltou ao quarto para se vestir. Bom, nao tinha muita escolha, pois fora os dois ternos e o par de sapatos pretos que usava nas palestras, só tinha calcas jeans, camisetas e tênis. Mas preferiu ser formal e acabou botando um dos ternos, com gravata e tudo, e até um lenco no bolso da jaqueta. Assim trajado, se olhou no espelho e suspirou.
    -Nossa, até parece que vou pedir a moca em casamento!- disse, brincalhao.
    Sorrindo diante da sua própria ansiedade, enfiou a mao no bolso para conferir se a carteira estava ali e finalmente saiu e desceu até o saguao. Deu uma olhada no relógio e viu que ainda lhe restavam alguns minutos para ir na floricultura. Saiu rapidamente pela porta giratória e entrou na loja, que ficava ao lado do hotel. Sem duvidar escolheu um pequeno ramalhete de rosas de várias cores, embrulhadas em celofane, pagou e se dirigiu até o bar com passos decididos... Olhou novamente o relógio. Chegaria exatamente na hora marcada.
    Quando abriu a porta do bar, o homem do balcao parecia estar esperando por ele, pois de imediato brindou-lhe seu melhor sorriso e já foi preparar um drinque. Renato acenou para ele foi sentar na mesma mesa que ele e Tatiane ocuparam na noite anterior.
    Porém, ele bebeu o primeiro drinque, o segundo, e já se preparava para pedir o terceiro, e Tatiane ainda nao aparecia. Renato olhava incessantemente para seu relógio e uma enorme angústia tomava conta dele, pois o tempo transcorria, implacável, e a porta do bar no se abria para mostrar a figura que ele tanto ansiava ver. Entraram algumas pessoas: dois homens, uma turma de estudantes, uma mulher sozinha, um senhor de idade que sentou no balcao e ficou bebericando a sua cerveja e observando os fregueses como se estivesse fazendo uma avaliacao de cada um... Mas Tatiane nao apareceu. Após uma hora e meia de espera, Renato dirigiu um olhar de desespero e decepcao para o barman, e este lhe espondeu encolhendo os ombros. Tampouco sabia o que houvera.
    Mil perguntas e conjecturas passavam pela cabeca de Renato enquanto estava sentado no banco, rodeado pela aconchegante penumbra do local. Será que havia sido uma brincadeira dela? Ou será que quis simplesmente se vingar porque achou que ele só estava tentando se aproveitar dela? No fim teria sido tudo uma encenacao? Será que ela era tao certa quanto parecia ou era do tipo que costuma se engracar com o primeiro que aparece para depois dar-lhe o fora?... Talvez ela nao acreditasse de verdade em suas desculpas e tivesse decidido dar-lhe o troco deixando-o ali plantado a noite toda... Fazendo rodar nervosamente o copo na mesa, Renato se debatia entre mil teorias, tentando chegar a alguma conclusao que explicasse o comportamento de Tatiane, pois nao lhe parecia uma jovem leviana. Por fim, deu uma última olhada no relógio -já eram mais de duas horas de atraso!- bebeu o último gole e se levantou da mesa, disposto a ir embora e esquecer o desagradável incidente.
    -Sou um idiota mesmo- murmurou, procurando a sua carteira no bolso da jaqueta -O pessoal do interior é tao fútil e superficial quanto o da capital.
    Mas quando estava indo em direcao ao caixa para pagar a sua conta, a porta do bar se abriu e entrou Tatiane. Renato estacou no meio do recinto e ficou olhando para ela. Estava ainda mais bonita do que na noite anterior, mas parecia de alguma forma diferente, mais vivaz, falando em voz alta, com os cabelos presos num coque enfeitado com presilhas coloridas e uma maquiagem carregada, brincos compridos e uma calca jeans desfiada, camiseta com um desenho em lentejoulas, muitas pulseiras e anéis e uns tamancos com tiras de strass... Renato ficou paralisado, sem acreditar no que estava vendo. Como podia parecer tao diferente de ontem? Deu uma rápida olhada para o barman, mas ele parecia tao perplexo quanto ele... Logo atrás de Tatiane entrou um barulhento grupo de jovens, do qual ela fazia parte, e no fim, correndo e rindo, entrou um rapaz de cabelo comprido e jaqueta de couro, que foi até ela e a abracou.
    -Você estava fugindo de mim?- exclamou, beijando-a.
    Ela soltou uma gargalhada e o empurrou, mimosa.
    -Eu? Imagina!... Nem que quisesse!- respondeu, pendurando-se do seu pescoco.
    Em seguida, o animado grupo se dirigiu até uma mesa e pediu a atencao do garcom com assobios, gritos e batidas na mesa.
    O que mais espantaba Renato era o fato de que ela nem sequer o procurou com os olhos quando entrou. Era como se ele nem estivesse ali! A indiferenca de Tatiane era realmente revoltante. Se queria humilhá-lo e fazê-lo pagar pela sua suposta ousadia de ontem, tinha encontrado a maneira certa. Renato tinha vontade de que a terra se abrisse naquele segundo e o tragasse até fundo do inferno, de onde nunca mais pretendia voltar. Mas, como pôde se enganar desse jeito com ela? Ela era ssim mesmo, essa moca desinibida e bagunceira, ou era aquela outra discreta e séria que queria fazer pesquisa espacial?... A cabeca de Renato estava dando um nó. O frio da decepcao gelou seu coracao, sentiu-se mais idiota ainda e decidiu sair logo dali, antes que ela inventasse de se aproximar para envergonhá-lo ainda mais. Deu uma última olhada para ela, que naquele momento se recostava no peito o rapaz de cabelo comprido, e se dirigiu até o caixa, segurando a sua raiva e seu despeito. Pagou sem dizer uma palavra, rumou em direcao à porta, a abriu com forca e fez mencao de sair, mas bateu de frente com uma outra pessoa que vinha entrando. Ele teve de se escorar no batente para nao cair, enquanto via uma pilha de livros se esparramar pelo chao, batendo em suas pernas e pes. A pessoa que tinha trombado com ele se abaixou rapidamente e comecou a pegar os livros. Renato olhou para ela e viu uma cascata de cabelos pretos e sedosos cobrindo os ombros e o rosto.
    -Ai, desculpe, moco..- disse a mulher em tom aflito -É que estou com muita pressa... Nem vi você saindo!...
    Renato piscou e se endireitou. Aquela voz... Ele conhecia aquela voz!... Imediatamente se virou para o interior e olhou para a mesa onde Tatiane e a sua turma continuavam zoando. Nisso, a moca acabou de apanhar seus livros e já estava de pé diante dele. Renato virou-se para ela e piscou novamente.
    -Você!...- gaguejou, tornando a olhar para a mesa. -Mas você...
    Era Tatiane.
    -Por favor, me desculpe!...- exclamou ela, ainda ofegante e agitada -Aconteceu um imprevisto e nao consegui chegar antes!... Por favor, me perdoe.
    Renato virou-se para ela e ficou a contemplá-la sem dizer nada. O barman abriu os bracos e fez um gesto de "nao estou entendendo nada!"
    Tatiane olhou para Renato, que a fitava com semblante sério e fechado e, pegando-o pelo braco, o levou de volta ao interior do bar.
    -Mas eu posso explicar, tenha paciência comigo... Eu nao contava com que...
    -Espera aí!.- a interrompeu Renato, parando bruscamente, e apontando para a mesa onde "a outra" Tatiane se encontrava, acescentou: -O que é aquilo?... Quem é ela? Você pode...?
    Tatiane se empinou para olhar por cima do seu ombro, e quando viu a cena que ele apontava, fez um gesto de surpresa e abriu a boca como para dizer algo, mas em seguida soltou uma risada e comecou a caminhar em direcao à mesa.
    -Ah, isso!- exclamou, pegando Renato pela mao e levando-o junto.
    -Mas, o que...?- protestou ele, arredio.
  Quando chegaram junto da mesa, Tatiane se inclinou e tocou o ombro da moca sentada no colo do rapaz de cabelo comprido e disse, sorrindo:
    -Olá, mana!... Tudo bem? Curtindo a happy hour?- em seguida se ergueu e, estendendo a mao para o Renato acrescentou, muito formal: -Renato, conheca a Lívia, minha irma gêmea.
    Esta soltou um grito de alegría e se jogou no pescoco de Tatiane, que a abracou com algo de reprovacao.
    -A sua irma gêmea?...- repetiu Renato, totalmente perdido -Mas você nao me disse... E por que você demorou tanto? Eu já estava pensando que ela... Que ela e ele...- se confundiu, apontando para o rapaz de cabelo comprido.
    -O Rodrigo é meu namorado.- explicou Lívia, voltando para os bracos do rapaz. E olhando maliciosamente para a irma ajuntou: -É teu namorado, maninha?
    Tatiane enrubesceu até a raiz dos cabelos e fez um gesto indefinido, mas nao respondeu. Renato a pegou pelo braco e se afastaram da mesa com um breve aceno de despedida.
    -Você pode me explicar o que houve aqui?... Nao estou entendendo nada!- lhe pediu, comecando a impacientar-se com tanta confusao.
    Entao, ela o levou até uma mesa, pediu um suco e um uísque para ele e acomodando seus livros com estudada lentidao, olhou para ele com gesto brincalhao e pegou em sua mao.
    -Nunca tire conclusoes apressadas.- comecou, e Renato soltou um suspiro, comecando a relaxar -Eu cheguei tarde assim porque tive que ir até a faculdade dar uma prova que estava devendo. A professora me ligou hoje de manha para avisar-me que disporia de um horário no fim da tarde para aplicar a prova. Era a minha única chance, caso contrário acabaria tendo problemas na matéria. E como ontem nos despedimos com algo de pressa por causa do meu encontro com meu pai, esqueci de pedir seu telefone, de maneira que nao tive como avisá-lo sobre meu atraso.- contou calmamente -Aquela é a minha irma gêmea que, como você viu, é totalmente diferente de mim. Mas nao se preocupe, muita gente já fez confusao conosco e às vezes tivemos uns tremendos desgostos por causa disso. Por sorte, sempre conseguimos esclarecer tudo.
    -Pôxa!..- disse renato, esbocando um sorriso meio envergonhado -Como fui estúpido ao supor que você...!
    Mas ela nao o deixou continuar e, inclinando-se, beijou-o suavemente na face.
    -Está melhor agora que sabe o que realmente aconteceu?- inquiriu, com uma pincelada de ironía  na voz.
    -Por um momento me perguntei se nao tinha perdido o juízo- comentou ele, sorrindo -Pensei que você estava gozando com a minha cara!... Mas nao podia ter me enganado tanto com respeito a você- murmurou, aproximando seu rosto ao dela -Você é exatamente como pensei.
    O barman jogou os cubos de gelo no copo e com um largo sorriso de satisfacao em seu rostro magro, cortou uma rodela de limao, botou uma cereja e em seguida despejou o licor transparente no copo. Mas desta vez nao entregou para ninguém. Erguendo o drinque no ar como se estivessse fazendo um brinde, virou-se na direcao
em que Renato e Tatiane trocavam segredos e afagos, e exclamou, para desconcerto de todos:
    -À verdade, pois ela sempre trunfa!- e bebeu o copo de uma vez.
    Desde a mesa, Renato virou-se e piscou um olho para ele, ergueu seu copo também e brindou à cumplicidade, à verdade e ao futuro que via abrir-se à sua frente, refletido nos olhos escuros e Tatiane.



  

domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Sete dias"

    Como prometi, aqui está o conto desta semana. Estou a todo vapor já trabalhando em outros -já que vocês nao me enviam nenhuma idéia para eu desenvolver- para mantê-los muito interessados. Pensei que iria ficar um tempo sem internet depois da mudanca ao novo apê, mas os caras foram suuuper legais e vieram no mesmo dia instalar a coisa toda, entao, o trabalho nao pára!... E aqui vai!
    Este, na verdade é um exercício que eu dava em minhas aulas, e que consistia em observar alguém durante uma semana e fazer uma espécie de relatório romanceado sobre suas atividades. Se possível, e quando nao se tratasse de alguém conhecido, o aluno devia fazer contato com a pessoa para assim ter mais informacao para seu relato. Era um teste para vencer a timidez para muitos alunos!... Mas, em geral, conseguiam fazer o pedido e dali saíram textos bem interesantes, que provavam o poder de observacao, empatia e criatividade do aluno. Sao histórias simples, porém importantes para quem as vive.


    Primeiro dia: Logo cedo, uma jovem mulher empurrando um carrinho de bebê passou apressadamente diante da minha casa. Eu estava saindo para trabalhar e quase trombei com ela, esbarrei no carrinho e a minha bolsa caiu no chao. Quando me abaixei para pegá-la, desculpando-me pela minha distracao, vi um bebê de uns cinco meses que, um pouco assustado, olhava fixo para mim com seus pequenos olhos azuis enquanto mastigava a sua chupeta. Fez uns barulhinhos engracados, como para me repreender pelo meu descuido, e se esticou todo, querendo sair do carrinho.
    -Me desculpe, é que estou meio atrasada para o trabalho e nem percebi que você estava vindo...- expressei, erguendo-me e sorrindo para ela, que apenas fez um gesto com a cabeca e se abaixou para acalmar o bebê.
    -Tudo bem, eu também estou com pressa. Tenho que deixar o Gabriel aqui com a minha mae para ir trabalhar..- me respondeu,séria.
    Em seguida se despediu com um breve aceno e continuou seu caminho. Enquanto me afastava, volvi a cabeca para ver onde ela parava e descobri que a sua mae era a dona Solange, uma vizinha que eu conheci havia dois anos num pono de ônibus à caminho do centro da cidade. Durante a longa espera acabamos entabulando uma agradável conversa e ela me contou seus planos de se mudar para a minha rua. Já estava de olho numa data perto da minha casa, onde poderia ter um quintal espacoso no fundo para poder cultivar a sua horta. Só faltava acertar o preco e logo comecaria a construir a sua casa.
    -Nada muito grande, é claro. Eu moro sozinha e nao preciso de tanto espaco.- me explicou, entusiasmada.
    Pouco tempo depois, ela conseguiu comprar a data e construiu a tao sonhada casinha, toda de material e pintada de branco e amarelo. Na frente fez um jardim e no fundo, como planejara, plantou a sua horta e alguns pés de jabuticaba, limao e laranja... Todo dia pode-se vê-la aguando as flores e cuidando da horta, botando seus canários embaixo das árvores e varrendo a calcada. É uma senhora muito ativa e alegre, que gosta de conversar e cumprimentar todos que passam, mesmo que nao os conheca.
    Agora, enquanto me afastava, pude vê-la saindo no portao para receber a filha e o neto, que logo pegou no colo e beijou ruidosamente. A filha lhe entregou uma sacola, provavelmente com as coisas do bebê, e se despediu rapidamente, afastando-se em direcao oposta à minha. Dona Solange estava para entrar, carregando a sacola e o bebê, e empurrando o carrinho com a mao livre, quando me viu e fez sinal para que me aproximasse. Eu acenei de volta, dei uma olhada em meu relógio e conclui que ainda dispunha de alguns minutos para conversar com ela. Me aproximei entao, sorrindo, e a cumprimentei.
     -Nossa, como você está sumida!- exclamou ela, colocando a crianca de volta no carrinho.
   -É que a minha vida anda meio corrida ultimamente.- respondi, ajudando-a com a sacola, que comecava a escorregar do seu ombro - Acho que até eu mesma ando me vendo pouco!-  brinquei.
    Ela lancou o olhar pela rua abaixo, na direcao em que a sua filha se fora, e fez um gesto de preocupacao, dizendo:
   -A minha filha, sabe?... Aquela moca que estava aqui, você viu?- eu assenti com a cabeca -Este é o Gabriel, o filhinho dela...- abaixou-se e fez um afago no menino, que já estava quase dormindo, bem agarradinho com seu rinoceronte de pelúcia -Coitada, comecou a trabalhar e todo dia tem que vir aqui deixar o bebê, porque nao tem quem cuide dele lá onde mora. Eu dou almoco, faco mamadeira, troco fralda, dou banho e janta e ela vem buscar à noite quando sai do trabalho... E é todo dia a mesma coisa.- disse, com voz queixosa -Eu gosto de tomar conta do Gabriel, ele quase nao dá trabalho, coitadinho. É uma crianca tao boa!... Depois, alguém tem que ajudar a minha filha para que possa trabalhar, mas confesso que nao estou agüentando. Tenho muita dor nas costas e nas pernas, mas nao posso deixar a minha filha na mao, nao é verdade?... O marido dela inventou de comprar uma data num bairro afastado que nao tem nem asfalto nem esgoto ainda, e a iluminacao é péssima. Eu tentei convencê-lo a comprar em outo lugar que fosse mais perto, até cheguei a discutir com ele, mas como é teimoso, insistiu em ficar lá porque era mais barato e me assegurou que logo, logo a prefeitura ia asfaltar e colocar esgoto e que outras pessoas já estavam construindo por lá também, entao nao iriam estar tao isolados. Nao fiquei muito convencida, nao, mas o que posso fazer? O marido nao é meu. Nao sei como a minha filha se sujeitou a ir morar naquele descampado!.
    -Aí fica difícil, é verdade.- concordei eu.
    -Ainda por cima, o homem me inventa  agora e comecar a estudar à noite e a minha filha é obrigada a ficar sozinha naquele fim de mundo até ele voltar da escola, quase meia-noite. Se você soubesse o medo que a coitadinha passa!... Outro dia mesmo, ela estava lá, esperando por ele, sozinha com o bebê, quando de repente escutou uns barulhos no quintal. Disse que parecia alguém querendo pular a cerca -porque nem muro tem ainda!- A pobre teve que criar coragem e ir ver o que estava acontecendo. Quando abriu a porta viu dois vultos pulando para dentro do quintal!... Ainda bem que eles têm aqueles dois cachorros enormes, porque foi o que  salvou a minha filha de sabe-se Deus o quê!... Os dois animais comecaram a latir ao ver os intrusos, entao a minha filha foi até onde eles estavam amarrados e os soltou. Eles saíram em disparada atrás dos homens e os obrigaram a fugir. Mas imagine se eles tivessem tido armas! Atiram nos cachorros e depois vao atrás da minha filha!... Nem lhe conto como ela estava quando o marido chegou em casa. Me contou que aprontou o maior berreiro e ele quase teve que vir me buscar para que fosse acalmá-la. Mas mesmo assim, nem pensa em se mudar. Sinceramente, nao sei o que esse homem tem na cabeca.- resmungou dona Solange, séria -E olha que já falei para ele que no quarteirao aqui de cima estao vendendo uma data perfeita para eles!...
    Eu olhei meu relógio e me sobressaltei. O tempo tinha voado, precisava correr! Entao me despedi da minha amiga e me dirigi rapidamente até o ponto de ônibus, deixando-a na calcada com o carrinho e a sacola... Queria ter podido ficar para ajudá-la, mas tinha meus próprios compromissos a cumprir.

Segundo dia: Levantei um pouco mais tarde, pois era meu dia de folga. Tomei sossegadamente meu café, me troquei e saí na varanda para respirar o ar fresco da manha. Ainda com o relato da dona Solange na memória, fui até o portao e dei uma olhada em direcao da sua casa na esperanca de vê-la varrendo a calcada como todo dia, ou talvez brincando com Gabriel, mas tudo estava fechado e silencioso. De imediato me perguntei se ela nao teria ido passar a noite na casa da filha por causa do episódio dos dois sujeitos que invadiram o quintal. A coitada devia ter ficado tremendamente assustada e como o marido nao estava disposto a mudar de idéia sobre ir morar num bairro mais perto e com uma estrutura melhor, a dona Solange se propôs a ficar com ela até ele voltar das aulas ou, quem sabe, até dormir por lá, regressando de manha com o pequeno Gabriel. Pensei que seria uma boa saída para o problema, mas também imaginei o quao difícil seria para dona Solange ter de se deslocar todo fim de tarde até a casa da filha e deixar a sua própria abandonada. Supus que sentiria falta do conforto da sua cama, do seu sofá, da sua varanda, estranharia as panelas, os pratos e os móveis, o silêncio -já que a nossa rua é bastante barulhenta- mas acima de tudo, tive certeza de que o pior seria a falta de privacidade. Dona Solange morava sozinha há anos e se acostumara a ser independente, mas como ela mesma me dissera havia algum tempo: "Mae é mae para a vida toda e os filhos estao sempre acima de tudo, nao importa o sacrifício que isso nos custe". Entao, pensei que se, efetivamente era isso o que tinha acontecido, nao devia estar arrependida.
    Fiquei mais um pouco no portao espiando a casa e pensando em ir até lá dar uma aguada nas plantas da varanda e no jardim, que eram o xodó da dona Solange, mas suspus que ela as teria regado antes de sair. Sorrindo al imaginar a mulher vivaz, organizada e abnegda que tinha como vizinha, voltei para dentro, perguntando-me se eu seria capaz de agir assim quando tivesse meus próprios filhos.

Terceiro dia: Quando saí na rua de manha cedo para buscar o pao e o leite, vi vários carros estacionados diante da casa da dona Solange e um entra e sai de gente com tigelas, garrafas de refrigerante, sacolas com verdura e fruta, pacotes de carne e formas de lasanha. A música já tocava alto nas caixas de um dos carros e pairava no ar o característico cheiro do carvao esquentando para o churrasco. A dona Solange nao se divisava por ali; com certeza já estava na cozinha preparando seu famoso frango com polenta e organizando as tarefas para as criancas terem o que fazer e nao ficarem por aí aprontando: arrumar mesas e cadeiras, botar as toalhas, dispor pratos, guardanapos, copos e talheres na área coberta. Uma rede de coloridas franjas tinha sido pendurada na varanda e os pequenos a disputavam entre gritos e empurroes. Alguns rapazes jogavam uma pelada no meio da rua e outros somente observavam, com uma lata de cerveja na mao e aquele ar de displicência característico da idade... Imaginei a felicidade da dona Solange com a casa cheia -aliás, foi uma surpresa ver que tinha tantos parentes!- pois é uma mulher hospitaleira e adora exibir seus dotes culinários e receber visitas para convesar e trocar receitas. Ela até já confidenciou os ingredientes do seu delicioso pavê de maracujá para a minha mae e todo último final de semana do mês nos deliciamos com ela na hora do almoco!.

Quarto dia: Hoje quando saí para o trabalho ainda tinha um par de carros estacionados na frente da casa da dona Solange, o que significava que alguém tinha ficado para pousar depois da reuniao. Tudo estava silencioso, mas dava para escutar o murmúrio da água caindo lá atrás. Dona Solange estava levantada e cumpria com seus sagrados deveres de cada manha. Dali a pouco apareceu na varanda com a vassoura e seu avental xadrez, deu uma enérgica varrida e afofou as almofadas das cadeiras, enrolou a rede, ajeitou as cadeiras em volta da mesa e finalmente desceu para o quintal. Ali recolheu a bagunca de latinhas, pratos e copos descartáveis, guardanapos e restos de comida com aquela expressao séria de quem reprova tanta desordem, e botou tudo num saco de lixo que tinha trazido. Em seguida, soltando um suspiro e erguendo-se, rspirou fundo o ar fresco da manha e sorriu, fechando os olhos. Deixou passar alguns segundos e logo foi até o portao, abriu e saiu à rua para comecar a varrer. Foi entao que me viu. Instantaneamente um brilhante sorriso distendeu a sua face enrugada.
    -Menina, você está aí!- exclamou, acenando para mim.
    -Bom dia, dona Solange- respondi, aproximando-me. Hoje nao estava atrasada.
    -Nossa, você viu ontem? Só faltava o papa cair aqui em casa!- disse, rindo -Todo mundo veio!...- apontou para a varanda, franzindo os lábios -Mas olha só a bagunca que fizeram!... Devia acordá-los e fazê-los arrumar, você nao acha?.
    -Festa é assim mesmo- respondi, sorrindo -Daqui a pouco eles acordam e a senhora traz para cá para ajudá-la.
    Ela riu baixinho e fez uma careta.
    -Coitados, ficaram até tarde,  me da dó...- olhou para mim, meio envergonhada -Eu nao tenho jeito, nao é mesmo? A gente nao cansa de malcriar e depois reclama.- e riu de novo.
   -É que quando se trata da família a gente sempre amolece. Eu também sou assim com meus irmaos.- disse eu, apoiando a mao em seu ombro delgado -E como vai o assunto da sua filha?
    Aí ela ficou séria. Se apoiou na vassoura e suspirou.
    -Esse cabeca dura do meu genro... Estou tentando trazê-lo para que dê uma olhada naquela data na rua de cima, lembra que lhe falei dela?
    -Lembro, e?
    -Nada, o teimoso nao quer nem saber. Que já comprou aquela outra, que daqui a pouco acostumam, que vai melhorar o policiamento, que vai construir um muro... Puras desculpas para nao ceder! Mas aonde já se viu, arriscar assim a seguranca da mulher e do filho?- exclamou, impaciente.
    -E a filha da senhora nao pode conversar com ele para tentar convencê-lo de, pelo menos, dar uma olhada na data?- sugeri, apenada pela situacao da minha amiga.
   -Eu falei com ela, mas nao sei, nao. O cara é muito turrao demais...- respondeu dona Solange, desanimada.
    Eu olhei meu relógio. Nao queria chegar atrasada de novo.
    -Bom, preciso ir andando, dona Solange... Pôxa, mas que pena que o genro da senhora seja tao difícil. Tinha que pensar no bem-estar da sua filha e seu neto, né?- disse sinceramente aflita.
    -Isso lhe digo eu, mas ele...- e fez um gesto de displiscência, encolhendo os ombros.
    Comecei a me afastar.
    -Mas quem sabe ele nao recapacita e topa vir ver aquela data, se empolga e decide comprá-la.- expressei, sorrindo para dar-lhe ânimo.
    Ela fez cara de desalento.
    -Ele diz que nao tem mais dinheiro, mas eu já lhe expliquei que o dono da data está disposto a fazer algum tipo de troca... Mas aí ele alega que nao tem nada para trocar... E eu fico olhando para aquela data lazarenta onde está morando... Mas ele, nada.
    -Vamos torcer!- exclamei, e acenei para ela, que me respondeu meio sem vontade. 
    Quando subi no ônibus, ela estava varrendo enérgicamente a calcada, como querendo espantar seus desgostos.

Quinto dia: Hoje parece que a dona Solange foi de novo passar o dia na casa da filha, porque quando saí para a rua, a casa estava fechada  e silenciosa. No fim da tarde, quando regressava, as persianas já estavam abertas e os canários na varanda, mas nada de dona Solange. Usualmente, nessa hora ela sai para sentar um pouco em sua cadeira de balanco contemplar a paisagem e cumprimentar os vizinhos que voltam do trabalho, mas hoje a cadeira estava vazia... Fiquei realmente preocupada, mas achei melhor nao ir perturbar. Também decidi nao perguntar nada caso nos encontrássemos na manha seguinte. Com certeza, se ela nao estava ali fora era porque precisava ficar sozinha para resover seus assuntos e eu nao ía interrompê-la nem tampouco ficaria fazendo perguntas que quica ela nao estivesse a fim de responder. Queria muito poder ajudá-la, mas nao podia ser enxerida... Fui jantar e assistir novela, tentando nao pensar nisso, mas mesmo assim, naquela noite demorei para dormir.

Sexto dia: Hoje a dona Solange reapareceu, mas só consegui avistá-la de longe, no ponto da esquina, quando pegava o ônibus antes do meu, muito bem arrumada -inclusive de salto alto- e apressada. Tentei alcancá-la, mas o ônibus já comecara a andar, entao fiquei ali, olhando para ela através do vidro sujo do veículo, enquanto se deslocava agilmente pelo corredor e sentava do outro lado. Nao consegui distinguir a expressao do seu rosto, entao todas as minhas perguntas ficaram sem resposta... Ela estava indo para o centro, com certeza, coisa que raramente fazia, só e ocasioes muito específicas. Entao, me perguntei, preocupada: que ocasiao seria aquela?... Mas nao tive resposta e quando cheguei à noite em casa, a dela continuava fechada e silenciosa, o que significava que nao tinha voltado ainda. Nossa, mas que diligência tao demorada era aquela?...

Sétimo dia: Hoje quando saí para o trabalho me surpreendi ao encontrar aquele bolo de gente no jardim da frente da dona Solange, todos vestidos com shorts e regatas, calcas de moletom e tênis. Um  grande caminhao de cacamba branca estava estacionado na calcada e reinava muita confusao, mas do tipo positivo. Todos riam e falavam em voz alta, iam daqui para lá dando ordens e carregando caixas de papelao vazias até o caminhao. Nao entendia o que estava acontecendo, mas definitivamente nao era uma das reunioes que dona Solange costumava organizar. De longe a vi, também de camiseta, calca e tênis, empurrando o carrinho do Gabriel, que mexia bracos e pernas e sorria para todos, encantado com a agitacao à sua volta. Ela me pareceu muito feliz. Nao pude me segurar e fui até ela. Afinal, o suspense estava me matando!
   -Bom dia, dona Solange!
 -Bom dia, minha filha!- respondeu ela, abrindo os bracos. Parecia realmente esfuziante.
   -Nossa, mas que bom ver a senhora assim tao animada! -disse eu, cumprimentando-a com um beijo -Mas e o que é tudo isto? Está organizando outra reuniao?
   -Nada disso, minha filha!... Estou organizando é uma mudanca!- exclamou.
   -Como assim, dona Solange? A senhora vai se mudar daqui?- perguntei, surpresa.
  -Nao, eu nao!...- apontou para o carrinho -Mas a minha filha vai!- e soltou uma gargalhada gostosa, abaixando-se para estampar um sonoro beijo na bochecha gorducha do neto -Hoje vai ser um dia e tanto!... Entao, se me desculpa, com licenca, minha filha.- concluiu, sem deixar de sorrir. Em seguida se virou para o pessoal e comecou a dar ordens e distribuir tarefas feito um mariscal de campo.
    Eu me despedi, sorrindo também. É claro que a dona Solange nao podia estar assim de contente porque estava organizando outro almoco, mas por algum fato muito mais relevante. Como o de ter convencido o genro a se mudar daquele fim de mundo para a rua de cima. Com certeza foi ela quem intermediou a negociacao com o dono do terreno que, por algum misterioso motivo, acedeu trocar o daqui por aquele outro. Mas isso nao interessava agora. O importante era que a sua filha e seu neto estariam pertinho e poderia desfrutar da sua companhia quando quisesse, sem ter de largar a sua casa e suas rotinas para ir se enfiar naquelas quebradas perigosas ajudar a sua filha cuidar do Gabriel. Tanto tinha insistido que conseguira.
    Virei a esquina em direcao ao ponto de ônibus ainda com a imagem daquele grupo animado e barulhento tomando conta da rua para auxiliar na mudanca e instintivamente me perguntei se algum dia eu teria uma família igual. A dona Solange afirma que só por isso já vale a pena viver.
    

domingo, 12 de janeiro de 2014

"Os solitários"

   Bom, hoje tem um outro conto que me enviaram e que vou postear para vocês. Espero que gostem e que me enviem as suas ideias. Lembrem que pode ser em espanhol ou em português, porque os traduzo para os dois idiomas.... Nao perco a esperanca!... O próximo vai ser meu de novo, daqui a duas semanas. Isso se nao estiver de mudanca, porque aí nao vai dar, já que estarei sem internet... Mas nao fiquem preocupados, que logo, logo estou de volta... Me aguardem!


   Quando olho para esta foto nao posso evitar dar risada ao lembrar de tudo que aprontamos durante aquela festa junina na casa da Katy e das conseqüências das nossas brincadeiras. Ninguém esperava que as coisas saíssem daquele jeito, mas apesar de tudo, nao acredito que nenhum de nós tenha se arrependido mais tarde. Já dizem que Deus escreve por linhas tortas e suponho que isto se aplica neste caso. Quer dizer, nós é que fomos as linhas tortas.
   Como fazíamos todo ano, comecamos a planejar aquela festa junina cocm quase dois meses de antecedência. Desta vez, ela aconteceria na rua onde morava a Katerin e tocava a nós a organizacao e divulgacao do evento, pois desfrutávamos de um certo prestígio na cidade devido ao sucesso das festas de rua que organizávamos. Nelas, todo mundo se divertia, dancava e cantava, nao faltava comida ou bebida, havia lugar para todos, sempre conseguíamos alguma dupla que fizesse uma apresentacao ao vivo e nossa decoracao era de primeira. Mas o melhor de tudo era que nunca saiu briga em nenhuma das festas e nem a polícia recebeu reclamacoes por causa da música alta ou gritaria. Isto fazia com que as pessoas sempre nos chamassem para organizar as suas festas juninas e comparacessem em peso para se divertirem sem ter que se preocupar com nada. Assim, naquele ano, um grupo de moradores entrou em contato conosco através da nossa amiga Katerin -que vivia naquela rua- nos pedindo para tomar conta do evento. É claro que topamos, pois além de ganhar um dinheirinho extra, poderíamos nos divertir um pouco e deixar a nossa amiga com uma tremenda moral diante dos vizinhos. Entao, no início de abril, convocamos uma reuniao para repartir as tarefas e abrimos um caixa destinado à compra dos itens imprescindíveis para que tudo saísse como esperávamos. Aos poucos fomos estocando amendoim, batata doce, pipoca, gengibre, fogos de artifício, chapéus de palha, baloes, bandeirinhas coloridas, barbante, galhos de eucalipto e tábuas para a construcao das barracas. Agendamos a locacao de mesas e cadeiras, toalhas e  enfeites e combinamos com uma dupla sertaneja da própria cidade para uma apresentacao. Também fomos atrás de um bom som  e de músicas típicas e percorremos os arredores catando galhos secos para construir a nossa fogueira. Tudo isto ia sendo cuidadosamente guardado na casa da Katy, que a poucas semanas da festa já estava parecendo o esconderijo de Ali Babá e os quarenta ladroes. As nossas adquisicoes tomavam conta do quintal, da área, dos quartos, a despensa, os armários e até da garagem, de maneira que o coitado do seu André, pai da Katy, era obrigado a deixar seu fusca na intempérie em prol da nossa causa. Quando reclamava demais, pois as pombas e pardais estavam estragando a pintura do carro, a sua esposa o levava para um canto e dava-lhe um sermao cheio de paixao e gestos espalhafotosos que ninguém conseguia escutar, e dali a pouco seu André voltava, manso feito um cordeirinho e com um sorriso amarelo em sua cara miúda e, suspirando fundo, ia lá fora, pegava a mangueira e passava as próximas duas horas esfregando a sujeira dos pássaros do teto e do capô do fusca verde bandeira.
   -Bem que podia esfregar até sair toda essa cor horrorosa.- resmungava sua esposa, observando-o desde a janela da sala -Onde já se viu pintar um carro de verde bandeira?
   -Mas, mae...- refutava a Katy, conciliadora -O carro já tinha essa cor quando o pai o comprou do seu Kemil.
   Entao, a mae fazia um gesto de desdém e voltava para a cozinha dizendo:
   -Comprasse um carro de outro que tivesse melhor gosto entao.
   A Katy desabava no sofá dando um suspiro de resignacao, olhava para nós e se encolhia de ombros.
    -Nao sei por que a minha mae tem tanta birra daquele carro. Implicou com ele desde o primeiro momento em que o viu.
   -Talvez seja porque o pai nem perguntou a ela sobre a compra e simplesmente apareceu um dia aqui com esse fusca como um fato consumado, incluindo a cor.- explicava o Sérgio, irmao cacula de Katy -Você sabe que a mae gosta de saber tudo que se passa nesta casa... Até o que nao deveria.- acrescentava, amuado.
   A Katy dava-lhe um olhar reprovador e dizia:
   -Sim, mas com essas barangas que você anda namorando é para a gente se preocupar mesmo.
   -O que você quer dizer com isso?...- exclamava o Sérgio, todo ouricado -Nao sao barangas!... Para sua informacao...
   -Gente, gente...- intervinha eu entao, apaziguadora -Lembrem-se de que estamos aqui por causa da festa. Vamos deixar os assuntos pessoais para uma outra ocasiao.
   Sérgio fazia um esforco para engolir a sua raiva e a Katy cruzava os bracos no peito e olhava em outra direcao. Naquele minuto parecia que aqueles dois nunca mais iriam dirigir-se a palavra novamente, mas nós sabíamos que dali a pouco esqueceriam tudo e estariam numa boa. Já nos havíamos acostumado com aquilo, pois parecia que o único tema de discussao entre eles eram as famosas namoradas do Sérgio, que ninguém em casa aprovava. Toda vez que nos reuníamos para definir os detalhes da festa, de alguma maneira o tema vinha à tona e os dois acabavam brigando. Um gasto de energia totalmente inútil, pensava eu, já que nunca conseguiam concordar em nada.
   As coisas caminharam como esperado e perto do fim de junho estávamos com tudo pronto. O único que ficou para os vizinhos foi a confeccao das fantasias, para as quais até havíamos organizado um desfile no último domingo com direito a prêmio e tudo, o que despertou uma acirrada concorrência entre as mulheres, que passavam horas na máquina de costura, ou de agulha na mao, para confeccionar a fantasia mais caprichada e original. Também organizamos um desfile para escolher a noiva, o que suscitou outro torneio de rendas, babados, coroas, luvas, buquês e véus. Mas a verdadeira complicacao se deu na hora de escolher os jurados, pois a maioria era parente das concorrentes, de modo que eles preferiram deixar esta tarefa a nós, que nao tínhamos nada a ver com ninguém dali.
   Chegado o primeiro fim de semana estávamos todos ansiosos para ver se tudo iria sair como planejado. Passamos a semana toda construindo barracas, pendurando bandeirinhas, colando baloes e preparando pacoca, pé de moleque, macas confeitadas, canjica e quentao... O cheiro do gengibre demorou alguns dias para desaparecer de vez dos meus dedos e passei bastante tempo sem nem olhar para amendoim e batata doce, mas tudo valeu a pena, pois aquele primeiro dia foi um sucesso  absoluto. Todo mundo veio a caráter e disposto a se divertir, comer e dancar até cair.
   No meio da festa, a Katy me pediu para pegar a sua câmera e tirar uma foto da equipe com a rua enfeitada e iluminada ao fundo.
   -Mais uma para nosso currículo- expressou, satisfeita, com um sorriso de orelha a orelha.
   Fui se demora apanhar a câmera na casa, que estava um loucura com todo aquele entra e sai de pessoas carregando bandejas, garrafas, bacias de canjica e pacoca, mais algumas na cozinha mexendo enormes panelas de quentao e fritando pastéis, e outras no tanque lavando toneladas e toneladas de pratos, talheres e copos.Também tropecei com gente na sala que estava enchendo bexigas e desembrulhando mais prêmios para a pescaria, pois as criancas já tinham levado todos... Enquanto me dirigia até o quarto da Katy dei uma rápida olhada em tudo aquilo e sorri, pois era realmente gostoso ver toda aquela gente trabalhando unida e feliz pelo sucesso da empreitada.
    -É assim que as coisas funcionam- disse para mim mesma, entrando pelo corredor que levava até os quartos.
   Abri a porta e entrei rapidamente, acendi a luz e me dirigi até o armário no qual a Katy tinha-me dito que guardava a câmera. Ele já estava escancarado e ostentava uma incrível desordem de sapatos, roupas, bolsas e caixas. As gavetas estavam abertas e reviradas e algumas pecas jaziam no chao, misturadas com as flores de papel crepom que faziam parte dos enfeites das mesas.
   -Nossa!...- exclamei, parando diante daquela confusao -Como é que vou encontrar alguma coisa aqui?
   Me abaixei e praticamente mergulhei dentro do armário para ver se conseguia descobrir onde, no meio das saias, soutias, calcas e chinelos, poderia estar a famosa câmera... A ideia de desistir de registrar o sucesso da equipe em mais uma festa junina veio à minha cabeca enquanto puxava as alcas do maiô vermelho da Katy, que estava enroscado numa mala preta no fundo do armário. Será que uma foto -mais uma- valia esta aventura nos territórios da bagunca privada de minha amiga?... Comecei a pensar que nao, sobretudo quando senti que a alca rasgava ruidosamente com meu último puxao. Entao, tirei o corpo de dentro do armário e fiquei ajoelhada no chao, despenteada e molhada de suor, ofegante e com as costas doendo. Funguei e tentei arrumar meu cabelo, segurando o maiô pela alca rasgada. Olhei para ele e engoli.
   -Putz, a Katy vai me matar.- murmurei, aflita.
   Entao, uma voz masculina veio das minhas costas, suave e gentil, interrompendo as minhas consideracoes.
   -Você está precisando de ajuda?- perguntou, com uma sombra de riso no tom.
   Sobressaltada, larguei o maiô e me virei. Sentado na cama em meio às almofadas e bichos de pelúcia que a Katy colecionava, estava o Sérgio, sorrindo para mim.
   -Ai, mas que susto você me deu!- exclamei, escondendo rapidamente o maiô atrás das costas- O que você está fazendo aí no escuro?
   Ele se encolheu de ombros e suspirou. Parecia chateado e meio triste, o que era um fato totalmente inusual nele.
   -Ah, está muita bagunca e muita gente lá fora.- respondeu, desanimado.
   Eu me levantei e fui até a cama, sentando ao seu lado.
   -Você está bem, Sérgio?- perguntei, perscrutando a sua face miúda, na qual se destacavam os olhos de um azul profundo.
   -Estou.- respondeu ele, dando de ombros, e ficou brincando com a franja da colcha.
   -Ah, nao está, nao... Eu te conheco! Se você nao está lá fora baguncando com os outros é porque algo de muito grave está acontecendo.- repliquei, preocupada, apoiando a minha mao em seu braco -Vai, me contar, o que é?
   Ele ergueu a cabeca e me fitou por alguns segundos, como avaliando as possibilidades de se abrir comigo, mas nao disse nada.
   -Vai, Serginho, pode confiar em mim.- o animei, sorrindo -Prometo que guardo seu segredo... se você guardar o meu- ajuntei, mostrando-lhe o maiô com a alca rasgada.
   Entao, ele abriu um leve sorriso.
   -Vai!- insisti, jogando o maiô de volta no armário -Somos amigos ou nao somos?
   Entao, ele deitou na cama e comecou a falar, mas sem olhar para mim, pois estava naquela idade em que a timidez é quase que uma doenca, sobretudo em se tratando de fazer confissoes e esclarecer dúvidas... Em resumo, seu drama se reduzia à impossibilidade de arrumar uma namorada que a sua família aprovasse e nao fosse chamada de "baranga" pela sua irma. Como era possível que nunca acertasse na escolha? Por acaso ele tinha algum letreiro escrito na testa  que atraia somente esse tipo de garota?
   -Mas por que você fica com elas se sabe que nao sao legais e que todo mundo vai te criticar?- inquiri, perplexa, pois percebia que ele também nao gostava dessas meninas.
    -Mas todo mundo na turma tem namorada ou paquera alguém!... Como eu vou andar por aí sozinho? Eles vao rir de mim e botar todo tipo de apelidos estúpidos!- explicou Sérgio, sinceramente  angustiado -Você nao conhece esses caras, Angélica, sao fogo. E quando querem judiar de alguém nao descansam até acabar contigo.
   -Entao por isso você se mete com a primeira que aparece? Só para que eles nao tirem sarro de você?- perguntei, cada vez mais pasma com o comportamento machista e tirânico daqueles rapazes -Por que você anda com eles se sao tao sacanas e te obrigam a fazer o que você nao quer?
   -Eles nao me obrigam a nada!- se defendeu Sérgio, sentando na cama -Eu faco porque quero, porque gosto de fazer parte da turma.
   -E você acha que vale a pena esse sacrifício?- disse eu, comecando a irritar-me com aquela atitude tao infantil e submissa -Francamente, nao esperava isso de você, Sérgio.
   Ele se levantou e foi até a porta.
   -Tudo bem, eu sabia que você nao ia entender mesmo- declarou, zangado -É melhor eu ir dar uma volta por aí... De repente encontro uma outra baranga para namorar.- concluiu, desaparecendo pelo corredor em penumbras.
   Fiquei sentada na cama durante alguns minutos, meditando sobre tudo aquilo; sobre o sofrimento secreto do meu amigo, sobre a influência absurda daquela turma sobre ele e sobre o que era obrigado a suportar só para nao se tornar motivo de piada entre eles. Me pareceu algo injusto e revoltante, pois Sérgio era um bom rapaz que estava arrumando encrenca só para exorcizar a sua inseguranca e afirmar a sua posicao no grupo. Será que ele nao era capaz de perceber que aquele sacrifício nao valia a pena? Logo tudo isso passaria e entao seria tarde demais para consertar os erros que estava cometendo. A adolescência é tao breve, mas nos passa a sensacao de que vai durar para sempre e de que nada mais será importante depois dela. E é aí que mora o perigo, pois em busca de aprovacao e seguranca podemos abrir portas e percorrer caminhos  que nos levem ao desastre... E foi isso que percebi ao escutar o relato do Sérgio. Se alguma coisa nao fosse feita, ele acabaria ferrando-se legal.
   Decidida a solucionar aquele impasse, levantei da cama e voltei para a festa com passos firmes. Quando cheguei onde a turma estava reunida, a Katy me perguntou pela câmera, mas eu disse que tínhamos uma coisa bem mais importante para resolver do que tirar uma fotografía para nosso currículo. Consciente de que estava quebrando a promessa que fizera ao Sérgio, levei todo mundo para um canto e expliquei a situacao. Todos ficaram muito preocupados -sobretudo a Katy, que nem de longe imaginava que algo assim estava acontecendo com seu irmao- e decidimos pensar juntos numa solucao, mas nada que desse na cara, para que o Sérgio nao desconfiasse que eu havia traído a sua confianca.
   -Mas foi por uma boa causa.- me consolou Thiago ao ver a minha expressao de culpa.
   Ficamos um bom tempo sentados naquele canto cogitando todo tipo de projetos e saídas, enquanto a festa rolava, mas dali a pouco a nossa presenca foi requerida para a eleicao das primeiras finalistas ao papel de noiva e tivemos  que adiar as nossas deliberacoes até o final da festa. Ficamos de nos encontrar numa das barracas para continuar a conversa e em seguida fomos tomar os nossos lugares na mesa do júri. Eu fiquei rodando por aí, conferindo se tudo estava a contento, quando de repente vi, sentada na barraca da pescaria e rodeada por uma dúzia de criancas que se acotovelavam para pegar uma das varas, uma moca pequena e franzina, de cabelos ruivos penteados em duas grossas trancas, vestido com flores amarelas e verdes e umas sardas pintadas nas bochechas. Nunca a vira antes, jamais comparecera a nenhuma das reunioes que havíamos convocado e nem participara da confeccao de enfeites, pratos ou fantasias. De longe parecia tao crianca quanto a turma que tomava conta da sua barraca, e de vez em quando atirava um olhrar de desamparo e aflicao para as pessoas que dancavam, comiam e se divertiam, como que pedindo socorro, mas ninguém reparava nela. Por momentos parecia que iria naufragar em meio àquela maré de criancas gritando, pulando e brigando para pegar os prêmios. Ela tentava impor um pouco de ordem na garotada batendo palmas e afastando-os para que nao brigassem, mas a sua voz mal se ouvia... Intrigada, fiquei a observá-la de longe, perguntando-me quem seria e como tinha ido parar naquela barraca. A quem teria ocorrido a ideia de que ela teria autoridade suficiente para lidar com aquele bolo de criancas afobadas e gritonas?, me perguntei, sentindo pena da sua situacao, que parecia ficar mais desesperadora a cada minuto... Como era meu dever de organizadora evitar este tipo de atrito, decidi ir até lá e dar-lhe uma mao, pois já estava vendo as lágrimas assomarem aos seus grandes olhos verdes.
   -Vamos ver, vamos ver, criancada!- exclamei com uma voz alta e  grossa, para impressionar as feras -O que está rolando aqui?
   As criancas pararam de gritar e pular e se viraram para mim, sobressaltadas. A moca ruiva olhou para mim com a expressao de quem vê um anjo aparecer às tres da tarde em plena praca pública, soltou um imenso suspiro de gratidao e limpou disfarcadamente as lágrimas.
   -Eu quero uma vara!- gritou um menino gordo e birrento, com um bigode preto todo torto pintado sobre a boca.
   -Eu cheguei primeiro!- berrou um outro, empurrando-o para colocar-se na sua frente. Este estava todo suado e as sardas pintadas nas suas bochechas tinham virado uma mancha avermelhada que avancava até as orelhas.
   -Isso nao é verdade!...- interveio uma menina ostentanto um chapéu cheio de flores e com duas trancas de nylon pretas cosoturadas nele -Eles furaram a fila, tía!- e todas as outras criancas aprontaram um berreiro concordando com a coleguinha.
   -Muito bem, muito bem! Calma aí, nao vamos chegar a lugar nenhum com esta bagunca!- exclamei, batendo palmas para fazê-los calar -Vamos organizar a fila de novo e ninguém... Ninguém, eu disse!- repeti com voz de trovao e olhos faiscantes diretamente pregados nos dois meninos causadores da confusao -Ninguém vai furar a fila.
   Num instante, as criancas formaram uma fila bem comportada e silenciosa, lancando-me de vez em quando umas olhadelas de puro respeito e contricao que me fizeram sorrir entre dentes. Dominado o motim daquela irrequieta tripulacao, peguei um banquinho e sentei ao lado da moca ruiva, que também me olhava com profunda admiracao e respeito.
   -Que alívio!...- comentou, sorrindo -Se nao fosse você chegar, eu nao sei o que teria feito!
   -Provavelmente teria saído fugindo ou engolido todas as varas de pescar.- lhe respondi, sentindo que tinha ganho a sua confianca -Você é daqui?- inquiri em seguida.
   -Acabei de chegar dos Estados Unidos. Estava fazendo intercâmbio- me respondeu ela, já relaxada.
   -Entao nao está muito enturmada ainda, nao é mesmo?- indaguei, comecando a esbocar meu plano de ataque.
-Nao, nao conheco quase ninguém. Tem  muita gente nova no bairro, mas mesmo assim quis participar da festa. Lá nos Estados Unidos nao tem nada assim.
   -É, só no Brasil para festar tanto!... Mas agora tem que recuperar o tempo perdido!
   Ambas rimos e continuamos conversando enquanto as criancas, agora com menos bagunca e gritaria, disputavam os prêmios. A moca chamava-se Heloisa e era a filha mais nova de uma das moradoras da rua, dona Helena. Ficara três anos fora aperfeicoando seu inglês e voltara havia duas semanas para retomar seus estudos e a sua vida aqui, mas ainda estava com um pouco de dificuldade para se adaptar, sobretudo com o clima. Tinha dezessete anos e, o mais importante, nenhum namorado ou paquera. Ainda nao tinha tido oportunidade de ir a nenhuma festa e a maioria dos seus programas era em família, pois os pais e irmaos queriam matar a saudade com todo tipo de mimos, passeios, visitas a parentes e longas conversas na varanda ou na praca do bairro. Me confessou que às vezes se sentia meio sufocada com tanta atencao, mas eu lhe disse que isso era normal. A sua família queria aproveitar a sua presenca antes que ela encontrasse novos amigos e comecasse a ficar menos tempo em casa e mais no shopping, na balada ou na casa de colegas.
   -Mas desse jeito nunca vou conhecer ninguém!- reclamou, impaciente -Eles estao o tempo todo no meu pé!
   -Calma, que isso passa, Helô- ri eu, divertida com a sua aflicao -Dê um tempo a eles, seja paciente.
   Suspirando com resignacao, ela concordou. Entao eu disse que precisava circular por aí para verificar se tudo estava correndo bem e saí da barraca, prometendo voltar assim que pudesse. Na verdade, eu queria era encontrar meus amigos para contar-lhes do meu pequeno e precioso achado, pois o plano que comecara a bolar no momento em que vi a Heloísa, já estava completo. Nao podia falhar, ela era perfeita demais.
   Foi assim que fizemos aquela loucura inesquecível e que terminou da forma menos esperada. O Robson e o Samuel foram procurar o Sérgio para pedir-lhe que fosse até a casa da Katy buscar algumas coisas que comecavam a faltar na festa: sacos de pipoca e acúcar para caramelizar as macas do amor. Demoraram um pouco a convencê-lo, pois ele alegou que nao formava parte da turma organizadora e portanto nao tinha por quê ficar correndo atrás do que quer que fosse, mas o Robson e o Samuel acabaram por quebrar a sua resistência prometendo-lhe uma pequena "ajuda de custo" para a compra do seu novo aparelho de som... Quando contaram para nós sobre aquele suborno descarado alguns reclamaram, pois teriam de tirar dos lucros do trabalho para cumprir aquele acordo, mas eu os lembrei do nosso objetivo, que era bem mais importante do que perder algumas notas de dez e cinqüenta.
   -Gente, o que é isso?- os repreendi -É o nosso amigo Sérgio! Ou já se esqueceram? Vamos ter muitas outras festas para recuperar o dinheiro, as nao vamos ter outro amigo como ele!
   Entao todos pararam de reclamar, envergonhados, e decidiram continuar com o plano.
   Eu e a Jussara fomos até a barraca da Heloísa e eu a chamei com a desculpa de que precisava de ajuda para pegar o caixote de macas da despensa da casa da Katy. Ela me olhou meio esquisito, pois deve ter percebido que a Jussara, que estava do meu lado, era bem mais forte do que ela e provavelmente se perguntou por que nao pedia a ela para me ajudar, mas como se sentia em dívida comigo pelo incidente com as criancas, se prestou de bom grau a me acompanhar. Deixamos a Jussara em seu lugar, certas de que diante da sua imponência a garotada nao ousaria baguncar, furar a fila ou tentar pegar os prêmios sem a vara, e fomos à casa da Katy.
   -Os caixotes estao na despensa, Helô, vai na frente que eu vou perguntar para a mae da Katy de quantos está precisando.- disse eu, sorrindo com a maior cara de pau e rezando para que os meninos tivessem levado o Sérgio até lá e ele já estivesse mergulhado entre os pacotes de acúcar e os saquinhos de pipoca -É só virar por aquele corredor, sair na área e você vai dar de cara com a despensa.
   Inocente das nossas armacoes e esperancas, Heloísa obedeceu com seu belo sorriso e se dirigiu até o quartinho que eu havia indicado, abriu a porta e entrou. Imediatamente, eu corri até lá e, sem que ela percebesse, fechei a porta muito devagar, torcendo para que ela nao rangesse, puxei a chave do meu bolso e tranquei os dois lá dentro sem o menor remorso.
   A verdade é que nenhum de nós sabe até hoje o que foi que aconteceu dentro da despensa naquela noite. O Sérgio e a Helô nunca quiseram nos contar, para nos castigar pela nossa armacao, porém todos concluímos que aquele encontro forcado devia ter sido nao só planejado por nós, mas também por alguém lá em cima que estava com a mesma idéia na cabeca, porque quando fomos abrir a porta do quarto lá pelas quatro da madrugada, quando a festa já estava no fim, ambos saíram de lá de maos dadas e um sorriso bobo no rostro e nem quiseram saber das nossas explicacoes estapafúrdias para semelhante "acidente"... Simplesmente foram embora conversando e rindo como se aquilo tivesse sido a coisa mais normal do mundo. Todos ficamos pasmos, pois estávamos preparados para um ataque de fúria, lágrimas, recriminacoes e até algum soco, mas nao para aquela cena de filme romántico!
   -Pôxa!...- exclamou a Katy, de olhos arregalados - Que sucesso!... Do jeito que o Sérgio é esquentado, podia ter acontecido qualquer coisa, e ao invés disso... Olha eles lá! Nao estou nem acreditando, galera!- entao, virou-se para nós e com voz emocionada acrescentoou: -Nao sei como agradecer, gente... Vocês foram demais. Confesso que nao acreditei que um plano tao maluco fosse dar certo, mas parece que o universo também estava conspirando para juntar esses dois solitários.
   -O que tem que acontecer sempre acontece.- sentenciou Tereza, com seu costumeiro ar de pitonisa, e todos rimos.
   -Bom, galera, eu acho que agora sim é hora de tirarmos aquela foto!- exclamei eu -Esta festa foi realmente um sucesso!
   -A melhor de todas!- concordou Samuel -Vai buscar a câmera!
   Entao tiramos esta foto que está em meu álbum agora, com toda a turma na área da casa da Katy, que já nao é mais azul nem tem telhado de eternite, mas conserva as nossas lembrancas mais queridas. Vejo os rostos dos meus amigos: o André com a namorada, a Júlia, a Jussara e seu sorriso de gato, o Samuel fazendo chifrinho na cabeca do Rogério, que sempre aparecia tao sério nas fotos, a Katy de bracos abertos e rindo, o Robson com as maos no bolso, apoiado no muro com aquele sorriso meio tímido e o cabelo na testa... Lembro das suas vozes, dos seus gestos, da alegria daquela noite muito louca, do cheiro de quentao e de pipoca, da música caipira  ecoando na rua iluminada pelos baloes e cruzada por centenas de bandeirinhas coloridas... O Sérgio e a Heloísa nao aparecem nesta foto, mas nao porque estavam zangados com a gente... Deles eu tenho uma outra foto: ela com seu vestido branco, o véu rendado e a coroa de flores amarelas enfeitando seus cabelos ruivos penteados num elegante coque e o Sérgio muito elegante com o terno cinza e  flor amarela na lapela, cabelos impecavelmente ajeitados e a alianca brilhando no dedo anular esquerdo. Outra foto que tenho é a deles com os dois filhos, o Samuel e a Liza. Ele, gordinho e bochechudo, de cabelos ruivos encaracolados e enormes olhos verdes e ela, um bebê ainda, com uma touquinha branca destacando seus cabelos pretos e a maozinha estendida para a câmera, como se quisesse pegá-la. O sorriso é o mesmo do Sérgio...