Num domingo como este, ensolarado mas muito frío, nada melhor do que ficar em casa, quentinho, e escrever. No caso de vocês: ficar em casa e ler... Por isso, aqui vao mais contos.
O DÉCIMO-PRIMEIRO ANDAR
Eu nao sei o que é pior: se morar na parte do prédio que da para a rua ou na parte que da para o pátio interno. Se a sua janela dá para a rua, você fica maluco com as sirenes, as buzinas, os berros dos bêbados à noite, os cachorros, as festas madrugada afora, o estrondo constante das construcoes. Se dá para o pátio do condomínio -esse onde estao os brinquedos para as criancas e a grama sintética- você fica sabendo da vida de todo mundo, das brigas, das sessoes de música, as novelas, os dias de lavar roupa, as visitas, os cachorros -de novo- os aniversários das criancas e as quentes noites de amor. Isso, além do fato de que se você sai na sacada pode ver seus vizinhos indo de lá para cá em seus apartamentos, fazendo de conta que nao sabem que você os está observando porque lá nao existe a intimidade.
A vantagem de morar para o lado da rua é que você nao fica sabendo que a mulher do bloco da frente se jogou da sacada do décimo-primeiro andar porque descobriu que o marido tinha uma amante e que iba embora com ela e você nao a vê toda quebrada em cima dos arbustos do jardim enquanto o culpado pede socorro e se desculpa, jurando que é tudo mentira.
O PIANO DA DONA MARÍA
Eu estou convencida de que nao tinha nenhuma sola tecla afinada, entao nao adiantava saber os clássicos decor porque quando os tocava parecia um coro de galinhas assustadas e desafinadas. A sensacao que eu tinha era que em qualquer momento algum monstro iria pular de dentro da caixa do piano, porque só assim se explicava um som tao horrível... Mas a coitada da dona María passava o dia todo sozinha, sem nada para fazer, entao se sentava ao piano e relembrava seus tempos de juventude, quando a família se reunia ao seu redor para desfrutar das suas impecáveis execucoes. Infelizmente, o tempo nao foi bom com ela y casou com um homem que nao a amava, perdeu a sua fortuna, os amigos se afastaram, teve de mudar para uma casinha popular -daquelas que você paga em 20 anos e tem uns quartos que mais parecem armários- e aturar vizinhos de classe média cheios de moleques malcriados que se dedicavam a destruir seu jardim. Entao, eu acho que só podia se consolar abrindo a tampa do velho piano, que brilhava de limpo contra a parede verde água da sala lotada de de móveis velhos e enfeites cafonas, e tocando Bach, Lizst, Beethoven e Mozart. Eu sei que ela percebia que o piano estava completamente desafinado e que seu som mais pareciam miados de gato com dor de barriga, acho que se fazia de surda e nos pedia desculpas em secreto, e continuava a tocar com seus dedos artríticos porque era o único que lhe dava algo de felicidade.
Por isso eu aturava aquelas notas destempladas com um sorriso e continuava brincando como se nada.
PÉGASO
Passava pela rua quando o vi. Diminuto e perfeito, com as asas estendidas, ereto sobre as suas patas traseiras, o pescoco inclinado, como se estivesse tomando impulso para decolar... Mas estava trancado num domo de vidro, sobre um pedestal de madeira. O talentoso escultor tinha-o feito perfeito, porém, tinha lhe tirado a liberdade. Seduzida pela sua beleza e seu gesto rebelde, o comprei e o botei na prateleira que está em cima da minha mesa de trabalho. Todo dia quando vou sentar para escrever, espero encontrar o domo vazio e o cavalinho revoando por ali... Mas Pégaso continua prisioneiro ali dentro. Nao quer sair? Nao pode? Tem medo de entrar neste mundo tao grande e se perder? O assusta o receio de nao encontrar ninguém como ele e ficar sozinho?... Ou será que esqueceu como se voa?...
A VELHA
Olha aí a velha olhando para mim de novo. Desde que cheguei que anda me perseguindo. Eu nao sei o que o que tem comigo. Por isso eu nao queria vir para cá, porque nao importa quao metido a besta seja este lugar, a verdade é que está cheio de gente doida. Eu disse para a minha filha que preferia ficar na minha casa, mas ela insistiu em que eu nao podia me virar sozinha, que era perigoso, que podia me acontecer alguma coisa e ninguém estaria por perto para me socorrer, que poderia me perder se saia na rua sozinha... Esse monte de besteiras que os filhos inventam quando nao querem mais cuidar da gente. Mas eu sei que posso morar sozinha em minha casa, em meu bairro de sempre. Caramba, estou aqui já faz quarenta anos! Tenho bons vizinhos que tomam conta de mim e um cachorro que me avisa toda vez que chega alguém. Nao precisava me trazer para cá. Tem uns jardins bonitos, é verdade, e os quartos sao limpos e ensolarados, as camas confortáveis, mas sou obrigada a comparti-lo com uma outra senhora que vive grudada na janela e corta qualquer jornal que cai em suas maos. Nunca fala nada e me olha como se eu nao estivesse ali. Como vamos ser amigas desse jeito?... Mas, de qualquer jeito, isto aquí está cheio de velhos doidos, baboes, que falam sozinhos e gesticulam sem motivo, usam fraldas, nao sabem comer sozinhos e só falam bobagem ou ficam ali feito múmias. Eu nao sou assim.
E ainda por cima, tem esta velha que já está me enchendo com a sua perseguicao. Para onde olho, lá está ela, com esses olhinhos perdidos fixos em mim. Acho que vou falar com a enfermeira para ver se podem fazer alguma coisa ao respeito...
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