E finalmente, como prometi a vocês, e após este longo jejum, cá estou de volta com meus contos. Tenho uma folha cheia de idéias e torco para que esta boa onda nao acabe nunca mais, pois nao só é boa e entretida para vocês -isso espero!- mas para mim também... Entao, aqui vao os dois primeiros e espero que curtam!
NUVENS
Aquela parecia um passarinho com as asas abertas. Lá, uma torre com uma bandeira. Aqui em cima um cachorro com três patas. Sobre a árvore retorcida e sem folhas tinha uma que lhe pareceu a cara deu seu avô, com a barba e o chapéu, igualzinho. A Tuca esticou o pescoco para divisar outro pedaco de céu pela janelinha cheia de mofo e desenhos obscenos... Sim, lá no fundo podia adivinhar uma borboleta que, aos poucos, foi se transformando numa panela fumegante. Lembrou da sopa da sua mae, lá na mesa da velha casa rodeada de salgueiros y choupos, onde podia se ouvir o cantarolar de um riachuelo e os gorjeios dos bem-te-vi, os sabiás e os pardais... Entao, a nuvem se transformou em algo alado e imenso que se abria sobre o pátio de concreto trincado, de muros cobertos de palavroes, ressentimento, vinganca, saudade, desencanto... Mas as nuvens nao se importavam com nada daquilo. La em cima, livres e garotas, brincavam com o vento e a imaginacao dos mortais. Havia que seguir seu ritmo e a sua criatividade, havia que subir até elas, misturar-se com as suas brancas ondas sempre em movimento e se deixar levar, porque naquela cela estreita, escura e fedida da cadeia de mulheres era o único jeito de lembrar que a beleza ainda existia e como era ser livre.
A ESCADA
A gente passaba diante do prédio de tijolos mil vezes repintados e descascados, com um primeiro andar de decadentes sacadas coloniais tristemente enfeitadas com vasos de gerânios e samambaias, tênis secando no sol e antenas de televisao enroscando-se entre os fios, os restos de pipas, penas secas e roupas penduradas num varal de arame ou corda, e nao podia deixar de desviar o olhar para a escada que dava acesso àquele primeiro andar. No térreo tinha uma barbearia, uma loja de objetos de isopor e espuma e um bar de vidros pretos de cujo interior saíam às vezes gargalhadas, música e um forte cheiro de incenso barato... Porém, a escada era o que mais chamava a atencao. Erguia-se, torta e opaca, com um corrimao grudado à parede empoeirada, os degraus afundados, descascados, mil vezes lustrados por cima da sujeira, e sumia numa curva entre a parede e o teto. Parecia forte e teimosa, mas nao conseguia esconder a sua decrepitude, a sua tristeza. Talvez há muito tempo aquele prédio já tinha sido bonito, bem cuidado, com classe até, com cortinas de renda branca e sacadas dignas, bem iluminado, de quartos espacosos e bem decorados, e nao como estava hoje, subdividido em dezenas de quartinhos entulhados, sujos, opacos, aos quais se chegava subindo por aquela escada maltratada e assustadora. Em sua decadência, ela parecia querer contar todas as histórias, mostrar todas as personagens e as suas indignidades, pénúrias e sacrifícios, a escuridao na qual viviam, os apertos pelos que passavam e as esperancas que ainda tinham de, quem sabe algum dia, nao ter que subir mais por aqueles degraus que rangiam escandalosamente a sua miséria.
Nenhum comentário:
Postar um comentário