Bom, e como prometi ontem (porque, claro, surgiu uma entrevista na tevê de última hora e tive que largar tudo para ir lá) aqui está a primeira parte desta história. Ela pertence a uma série que pretende se transformar num livro e que narra os encontros de várias pessoas, dos mais diferentes tipos, com Francisco de Assis, e como este encontro transformou as suas vidas. Então, antes de que surja alguma outra surpresa em meu agitado dia-a-dia que me impeça de postar este texto, aqui vai. Espero que gostem!
O céu começou a clarear e uma tênue pincelada de luz surgiu no distante horizonte e correu pela terra silenciosa, quieta e confiada em seu profundo sono. Emergiram da escuridão as formas azuladas e fantasmais das casas, as árvores, os cercados, as colinas, os campos e hortas floridas e perfumadas. A água fria e cristalina dos riachos cantarolou, fazendo eco nas quietas lacunas e na úmida profundidade noturna dos poços. A passarada se agitou, irrequieta entre a folhagem das árvores, atirou umas notas à madrugada e calou em seguida, aguardando...
Das chaminés de algumas granjas elevou-se uma fina coluna de fumaça esbranquiçada e por trás das persianas ainda fechadas flamejou a chama avermelhada de uma pequena lamparina de óleo. Espalhou-se pelo ar o aroma do pão recém assado, ferveram as caldeiras na lareira, que aquecia o quarto quase nu, rangeram mesas e banquinhos, alguma voz deixou escapar uma sílaba sem resposta... As galinhas cacarejaram. As vacas, ovelhas, cabras, cavalos e os cachorros no curral ergueram a cabeça para o firmamento cristalino e farejaram, alertas para a luz.
A nascente claridade arrastou-se por entre as espigas maduras, pulou pedras e cercados, fez cócegas no lombo forte e peludo dos bois, vadeu as correntezas e as poças que ainda persistiam da última chuva e se aproximou, deslizando calmamente através das laranjeiras, levando umas rajadas do seu perfume. Roçou a poeira dos caminhos, que se levantou em ígneos e desordenados redemoinhos; beijou delicadamente as diminutas florzinhas que cresciam corajosamente entre as pedras e o mato... Caminou mais um pouco, tomando fôlego, e pegando um grande impulso, elevou-se e tocou o alto e sombrio muro que resguardava a cidade. Rastejou ao longo dele, penetrando em suas gretas, remexendo o pó dos anos que ali se aninhava, aquecendo a sua áspera e imponente superfície. Mas logo correu, tropeçando em suas arestas e fendas, descobrindo em sua passagem o esconderijo de uma lagartixa, uma mosca presa na armadilha mortal da aranha, as pegadas invisíveis das formigas e o musgo tenro que cochilava nas rachaduras, ainda perolado pelo orvalho noturno... Percorreu as paredes de cima a baixo, fazendo-o surgir da noite em toda sua amedrontadora solidez e majestade. E finalmente, esgueirando-se e ocultando-se, alcançou o enorme portão de madeira e ferro que, agora fechado, dava passagem para o interior da cidade. Ele era tão maciço e inexpugnável quanto o próprio muro, com arco de meio-ponto e flanqueado por grossas colunas esculpidas. Imponente e intimidador, parecia avisar a quem por ele passasse que nada escapava ao seu olhar de guardião.
A luz se deteve ali por alguns momentos e suspirou, arrefeceu um pouco, diluindo-se nas sombras misteriosas do portal soberbo, como se lhe jurasse obediência. As altas torres que se erguiam, negras e difusas contra o céu ainda em penumbras e as ruas retorcidas e estreitas que subiam e desciam em completo desordem, qual se estivessem fugindo umas das outras, assustaram-na por alguns instantes, pois nada se movia ali dentro. Mais parecia um cemitério com as suas lápides brancas e cinzas, empoeiradas e esquecidas por homens e deuses... Porém, os homens que moravam nesta cidade chamada Assis, a famosa, a próspera, a hospitaleira Assis, não estavam mortos nem esquecidos. Eles tão só dormiam, sonhando seus secretos sonhos, planejado suas secretas batalhas e saboreando suas secretas e pequenas vitórias temporais... Somente dormiam, bem alimentados e agasalhados, e sonhavam...
Mas, finalmente, a luz deu um pulo, ultrapassou o muro e adentrou lenta e sigilosamente pela cidade escura, sentindo seu pulso forte e ambicioso, seu hálito obstinado e empreendedor, quase esmagador, tocando sutilmente seu imenso e esplêndido corpo de fera deitada, satisfeita e sorridente, despreocupada dos homens e dos céus... À sua passagem, a luz foi tingindo com seu resplendor de ressurreição as velhas paredes emboloradas, os postigos, as escadarias onde os mendigos e os cachorros se enrodilhavam, tremendo de frio, as sacadas com seus vasos de cravos, malvas, samambaias e azaléias, vistosos gerânios, cheirosas alfavacas e hortelãs; foi dando cor às telhas pardas e vermelhas, ao chão úmido e irregular, aos leões de mármore que rugiam silenciosamente na porta da catedral de são Rufino, mostrando as presas descomunais para os paroquianos que passavam por eles à caminho de confessar seus pecados e comer o pão sagrado, para logo sair absolvidos e aliviados. Continuou seu percurso, abrindo-se caminho entre muros, telhados, portais, torres e pátios, desfraldando-se feito uma bandeira através das vielas e becos mais afastados e tenebrosos, cheios de sujeira e miséria, nus sob seu implacável fulgor, e pelos elegantes jardins e terraços de lajotas, os frescos passadiços, pontes e arcos das moradias e palacetes dos ricos senhores e suas famílias.
E foi deste jeito, correndo e alumiando, até chegar ao outro extremo da cidade, onde parou de supetão diante de uma pequena e enferrujada porta de metal, na parede oeste do velho mosteiro... Ali ficou, cintilando, imóvel, como se aguardasse algo, um sinal, uma voz, uma ordem... E de pronto, surgiu desde o interior feito uma explosão, um vagalhão, uma labareda ofuscante, o pressentimento certo de uma benção, da mão do Criador segurando as coisas na sua palma e botando as forças divinas para trabalhar. E a luz se fez mais pura e serena, resplandecente, submissa àquela outra luz, pois soube que aquele era o lugar que procurava. Era aqui que haveria de se unir a Deus para cegar um homem.
Sentindo-se tomada por grande reverência, deu uma olhadela no interior escuro e silencioso pela pequena grade e, elevando-se um pouco para o céu para assim se fazer divina e poderosa, atravessou o muro e se dirigiu para o poço esculpido que ficava no centro do pátio. Parou ali e aguardou, refletindo-se na água...
Foi então que frei Silvestre abriu os olhos...
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário