segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Silvestre - parte III

Bom, considerando que duas apresentações do musical e alguns ensaios extra numa mesma semana podem deixar a gente meio acabada, acho que estou desculpada por ter deixado vocês na mão com a publicação desta história e dos blogs... Mas, como agora tenho dois maravilhosos dias de folga por conta do feriado da padroeira do Brasil (o que também vai me servir  como tomada de fôlego para os dias que restam da semana, em que terei mais uma apresentação, montagem e ensaios. Quer dizer: mais uma semana de domingo à domingo. Mas tudo bem, está valendo a pena apesar do cansaço de todo mundo. Coisas boas estão começando a aparecer em nosso horizonte) vou aproveitar para botar estes escritos em dia, ok?
     Então, aqui vai a terceira parte desta estória.


    -Oh, Jesus...- gemeu, desconsolado, cobrindo o rosto com a manta desfiada -Por que a minha mente cria estas coisas tão terríveis com semelhante realismo?...
    Enrolou-se no cobertor, enrodilhando-se na cama, tremendo e esfregando furiosamente as têmporas e os olhos para apagar aquelas visões. Em sua cabeça devia existir alguma espécie de demônio, tinha certeza, e era ele quem abria os caudais descontrolados da sua imaginação e fazia com que acreditasse em todas aquelas fantasias absurdas que o atormentavam sem cessar... Mas, por que motivo o Senhor permitia que aquele espírito maligno tomasse conta dele e afastasse a sua mente da oração e das coisas santas? Que tipo de contradição era aquela? Por que enviava esta penitência, capaz de quebrar qualquer um, digna de um vil pecador, a alguém feito ele, que lhe servia fielmente e o amava acima de tudo? Por que o martirizava desta forma impiedosa?... Porém, como sempre ao longo da sua vida, não conseguia compreender estas coisas e ninguém respondia às suas perguntas.
    O monge esticou lentamente uma mão para fora da manta, tateando o áspero chão junto da cama para apanhar seu terço, porém, todo ele tremia de tal forma que não conseguiu segurá-lo e ele caiu nas pedras, produzindo apenas um sussurro abafado... Frei Silvestre ficou olhando para ele durante alguns segundos, com os dedos ainda esticados, e um esgar indefinível cruzou pela sua pálida face. Parecia que a pele puxava dolorosamente sobre os ossos até deixar transparecer as suas brancas arestas... Tornou a se encolher, como ferido por uma chicotada, e mordeu o lábio inferior numa tentativa de segurar o grito furioso que explodia em sua garganta. Tremia da cabeça aos pés. Sim, assim era, e sabia bem que continuaria a tremer ao longo de todo aquele interminável e penoso dia que tinha por diante. Tremeria no refeitório, derramando a sopa sobre a mesa; no coro, incapaz de ler os salmos em seu breviário. Tremeria na horta, enquanto capinava a terra sob o tórrido sol que se refletia no solo pardo e sedento. E tremeria ainda com mais violência na capela, ajoelhado diante do altar, na frente daquele crucifixo de madeira que não parava de olhar para ele lá de cima, mudo e quieto, com os olhos fixos nele, somente nele, transpassando-o, afundando-o no chão, cercando-o de fogo, seguindo todos seus movimentos, até os mais insignificantes... Aguardando, ele sabia, espreitando-o feito uma ave de rapina. Esperando, inabalável, paciente, seguro... Aguardando ele não sabia o quê.
    Porque, ah, sim, também estava o frio entre as estranhas e impiedosas penitências que Deus decidira lhe impor. Um frio mortal que tomava conta dele o tempo inteiro, sem dar-lhe trégua jamais, não importava quão perto se achasse do fogo, nem quantas camisas de boa e grossa lã vestisse, ou quão quente bebesse a sua cuia de sopa, e tempouco quão duro trabalhasse na horta, pois seu suor era feito gelo derretido que escorregasse pelo seu corpo exaurido. Era um frio que parecia vir do ar que respirava, da terra que pisava, de tudo quanto via, tocava ou escutava. Tudo exalava aquele gelo sobrenatural e pertinaz. Parecia emergir misteriosamente do seu próprio hábito gasto e cheio de remendos, da sua pele, das suas entranhas sempre famintas, dos seus ossos ateridos. Filtrava-se em seus membros e seu cérebro desde seu próprio sangue, desde cada uma das suas células, mantendo-o naquele inverno perene. Algumas vezes achava que não conseguria suportá-lo nem um segundo mais e irrompia em soluços, rendido e exausto. Porém, em outras ocasiões se rebelava e a sua boca apertada enchia-se de maldições, seu peito impotente e inundado de escuro ressentimento... No entanto, no fim, sempre corria para se esconder em algum canto afastado, onde os outros irmãos não fossem chamá-lo, e ali, encolhido e cheio de confusão e medo, abraçava a si mesmo com as mãos pálidas e frias como as de um morto e virava o rosto para a parede, receando que a sua expressão de angustiado pânico ficasse ali congelada... E às vezes era tal seu secreto desespero que, abandonando a enxada, ou a foice, ou jogando o breviário aberto sobre o catre, corria até a capela, quase sem perceber por onde ia, e caia de joelhos nas lajotas coloridas e lustrosas, tremendo o queixo e respirando feito um animal ferido, cambaleando, cheio de ousadia e temor ao mesmo tempo, quase incapaz de segurar o terço de madeira e cânhamo entre seus dedos descarnados que tremiam sem que ele pudesse impedi-lo... Então, erguia o rosto cinzento e esbaforido e suplicava a Deus, lhe exigia, lhe ordenava, cego em seu desespero, que acabasse com aquele martírio enlouquecedor. Porém, logo se arrependia do seu rompante e, assustado, inclinava a testa até encostá-la no chão e tornava-se humilde e choroso, e prometia aceitar qualquer provação, qualquer sacrifício, todas as doenças e desgraças que Ele tivesse a bem lhe enviar. Receoso da sua própria e irreflexiva coragem, mas sem por isso voltar atrás, oferecia-se para ser argila em suas mãos e, ingenuamente, jurava comer menos, fazer mais penitência, orar mais, dormir menos horas ainda, sem perceber que aquilo que pedia com tanta vêemência lhe estava sendo dado e que ele era incapaz de suportar... Mas qualquer coisa valia, não importava quão descabida pudesse parecer, com tal que este hálito gélido que soprava incansavelmente sobre ele e corroia as suas entranhas e seu coração o abandonasse para sempre.
    -O frio não, Senhor... Nâo mais, tem misericórdia de mim...
    E ali permanecia ajoelhado durante horas, que pareciam dolorosas eternidades, com a testa encostada no chão, humilhado, envolto seu frio na penumbra ainda mais fria da capela solitária, em absoluto silêncio, sem mover-se, até sentir que todos  seus músculos estavam enrijecidos e dormentes e os joelhos cruelmente aderidos às lajotas.
    Porém, quando finalmente ousava erguer a cabeça num penoso esforço, segurando o fôlego, os olhos avermelhados e lacrimejantes, repetindo seu clamor mais uma vez com cada célula de seu ser, no havia nada. Nada... Tudo continuava igual: o silêncio, a penumbra, a solidão... E ele se sentia desconcertado e olhava em volta, surpreso por ainda encontrar-se ali, por nada ter mudado afinal; procurando, farejando no ar sereno para descobrir o sinal, a mensagem, a faísca divina que tinha caído do céu para que ele a pegasse... Mas nada havia e, cheios de desapontamento, seus olhos fundos retornavam ao crucifixo e o monge acreditava descobrir nas pupilas agonizantes o fugaz e certo lampejo de um reproche.
    -Mas, Senhor!...- gemia então, exasperado, trincada a ferocidade da sua voz pela chorosa impotência que tomava conta dele -O que mais queres? Já não te ofereci tudo? Por que então me olhas desse jeito?... Fala comigo, Senhor! Eu te obedecerei!- exclamava, desesperado, erguendo as magras mãos abertas para a cruz impenetrável, como se desejasse arrancá-la daquela parede e obrigá-la a falar -Mas como posso eu saber nada se Tu nada me dizes?.- e a sua voz se tornava dura e desafiadora, como se estivesse no limite da sua paciência, para murmurar: - Fala comigo!... Me responde! Por que não o fazes?...
    E tornava a suplicar, com uma vozinha, encolhendo-se, cheio de submissão e fervor, e aguardava então, estático, com a vista pregada na imagem, o peito cheio de inconfessável ânsia, o fôlego apertado, sibilante, submergido na agonia da sua ousada esperança, com a boca aberta, suspensa nesse instante de santa expectativa, de bendito e orgulhoso anelo, quase desfalecido.
    Porém, nada se mexia naquela cruz. Nenhuma voz surgia desses lábios de madeira, nem se tendia para ele sua divina mão. Nâo havia luz que o cegasse, nem som ou visão alguma que o arrebatasse num êxtase. Sua consciência continuava tão clara e fria que chegava a machucá-lo. Tudo aparecia mais opaco, mais próximo e feio, comum, esmagador, vulgar, repulsivo. E o frio continuava ali, fazendo-o tremer. Não, não havia milagre algum.
    Um estertor o sacudia então  e seu corpo em tensão esmorecia como se atingido por um raio, cheio de amargor e ira, e apertava a boca para não blasfemar, exaurido, vencido, mais gelado e apavorado do que antes, sabendo que o céu o ignorava... Incorporava-se, cambaleando, quase sem forças, e abandonava a capela apoiando-se nas paredes feito um bêbado. A luz do exterior machucava as suas retinas, os sons o atordoavam, os cheiros lhe embrulhavam o estômago. Sentia-se ridículo, ludibriado. O mundo o machucava com a sua realidade terrena e prosaica, banal... E quando os irmãos se afastavam respeitosamente para não perturbá-lo, ingenuamente convencidos de que uma visão celestial ou um toque seráfico o tinha deixado em tal estado, ele continuava seu caminho sem vê-los, mudo e cabisbaixo, e os deixava acreditar, envergonhado de confessar a verdade. E a verdade era que o frio continuava ali.
    Frei Silvestre se incorporou pesadamente em seu catre, recuperado dos seus pesadelos, e afastou o cobertor com um gesto displicente. Ficou sentado ali, sem mover-se, sentindo o corpo endurecido e dolorido por causa daquele inóspito colchão de palha em que jazia, lutando contra a modorra e o cansaço que aguilhoavam suas pálpebras, escutando o protesto do seu ventre vazio feito um no, com a cabeça cheia de zunidos e luzes que explodiam diante dos seus olhos, ofuscando-o. Se mexeu, incerto, e suspirou. Jogou a cabeça para atrás e fechou os olhos. Parecia que mergulhava no nada, lenta e caladamente. Apoiou os pés nus no chão e seu rude contato o fez estremecer de dor. Abaixou bruscamente a cabeça e agarrou com força a trave da cama... Seu corpo, martirizado por todos os rigores aos quais o submetia continuamente, quase não tolerava aquele contato. Tudo tinha-se transformado em sofrimento para ele: o adejar das pombas no telhado, a água fria do poço, o sussurro do vento nas árvores, a chuva batendo na terra. A fria suavidade das baldosas, as cores vivas da natureza, a parca comida, o som profundo e reverberante do sino chamando à oração, o roce das contas do seu terço passando entre os dedos. Até a tênue claridade que assomava timidamente pela janela da sua cela feria seus olhos irritados e insones. Olhos secos, ferozes, cheios de zelo e veemência e, ainda assim, apagados e frios feito cinzas... Quem poderia ler em seu fundo e adivinhar como ele era? Quem poderia chegar até eles? Pois aquele que tentasse haveria de mergulhar nas trevas e no fogo.

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