Como disse antes, meio atrasadinha, mas aqui estou com os contos que prometi. Na verdade, tive uma "crise" de inspiracao e fiz onze deles em dois dias, entao tenho material para duas ou três semanas, portanto, já podem ir reservando um tempinho para sentar e ler aos domingos. E o melhor é que a minha mente nao cansou ainda, entao vêm mais por aí!
TELHADOS
Luiz virou a esquina, apoiando-se no muro de tijolos para nao cair. Atrás dele escutava os passos e as vozes abafadas dos policiais que pisavam seus calcanhares. Já nao agüentava mais. Vinha correndo desde o mercadinho, a uns dez ou quinze quarteiroes, e parecia que o coracao queria pular pela sua boca e as pernas tremiam pelo esforco. Nao sabia se sentir-se assustado, furioso ou frustrado. Talvez uma mistura dos três. Putz, o caolho" Dias tinha jurado que sería coisa fácil porque nessa hora nao tinha ninguém no estabelecimento e os funcionários estavam relaxados. Fácil, sim, sei. Exceto porque bem na hora uma patrulha passava por ali e os pegou com as maos na massa. Vai ter má sorte assim no inferno, cara!... E agora aqui estava, fugindo pelas vielas da favela com a polícia atrás. Escutava a sua própria respiracao angustiada e sentia o suor escorrer por todo seu corpo. Mas os policiais pareciam dispostos a segui-lo até o mesmo inferno... Entao, teve uma ideia. Com as suas últimas forcas deu um pulo e se encarrapitou por uma grade até o telhado de uma casa. Aí ficaria fácil ir de telhado em telhado utilizando os muros como pontes, já que as casas ficavam emparelhadas. Com certeza os policiais nao iam olhar para cima... Continuou correndo e pulando, porém mais devagar, já que precisava ser cuidadoso para nao despencar lá de cima. E de repente, foi percebendo onde pisava: Tinha telhados de madeira, de metal, de zinco e eternite, de telhas vermelhas e amarelas, tapizados por trepadeiras, garrafas, pedacos de papelao, ninhos velhos, tênis e latas. Até com uma camiseta de futebol e uma televisao velha tropecou. Tinha fios, canos, tubos de chaminés, milhoes de folhas secas e uns gatos sarnentos que fugiram correndo quando o viram aparecer... Era curioso descobrir esa face das pessoas, pois os telhados pareciam, em alguns casos, esconderijos de tesouros, em outros lixeiras, depósitos de vergonha, de lembrancas e frustracoes... Aos poucos foi diminuindo o passo, até parar por completo para olhar à sua volta aquele oceano de telhados pobres, sujos, esquecidos, tristes e miseráveis e, apesar de seu cansaco e seu medo, sentiu uma pontada de tristeza diante daquela paisagem, porque era o fiel reflexo da vida sacrificada, violenta e derrotada que aquela gente levava... E de repente, quando olhou para baixo, se deu conta de que estava no telhado da sua própria casa.
O ESPELHO
Rosalva sempre foi uma mulher vaidosa. Era bonita, rica, culta, morava numa casa grande, com jardins cuidadosamente desenhados e sempre floridos. Passeava pelo centro perfumada e elegante, com luvas e chapéu para proteger a sua pele branca e aveludada, sempre falava num tom baixo e gentil e seu sorriso era capaz de iluminar qualquer lugar onde entrasse. Pretendentes nunca lhe faltaram, mas ela a todos rejeitava com um adorável gesto da sua mao de unhas vermelhas e um discreto trejeito de desprezo. Parecia que nenhum deles a merecia, que nenhum era rico, bonito, culto ou importante o bastante. Pelo menos isso era o que seu espelho lhe dizia toda vez que ela ficava na sua frente para apreciar a sua figura. Passava longos minutos retocando a maquiagem, arrumando a roupa, trocando o pingente, os brincos, os sapatos, o penteado, para que tudo estivesse perfeitamente combinado. Parecia uma deusa, imponente, inatingível, perfeita demais para os mortais.... E deste jeito andava pelo mundo e pela vida, exibindo a beleza e a superioridade com que a natureza tao generosamente tinha-a presenteado, sendo fiel tao somente ao que seu espelho lhe dizia.
Hoje mora sozinha, com uma empregada de confianca e alguns gatos e cachorros. Continua passeando pelos jardins perfumados e bebendo seu chá nas xícaras de porcelana. Mas nao sai na rua e muito menos se aproxima do espelho. Mandou tirar todos eles da suntuosa casa que, aos poucos, foi ficando fria e silenciosa. De amigo, confidente e conselheiro, ele se tornou seu pior inimigo, seu algoz. A sua sentenca, da qual nao conseguirá fugir. Rosalva mantém todas as janelas abertas para nao passar na frente de seus vidros, pois nao quer que o reflexo lhe grite quao velha está.
VELHO RUIM
Pôxa, o velho foi demais. Esta sua última graca foi além dos limites. Fodeu com a gente a vida toda e agora vai embora assim, sem mais, de repente, sem nem avisar. A minha mae nao teve tempo de lhe contar seu segredo. Meu irmao nao conseguiu dizer-lhe que iria ser avô. Meu outro irmao sequer pôde mostrar-lhe seu diploma... E de mim robou a chance de lhe pedir perdao e admitir que ele estava certo e que a sua maldade consistia em ser justo e reto, o que para nós nao passava de enchecao de saco e ruindade... Velho ruim, egoísta, como sempre. Tinha que morrer assim, de repente, e deixar todos nós com a vontade de consertar as coisas de uma vez por todas?... Com certeza, este será o velório mais frustrante da história.
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