segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O discípulo - parte I

Fiquei muito contente com as minhas quatro primeiras visitas a este blog e, como sou uma otimista inveterada, hoje vou postar a primeira parte da segunda história que, espero, curtam... Meu filho fez aquela cara quando disse a ele sobre todas as tres visitas, mas, espera aí, só faz duas semanas que abri o blog! Não sou tão famosa assim como para que corra a voz e todo mundo se acotovele para ler as minhas histórias!... Em todo caso, espero que gostem e que, realmente, corram a voz para que outros também passem um bom momento lendo-as. Obrigado!

A notícia correra feito rastilho de pólvora e agora estava em todas as bocas. Ao saberem da sua chegada, as pessoas abandonavam o que estivessem fazendo e corriam até as ruas e estradas que levavam à cidade, amontoavam-se desordenadamente nas janelas, terraços e sacadas para vê-lo passar; subiam nos telhados e escalavam em árvores e rochas, gritando seu nome e empurrando-se umas às outras para poder ter o privilégio de avistá-lo nem que fosse de longe, por alguns segundos. O povo tinha ouvido dizer que tão somente o frescor da sua sombra passando ou um breve olhar de relance, mesmo à distância, já bastavam para que os milagres acontecessem. Nada precisava ser-lhe dito, ninguém era obrigado a confessar seus pecados ou contar a sua história, pois para ele os corações humanos eram como livros abertos e os corpos como históras que de alguma forma sobrenatural, já conhecia. As curas eram um encontro silencioso e íntimo somente entre ele e o doente e duravam apenas alguns segundos, sem grandes gestos ou frases estudadas, sem pregações, sem cobranças nem compromissos. Eram, simplesmente, instantes plenos de misericórdia e compreensão, de acolhida sincera, sem preconceitos ou julgamentos. Eram um breve piscar de amor divino, e era o suficiente para que tudo acontecesse. Por isso as multidões lançavam-se ao seu encontro, ansiosas e cheias de esperança, e faziam qualquer coisa para serem por ele alcançadas.
Quem tinha escutado a sua voz contava que ela parecia uma brisa que soprasse gentilmente no coração de quem ouvia, levando embora todo o peso e a dor que até então carregara. Seu tom era tão terno e misericordioso, e as suas palavras tão doces e certeiras, que a maioria das pessoas não conseguia conter as lágrimas, às vezes represadas por tempo demais, e lavando-se nelas, voltava para casa santificado, total e irreversivelmente transformado.
Os que foram tocados pelas suas mãos leves e pálidas não conseguiam esquecer o que lhes acontecera. A energia que delas emanava era tão poderosa e embriagadora que parecia apagar com um gesto imperceptível tudo que de errado existia naquela vida. Era como desmanchar-se, contavam uns. Era como perder a consciência e desaparecer por alguns momentos, afirmavam outros. Eram instantes de agonía e exaltação, de medo e felicidade, diziam outros... Mas, definitivamente, era uma ressurreição, concordava a maioria. Ao seu toque mínimo, morria o homem velho e cheio de misérias e renascia uma criatura totalmente nova, pura, que via as portas da verdadeira vida se abrirem diante dela. E a única coisa que ele dizia, quando as pessoas já se afastavam, abençoando seu nome, era:
-Encontra teu destino.
Contava-se que, às vezes, as pessoas ficavam em tal estado de exaltação após esta revelação, que de repente lhes nasciam asas e, lançando-se ao céu, perdiam-se lá longe, para além das nuvens e do sol, em busca do paraíso prometido, e jamais regressavam. Mas quando perguntavam para ele se aquilo era verdade, ele se limitava a sorrir com indulgência e respondia:
-Cada um tem seu próprio caminho. Segue o teu.
Era isto que eu tinha ouvido e visto ao longo das cidades e vilarejos pelos quais passara, seguindo seu rasto feito um cão de caça. Uma manhã, enquanto estava sentado nos degraus da igreja esperando da misericórdia dos paroquianos algumas moedas com as quais poder comprar a minha refeição do dia, escutei alguns deles comentando sobre este santo homem que percorria a terra fazendo milagres espantosos e transformando cidades inteiras só com a sua presença. Ao ouvir aquelas pessoas ricas e bem vestidas não pude evitar sorrir por trás dos farrapos, pois percebi que elas eram tão crédulas e exageradas quanto o povo pobre e inculto que pululava pelas ruas. Fechando rapidamente os dedos sujos sobre as moedas que um deles jogara na minha mão, me perguntei como seria o tal homem santo e qual seria a verdade sobre seus feitos, pois o que não faltava naquela época eram charlatões fazendo-se passar por profetas e santos com a finalidade de arrancar dinheiro do povo incauto e desesperado. Guardei as moedas no meu saquinho de couro e o chacoalhei de leve. Um agradável tilintar chegou aos meus ouvidos e sorri novamente: minha comida estava garantida. Era isso o que realmente importava e não um esperto que andava por aí espalhando truques baratos.
Satisfeito com os meus ganhos da manhã, me levantei e fui pelas ruas à procura de uma taverna onde encher meu estômago vazio com um bom guisado de carne e uma caneca de vinho. Achei uma que me pareceu razoável, nem limpa demais -o que significaria preços caros- nem uma porqueira cheia de baratas e cachorros. Calculei que meu dinheiro daria para algo medianamente decente, como aquele estabelecimento. Me empertiguei, pois, e fui entrando, sentindo-me até importante. Ao abrir a porta fui recebido por um maravilhoso cheiro de carne assada, de batatas e sopa. Minha boca encheu-se de saliva. Não comia nada desde o dia anterior, pois estivera nublado e chuvoso e quase ninguém se aventurou às ruas. E quem o fez, não estava com espírito para dar esmola. Me aproximei daeuma das mesas, sentindo o corpo todo amolecer por causa da fome e do calor agradável que reinava ali dentro, mas quando pegava o banquinho para me sentar, um homem parou do meu lado e pôs uma mão pesada em meu ombro.
-Ei, você, o que quer aqui?- me perguntou, com um vozeirão grosseiro de poucos amigos.
-Vim para comer.- lhe respondi, ofendido. O homem me olhou com ceticismo e pôs as mãos enormes e peludas na cintura -Por quê? Por acaso acha que não vou pagar?.- perguntei, endireitando-me e encarando-o.
O homem, gordo e seboso, soltou uma gargalhada estrondosa, que me fez encolher e, voltando-se para os outros fregueses exclamou, apontando-me:
-O príncipe aqui diz que vai pagar a comida!...- e riu de novo, acompanhado pelos demais.
Eu rebusquei entre as minhas roupas e peguei o saquinho com moedas. Fazendo-as tilintar diante do seu rosto barbudo, exclamei, encorajado:
-Pois o dinheiro está aqui!... Acredita agora?... Pode trazer a minha comida!.
Porém, o taverneiro não pareceu para nada impressionado. Pelo contrário, aproximou seu rosto quadrado ao meu e murmurou, batendo em meu peito com seu dedo:
-Eu conheço a tua laia, mendigo. Já teve muitos outros que tentaram me enganar e comer de graça e se deram muito mal.
-Mas eu tenho dinheiro!- insisti.
-Então me mostra, safado, caso contrário você não pega nem sequer uma migalha de pão duro. Deixa eu ver!.
Com uma mãozada arrancou dos meus dedos o saquinho e, abrindo-o, espalhou seu conteúdo em cima da mesa. Instintivamente, eu segurei o fôlego. O homem ficou um instante em silêncio, olhando para as moedas douradas e prateadas. Então, esticou a mão e pegou uma delas, aquela que o homem rico tinha acabado de me dar, a aproximou dos seus olhos e a observou mais um momento.
-E aí?...- inquiri eu, com ar de trunfo.
Mas ele, ao invés de fazer um gesto de aprovação, jogou a moeda para longe e me deu um olhar terrível. Dando um passo em minha direção, me pegou pelos colarinhos e começou a me arrastar em direção à porta. Os fregueses soltavam gargalhadas e batiam nas mesas feito animais. Eu não entendia o que estava acontecendo.
-Mas, o que é?...- gritei, lutando para safar-me das garras do taverneiro -Por acaso meu dinheiro não vale?... Só porque sou um mendigo?... A manhã foi boa, amigo, os paroquianos foram generosos!.
Então, o homem parou e me segurou no ar, chacoalhando-me sem piedade.
-Ah, é?... A manhã foi boa? Os paroquianos foram generosos com você?...- soltou uma risada e me deixou cair -Pois parece que os paroquianos são tão sem-vergonhas quanto você!...- apontou para a moeda no chão -Isso aí é falso!... Puro latão!... É falso!.
Estupefato, me virei e olhei para a moeda. As minhas pernas tremeram. As coisas estavam ficando ruins, muito ruins.
-Mas eu não sabia!...- aleguei, virando-me para o homem -Eu não sabia, eu juro!...
-Sei, você não sabia, não é? E achou que eu também não saberia? Vai contar essa história para outro!.- gritou o homem, e pegando-me pelas calças e a túnica, me atirou para fora da taverna feito um cachorro sarnento.
Fiquei no meio de uma poça de lama, sentindo-me um porco, molhado e envergonhado, pois todos os que passavam riam e me apontavam, exclamando:
-Olhem, outro esperto que tentou enganar o taverneiro e se deu mal!- e se afastavam, zombando da minha desgraça.
Me levantei, cambaleante, e tentei limpar as minhas roupas, mas estavam encharcadas. Tive a intenção de voltar lá dentro para apanhar meu saquinho de moedas -devia haver alguma verdadeira! Os ricos não podiam ser tão cruéis!- mas as gargalhadas dos fregueses e a voz do taverneiro contando aos berros a minha tentativa de trapaça me fizeram desistir. Olhei em volta, à procura de um pouco de piedade, mas a rua estava deserta. Era a hora do almoço e todos deviam estar em suas casas, em volta de uma mesa cheia de pratos e tigelas fumegantes e cheirosas... Meu estômago roncou, cheio de ar. Uma mistura de raiva e tristeza encheu meu peito e, praguejando e mancando, me afastei pela rua e fui me esconder num beco escuro. Desabei no chão de pedra e me enrolei o melhor que pude em minha capa, pois estava ficando muito frio. Esfomeado e tremendo, adormeci. Quando acordei, um cachorro tinha-se deitado aos meus pés e olhava para mim, abanando o rabo. Estava muito magro e sujo, mas seus olhinhos brilhavam quando se pousavam em mim.
-Pelo menos meus pés estão quentes.- murmurei, afagando-o. Então, ele deu um pulo, como se só estivesse aguardando um sinal meu, e veio se deitar em meu colo -era só o que me faltava!...- exclamei, zangado, mas ao olhar em seus olhos me vi neles refletido: sujo, miserável, abandonado, desprezado, um paria, e de repente meus olhos se encheram de lágrimas -Não agüento mais...- solucei, abraçando o animal -Esta vida é dura demais... Não agüento mais! Eu prefiro morrer!.- exclamei, deixando-me escorregar até o chão. E fiquei ali, sob a chuva que começava a cair, abandonado de toda vontade e esperança.
Acordei quando alguém tropeçou em mim. Sobressaltado, me soergui e olhei em volta. A rua estava tomada por uma agitação incomum. As pessoas corriam, se atropelavam, gritavam, saiam às sacadas e janelas numa urgência desesperada, quase histérica. Tentei perguntar o que estava acontecendo, mas ninguém parou para me responder. O cachorro latia, furioso, assustado com tamanho tumulto. Então, escaldado ainda pelo apisódio anterior, preferi me encolher no meu canto e esperar a que tudo se acalmasse.
Porém, ao invés disso, a multidão foi aumentando, empurrando-se e gritando, ficando cada vez mais desesperada, como se algo terrível fosse acontecer.
-Olhem é ele!... É ele!...- gritou uma mulher perto de mim, apontando para o meio da rua. E todos lançaram uma exclamação de assombro, movimentando-se feito um bloco naquela direção.

Bom, esta é a primeira parte da história. Semana que vem escrevo a segunda, ok?.
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