Eu sei que disse que iria publicar estes contos ontem, mas aconteceu que esqueci que a minha filha iría me levar para comemorar por adiantado meu aniversário -na verdade é nesta terca, mas como ela vai estar trabalhando, decidimos fazê-lo no domingo- e saimos para almocar fora, passear, assistimos um show de danca, mais tarde eu saí para passear com as minhas cadelinhas e tomei um delicioso chá da tarde... E nessa altura do campeonato já nao tinha mais fôlego para nada!... Entao me desculpem, pois tinha prometido estes contos para ontem. Mas, em fim, aqui estao, meio atrasadinhos, mas podem lê-los do mesmo jeito quando chegarem em casa, do lado do aquecedor e tomando uma boa sopinha quente.
CARTAS
Podem me chamar de antiquada, retrógrada, jurássica ou o que quiserem, mas, por que nao posso sentir saudade das palavras escritas num papel? Da emocao de ver o carteiro se aproximar e tocar a campainha? Daquela sensacao que faz cócegas no coracao ao rasgar o envelope e desdobrar as folhas brancas cheias de letras? Do olhar que se atropela para ler as notícias, as confissoes, as declaracoes?... Porque parecia que segurando o papel na tua mao as emocoes iam crescendo devagar, intensas, profundas, porque tinha mais tempo, porque a mente voava ao imaginar o que as palavras descreviam, e a gente suspirava, fechava os olhos, enxugava uma lágrima, botava a carta no peito, sentada no sofá, na beira da cama, na cadeira da cozinha... E nao na frente da tela brilhante de um computador. Tudo escrito em abreviaturas, tudo rápido, como se a outra pessoa na verdade nao estivesse com muita vontade de te escrever. Frases pobres, sem detalhes, quase sem emocao, como que cumprindo uma obrigacao chata. A letra toda igual, perfeita e fría, saída nao de uma mao, mas do teclado de um computador... Nao tem papel, envelope, selo, alguma mancha, umas rugas. Nao tem carteiro amigo para perguntar ou contar algumas coisas sobre quem escreve, onde está, quanta é a saudade, se está tudo bem. Afinal de contas, as cartas sao escritas por pessoas que têm histórias para partilhar e parece que ao escribi-las numa folha de papel, tomando-se o tempo, criando aquele clima especial e tao íntimo, ficam mais próximas da gente, mais cálidas e reais. A carta vive uma aventura de incertezas até chegar às nossas maos, é heróica, fiel, se pode guardar, fica velha e amarelada e nos lembra todo tipo de emocoes que podemos reviver toda vez que a abrimos e tornamos a lê-la.
Por isso, só abri este e-mail para lhes comunicar meu endereco, para que me enviem cartas que possa tocar e guardar numa caixinha ao invés de que sumam num arquivo ou quando o computador pegue um daqueles vírus mortais e se perca tudo que tem nele.
APOSENTADOS
E ali estao, sentadinhos, quietinhos, com as suas bengalas, muletas e sacolas, bem agasalhados contra o frío inclemente da rua com todo tipo de casacos, xales, gorros, luvas, cachecóis e meias de la. Esse frío que tiveram de encarar bem cedo no ponto, no ônibus de poltronas duras que fazem doer seus ossos cansados, na fila para pegar o número para serem atendidos. Alguns estao calados, com o olhar perdido na distância. Outros se animam ao encontrar estes "colegas" e batem papo, contam dos seus achaques, dos médicos e dos remédios -especialmente porque estao tao caros- dos netos e dos filhos que moram tao longe... A sala de espera está templada e as cadeiras sao mais ou menos confortáveis, tem uma televisao ligada onde está passando um desses programas matinais de variedades, receitas e fuxicos. Uns assistem, para se distrair e ajudar a suportar a espera. Outros cochilam, cansados. Alguns parecem tao frágeis e solitários, estao calados e de cabeca baixa, enfronhados em seus pensamentos e problemas... O kerosene, o pao, a goteira, só tem macarrao na despensa, dois ovos, uma gelatina e um pouco de peito de frango cozida que sobrou de ontem. E a aposentadoria é essa porcaría. Vai toda embora nos remédios e apenas sobra para o resto das necessidades... Mas ali estao, fielmente, tentando ser dignos, se resignar, agüentar, sabendo que após serem atendidos por aquelas mocas tao simpáticas e animadas terao de fazer a viagem de volta até as suas casas escuras e frías, aos seus quartos amontoados em prédios arruinados, em ruas sem calcadas nem árvores, cheias de vira-latas e bandidos, de pobreza e esquecimento, e vao ter que se virar para sobreviver até o próximo mes, quando esta aventura sem futuro vai se repetir.
PASSOS
Quem mora em apartamento vai entender do que estou falando: vizinhos em cima, vizinhos embaixo, vizinhos dos lados. E com seus barulhos incluidos. Cada um tem os seus, e com horário e tudo. Quase que da para adivinhar a vida que levam pelos sons que provêm de trás das suas portas e muros. Por exemplo, a senhora de baixo é bastante discreta, porém tem um poodle temperamental que fica nervoso e late histericamente sem parar cada vez que ela recebe visitas. Ela faz umas festas animadas alguns fins de semana y berra ao telefone na sacada com alguém que deve morar no estrangeiro, porque em geral, as ligacoes sao numas horas bem esquisitas. O pior é quando fuma e solta a fumaca pela janela, porque entra toda pela minha e me obriga a fechá-la, o que faz com que meu apê fique cheirando uma semana ao que almocei nesse dia... Os vizinhos dos lados como que vao e vêm. Às vezes estao por uma semana, cheios de malas, brigas e fedelhos berrando, e depois somem e tudo fica deliciosamente silencioso. Eu acho que sao de uma outra cidade e compraram o apartamento para vir nas férias ou nos feriados longos.
Agora, meus vizinhos de cima... Esses sao um completo mistério e uma constante preocupacao, pois estou convencida de que um dia um deles vai aterrizar bem no meio da minha sala, tanto é o barulho que fazem. Deles só escuto os passos. De tênis, salto alto, botas, pulos, corridas. Algumas batidas de porta ao amanhecer -parece que esse povo gosta de uma festa- umas bolinhas quicando ou deslizando pelo chao e umas batidas abafadas que parecem as tentativas de exercício de alguém gordo e desajeitado. Isto além dos taladros e marteladas nos fins de semana, bem na hora em que eu tento dar a minha sagrada soneca... Parece que estao em constante remodelacao ou que compram prateleiras ou quadros novos toda semana!... Às vezes sao passos rápidos e leves, outras pesados e lentos. Em algumas ocasioes, claros e firmes, em outras irregulares e arrastados. Até parece que batem papo entre eles! Levam uma vida sem horários, parece que nao passam muito tempo juntos e sai cada um numa hora diferente. É um casal com um filho gordo? Sao jovens profissionais? Quem sabe um casal que está tentando se acertar?... Tem vezes que me da vontade de subir e tocar a campainha só para conferir se as suas caras correspondem com as que eu imaginei escutando seus passos...
E de repente me pergunto, sobressaltada: será que meu vizinho de baixo escuta meus passos e se pergunta as mesmas coisas sobre mim?
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