Um pouquinho atrasada, mas aqui vai a segunda parte da história... E não se preocupem, porque à partir desta semana prometo que vou me organizar como gente decente e retomar os horários, rotinas, dietas e exercícios que andei abandonando por conta da volta da minha filha para casa. Então, passada a novidade, pretendo sériamente retornar à minha existência ordenada e criativa (literáriamente falando) o que inclui não demorar tanto para postar novas histórias.
Então, aqui vai a segunda parte desta.
Então, ele deitou na cama e começou a falar, mas sem olhar para mim, pois estava naquela idade em que a timidez é praticamemnte uma doença, sobretudo em se tratando de fazer confissões e esclarecer dúvidas... Em resumo, seu drama se reduzia à impossibilidade de arrumar uma namorada que a sua família aprovasse e que não fosse chamada de "baranga" pela sua irmã. Como era possível que nunca acertasse na escolha? Por acaso ele tinha algum letreiro escrito na testa que atraia somente esse tipo de garota?.
-Mas, por que você fica com elas se sabe que não são legais e que todo mundo vai te criticar?- inquiri, perplexa, pois percebi que ele também não gostava dessas meninas.
-Mas todo mundo na turma tem namorada ou paquera alguém!... Como eu vou andar por aí sozinho? Eles vão rir de mim e começar a me botar todo tipo de apelidos estúpidos!- explicou Sérgio, sinceramente aflito -Você não conhece esses caras, Angélica, são fogo. Quando querem judiar de alguém não descansam até te derrubar.
-Então é por isso que você se mete com a primeira que aparece? Só para eles não tirarem sarro de você?- perguntei, cada vez mais espantada com o comportamento tiránico e machista daqueles rapazes -Por que você anda com eles se são tão sacanas e te obrigam a fazer o que você não quer?.
-Eles não me obrigam a nada!.- se defendeu Sérgio, incorporando-se de um pulo na cama -Eu faço porque quero, porque gosto de fazer parte da turma, tá bom?
-E você acha que esse sacrifício vale a pena?...- retruquei eu, começando a irritar-me com aquela sua atituide tão infantil e submissa -Olha só para você!... Francamente, não esperava isso de você, Sérgio.
Ele se levantou e foi até a porta.
-Tudo bem, eu sabia que você não ia entender mesmo.- declarou, zangado -É melhor eu ir dar uma volta por aí... De repente encontro uma outra baranga para namorar.- concluiu, desaparecendo pelo corredor em penumbras.
Fiquei sentada na cama durante alguns minutos, meditando sobre tudo aquilo; sobre o sofrimento secreto do meu amigo, sobre a influência absurda daquela turma sobre ele e sobre o que era obrigado a suportar só para não se tornar motivo de chacota e humilhação entre eles. Me pareceu algo injusto e revoltante, pois Sérgio era um bom rapaz que, infelizmente, sem perceber estava arrumando encrenca só para exorcizar a sua insegurança e firmar a sua posição dentro do grupo... Será que ele não era capaz de perceber que aquela provação não valia a pena? Logo tudo isso passaria e então seria tarde demais para consertar os erros que estava cometendo. A adolescência é tão breve, mas não sei por quê nos passa aquela sensação de que vai durar para sempre e de que nada mais será importante depois dela; e é justamente aí que mora o perigo, pois em busca de aprovação e segurança podemos acabar abrindo portas ou percorrendo caminhos que nos levem ao desastre... E foi isso que percebi ao escutar o relato de Sérgio, igual ao de tantos outros dos quais havia ficado sabendo. Se alguma coisa não fosse feita, ele acabaria ferrando-se legal e seria mais um na estatística de desgraças por causa de más influências.
Decidida a solucionar aquele impasse que começava a ficar perigoso, levantei da cama e voltei para a festa com passos firmes. Quando cheguei onde a turma estava reunida, a Karen me perguntou pela câmera, mas eu disse que tínhamos uma coisa bem mais importante ara resolver do que tirar uma fotografia para o nosso currículo. Consciente de que estava quebrando a promessa que fizera ao Sérgio, levei todo mundo um canto e expliquei a situação. Todos ficaram muito preocupados -sobretudo a Karen, que nem de longe imaginava que algo assim estava acontecendo com seu irmão- e decidimos pensar juntos numa solução, mas nada que desse na cara, para que o Sérgio não desconfiasse que eu havia traído a sua confiança.
-Mas foi por uma boa causa.- me consolou o Thiago ao ver a minha expressão de culpa.
Ficamos um bom tempo sentados naquele canto cogitando todo tipo de projetos e saídas, enquanto a festa rolava, mas dali a pouco a nossa presença foi requisitada para a eleição das primeiras finalistas ao papel de noiva e tivemos que adiar as nossas deliberações até o fim da festa. Ficamos de nos encontrar numa das barracas para continuar a conversa e em seguida fomos tomar os nossos lugares na mesa do júri. Eu fiquei rodando por aí, conferindo se tudo estava à contento, quando de repente vi, sentada na barraca da pescaria e rodeada por uma dúzia de crianças que se acotovelavam para pegar uma das varas, uma moça pequena e franzina, de cabelos ruivos penteados em duas grossas tranças, vestido de flores amarelas e verdes e umas sardas pintadas nas bochechas. Nunca a vira antes, jamais comparecera a nenhuma das reuniões que havíamos convocado e nem participara da confecção de enfeites, pratos ou fantasias. De longe parecia tão criança quanto a turma que tomava conta da sua barraca, e de vez em quando atirava um olhar de desamparo e aflição para as pessoas que dançavam, comiam e se divertiam, como que pedindo socorro, mas ninguém reparava nela. Por momentos parecia que iria naufragar em meio àquela maré de crianças gritando, pulando e brigando para pegar os prêmios. Ela tentava, sem sucesso, impor um pouco de ordem na garotada batendo palmas e afastando-os para que não brigassem, mas a sua voz mal se ouvia... Intrigada, fiquei a observá-la de longe, perguntando-me quem seria e como tinha ido parar naquela barraca. De quem teria sido a idéia de botá-la ali achando que teria autoridade suficiente para lidar com aquele bolo de crianças afobadas e gritonas?, me perguntei, sentindo pena da sua situação, que parecia ficar mais desesperadora a cada minuto... Como era meu dever de organizadora evitar esse tipo de atrito, decidi ir até lá dar-lhe uma mão, pois já estava vendo lágrimas assomarem aos seus grandes olhos verdes.
-Vamos ver, vamos ver, criançada!- exclamei com uma voz alta e grossa, para impressionar as feras -O que está rolando aqui?
Sobressaltadas, as crianças pararam imediatamente de gritar e pular e se viraram para mim. A moça ruiva me olhou também, com a expressão de quem vê um anjo aparecer às tres da tarde em plena praça pública, soltou um imenso suspiro de gratidão e limpou disfarçadamente as lágrimas.
-Eu quero uma vara!.- gritou um moleque gordo e birrento, com um bigode preto todo torto pintado na boca.
-Mas eu cheguei primeiro!- berrou um outro empurrando-o para colocar-se na sua frente. Este estava todo suado e as sardas pintadas em suas bochechas tinham virado uma mancha avermelhada que avançava até as grandes orelhas.
-Isso não é verdade!- interveio uma menina, ostentando um chapéu cheio de flores e com duas tranças de nylon pretas costuradas nele -Eles furaram a fila, tia!...- e todas as outras crianças aprontaram um berreiro, concordando com a coleguinha.
-Muito bem, muito bem! Calma aí, não vamos chegar a lugar nenhum com esta bagunça!- exclalmei, batendo palmas para fazê-los calar -Vamos organizar a fila de novo e ninguém... ninguém, eu disse!- repeti com voz de trovão e olhos faiscantes diretamente pregados nos dois meninos causadores da confusão- Ninguém vai furar a fila!.
Num instante, as crianças formaram uma fila bem comportada e silenciosa, lançando-me de vez em quando umas olhadelas de puro respeito e contrição que me fizeram sorrir entre dentes. Dominado o motim daquela irrequieta tripulação, peguei um banquinho e sentei ao lado da moça ruiva, que também me olhava com profunda admiração e respeito.
-Que alívio!...- comentou, sorrindo -Se não fosse você chegar, eu não sei o que teria feito!.
-Provavelmente teria saído fugindo ou engolido todas as varas de pescar.- lhe respondi, sentindo que tinha ganho a sua confiança -Você é daqui?- inquiri em seguida.
-Acabei de chegar dos Estados Unidos. Estava fazendo intercâmbio.- me respondeu ela, já relaxada.
-Então não está muito enturmada ainda, não é mesmo?- indaguei, começando a esboçar meu plano de ataque.
-Nâo, não conheço quase ninguém. Tem muita gente nova no bairro, mas mesmo assim quis participar da festa. Lá nos Estados Unidos não tem nada assim.
-É, só o Brasil para festar tanto!... Agora tem que recuperar o tempo perdido!.
Ambas rimos e continuamos conversando enquanto as crianças, agora com menos bagunça e gritaria, disputavam os prêmios. A moça chamava-se Heloisa e era a filha mais nova de uma das moradoras da rua, a dona Helena. Ficara três anos fora aperfeiçoando seu inglês e voltara há duas semanas para retomar seus estudos e a sua vida aqui, mas ainda estava com um pouco de dificuldade para se adaptar, sobretudo ao clima. Tinha dezessete anos e, o mais importante, nenhum namorado ou paquera. Ainda não tinha tido oportunidade de ir a nenhuma festa e a maioria dos seus programas eram em família, pois os pais e irmãos queriam matar a saudade com todo tipo de mimos, passeios, visitas a parentes e longas conversas na varanda ou na praça do bairro. Me confessou que às vezes se sentia meio sufocada com tanta atenção, mas eu lhe disse que isso era normal. A sua família queria aproveitar a sua presença antes que ela encontrasse novos amigos e começasse a ficar menos tempo em casa e mais no shopping, na balada ou na casa de colegas.
-Mas desse jeito nunca vou poder conhecer ninguém!.- reclamou, impaciente -Eles estão o tempo todo no meu pé!
-Calma que isso passa, Helô- ri eu, divertida com a sua alfição -Dê um tempo a eles, seja paciente.
Suspirando com resignação, ela concordou. Então eu disse que tinha que circular por aí para verificar se tudo estava correndo bem e saí da barraca, prometendo voltar assim que pudesse. Na verdade, eu queria era encontrar meus amigos para contar-lhes do meu pequeno e precioso achado, pois o plano que começara a bolar no instante em que vi Heloísa, já estava completo. Nâo podia falhar, ela era perfeita demais.
Foi assim que fizemos aquela loucura inesquecível e que terminou da forma menos esperada. O Robson e o Samuel foram procurar o Sérgio para pedir-lhe que fosse até a casa da Karen buscar algumas coisas que começavam a faltar na festa: sacos de pipoca e açúcar para caramelizar as maçãs do amor. Demoraram um pouco a convencê-lo, pois ele alegou que não formava parte da comissão organizadora e portanto não tinha por quê ficar correndo atrás do que quer que fosse, mas o Robson e o Samuel acabaram por quebrar a sua resistência prometendo-lhe uma pequena "ajuda de custo" para a compra do seu novo aparelho de som... Quando contaram para nós sobre aquele suborno descarado, alguns reclamaram, pois teriam de tirar dos lucros do trabalho para cumprir aquele acordo, mas eu os lembrei do nosso objetivo, que era bem mais importante e nobre do que perder algumas notas de dez e cinquenta.
-Gente, o que é isso?...- os repreendi -É o nosso amigo Sérgio! Ou já se esqueceram? Vamos ter muitas outras festas para recuperar o dinheiro, mas não vamos ter outro amigo como ele!.
Então, todos pararam de reclamar, envergonhados, e decidiram continuar com o plano.
Eu e a Jussara fomos até a barraca da Heloísa e eu a chamei com a desculpa de que precisava de ajuda para pegar uns caixotes de maçãs da despensa da casa da Karen. Ela me olhou meio esquisito, pois deve ter percebido que a Jussara, que estava do meu lado, era bem mais forte do que ela e provavelmente se perguntou por que não pedia a ela para me ajudar, mas como se sentia em dívida comigo pelo incidente com as crianças, se prestou de bom grau a me acompanhar. Deixamos a Jussara em seu lugar, certas de que diante da sua imponência, a garotada não ousaria bagunçar, furar a fila ou tentar pegar os prêmios sem a vara, e fomos até a casa da Karen.
-Os caixotes estão na despensa, Helô, vai adiante que eu vou na cozinha perguntar para a mãe da Karen de quantos está precisando.- disse eu, sorrindo com a maior cara de pau e rezando para que os meninos tivessem levado o Sérgio até lá e ele já estivesse mergulhado entre os pacotes de açucar e os saquinhos de pipoca -É só virar por aquele corredor, sair na área e você vai dar de cara com a despensa.
Inocente das nossas armações e esperanças, Heloísa obedeceu com seu belo sorriso e se dirigiu até o quatinho que eu havia indicado, abriu a porta e entrou. Imediatamente, eu corri até lá e, sem que ela percebesse, fechei a porta muito devagar, torcendo para que ela não rangesse, puxei a chave do meu bolso e tranquei os dois lá dentro sem o menor remorso.
A verdade é que nenhum de nós sabe até hoje o que foi que aconteceu dentro da despensa naquela noite. O Sérgio e a Helô nunca quiseram nos contar, para nos castigar pela nossa armação, porém, todos concluímos que aquele encontro forçado devia ter sido não só planejado por nós, mas também por alguém lá em cima que estava com a mesma idéia na cabeça, porque quando fomos abrir a porta do quarto, lá pelas quatro da madrugada, quando a festa já estava no fim, ambos saíram de lá de mãos dadas e um sorriso bobo no rosto e nem quiseram saber das nossas explicaçõees estapafúrdias para semelhante "acidente"... Simplesmente foram embora conversando e rindo como se aquilo tivesse sido a coisa mais normal do mundo. Todos nos quedamos pasmos, pois estávamos preparados para um ataque de fúria, lágrimas, recriminações e até algum soco ou maldição até a quinta geração, mas não para aquela cena de filme romântico!.
-Pôxa!...- exclampou a Karem, de olhos arregalados -Que sucesso!... Do jeito que o Sérgio é esquentado, podia ter acontecido qualquer coisa, e ao invés disso... Olha eles lá! Não estou nem acreditando, galera!.- então, virou-se para nós e com voz emocionada acrescentou: -Nem sei como agradecer, gente... Vocês foram demais. Confesso que não acredtei que um plano tão maluco fosse dar certo, mas parece que o universo também estava conspirando para juntar esses dois solitários.
-O que tem que acontecer sempre acontece- sentenciou a Teresa, com seu costumeiro ar de pitonisa, e todos rimos.
-Bom, galera, eu acho que agora sim é hora de tirarmos aquela foto! -exclamei eu -Esta festa foi mesmo um sucesso.
-A melhor de todas!- concordou o Samuel -Vai buscar a câmera!
Então tiramos esta foto que está em meu álbum agora, com toda a turma na área da casa da Karen, que já não é mais a zul e nem tem telhado de eternite, mas conserva as nossas lembranças mais queridas. Vejo os rostos dos meus amigos: o André e a namorada, a Júlia, a Jussara e seu sorriso de gato, o Samuel fazendo chifrinho na cabeça do Rogério, que sempre aparecia tão sério nas fotos, a Karen de braços abertos e rindo, o Robson com as mãos no bolso, apoiado no muro com aquele sorriso meio tímido e o cabelo na testa... Lembro das suas vozes, dos seus gestos, da alegria daquela noite muito louca, do cheiro de quentão e pipoca, da música caipira ecoando na rua iluminada pelos balões e cruzada por centenas de bandeirinhas coloridas... O Sérgio e a Heloísa não aparecem nesta foto, mas não porque estavam zangados com a gente... Deles eu tenho uma outra foto: ela com seu vestido branco, o véu rendado e a coroa de flores amarelas enfeitando seus cabelos ruivos penteados num elegante coque, e o Sérgio muito elegante com o terno cinza e a flor amarela na lapela, cabelos impecavelmente ajeitados e a aliança brilhando no dedo anular esquerdo. A outra foto que tenho é a deles com os dois filhos, o Samuel e a Liza. Ele, gordinho e bochechudo, de cabelos ruivos encaracolados e enormes olhos verdes e ela, um bebê ainda, com uma touquinha branca destacando seus cabelos pretos e a mãozinha estendida para a câmera, como se quisesse pegá-la... O sorriso é o mesmo do Sérgio.
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