domingo, 2 de fevereiro de 2014

"Sete dias"

    Como prometi, aqui está o conto desta semana. Estou a todo vapor já trabalhando em outros -já que vocês nao me enviam nenhuma idéia para eu desenvolver- para mantê-los muito interessados. Pensei que iria ficar um tempo sem internet depois da mudanca ao novo apê, mas os caras foram suuuper legais e vieram no mesmo dia instalar a coisa toda, entao, o trabalho nao pára!... E aqui vai!
    Este, na verdade é um exercício que eu dava em minhas aulas, e que consistia em observar alguém durante uma semana e fazer uma espécie de relatório romanceado sobre suas atividades. Se possível, e quando nao se tratasse de alguém conhecido, o aluno devia fazer contato com a pessoa para assim ter mais informacao para seu relato. Era um teste para vencer a timidez para muitos alunos!... Mas, em geral, conseguiam fazer o pedido e dali saíram textos bem interesantes, que provavam o poder de observacao, empatia e criatividade do aluno. Sao histórias simples, porém importantes para quem as vive.


    Primeiro dia: Logo cedo, uma jovem mulher empurrando um carrinho de bebê passou apressadamente diante da minha casa. Eu estava saindo para trabalhar e quase trombei com ela, esbarrei no carrinho e a minha bolsa caiu no chao. Quando me abaixei para pegá-la, desculpando-me pela minha distracao, vi um bebê de uns cinco meses que, um pouco assustado, olhava fixo para mim com seus pequenos olhos azuis enquanto mastigava a sua chupeta. Fez uns barulhinhos engracados, como para me repreender pelo meu descuido, e se esticou todo, querendo sair do carrinho.
    -Me desculpe, é que estou meio atrasada para o trabalho e nem percebi que você estava vindo...- expressei, erguendo-me e sorrindo para ela, que apenas fez um gesto com a cabeca e se abaixou para acalmar o bebê.
    -Tudo bem, eu também estou com pressa. Tenho que deixar o Gabriel aqui com a minha mae para ir trabalhar..- me respondeu,séria.
    Em seguida se despediu com um breve aceno e continuou seu caminho. Enquanto me afastava, volvi a cabeca para ver onde ela parava e descobri que a sua mae era a dona Solange, uma vizinha que eu conheci havia dois anos num pono de ônibus à caminho do centro da cidade. Durante a longa espera acabamos entabulando uma agradável conversa e ela me contou seus planos de se mudar para a minha rua. Já estava de olho numa data perto da minha casa, onde poderia ter um quintal espacoso no fundo para poder cultivar a sua horta. Só faltava acertar o preco e logo comecaria a construir a sua casa.
    -Nada muito grande, é claro. Eu moro sozinha e nao preciso de tanto espaco.- me explicou, entusiasmada.
    Pouco tempo depois, ela conseguiu comprar a data e construiu a tao sonhada casinha, toda de material e pintada de branco e amarelo. Na frente fez um jardim e no fundo, como planejara, plantou a sua horta e alguns pés de jabuticaba, limao e laranja... Todo dia pode-se vê-la aguando as flores e cuidando da horta, botando seus canários embaixo das árvores e varrendo a calcada. É uma senhora muito ativa e alegre, que gosta de conversar e cumprimentar todos que passam, mesmo que nao os conheca.
    Agora, enquanto me afastava, pude vê-la saindo no portao para receber a filha e o neto, que logo pegou no colo e beijou ruidosamente. A filha lhe entregou uma sacola, provavelmente com as coisas do bebê, e se despediu rapidamente, afastando-se em direcao oposta à minha. Dona Solange estava para entrar, carregando a sacola e o bebê, e empurrando o carrinho com a mao livre, quando me viu e fez sinal para que me aproximasse. Eu acenei de volta, dei uma olhada em meu relógio e conclui que ainda dispunha de alguns minutos para conversar com ela. Me aproximei entao, sorrindo, e a cumprimentei.
     -Nossa, como você está sumida!- exclamou ela, colocando a crianca de volta no carrinho.
   -É que a minha vida anda meio corrida ultimamente.- respondi, ajudando-a com a sacola, que comecava a escorregar do seu ombro - Acho que até eu mesma ando me vendo pouco!-  brinquei.
    Ela lancou o olhar pela rua abaixo, na direcao em que a sua filha se fora, e fez um gesto de preocupacao, dizendo:
   -A minha filha, sabe?... Aquela moca que estava aqui, você viu?- eu assenti com a cabeca -Este é o Gabriel, o filhinho dela...- abaixou-se e fez um afago no menino, que já estava quase dormindo, bem agarradinho com seu rinoceronte de pelúcia -Coitada, comecou a trabalhar e todo dia tem que vir aqui deixar o bebê, porque nao tem quem cuide dele lá onde mora. Eu dou almoco, faco mamadeira, troco fralda, dou banho e janta e ela vem buscar à noite quando sai do trabalho... E é todo dia a mesma coisa.- disse, com voz queixosa -Eu gosto de tomar conta do Gabriel, ele quase nao dá trabalho, coitadinho. É uma crianca tao boa!... Depois, alguém tem que ajudar a minha filha para que possa trabalhar, mas confesso que nao estou agüentando. Tenho muita dor nas costas e nas pernas, mas nao posso deixar a minha filha na mao, nao é verdade?... O marido dela inventou de comprar uma data num bairro afastado que nao tem nem asfalto nem esgoto ainda, e a iluminacao é péssima. Eu tentei convencê-lo a comprar em outo lugar que fosse mais perto, até cheguei a discutir com ele, mas como é teimoso, insistiu em ficar lá porque era mais barato e me assegurou que logo, logo a prefeitura ia asfaltar e colocar esgoto e que outras pessoas já estavam construindo por lá também, entao nao iriam estar tao isolados. Nao fiquei muito convencida, nao, mas o que posso fazer? O marido nao é meu. Nao sei como a minha filha se sujeitou a ir morar naquele descampado!.
    -Aí fica difícil, é verdade.- concordei eu.
    -Ainda por cima, o homem me inventa  agora e comecar a estudar à noite e a minha filha é obrigada a ficar sozinha naquele fim de mundo até ele voltar da escola, quase meia-noite. Se você soubesse o medo que a coitadinha passa!... Outro dia mesmo, ela estava lá, esperando por ele, sozinha com o bebê, quando de repente escutou uns barulhos no quintal. Disse que parecia alguém querendo pular a cerca -porque nem muro tem ainda!- A pobre teve que criar coragem e ir ver o que estava acontecendo. Quando abriu a porta viu dois vultos pulando para dentro do quintal!... Ainda bem que eles têm aqueles dois cachorros enormes, porque foi o que  salvou a minha filha de sabe-se Deus o quê!... Os dois animais comecaram a latir ao ver os intrusos, entao a minha filha foi até onde eles estavam amarrados e os soltou. Eles saíram em disparada atrás dos homens e os obrigaram a fugir. Mas imagine se eles tivessem tido armas! Atiram nos cachorros e depois vao atrás da minha filha!... Nem lhe conto como ela estava quando o marido chegou em casa. Me contou que aprontou o maior berreiro e ele quase teve que vir me buscar para que fosse acalmá-la. Mas mesmo assim, nem pensa em se mudar. Sinceramente, nao sei o que esse homem tem na cabeca.- resmungou dona Solange, séria -E olha que já falei para ele que no quarteirao aqui de cima estao vendendo uma data perfeita para eles!...
    Eu olhei meu relógio e me sobressaltei. O tempo tinha voado, precisava correr! Entao me despedi da minha amiga e me dirigi rapidamente até o ponto de ônibus, deixando-a na calcada com o carrinho e a sacola... Queria ter podido ficar para ajudá-la, mas tinha meus próprios compromissos a cumprir.

Segundo dia: Levantei um pouco mais tarde, pois era meu dia de folga. Tomei sossegadamente meu café, me troquei e saí na varanda para respirar o ar fresco da manha. Ainda com o relato da dona Solange na memória, fui até o portao e dei uma olhada em direcao da sua casa na esperanca de vê-la varrendo a calcada como todo dia, ou talvez brincando com Gabriel, mas tudo estava fechado e silencioso. De imediato me perguntei se ela nao teria ido passar a noite na casa da filha por causa do episódio dos dois sujeitos que invadiram o quintal. A coitada devia ter ficado tremendamente assustada e como o marido nao estava disposto a mudar de idéia sobre ir morar num bairro mais perto e com uma estrutura melhor, a dona Solange se propôs a ficar com ela até ele voltar das aulas ou, quem sabe, até dormir por lá, regressando de manha com o pequeno Gabriel. Pensei que seria uma boa saída para o problema, mas também imaginei o quao difícil seria para dona Solange ter de se deslocar todo fim de tarde até a casa da filha e deixar a sua própria abandonada. Supus que sentiria falta do conforto da sua cama, do seu sofá, da sua varanda, estranharia as panelas, os pratos e os móveis, o silêncio -já que a nossa rua é bastante barulhenta- mas acima de tudo, tive certeza de que o pior seria a falta de privacidade. Dona Solange morava sozinha há anos e se acostumara a ser independente, mas como ela mesma me dissera havia algum tempo: "Mae é mae para a vida toda e os filhos estao sempre acima de tudo, nao importa o sacrifício que isso nos custe". Entao, pensei que se, efetivamente era isso o que tinha acontecido, nao devia estar arrependida.
    Fiquei mais um pouco no portao espiando a casa e pensando em ir até lá dar uma aguada nas plantas da varanda e no jardim, que eram o xodó da dona Solange, mas suspus que ela as teria regado antes de sair. Sorrindo al imaginar a mulher vivaz, organizada e abnegda que tinha como vizinha, voltei para dentro, perguntando-me se eu seria capaz de agir assim quando tivesse meus próprios filhos.

Terceiro dia: Quando saí na rua de manha cedo para buscar o pao e o leite, vi vários carros estacionados diante da casa da dona Solange e um entra e sai de gente com tigelas, garrafas de refrigerante, sacolas com verdura e fruta, pacotes de carne e formas de lasanha. A música já tocava alto nas caixas de um dos carros e pairava no ar o característico cheiro do carvao esquentando para o churrasco. A dona Solange nao se divisava por ali; com certeza já estava na cozinha preparando seu famoso frango com polenta e organizando as tarefas para as criancas terem o que fazer e nao ficarem por aí aprontando: arrumar mesas e cadeiras, botar as toalhas, dispor pratos, guardanapos, copos e talheres na área coberta. Uma rede de coloridas franjas tinha sido pendurada na varanda e os pequenos a disputavam entre gritos e empurroes. Alguns rapazes jogavam uma pelada no meio da rua e outros somente observavam, com uma lata de cerveja na mao e aquele ar de displicência característico da idade... Imaginei a felicidade da dona Solange com a casa cheia -aliás, foi uma surpresa ver que tinha tantos parentes!- pois é uma mulher hospitaleira e adora exibir seus dotes culinários e receber visitas para convesar e trocar receitas. Ela até já confidenciou os ingredientes do seu delicioso pavê de maracujá para a minha mae e todo último final de semana do mês nos deliciamos com ela na hora do almoco!.

Quarto dia: Hoje quando saí para o trabalho ainda tinha um par de carros estacionados na frente da casa da dona Solange, o que significava que alguém tinha ficado para pousar depois da reuniao. Tudo estava silencioso, mas dava para escutar o murmúrio da água caindo lá atrás. Dona Solange estava levantada e cumpria com seus sagrados deveres de cada manha. Dali a pouco apareceu na varanda com a vassoura e seu avental xadrez, deu uma enérgica varrida e afofou as almofadas das cadeiras, enrolou a rede, ajeitou as cadeiras em volta da mesa e finalmente desceu para o quintal. Ali recolheu a bagunca de latinhas, pratos e copos descartáveis, guardanapos e restos de comida com aquela expressao séria de quem reprova tanta desordem, e botou tudo num saco de lixo que tinha trazido. Em seguida, soltando um suspiro e erguendo-se, rspirou fundo o ar fresco da manha e sorriu, fechando os olhos. Deixou passar alguns segundos e logo foi até o portao, abriu e saiu à rua para comecar a varrer. Foi entao que me viu. Instantaneamente um brilhante sorriso distendeu a sua face enrugada.
    -Menina, você está aí!- exclamou, acenando para mim.
    -Bom dia, dona Solange- respondi, aproximando-me. Hoje nao estava atrasada.
    -Nossa, você viu ontem? Só faltava o papa cair aqui em casa!- disse, rindo -Todo mundo veio!...- apontou para a varanda, franzindo os lábios -Mas olha só a bagunca que fizeram!... Devia acordá-los e fazê-los arrumar, você nao acha?.
    -Festa é assim mesmo- respondi, sorrindo -Daqui a pouco eles acordam e a senhora traz para cá para ajudá-la.
    Ela riu baixinho e fez uma careta.
    -Coitados, ficaram até tarde,  me da dó...- olhou para mim, meio envergonhada -Eu nao tenho jeito, nao é mesmo? A gente nao cansa de malcriar e depois reclama.- e riu de novo.
   -É que quando se trata da família a gente sempre amolece. Eu também sou assim com meus irmaos.- disse eu, apoiando a mao em seu ombro delgado -E como vai o assunto da sua filha?
    Aí ela ficou séria. Se apoiou na vassoura e suspirou.
    -Esse cabeca dura do meu genro... Estou tentando trazê-lo para que dê uma olhada naquela data na rua de cima, lembra que lhe falei dela?
    -Lembro, e?
    -Nada, o teimoso nao quer nem saber. Que já comprou aquela outra, que daqui a pouco acostumam, que vai melhorar o policiamento, que vai construir um muro... Puras desculpas para nao ceder! Mas aonde já se viu, arriscar assim a seguranca da mulher e do filho?- exclamou, impaciente.
    -E a filha da senhora nao pode conversar com ele para tentar convencê-lo de, pelo menos, dar uma olhada na data?- sugeri, apenada pela situacao da minha amiga.
   -Eu falei com ela, mas nao sei, nao. O cara é muito turrao demais...- respondeu dona Solange, desanimada.
    Eu olhei meu relógio. Nao queria chegar atrasada de novo.
    -Bom, preciso ir andando, dona Solange... Pôxa, mas que pena que o genro da senhora seja tao difícil. Tinha que pensar no bem-estar da sua filha e seu neto, né?- disse sinceramente aflita.
    -Isso lhe digo eu, mas ele...- e fez um gesto de displiscência, encolhendo os ombros.
    Comecei a me afastar.
    -Mas quem sabe ele nao recapacita e topa vir ver aquela data, se empolga e decide comprá-la.- expressei, sorrindo para dar-lhe ânimo.
    Ela fez cara de desalento.
    -Ele diz que nao tem mais dinheiro, mas eu já lhe expliquei que o dono da data está disposto a fazer algum tipo de troca... Mas aí ele alega que nao tem nada para trocar... E eu fico olhando para aquela data lazarenta onde está morando... Mas ele, nada.
    -Vamos torcer!- exclamei, e acenei para ela, que me respondeu meio sem vontade. 
    Quando subi no ônibus, ela estava varrendo enérgicamente a calcada, como querendo espantar seus desgostos.

Quinto dia: Hoje parece que a dona Solange foi de novo passar o dia na casa da filha, porque quando saí para a rua, a casa estava fechada  e silenciosa. No fim da tarde, quando regressava, as persianas já estavam abertas e os canários na varanda, mas nada de dona Solange. Usualmente, nessa hora ela sai para sentar um pouco em sua cadeira de balanco contemplar a paisagem e cumprimentar os vizinhos que voltam do trabalho, mas hoje a cadeira estava vazia... Fiquei realmente preocupada, mas achei melhor nao ir perturbar. Também decidi nao perguntar nada caso nos encontrássemos na manha seguinte. Com certeza, se ela nao estava ali fora era porque precisava ficar sozinha para resover seus assuntos e eu nao ía interrompê-la nem tampouco ficaria fazendo perguntas que quica ela nao estivesse a fim de responder. Queria muito poder ajudá-la, mas nao podia ser enxerida... Fui jantar e assistir novela, tentando nao pensar nisso, mas mesmo assim, naquela noite demorei para dormir.

Sexto dia: Hoje a dona Solange reapareceu, mas só consegui avistá-la de longe, no ponto da esquina, quando pegava o ônibus antes do meu, muito bem arrumada -inclusive de salto alto- e apressada. Tentei alcancá-la, mas o ônibus já comecara a andar, entao fiquei ali, olhando para ela através do vidro sujo do veículo, enquanto se deslocava agilmente pelo corredor e sentava do outro lado. Nao consegui distinguir a expressao do seu rosto, entao todas as minhas perguntas ficaram sem resposta... Ela estava indo para o centro, com certeza, coisa que raramente fazia, só e ocasioes muito específicas. Entao, me perguntei, preocupada: que ocasiao seria aquela?... Mas nao tive resposta e quando cheguei à noite em casa, a dela continuava fechada e silenciosa, o que significava que nao tinha voltado ainda. Nossa, mas que diligência tao demorada era aquela?...

Sétimo dia: Hoje quando saí para o trabalho me surpreendi ao encontrar aquele bolo de gente no jardim da frente da dona Solange, todos vestidos com shorts e regatas, calcas de moletom e tênis. Um  grande caminhao de cacamba branca estava estacionado na calcada e reinava muita confusao, mas do tipo positivo. Todos riam e falavam em voz alta, iam daqui para lá dando ordens e carregando caixas de papelao vazias até o caminhao. Nao entendia o que estava acontecendo, mas definitivamente nao era uma das reunioes que dona Solange costumava organizar. De longe a vi, também de camiseta, calca e tênis, empurrando o carrinho do Gabriel, que mexia bracos e pernas e sorria para todos, encantado com a agitacao à sua volta. Ela me pareceu muito feliz. Nao pude me segurar e fui até ela. Afinal, o suspense estava me matando!
   -Bom dia, dona Solange!
 -Bom dia, minha filha!- respondeu ela, abrindo os bracos. Parecia realmente esfuziante.
   -Nossa, mas que bom ver a senhora assim tao animada! -disse eu, cumprimentando-a com um beijo -Mas e o que é tudo isto? Está organizando outra reuniao?
   -Nada disso, minha filha!... Estou organizando é uma mudanca!- exclamou.
   -Como assim, dona Solange? A senhora vai se mudar daqui?- perguntei, surpresa.
  -Nao, eu nao!...- apontou para o carrinho -Mas a minha filha vai!- e soltou uma gargalhada gostosa, abaixando-se para estampar um sonoro beijo na bochecha gorducha do neto -Hoje vai ser um dia e tanto!... Entao, se me desculpa, com licenca, minha filha.- concluiu, sem deixar de sorrir. Em seguida se virou para o pessoal e comecou a dar ordens e distribuir tarefas feito um mariscal de campo.
    Eu me despedi, sorrindo também. É claro que a dona Solange nao podia estar assim de contente porque estava organizando outro almoco, mas por algum fato muito mais relevante. Como o de ter convencido o genro a se mudar daquele fim de mundo para a rua de cima. Com certeza foi ela quem intermediou a negociacao com o dono do terreno que, por algum misterioso motivo, acedeu trocar o daqui por aquele outro. Mas isso nao interessava agora. O importante era que a sua filha e seu neto estariam pertinho e poderia desfrutar da sua companhia quando quisesse, sem ter de largar a sua casa e suas rotinas para ir se enfiar naquelas quebradas perigosas ajudar a sua filha cuidar do Gabriel. Tanto tinha insistido que conseguira.
    Virei a esquina em direcao ao ponto de ônibus ainda com a imagem daquele grupo animado e barulhento tomando conta da rua para auxiliar na mudanca e instintivamente me perguntei se algum dia eu teria uma família igual. A dona Solange afirma que só por isso já vale a pena viver.
    

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