E cá estou, tal como lhes prometi, sacudindo as teias de aranha do blog e botando óleo nas engranagens para que volte a funcionar sem problemas e com uma periodicidade decente... Na verdade, tenho dois contos prontos já faz umas duas semanas, mas vocês sabem como é escritor: Se lê duzentas vezes um texto que escreveu, as duzentas vezes vai encontrar alguma coisa para arrumar. Se nao publicar logo pode passar o resto da vida botando e tirando, aumentando ou diminuindo, achando que poderia tê-lo redigido de um outro jeito, achando mil defeitos que nao o fazem bom para a publicacao... Mas, com certeza, isto nao acontece somente comigo. Os pintores, escultores, músicos e demais artistas também sofrem de insatisfacao crônica com respeito às suas obras, entao nao me sinto tao louquinha assim.
E antes que bata a síndrome da perfeicao inatingível novamente e comece a achar alguma coisa para consertar neste conto, aquí vai. Tomara que gostem e que escrevam alguma opiniao sobre este tipo de trabalho que estou retomando... Eu sei que nao vao escrever nada, já tentei isso, mas nao perco a esperanca de receber nem que seja um comentariozinho... De qualquer jeito, conferindo o número de visitas posso ter uma idéia de quanta gente vai estar entrando no blog para ler estas histórias, mas nao vou negar que receber algunas palavras de vocês seria muito, mas muito agradável e estimulante.
Um lembrete: meu pc nao tem c cedilha nem til, entao nao é que esqueci o português, é que nao tem jeito mesmo. Vou ver se meu próximo pc tem a opcao de idioma, porque já tentei neste, mas nada.
Seu Geraldo realmente nao teve muita sorte na vida. Era féio, sem graca e insignificante, a pesar do seu tamanho. Andava por aí arrastando os pés, com os ombros curvados e empurrando a panca feito a proa de um barco que abria caminho através dos quartos e entre os móveis do seu sombrio apartamento. De manha levantava como quem sai do túmulo e ia se trancar no banheiro por uma eternidade. Ninguém sabia por que demorava tanto, pois nao se escutava nem um pío. Mas finalmente retornava, vestia aquelas calcas escuras e o sweater sem mangas cheio de bolinhas, a camisa meio enrugada do dia anterior e coroava o visual com aquel seu infaltável quêpe preto. Por último, calcava trabalhosamente as meias e finalmente enfiava aos pés grandes e sem forma naquelas sandálias horrorosas pré-históricas... Paramentado deste jeito, soltava um som que era misto de suspiro e grunhido, e se dirigía à sala de jantar, onde sua esposa já tinha lhe servido o café. O jornal do dia estaba junto do prato com as torradas, aguardando, e seus dois poodles beatíficamente instalados junto ao sofá da sala. Enquanto ele tomava café, jogando algunas migalhas aos caes, que imediatamente vinham se deitar aos seus pés com cara de mendigos, a sua mulher afanava-se na cozinha, fazendo um barulho apocalíptico com as panelas e os pratos. Seu Geraldo já tinha parado de se perguntar por que ela nao deixava aquilo para mais tarde e vinha tomar café com ele. Na verdade, dava na mesma. De qualquer jeito, nunca conversavam sobre nada porque ele estaba sempre lendo seu jornal e, com certeza, ela nao teria nada de interessante para dizer. Às vezes, seu Geraldo se perguntava como era o rosto da sua esposa e, ao nao conseguir lembrar, jogava a culpa nos óculos... Sim, precisava marcar uma consulta com o oculista urgentemente, porque nos últimos tempos as imagens estavam comecando a ficar meio borradas, e nao era só porque o apartamento era escuro... Houve uma época na qual era capaz de distinguir perfeitamente as formas e cores de tudo, inclusive do rosto da sua mulher e seus filhos, mas agora tudo estaba ficando deslavado, como que indefinido, o que fazia com que comecasse a deixar de prestar atencao nas coisas. A isto se somava aquela sensacao, cada dia mais forte, de permanente tédio e cansaco. Aos poucos, quase sem que percebesse, os acontecimentos e as pessoas tinham deixado de ser interessantes, ao ponto de passar por ele sem provocar-lhe nenhuma emocao. Os amigos pareciam-lhe entediantes e repetitivos, nao conseguia se concentrar no que falavam, as suas visitas eran quase um tormento; ele nao tinha nada para dizer-lhes e todas as vezes em que estavam juntos ele sentía que afundava num océano denso e sufocante. Este mal-estar,geralmente acabava obrigando-o a se retirar da sala sob qualquer pretexto para ir se trancar no quarto ou no banheiro. E, é claro, seu comportamento só afastava cada vez mais aos poucos amigos, que comecavam a escassear as visitas e as ligacoes... Nao é que seu Geraldo alguma vez tivesse sido um cara popular e estimulante, mas apesar de tudo conseguiu conhecer e manter algunas poucas pessoas dentro da sua vida. Na verdade, sempre esteve entre os "Joao-ninguém" e, infelizmente, nao tinha compensado a sua insignificancia com algún tipo de talento. Era daquelas pessoas que simplesmente existem, nada mais. Porém, isto parecía ser o bastante para ele. Estava ali, ocupando um espaco, respirando o oxigênio, mexendo-se delá para cá com o mínimo de energía possível. Raramente expressava alguma opiniao ou demonstrava alguma iniciativa. Seus dois filhos perceberam cedo o futuro que os aguardava se permanecessem em casa, entao bateram asas e se mandaram, dexando a mae desconsolada diante da perspectiva de ter que lidar sozinha com aquele homem exasperantemente nulo. Foi por isso que, num desplante de brilhante cratividade misturada com o mais puro desespero, planejou uma série de atividades diárias, barulhentas e difíceis, que a mantinham a uma saudável distância do esposo, e utilizava boa parte da sua energía e imaginacao para, também, inventar saídas, reunioes, clubes de leitura, consultas médicas e compras intermináveis que a salvassem de ficar tempo demais no apartamento sob a sombra sorumbática daquele homem.
Mas agora a pregunta é: E seu Geraldo se importava com tudo isso? Sentia-se magoado, desprezado, ofendido, zangado pela atitude da sua esposa que, com certeza, nao podía deixar de notar? Tinha crises de auto-compaixao pelas noites? Perdia o sono ao ver que ela o desprezava tanto assim?... Pois se bem era verdade que podía parecer meio atordoado e alheio ao mundo quase o tempo todo, isto nao quería dizer que nao se dava conta das coisas. Nao, tinha plena consciência do que acontecia à sua volta e sabia que era ele mesmo quem provocava tudo aquilo. Mas já fazia tempo que tinha se conformado com a situacao. Afinal, nunca foi muito diferente. Sabia quem era -ou melhor, quem nao era- e o que podía esperar, entao nao se fazia mais ilusoes. Alguém tao sem graca quanto ele só podía levar uma vida sem graca.
No entanto, tinha uma coisa que seu Geraldo gostava e lhe produzia algo parecido com uma emocao: sair para passear com seus dois poodles. Todo dia de manha, após seu solitario café e as noticias do jornal, levantava da cadeira num discreto arranco de energía, ia escovar os dentes, já sentindo uma distante cócega de ansiedade em algún canto, retornava à sala e apanhava as coleiras do cabideiro com uma espécie de gesto ceremonioso, como se se tratasse de algún ritual secreto e profundamente sagrado. Entao, com a sua voz opaca e inexpressiva chamava os caes, que já aguardavam no tapete:
-"Rasputím"... "Medéia"... Vamos embora.
Ele próprio tinha escolhido estes nomes numa das raras iniciativas que tinha tomado em sua vida, tentando demonstrar que, sim, ele era uma pessoa criativa e até genial. Mas seus amigos acharam que tinha sido um ato de pura arrogância cultural e nao de genialidade. Mais uma tentativa frustrada e mal interpretada. Em fim, paciencia. Fazer o quê.
Ao escutá-lo, os cachorros imediatamente ficavam em pé. No entanto, nao o faziam como qualquer cao ao qual seu amo lhe mostrasse a coleira e o chamasse para passear... Nao, estes se entreolhavam com expressao tensa, como se um esperasse a que o outro desse o primeiro passo em direcao ao amo e, a seguir, com um estranho ar de resignacao, sacudiam-se e se aproximavam até seu Geraldo, quem se inclinava e botava as coleiras com seu jeito torpe e atrapalhado. Os caes abaixavam as orelhas e olhavam em volta, como esperando a que alguém aparecesse para salvá-los do deprimente capítulo que os aguardava. Mas ninguém vinha e ambos eram obrigados a ir atrás do seu dono com a cabeca baixa e o rabo entre as pernas, atitude que, é claro, passava totalmente despercebida para seu Geraldo. Mas para qualquer alma um pouco mais avisada, dava para notar de longe o estresse que tomava conta deles enquanto desciam no elevador. Passavam pelo saguao de entrada, pela portaría (onde os funcionarios os olhavam com preocupacao e lástima e depois que eles saíam ficavam cochichando) e finalmente alcancavam a rua.
Dia glorioso, ar fresco, vento, perfume de flôres, bem-te-vi e sabiás gorjeando nos galhos das árvores, gente apressada falando alto, trânsito enlouquecido, céu azul, lanchonetes abrindo, cheirinho de pao torrado... Mas nada disto importava para este trío. À primeira vista pareciam mais uma pequeña procissao fúnebre do que uma aventura pelo parque: passos lentos e pesados, cabecas baixas, olhos sombríos, caminhar errático, sem vontade. Seu Geraldo segurava as coleiras como quem segura a corda de um enforcado, os bracos moles aos costados, as corréias enroladas. Com aquela cara de total tédio se aproximava dos canteiros para que os cachorros fizeram suas necesidades (que ele jamais recolhia) e os animais, obedientes mas profundamente envergonhados, agachavam-se num canto, olhando em volta com ar medroso, após o qual retornavam para junto do seu amo, contritos. Correr atrás das pombas?Tirar da coleira para se aproximar de outros caes e fazer amizade? Cheirar as árvores e as lixeiras? Revirar-se na grama úmida ou latir para os ciclistas?... Nao, definitivamente, tudo isso nao estaba no repertório destes dois... Caminharam mais um pouco, ao ritmo sonolento do homem, e pararam para olhar para ele, como querendo certificar-se de que tudo estaba bem, mas aquilo nao era sempre fácil, pois "Rasputím" e "Medéia" nao conseguiam enxergar a sua face por causa da sua enorme barriga, entao tinham que adivinhar seu estado de ânimo ou as suas intencoes só pela forma em que ele segurava as coleiras.
Porém, hoje parecía estar havendo algo diferente. As passadas estavam mais firmes, um pouco mais rápidas, e pareciam indicar uma direcao definida, a mao mostraba mais forca. O homem tinha saído da sua letargia e até tinha comprimentado algunas pessoas!... Os cachorros comecaram a se sentir meio irrequietos, desconcertados e talvez, lá no fundo, um pouquinho animados, mas o seguiam, obedientes, farejando o ar para ver se descobriam alguma coisa. Nao era algo claro, mas uma sensacao, um pressentimento, se é que se pode dizer que os caes têm pressentimentos... Poco depois, e quebrando todas as regras e tradicoes, seu Geraldo dirigiu-se decididamente até um banco, no qual já se encontraba uma moca que falava animadamente ao celular. Sentou-se ao seu lado, cruzando as pernas e abrindo os bracos sobre o espaldar do banco. Olhou para a moca e lhe sorriu. Os cachorros deitaram-se aos seus pés, disfarcando seu espanto, e aguardaram o próximo movimiento, expectantes. Seu Geraldo comprimentou a moca. Ela desligou seu celular e o comprimentou de volta. Entao ele disse, com uma voz alta e alegre que os animais jamais tinham escutado:
-Dia lindo, né?.
-É mesmo.- respondeu ela, sorrindo -Parece que a primavera finalmente está dando as caras.- acrescentou. Se levantou, pegou a sua bolsa e se virou para seu Geraldo -Tudo de bom!- exclamou, enquanto se afastava, e acenou para ele.
-Para você também!- exclamou seu Geraldo, agitando a sua mao fofa e manchada. Em seguida, abaixou a cabeca e olhou para os cachorros deitados aos seus pés. Olhou para eles como se realmente estivera enxergando-os pela primeira vez, como se percebesse que estavam ali -Um lindo dia, garotos.- disse, e se inclinou para afagar as suas cabecas.
Os animais sobressaltaram-se, mas aceitaram o olhar e o afago de bom grau e até abanaram um pouquinho o rabo, mas nao se podía negar que estavam completamente desconcertados. O que era que estaba acontecendo?...
Seu Geraldo endireitou-se devagar e se recostou no banco, soltando um suspiro imenso, como se tivesse tirado um peso gigantesco das costas, da vida. Deitou a cabeca para atrás e fechou os olhos, deixando que o sol da manha banhasse seu rosto cinzento. Ficou assim, calado e imóvel. Aos poucos seus dedos foram afrouxando,soltando as coleiras, até que elas caíram no chao, emitindo um suave sussurro semelhante a um suspiro. Os animais tornaram a olhar para seu dono, porém, mais uma vez a barriga lhes impedia a visao. "Rasputím" empertigou-se, francamente preocupado, e soltou um murmúrio. Nao houve reacao. Entao "Medéia" também se empertigou, aflita. O que estaba acontecendo?... Ambos ergueram as suas cabecas e farejaram o ar. Um calafrio os sacudiu ao mesmo tempo. Porque cheirava a morte... Seu Geraldo continuaba alí, reclinado no banco, quieto e mudo. "Rasputím" tomou a iniciativa e subiu de um pulo no banco, gemendo. Ali conseguiu ver o rosto do seu amo: olhos fechados, boca entreaberta, expressao relaxada, quase feliz. Os cabelos grisalhos ao vento, os óculos grossos meio tortos, o peito imóvel... O cachorro soltou um ganido leve e tremeu. Alguns pedestres lancaram-lhe uma olhada, mas continuaram seu caminho, apressados. "Medéia" subiu no banco também, e soltou uns latidos lastimeiros... Estavam presos a um morto!, perceberam, angustiados. E se ninguém se importava com seu Geraldo, se ninguém percebia que estaba demorando demais para voltar (pelo contrario, deviam estar agradecendo a Deus pelo atraso) nem lembrava dele, quanto tempo teriam de esperar até que alguém percebesse a situacao e viesse ver o que tinha acontecido?
Formavam um espetáculo aqueles três, por dizer o mínimo, original, no parque cheio de gente à camino do trabalho ou ocupados com seus negócios: o velho dormindo no banco e os dois poodles chorando porque queriam voltar para casa. Realmente engracado.
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