quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Silvestre - parte VI

    E aproveitando esta amanhã ainda fresca e o alívio que o relaxante muscular que tomei ontem à noite está me proporcionando até agora, aqui vai mais uma parte desta história. Queria poder postá-la até o final de uma vez, para acabar com o suspense, mas estava vendo que ainda falta bastante, então, vão ter de se resignar e aguardar mais um pouco pelo final. De repente neste fim de semana que -até agora- tenho livre graças à apresentação da escola de ballet, na qual os alunos que estão nesta pequena peça de natal que estamos apresentando na praça estão participando, consigo terminar de postar este "conto-sem-fim!"...
    Então, e antes que algo inesperado me apareça, aqui vai a parte VI de "Silvestre". Já é uma dificuldade porque estou sendo obrigada a digitar mais devagar por causa da dor nos braços e nas mãos e por menos tempo do que desejaria, então, preciso aproveitar enquanto ela é suportável. E isso é agora!.


    E esse algo penetrou pelas portas fechadas, transpassou os altos muros, surgiu  da terra fresca e grávida, espalhou-se sobre o lugar todo feito um vento, envolvendo as coisas, detendo a sua marcha natural, separando-o do mundo conhecido para submergi-lo numa otra dimensão: a dimensão insondável de Deus. Algo como uma piedosa carícia aplacou os sons, as cores, os perfumes, as formas, feito uma silenciosa e invisível explosão, um olhar oniciente que assinalasse aquele lugar, aquele instante, àquele homem desapercebido que já nada esperava.
    Frei Silvestre passou veloz junto ao poço. Uma macieira florida o cobriu com a sua sombra. Seu velho hábito ondulou, envolto um súbito redemoinho de vento, e o pó dançou aos seus pés, apagando suas pegadas da vereda. Um raio de sol pousou nele, surgindo deslumbrante por trás da grande cruz de ferro que coroava a torre maior. As pombas alçaram vôo quando ele passou e as árvores sussurraram por cima da sua cabeça, espalhando seu aroma.
    E então, o viu.
    Primeiro não prestou realmente atenção nele, mesmo se passou do seu lado, pois ele não lhe dirigiu palavra alguma nem o tocou. Não, estava simplesmente sentado ali, no último dos bancos que flanqueavam a vereda, aquele que se abrigava sob a oliveira prateada.
    Porém, agora frei Silvestre se deteve. Mas não o fez abruptamente, como se tivesse visto o homem de repente, senão aos poucos, diminuindo o passo como se uma força misteriosa e irresistível o chamasse, sussurando em sua volta, como se algo tivesse sido tocado e despertado no profundo do seu secreto e adormecido interior. Uma estranha e poderosa vibração proveniente daquele banco roubou a sua atenção, seu impulso, seu pensamento... Até que, vencido por aquilo, acabou parando por completo e ficou parado ali, imóvel e desconcertado, como se tentasse resistir, a alguns metros da umbrosa porta da capela. As finas folhas do seu breviário aberto viraram desordenadamente, produzindo um leve crepitar.
                                            "Notum fecit Dominus
                                            salutare suum: in conspectu gentium
                                            Revelavit iustitia suam
                                            in ella mandavit Dominus
                                            misericordiam suam:
                                            et cante canticum eius..."
     O homem estava ali, atrás dele, ele sabia, quieto e calado, quase como se formasse parte de tudo e, no entanto, separado e único, tão real e presente que todo o resto parecia tornar-se confuso e distante... Frei Silvestre teve a impressão de que aquela silhueta que sequer podia definir enfiava-se nele profunda e repentinamente, como se pretendesse soltar raizes e, sem saber por quê, um calafrio o percorreu. Aquela imagem tinha sido como uma flecha disparada certeiramente em seu coração por uma mão sábia e forte, e de alguma forma que não conseguia compreender, havia sido ferido por ela.
    Finalmente, o monge empertigou-se devagar, erguendo a cabeça, retesando o corpo como se se preparasse para... Para quê?... Se virou, olhou para ele. Soube como era. Era um mendigo. Trajava farrapos, ia descalço e, com certeza, tinha fome... E também olhava para ele. Na face do monge pintou-se a incredulidade, uma faísca de receio, algo de decepção... Porém, no segundo seguinte sentiu-se devorado por aqueles olhos escuros que pareciam arder, acendendo toda a face e o ar em volta dela. Instintivamente recuou o corpo e seus dedos apertaram-se sobre a aveludadas páginas do seu breviário.
    -O que fazes aqui?- lhe perguntou rudemente, sem aproximar-se. Sentia-se de alguma forma agredido, exposto diante daquele homem.
    O mendigo não respondeu de imediato, nem fez movimento algum; não fez nada. Tão somente o contemplava com atenta placidez e confiança, como se soubesse desde sempre quem era ele, como se esperasse ser prontamente reconhecido, com uma pincelada de brilhante mansidão fulgurando em seu rostro magro e pálido, sulcado de pó e orvalho. As mãos, curiosamente delicadas, porém, sujas e cheias de machucados, descansavam no colo, uma sobre a outra, e em sua leveza, pareciam ser capazes de aliviar qualquer dor só fazendo um leve movimento, erguendo-se ou apontando. Seus pés, um junto fo outro sobre o musgo úmido das pedras, diziam ter percorrido todos os caminhos do mundo, do universo, do tempo e da dor, tão lastimosamente chagados apareciam, cobertos de terra, pateticamente frágeis, tão humildes e sofredores que inspiravam piedade e ternura. E seu rosto... Ah, esse rosto...
                                                       Haec dies fecit Dominus:
                                                       exultemus et laetemur in ea.
                                                       Benedictus qui venit in nomine Domini:
                                                       Deus Dominus, et illuxit nobis..."
    Apesar da doçura e quietude que a imagem daquele homem exalava, da afabilidade e singeleza do seu porte, da sua cinzenta e esfarrapada insignificância, aquela sensação de inquietude, de subterráneo perigo, de alguma coisa desprendendo-se dele e aproximando-se, ocasionando-lhe aquele incômodo receio, agigantou-se de um sopro no peito de frei Silvestre. Parecia que seu pesadelo estava prestes a atacá-lo novamente... Fez um gesto indefinível e contido, pois não entendia o motivo de semelhante e tão absurda contradição entre o que seus olhos viam e o que seu coração sentia. Não era por acaso uma mesma pessoa? Então, como era que deste jeito se disociava?... Esquadrinhou com mais atenção o desconcertante homem diante dele, tentando penetrar em seus pensamentos, adivinhar suas intenções para assim desarmá-lo de uma vez. Olhou intensamente para ele, tomado pela raiva, pelo medo, arranhando, cavucando... Porém, aquilo foi como enfiar as mãos na água. Transpassou-o num instante, sem que ele opusesse resistência, e nada achou além. Tocou fundo sem precisar mergulhar, porque o homem se mostraba tal e como era. Não ocultava nada, não trazia nada, nada reclamava. Era simplesmente, quem se encontrava ali.
    Então, o monge teve medo de que se tratasse de algum louco, um doido que não tinha compreendido as suas palavras, e já aborrecido por esta nova demora no cumprimento dos seus deveres e por aquela estúpida sensação de perigo que arranhava seu estômago, se dispunha a repeti-las, dando um profundo suspiro de paciência, quando o homem falou. E foi tanto o sobressalto do monge ao escutar a sua voz, que segurou o fôlego e quase deu um pulo.
    -O irmão porteiro me deixou entrar- expressou o homem em voz baixa, e o ar da manhã pareceu vibrar junto à sua boca.
    Por um momento, frei Silvestre ficou em estático silêncio, estupidamente supreso, acreditando reconhecer aquela voz -que talvez provinha de algum canto remoto e esquecido da sua memória. Seria alguém com quem cruzou em alguma das suas peregrinações pela cidade à procura de esmola?- e novamente o percorreu aquele inexplicável calafrio. Porém, em seguida se recompôs e disse a si mesmo que era impossível que alguma vez tivesse conhecido este homem, pois não passava de um mendigo, um esmoleiro, um qualquer ignorado pelo mundo.
    -Pois não devia tê-lo feito.- lhe replicou então, com agrura, fechando de um golpe seu breviário, chateado pela sua própria insegurança diante deste desgraçado -Por acaso não sabes que é proibido entrar aqui? Este é um lugar de oração, não de esmolas.
     Então, o mendigo se levantou, com um movimento que resultou imperceptível para os olhos do monge, e olhou para ele por um momento, envolvendo-o numa suave e cálida onda de luz, penetrando sem medo pelas suas pupilas para precipitar-se nas trevas de suas entranhas, diluindo-se no ar móvel e argentado.
    - Mas esmola também é uma prece.- lhe respondeu, sem deixar de olhar para ele, porém como se olhasse também para algo além.
    Frei Silvestre desviou os olhos, perturbado, sentindo que uma chicotada de gélido vento o açoitava, fazendo-o encolher. De repente quis ir embora, terminar a conversa, expulsá-lo do mosteiro, gritar com ele, empurrá-lo para afastá-lo do seu caminho, da sua vida, na qual parecia infiltrar-se e amarrar-se a cada segundo que passava de um jeito inflexível, definitivo, que ele não conseguia impedir. Desejou que este homem esquisito e perturbador sumisse das suas vistas, que ao estralar os dedos se esvanecesse na brisa e deixasse de amedrontá-lo desta maneira ridícula e humilhante. Sentia em sua presença algo ameaçador. Sentia que o espiava, que aguardava alguma coisa. Mas, que poderia esperar dele a não ser um pedaço de pão ou um copo d'água?...E, no entanto, ele aguardava, como aquele crucifixo em sua cela... E esse rosto, aquela face serena e segura que de algum jeito o machucava profundamente...

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