segunda-feira, 1 de março de 2010

A primeira impressão

Bom, e como prometi - e agora de computador absolutamente novo, veloz e eficiente graças ao meu filho- aqui vai a terceira história. Esta pertence a uma série que foi escrita durante um curso de redação que dei há algum tempo na Fundação Cultural onde trabalho. Na verdade, foi um desafio lançado pelos alunos, provocado pela minha afirmação de que se pode escrever sobre qualquer coisa e fazer algo com qualidade, não importa quão ruim o tema possa parecer. Isto falando literáriamente, é claro, pois há textos sobre temas específicos, científicos, políticos ou essas coisas, que simplesmente não dá para redigir de uma forma menos árida. Então, o desafio foi que eles escolheriam o tema e as personagens e eu teria de escrever um conto até a próxima aula, isto é, na semana seguinte. Eu poderia acrescentar personagens e anedotas, mas deveria desenvolver o tema de acordo com seus apontamentos e em alguns casos, com consulta prévia, é claro, me seria permitido mudar o final... Admito que, no fim, acabou passando de brincadeira para um desafio extremamente entretido e revelador, fascinante até, e de quebra, consegui provar que a minha tese estava certa... Deviam ver os tijolos que me entregaram para desenvolver! Alguns foram pura e simples crueldade! (eles riam ao me entregar as suas anotações) Quase acabei afogada com alguns deles e outros foram mesmo uma prova de fogo para as minhas capacidades criativas. Mas no fim, tudo deu certo, e gostei tanto do resultado que decidi publicar os melhores contos neste blog. Alguns definitivamente não fazem parte do meu estilo de texto, mas acho que mesmo assim valeram a pena.
Então, aqui está o primeiro. Espero que o desfrutem!



A farmácia estava alarmantemente congestionada, parecia que todo mundo tinha decidido aparecer por lá na mesma hora e nós, balconistas, quase não estávamos conseguindo dar conta de decifrar receitas, responder perguntas e apanhar xaropes, comprimidos, gotas, pomadas e cápsulas das prateleiras. Várias vezes acabei trombando com algum colega no estreito espaço no qual nos movimentávamos atrás do balcão. Para piorar a situação, o telefone não parava de tocar e os clientes pareciam estar sofrendo de um caso severo de impaciência coletiva. Todos queriam ser atendidos na hora, sem importar a ordem de chegada!... Nesse tipo de situação todos nós ficávamos extremamente tensos, pois éramos obrigados a ser atentos e prestativos com as pessoas -não importa quão mal-educadas ou afobadas elas fossem- rápidos e eficientes no atendimento e ainda ficar de olho em qualquer atitude suspeita, pois sabíamos que tinha pessoas que se aproveitavam daqueles momentos de maior movimento para chegar discretamente junto das prateleiras e, com um movimento quase imperceptível, surrupiar alguma mercadoria e sair sem ser notado. E, claro, o prejuízo acabava sobrando para nosso bolso no fim de mês. Nosso chefe não perdoava esse tipo de descuido.
Naquela hora, eu me repartia entre o balcão e o caixa e precisava de um grande esforço de concentração e calma para não me embaralhar com os trocos e as receitas, por isso, quando vi o homem entrar, fiquei um instante imóvel e, ao perceber que ele se aproximava em minha direção, tive a repentina certeza de que me veria envolvida em algum tipo de situação desagradável. Imediatamente procurei com os olhos alguém que pudesse me substituir no caixa ou então, que viesse atender aquele homem, mas todos estavam tão ocupados quanto eu.
-Putz... Desta não escapo.- disse em voz baixa, empertigando-me como para enfrentar algum tipo de perigo.
O homem tinha mesmo um aspecto medonho: magro e de cabelos longos e desgrenhados, vestido com roupas sujas e surradas, uma em cima da outra, de cores indefinidas e cheias de manchas; rosto barbudo e com grandes olheras escuras, sapatos deformados e cobertos de barro, unhas compridas e pretas. Caminhava um pouco cambaleante e carregava um saco de juta com alguma coisa informe dentro. Eu o percebi assim que entrou, olhando em volta com um ar meio perdido, e fiquei com a mão no ar, segurando a nota que acabara de receber de um freguês. Um vento que parecia um mau pressentimento soprou desde meu estômago, que se encolheu... O que uma criatura como aquela podia querer aqui? Provavelmente uma esmola, mas nós estávamos terminantemente proibidos de dá-la a quem quer que fosse, e se o fizêssemos, é claro que a quantia -não importava quão pequena- seria descontada do nosso salário. Nosso chefe tampouco era adepto a esse tipo de política paternalista, como ele a chamava.
-Esmola para vagabundo em meu estabelecimento não!- pregava com voz dura -Se quiserem alguma coisa eles que vão trabalhar!
Enquanto guardava a nota no caixa e procurava algumas moedas para dar de troco, observei que o homem continuava a se aproximar devagar. Despedi o cliente com um gentil e sorridente "obrigado, volte sempre" que nem eu mesma acreditei, e fechei a gaveta da registradora rapidamemnte. Quando ergui a cabeça de novo, o homem estava diante de mim.
De perto era ainda mais desagradável, pois seus dentes estavam pretos e exalava um forte cheiro a suor e álcool. Se a primeira impressão é a que vale, como dizia a minha mãe, então o melhor que eu podia fazer era pegar o telefone e ligar para a polícia, pois aquele personagem só podia significar encrenca.
Sentindo-me cada vez mais insegura e acanhada diante dele, tornei a olhar em volta à procura de ajuda, mas ninguém estava disponível. Então, resignada, respirei fundo, tomei coragem e o encarei com um sorrisinho amarelo.
-Pois não, em que posso ajudá-lo?. preguntei, inclinando-me em sua direção. O cheiro era quase insuportável.
-Me dá alguma coisa para dor aí.- respondeu ele, com uma voz roufenha que me sobressaltou.
Me ocorreu a idéia de perguntar-lhe se teria como pagar pelo remédio, mas desisti. Era óbvio que pretendia levá-lo de graça. Bom, talvez valesse a pena um desconto em meu salário com tal de me livrar deste mendigo... Nesse momento, se aproximou uma cliente para pagar e tive de voltar para o caixa. Enquanto abria a gaveta com mãos trêmulas, escutei o homem repetir:
-Me dá algo para dor aí, dona. É para levar lá pra baixo.
Me perguntei o que seria "lá pra baixo", e lembrei que atrás da farmácia ficava a delegacia. Seria que ele queria levar o remédio para algum colega que estava detido lá? Ou seria que era para ele mesmo?... Dei uma olhadela nele ao tempo que entregava o troco à cliente, mas não me pareceu que estivesse sofrendo de algum tipo de dor. Mostrava-se um pouco hesitante, mas fora isso, parecia bem.
-Olha moço...- disse eu então, sorrindo o mais gentilmente que pude -Neste momento estou ocupada no caixa, por que você não pede para aquele senhor ali, que é um dos nossos vendedores?- sugeri, apontando para um dos meus colegas.
O homem seguiu com os olhos escuros a direção que a minha mão indicava, e demorou alguns segundos para localizar a pessoa. Em seguida, tornou a me encarar, com uma expressão na qual se misturavam a perplexidade e uma ponta de revolta, como se adivinhasse que aquela era uma desculpa para não atendê-lo, e curvou os lábios para baixo, com um quê de desprezo. Inclinou-se para mim e sussurrou, apoiando as mãos no vidro do balcão:
-A moça está com medo de mim?...
Eu fiquei parada por alguns segundos, sentindo-me apanhada em flagrante, e não fui capaz de sustentar seu olhar.
-Não, moço, imagine!...- gaguejei, enrubescendo -É que estou mesmo ocupada! Por que você não vai...?
-Eu não vou lhe fazer mal, moça...- insistiu ele, endireitando-se. A marca gordurosa das suas mãos ficou estampada no vidro -Não precisa ter medo, não.- e antes de que eu pudesse argumentar mais alguma coisa, ele se afastou em direção ao meu colega, que naquele momento se virava para atender o telefone.
Quando o mendigo chegou junto do balcão, as pessoas que estavam ali se afastaram discretamente. Ele olhou para elas, deixando seu saco no chão, e soltou uma risadina sarcástica.
Eu fiquei imóvel no caixa, sentindo meu coração palpitar com força e as pernas meio bambas por causa do incidente, porém, em seguida um grande alívio me invadiu ao perceber que havia conseguido me livrar daquele sujeito tão desagradável. Desde onde me encontrava, agora ociosa, o observei fazer o pedido ao meu colega. Mas este continuou falando ao telefone e não lhe deu atenção. O homem repetiu o pedido, em voz mais alta, mas o balconista fez um gesto displicente e virou as costas. O homem ficou ali, olhando para ele por alguns minutos, sem saber o que fazer e, finalmente, vencido pela sua indiferença, se abaixou e apanhou seu saco. Parecia profundamemnte contrariado... Não soube por quê, mas de repente aquela cena me despertou uma inesperada sensação de tristeza. Até tive o impulso de pegar o remédio e dá-lo ao homem, mas algo me deteve. A primeira impressão que dele tivera era muito forte ainda e me impedia de agir de outra forma. Então, engoli aquele crescente desconforto que aos poucos tomava conta de mim e fiquei onde estava, limitando-me somente a observar.
O homem, muito chateado, dirigiu-se com passos inseguros até a saída, mas antes de alcançar a calçada, voltou-se para nós e exclamou, apontando-nos com a sua mão imunda:
-Já entendi o recado, não precisa humilhar também!...- e acrescentou, em voz baixa e ameaçadora: -E depois, quando matam um, ainda dizem que nós é que somos ruins!- deu uma última e furiosa olhada para nós e saiu, botando bruscamemnte o saco no ombro. Num instante seu vulto perdeu-se no meio das pessoas que passavam.
Todos ficamos paralisados durante alguns segundos, evidentemente chocados com as palavras do mendigo. Alguns clientes comentavam em voz baixa o incidente, outros pegaram apressadamente seus remédios e saíram da farmácia. Alguém se queixou por ter de tolerar esse tipo de sujeito, que devia estar internado em alguma instituição ao invés de andar por aí perturbando pessoas de bem. Outra deu uma rápida conferida na sua bolsa... O clima ficou tenso e pesado, tivemos que fazer um esforço para retomar nosso jeito amável e sorridente e assim fazer com que os clientes esquecessem do homem e as suas palavras... Mas eu fiquei assustada. Será que aquilo era uma ameaça? Iria regressar mais tarde, quem sabe acompanhado, para atacar-nos ou depredar a farmácia? Estaria aguardando na esquina, escondido, para cobrar-me a minha falta de caridade?... Mas parecia uma criatura acostumada e resignada a sofrer impotente esse tipo de tratamento, tanto, que foi capaz de adivinhar certeiramente meu receio e as minhas excusas para não atendê-lo. As suas palavras davam voltas e mais voltas em minha mente e quanto mais as ouvia e lembrava da expressão de perplexidade e revolta em sua face dura e sofrida, aquela sensação de tristeza e desconforto que tomara conta de mim se tornava mais forte e dolorosa... Aos poucos, aquela primeira impressão de repulsa e medo diante da sua figura foi desaparecendo, transformando-se e mostrando-me uma outra realidade: um homem sozinho e desamparado, talvez sentindo dores, com fome, quem sabe morrendo de vontade de tomar um banho, sem saber onde dormiria esta noite, vagueando pelas ruas sem destino, talvez carregando lembranças de pessoas amadas que ficaram pelo caminho. Um ser humano que dependia da caridade de quem o desprezava e humilhava para conseguir até as coisas mais básicas. Uma criatura que nada possuía e nada esperava, marcada pelo fracasso e a miséria, provavelmente dono de uma história da qual nós aprenderíamos muito, se só tivêssemos tempo paa ouvi-la. Mas nós vivemos ocupadosdemais com os nossos próprios problemas e interesses, com as nossas lutas mesquinhas e fúteis como para prestar atenção em alguém feito ele.
Envergonhada e esmagada pelo peso dos meus preconceitos, tive vontade de largar tudo e correr para me esconder em algum buraco onde jamais ninguém me encontrasse. Percebi que quem realmente me aguardava na esquina para me cobrar e minha falta de caridade não era bem aquele mendigo mas a minha própria consciência, que na imagem daquele homem me mostrava a hipocrisia e o egoismo que permeavam a maioria das minhas ações pensamentos e decisões, mesmo sem eu perceber. Mas estavam ali e vinham à tona em cada situação... Por que tanto medo do nosso semelhante? Por que julgar sem conhecer? Por que condenar sem saber se existe mesmo alguma culpa? Por que não perdoar os erros alheios? Por que exigir para nós o que não somos capazes de dar?... Por que a aparência é tão importante que nos impede a aproximação, a confiança, a misericórdia?
Enquanto voltava lentamente ao meu trabalho atrás do balcão com as receitas e as cápsulas, cheguei à conclusão de que, afinal, talvez a minha mãe estivesse errada e a primeira impressão nem sempre é a que conta, pois há muitas coisas que ignoramos por trás dela e que, se nos déssemos ao trabalho de conhecer, talvez mudassem a nossa opinião com respeito a alguém... Aquele incidente, que deixara mau coração pesado e entristecido, enchia minha cabeça de perguntas que agora não mais podia responder: E se eu tivesse perguntado? E se eu tivesse me interessado mesmo? E se eu tivesse escutado? E se eu tivesse prestado mais atenção? E se eu tivesse deixado meus preconceitos e medos de lado? E se eu não tivesse me deixado levar pela primeira impressão?...



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