E como prometi, e apesar de ter voltado ao trabalho na quarta e ter ficado com um calafrio na barriga ao ver tudo que me aguarda (ainda bem que amo meu trabalho!) aqui vai, FINALMENTE, a última parte desta história. Espero que, apesar da demora inaudita, gostem e voltem aqui para conferir as outras histórias que vou postar. Só que, à partir de agora, prometo não demorar tanto para postá-las, ok?.
-Por acaso...? Por acaso tivestes...?- se interrompeu para engolir e deu um hesitante passo em direção a frei Silvestre -Por ventura tivestes... uma visão, irmão Silvestre?...- e ficou em suspense, cheio de santa reverência, sem ousar tocar no outro.
Este girou lenamente para ele, como se as suas ingênuas palavras o tivessem trazido de regresso à realidade, e ficou a olhar para ele fixamente. A sua face foi ficando vermelha de raiva. Frei Ludovino recuou, amedrontado por aquele repentino e feroz talante.
-Vos... Vos...- murmurou frei Silvestre, apontando-o, aproximando-se ameaçadoramente, agigantando-se à medida que a ira tomava conta dele -Por que faltasteis às regras e o deixasteis entrar?
-Do que estáis falando?...- gaguejou frei Ludovino -Não vos compreendo...
Frei Silvestre respirou fundo, segurando-se, e expulsou o ar de um golpe. Esperou alguns segundos para recobrar a serenidade e em seguida continuou.
-Estou falando do esmoleiro que deixasteis entrar esta manhã.
Frei Ludovino encolheu-se, enlaçando as mãos.
-Ah, aquele pobre homem que parecia tão cansado...- admitiu abaixando a cabeça e brincando com a corda do seu hábito -Pois sim, eu o deixei entrar.- ergueu a vista e olhou para o outro, aflito e trêmulo -Por favor, não vos zangueis. Eu somente fiz o que Deus ditou ao meu coração... O infeliz parecia tão cansado...- repetiu -Perdoai-me...
Frei Silvestre tremeu, afastando os olhos do velho frade, que olhava para ele suplicante e envergonhado. Sentiu que a sua pele vibrava, desencaixando-lhe os ossos. Frei Ludovino repetia exatamente las palavras do homem... O ar tremeu junto à sua boca, que se mexeu, mas sem pronunciar palavra alguma. A vertigem tornou a invadi-lo e levou uma mão à garganta. Queria fugir, esconder-se, desaparecer. Queria perguntar para Deus, mas não tinha coragem.
-E podes me dizer, irmão, quem era esse homem?- disse após um instante, suavizando seu tom e a sua expressão -Vos sabéis?... Ele vos disse?- e aguardou, tremendo, sem respirar, pendurado dos lábios enrugados do frade diante dele.
-Francisco... Francisco de Assis, foi o que ele disse.
-Nada mais?
-Não.
-E vos, já tinhais ouvido alguma coisa sobre ele antes?
Frei Ludovino hesitou, manuseando o terço de madeira, evitando olhar para ele.
-Pois... Pois se dizem muitas coisas sobre ele, irmão Silvestre.
Frei Silvestre empertigou-se, tocando inconscientemente o braço machucado.
-Que coisas?.- inquiriu, e começou a tremer sem poder evitá-lo.
-Bom... Bom, se diz que é um louco, um vagabundo, um charlatão... Mas também se diz... Também se diz que ele é...
-O que mais?- exclamou frei Silvestre, inclinando-se em sua direção.
-Também se diz, e que nosso pai todo-poderoso me perdoe se blasfemo, se diz que é um homem de Deus... Um santo.
Frei Silvestre se ergueu, como se tocado por um ferro incandescente, e uma intensa palidez tomou conta da sua face. Sentiu que se elevava até o céu e que afundava na terra, que se dispersava e se comprimia até quase gritar de dor... Um santo!... Sentiu vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo... Um santo!... Dirigiu eus olhos escancarados até a porta de ferro no muro, lutando contra a sua incredulidade, seu pavor e a sua fé. Ainda estava aberta. Por que ninguém a tinha fechado? Por acaso estavam todos cegos?... E por que ele mesmo não a tinha fechado ao sair? Era por acaso um convite para segui-lo?... Mas qua garantia tinha de que ele era o que diziam que era? E se errava o caminho e se perdia e perdia tudo para sempre?... Abaixou a cabeça. Mas, tinha alguma coisa para perder? Somente seu pobre corpo, a sua mente, seu coração desiludido, seu fracasso, a sua dor... Tornou a apalpar o braço. Ainda doía. Ainda estava ali.
-Um santo.- repetiu em voz baixa, mas ninguém o escutou, pois o irmão porteiro tinha ido embora, assustado com seu comportamento, e os demais estavam no refeitório tomando o desjejum.
Olhou em volta, procurando alguém a quem perguntar, mas estava sozinho no pátio. Olhou para a porta de novo, angustiado, cheio de dúvidas.
"Mas, como ter certeza?", se perguntou, e duas lágrimas escorreram pela sua face enrugada, "Para quem perguntar?... Não há ninguém, ninguém", e abaixou a cabeça, apertando os lábios com força.
Deu meia volta e se dirigiu a sua cela, chorando silenciosamente por aquela dúvida que, à partir de hoje, ficaria enraizada para sempre em seu coração. Chegou diante da porta de madeira e pregos e parou, olhando para ela sem vê-la. Apoiou uma mão em sua superfície áspera e virou a cabeça para o pátio, cheio de desconsolo. O sol brilhava, a primavera florescia no jardim... E nada havia para ele.
Empurrou a porta com desânimo e entrou, parando junto da cama. Olhou em torno... O mesmo de sempre, para sempre. Colocou o breviário sobre o banco, junto ao toco de vela, e ao incorporar-se seus olhos esbarraram com o pequeno, feio e deslustrado crucifixo na parede mais escura.
Ficou imóvel, com a boca entreaberta, semi inclinado, fixo o olhar na imagem que, por sua vez, o observava desde ali, ensangüentado e agônico, tão triste, tão cansado, tão misericordioso mesmo em meio à sua imensa dor... Era um rosto ingrato, faminto e estranhamente luminoso, que tudo parecia saber e perdoar... Que aguardava.
Frei Silvestre se ergueu, deixando cair os braços, sem força. Essa face, esses olhos como dois poços de mel, essa imagem tão patética e assustadoramente parecida àquela outra. Essa imagem na cruz aguardava a sua pergunta, assim como Francisco tinha esperado junto ao banco... A quem mais poderia dirigi-la? Quem outro poderia conhecer a resposta? Francisco tinha ido embora, mas o Criador estava ali.
Quase sem perceber, ajoelhou-se no chão duro e ergueu as mãos até uni-las no queixo, e ao penetrar sua alma por aqueles olhos divinos que o contemplavam tão docemente, desapareceu num piscar de olhos todo aquele velho temor e ressentimento que o aprisionavam, a vergonha, o fracasso e a tristeza, a inveja; e cheio de nova esperança, elevou por fim a voz, que resoou forte e segura ente as paredes pétreas.
-Senhor, devo eu segui-lo? Devo deixar tudo para ir com ele?...
E desta vez não esperou o silêncio como resposta. Desta vez tinha certeza de que tinha sido ouvido. Abaixou a cabeça, fechou os olhos, recolheu-se dentro de si mesmo e abriu seu coração. Se sentiu nesse segundo como parte de tudo, livre, etéreo, sem correntes que o impedissem de lançar-se ao abismo celeste que se abria atrás daquela pequena e enferrujada porta de ferro... E foi a sua própria garganta, a sua língua, seu próprio céu da boca e seus lábios os que pronunciaram a resposta que tanto ansiava. Sua voz tornou a elevar-se, estranha e ausente, qual se cada palavra tomasse forma dentro do seu cérebro antes de emergir, serena, segura:
-"Aquele que põe a mão no arado e olha para atrás, não é digno de vir atrás de Mim".
Logo, se fez o silêncio e frei Silvestre permaneceu imóvel mais um momento, ajoelhado na penumbra, abstraído do correr do mundo, submerso na paz que finalmente encontrara, pálido, olherento, transparente, estático perante seu Criador.
Depois, ergueu a cabeça e piscou, olhando pela janela de barrotes pela qual penetrava a luz do sol, escutou o adejar das pombas no telhado, respirou o aroma da natureza viva e nada daquilo o machucou. Tinha-se esquecido do seu corpo e suas dores e tentações. Só sabia que precisava ir atrás de Francisco e tinha certeza de que saberia encontrá-lo, porque ele o aguardava fora dali.
Ficou em pé e sorriu. Olhou mais uma vez para a cela vazia e umbrosa... Bom, certamente tinha sido seu túmulo, pois o velho e amargo frei Silvestre morrera ali, agora... Suspirou e de pronto se sentiu um estranho naquele lugar, como um intruso. Então, foi até a porta, atravessou o jardim solitário e sussurrante com passo decidido e ágil, ereto, com a brisa fazendo-lhe cócegas no peito feito um vagalhão inebriante, e chegou diante da pequena porta de ferro, que ainda continuava aberta... Olhou para o bosque e o caminho de terra que se estendiam além, por onde ia Francisco e, então, sem olhar para atrás nem hesitar mais, cruzou o umbral de um passo, pegou a maçaneta e fechou a porta atrás de si. E quando escutou o rangido enferrujado, olhou de pronto para as suas mãos, para seus pés, o peito e os braços, e os percorreu, apalpando-os, oprimindo a pele, e um sorriso no qual se misturavam a emoção e a gratidão, a revelação, descerrou seus lábios... Porque já não mais estava com frio.
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