domingo, 16 de agosto de 2015

"Pós operatório"

    Bom, e após este recesso pós-operatório pela minha filha -que está indo muito bem- volto à minha rotina e, como já estou mais calma, a minha inspiracao também está voltando, entao, se preparem para uma nova safra de contos!... Jä estou com uma folhinha cheia de anotacoes para desenvolver, assim, vao ter bastante pra ler do lado do aquecedor, com certreza. Aqui vao mais três! Curtam!



                                                      A TRANSFORMACAO


    Nunca se soube de onde chegou, mas um dia de manha apareceu no meio da turma de bêbados que se reunia na praca, destoando com a sua roupa limpa e passada e seus sapatos engraxados, o rosto barbeado, as unhas impecáveis e os dentes brancos. E aquela fala pausada e coloquial, educada, cheia de tolerância e uma estranha tristeza. No início, os bêbados se dedicaram a tirar sarro dele e até lhe pediram grana para ir comprar alguma coisa pra comer, mas ele nao se deu por achado e entrou na deles, sorrindo com indulgêncnia diante da desfacatez da turma. Sentou-se tranquilamente num banco do lado deles e comecou a bater papo, lhes passou alguns cigarros e com seu dinheiro os acompanhou para comprar mais vinho e cerveja no bar da esquina. O pessoal estava desconcertado, meio desconfiado de tanta generosidade e simpatía de um cara que nunca tinham visto e que, obviamente, nao pertencia à sua classe. Mas  o Carlinhos -assim disse chamar-se- continuou voltando todo dia, ficado até um pouco mais tarde, trazendo alguns presentes e um pouco de grana que alegremente compartilhava com a turma. Nao se importava que estivessem esfarrapados ou fedessem, que falassem aos berros ou às vezes chegassem às maos por alguma bobagem, que pedissem esmola ou dormissem amontoados num colchao velho encostado numa parede. Pelo contrário, parecia sentir-se totalmente à vontade e, passada a primeira surpresa, todos o acolheram sem perguntas nem condicoes. De onde vinha? Qual era a sua história? Havia uma família, filhos, um trabalho? Qual tinha sido o fracasso, a decepcao, a má sorte que tinha trazido ele até alí? Do que fugia? O que pretendia esquecer? Por que tinha escolhido aquela vida?... E Carlinhos, aos poucos, dia após dia, foi mimetizando-se com aqueles bêbados, comecou a falar e gesticular feito eles. A sua figura se tranasformou, a sua roupa foi se deteriorando, enchendo-se de manchas e buracos, de rugas e sujeira. Os sapatos perdeu em algum momento e agora andava com uns chinelos velhos que tinha achado numa lixeira. A sua barba cresceu, seus olhos ficaram turvos, suas unhas ficaram pretas e aprendeu a beber feito um profissional... Porém, jamais perdeu a elegância ao se dirigir aos transeúntes para pedir algumas moedas. A sua voz saia rouca e meio insegura, mas continuava sendo encantador e sereno, com uma distante e elegante tristeza que nunca ninguém conseguiu apagar. Aquele era seu segredo e os outros aprenderam a respeitar seu silêncio.
    E assim como tinha aparecido naquela manha, um dia foi embora ao cair da noite, e nao retornou nunca mais. Os bêbados o viram afastar-se, cambaleando, em direcao das sombras de um beco, seguido pelos cachorros que andavam com eles. Uma vez se virou e fez um aceno de despedida... A noite o devorou junto com seu segredo. E assim como ninguém se perguntou como era que tinha chego ali, também nao se perguntaram por que tinha sumido. Afinal, só era mais um.





                                           PLANEJANDO O DIA


    Amanhecia. Uma tênue claridade comecava a entrar pela janela sem cortinas. Rafael gostava desse jeito, para poder ver o céu ao dormir e ao acordar. Aquela visao -sem importar se estava nublado- sempre levantava seu astral. Entreabriu os olhos e bocejou, esticou os bracos, massageou a cabeca e esbocou um sorriso. Piscou para aclarar a visao e distinguiu as últimas estrelas no céu de aco.... Ia ser um bom dia. Era feriado, entao nao precisava ir na faculdade e podia sair para passear, ficar no parque observando as pessoas passar, os turistas tirando fotos, as garotas passeando com seus cachorros, podia ir chupar um sorvete, quem sabe reunir-se com um amigo... Isso! Podia ligar para o Goncalo para que mais tarde fossem jogar basquete no clube. Gostava de competir com ele e ganhar-lhe, pois assim o outro era obrigado a pagar o almoco. À tarde podia se dedicar um pouco ao projeto do prédio comercial da faculdade e depois ir no cinema ou visitar alguma exposicao... Rafael sorriu novamente e silenciosamente agradeceu por este novo dia que comecava, tao cheio de possibilidades.... Entao, sentou na cama, esticou o braco e aproximou a cadeira de rodas.



                                                O TORTO

    Como nao tinham recursos, quando o médico lhes disse que o Júlio tinha nascido com uma malformacao congénita nas pernas, seus pais engoliram a pena, o susto e a frustracao, e levaram ele para casa. Nao tinham como pagar aquela cirurgia que o médico tinha lhes sugerido, entao, o Julinho ia ter que ficar assim mesmo, com as pernas tortas, os joelhos juntos e os pes para dentro, quase que se arrastando para poder se locomover. Dava gastura ver o esforco que fazia para nao tropecar em si mesmo e chegar sao e salvo ao seu destino, nao importa quao perto fosse. Mas mesmo assim, os primeiros anos vivia cheio de arranhoes e hematomas e tinha que se apoiar em tudo para caminhar. Na escola o apelidaram de "O torto" e riam as gargalhadas vendo-o tentar fazer alguma coisa nas aulas de educacao física. Passava mais tempo no chao ou nos colchonetes e pelo seu jeito de ficar em pe o atormentavam com piadas de mau gosto, pois parecia uma mocinha com vontade de ir no banheiro... Mas ele nao se deixava amedrontar e seguia em frente, cada vez mais seguro e decidido. Achou um jeito de caminhar sem cair nem ter de se apoiar em nada, mesmo se para isso gastava um par de tênis por mês. Se mexia, porém, ao fazê-lo, arrastava a ponta de um dos pés e o costado do outro. Mas se locomovia, isso era o que importava. Isto o tornava independente, para orgulho e terror de seus pais. Quando saiu do colégio foi vender suco de laranja numa esquina para ajudar a pagar a faculdade. Queria se tornar um empresário... E assim, podia-se encontrá-lo toda manha, ainda escuro, empurrando um carrinho de supermercado lotado de laranjas pela rua, correndo daquele jeito tao engracado e estroncho, o som de seus passos ecoando entre os prédios. Chegava em sua esquina, arrumava tudo e passava o dia todo espremendo laranjas e atendendo gentilmente os fregueses, que já comecavam a conhecê-lo. À noite ia na faculdade, voltava depois da meia noite, jantava qualquer coisa e ia dormir seu sono mesquinho para  levantar-se ao amanhecer e comecar tudo de novo. Andava sempre meio suado pelo esforco que precisava fazer para caminhar sem perder o equilíbrio, mas era trabalhador, honesto, leal, inteligente, criativo. O melhor aluno da sua classe... E ainda o chamavam "o torto"... Nao tinha jeito...
    Hoje, Júlio dirige uma empresa que fabrica embalagens plásticas, mora numa boa casa, num bom bairro, está casado e tem dois filhos. Nunca fez a famosa cirurgia, apesar de que agora tem o dinheiro para fazê-lo. Se acostumou ao que era, ao desafio de encarar o mundo mudando o que era realmente importante. Já nao mais se incomodava com as suas pernas e podia comprar vários pares de sapatos por mês. E, além disso, tinha acabado por tomar-lhe carinho a esse apelido da escola, pois ao invés de lembrar-lhe a sua malformacao, lhe gritava seu sucesso: "o torto".

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