domingo, 15 de novembro de 2015

"O nome das coisas"

    Nada melhor do que ter amigos em todos os lugares e cada um com seu respectivo nome. Assim parece que existe mais confianca, mais proximidade, menos temor. O desconhecido sempre nos causa receio, a nossa vontade é fugir dele, porém se é algo que tem rosto e nome, entao tudo fica mais fácil, pois passa a ser como uma extensao de nós mesmos. E isto vale também para os nossos "inimigos", estejam eles fora ou dentro de nós... Conhecer é aprender, aprender é crescer e crescer é enfrentar as situacoes com calma, coragem e fé.
    E após esta pequena reflexao, aqui vao os contos prometidos.



                                     O MELHOR DE TODOS OS PRÊMIOS


    Seu Eugênio comecou a jogar na loteria quando era pequeno. Seu pai lhe deu um dias umas moedas e o mandou até a venda da esquina para que comprasse um bilhete porque ele estava com uma tremenda gripe que o tinha acamado já fazia duas semanas. Numa folhinha de papel anotou os números  que devia jogar e ele, todo contente e orgulhoso, fez como lhe pediram. Foi correndo e pulando pela rua, escorregando a maozinha pela parede e sorrindo para todos os vizinhos. Tinha uma missao importante demais! Seu pai tinha lhe confiado aqueles números sagrados -que jogava já fazia uns vinte anos- para que ele tentara a sorte. Quem sabe hoje nao era o dia e seu pai ganhava o grande prêmio!.
    Porém, quando voltou pra casa com o bilhete na mao e o rosto vermelho e exultante de alegría, levou um tremendo susto porque se encontrou com uma gritaria, uns choros desesperados e uma correria descontrolada, ligacoes telefónicas e gente entrando e saindo do quarto de seu pai... Desconcertado e receoso, passou por todos eles, ainda segurando o bilhete, até que uma tia veio lhe dizer para ele ir pro seu quarto e ficar ali, quietinho... Seu pai acabara de morrer de um infarte... Eugênio obedeceu, atordoado, sem dizer uma só palavra, sentindo que uma coisa imensa e desgarrada crescia de uma patada em seu peito. Em silêncio, sentou na beira da cama, ainda segurando o bilhete, e ficou assim, meio tonto, incrêdulo, sem sequer chorar, até que alguém lembrou dele e vieram buscá-lo para trocar de roupa, lavar o rosto e pentear para que fosse ao funeral.
    O Geninho cresceu e se tornou "seu Eugênio", um senhor muito respeitável, de cabelos brancos e barriga saliente, um bigode imponente e uns grandes olhos brilhantes iluminando seu rosto rosado. Os mesmos da sua infância. E continuava jogando loteria. Toda semana, com aqueles mesmos números que seu pai lhe dera no dia em que morreu. Já tinha feito uma fortuna com os negócios, sempre honestos e acertados, mas continuava indo até a venda da esquina para jogar porque achava que ainda levava as esperancas e os sonhos de seu pai e tinha a obrigacao de torná-los realidade. Um dia queria chegar diante do seu túmulo, mostrar-lhe o cheque ganhador e deixá-lo sob o vaso de gerânios que enfeitava a sua lápide. Com certeza esse seria o melhor de todos os prêmios.



                                     O NOME DAS COISAS


    Desde menina a Elianinha comecou a botar nome nas coisas, ninguém sabia por quê. Todos diziam que a menina tinha muita imaginacao, só isso, e como isto nao afetava seu comportamento, deixavam que o fizera sem dar-lhe bronca e até acabaram achando graca. O urso de pelúcia chamava  Alfredo, seu prato de sopa Carlinhos, a escova de dentes Rosa. Sua cama foi batizada de Esperanca, e a água do chuveiro de Clarinha. O sabonete, os cadernos, os móveis, as árvores e até os pássaros que cantavam em seus galhos tinham nome, e de nenhum ela esquecia ou confundia. O bem-te-vi que gorjeava na nogueira do quintal chamava-se Santiago e a pomba que tinha feito ninho no canto do telhado Branca. E a menina aguardou pacientemente até que seus filhotes nasceram e botou nome em cada um deles. Com o tempo, seus pais e parentes comecaram a se sentir meio desconcertados, pois esta mania sua nao dava sinais de sumir. No entanto, como continuava sem interferir em seu comportamento social e escolar, preferiram deixar as coisas como estavam. Certamente, com a chegada da adolescência e os namoricos tudo isto ficaria para atrás. Aquilo era coisa de filha única, fantasias próprias da idade. Ela nao tinha um amigo invisível nem um diário secreto. Ao invés diso, ela botava nome em tudo. Por quê? Precisava personalizar tudo para que o mundo fizesse parte da sua vida? Precisava criar algum tipo de intimidade com o entorno para ser feliz e se movimentar com confianca e liberdade?... Fizeram um monte de análises e especulacoes, mas nao chegaram a nenhuma resposta. No fim, concluíram que todo mundo tem alguma mania. E a da Elianinha era botar nome em tudo.
    Era jovem ainda quando lhe diagnosticaram a leucemia -à qual, poucos dias após saber, batizou como Lala- e apesar do transplante de medula que fez ela acabou voltando um tempo depois... Tubos, injecoes, pastilhas, tranfusoes, quimio, exames... Mas a Elianinha murchava devagar, num resignado e pálido silêncio, sempre com aquele sorriso meio triste. Tudo suportava com mansidao, como se soubesse que aquilo era causa perdida, apesar de que todos se negavam a aceitá-lo e tentavam infundir-lhe coragem, ânimo e otimismo... Até que chegou a sua última noite. O médico chamou os parentes e todos se reuniram ao redor do seu leito. Ela era uma sombra sob os lencóis imaculados... E ainda sorria... De pronto abriu os olhos e piscou, como se estivesse vendo algo. Nao estava com medo, todos perceberam, e nao era porque estava dopada. Nao, estava olhando para alguma coisa. Ou para alguém... Todos procuraram no quarto a pessoa para a qual ela sorria tao gentilmente. Entao ela olhou para eles, um por um, e disse, com um fio de voz:
    -Olhem, é a Branca, que vem me buscar...- e apontou para os pés da cama com seu dedinho transparente e ossudo.
     Todos engoliram um soluco e olharam para onde ela mostrava, percebendo que se referia à morte a quem, como era seu costume, tinha botado um nome.
    Eliana olhou para eles, com uma sombra de compaixao em seus olhos quase apagados, e murmurou:
   -Nao se preocupem, eu a conheco faz tempo... E já somos amigas... Nao tenho medo dela...- fez uma pausa e respirou fundo, com suas últimas forcas -E vocês tampouco deveriam ter medo -sentenciou, e fechou os olhos devagar, murmurando algo ininteligível num tom de absoluta confianca e paz.
    Porque quando a gente dá nome às coisas, elas se tornam mais próximas e nao mais nos amedrontam.
    



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