E como prometido, aqui estao os contos deste fim de semana. Tomara que curtam!
INFELIZ
A casa era pequena, com gente demais nela. No inverno, um único aquecedor para todos. No verao, o telhado de zinco os fazia cozinhar em fogo lento. Nao tinha privacidade para nada. Um banheiro pequeno e desordenado para todos. Era obrigada a compartir seu diminuto quarto com mais duas pessoas. Carne durante a semana? Só se alguém dava de presente. Era feijao, macarrao, batata, salada de tomate e alface, ovo e arroz branco... Já estava comecando a engordar feito a sua mae e suas irmas... Um quintal cheio de tralha, bicicletas enferrujadas que algum dia seriam consertadas ou vendidas, caixas, tábuas, os cachorros pulguentos que latiam o dia inteiro. Café da manha com pao velho, molecada correndo e gritando quando o único que ela queria era descansar um pouco...
No servico, a coisa era pesada, o uniforme quente, o chao dos corredores estava sempre imundo, nao importava quantas vezes o limpasse, O mordomo era um arrogante, os colegas desordenados e insolentes. Tinha que comer a sua marmita fria porque o forninho nao funcionava. As latas de lixo empesteavam todo o lugar, que no inverno alagava e era gelado feito um iceberg. No verao os detritos apodreciam e fediam ainda mais, tornando o ar quase irrespirável. Os residentes eram uns porcos metidos a besta e a ducha fria antes de ir embora era só mais uma lembranca da sua desgraca...
E enquanto caminhava pela rua com o cigarro entre seus dedos magros e cheios de calos, com o cabelo ainda molhado e uma pedra esmagando seu peito ossudo, Olivia perguntava a si mesma onde era mais infeliz.
AMIGA FIEL
Os moradores do cortico a viam sempre atarefada, de bom humor, cumprimentando todo mundo, preocupada em manter a sua casa limpa e aguando os vasos da frente. Tinha umas cortinhas imaculadamente brancas e um tapete que dizia "bem-vindo" junto da estátua de um cachorro de olhinhos zombeteiros. Dona Carmela nao era de fazer visitas ou andar se entrometendo na vida dos outros, e assim também nao gostava que ninguém perguntasse sobre a sua vida. Ninguém tinha certeza de se alguém morava com ela -além dos seus três gatos e um canário que cantava da manha até a noite de tanta felicidade- mas sempre a escutavam conversando, rindo, cantarolando, fazendo comentários e respondendo perguntas. Com certeza era alguém a quem queria muito e com quem se dava muito bem, pois jamais ouviam-se discussoes, só aquele falatório constante, risadas e cancoes... Evidentemente, a dona Carmela era uma pessoa muito feliz, com certeza devido àquele -ou àquela- que morava com ela, e que o povo do cortico nunca tinha visto. Mas era evidente que estava ali e mantinha a mulher com o astral lá em cima.
Só quando dona Carmela teve um repentino derrame naquela manha enquanto varria a calcada e os vizinhos correram dentro da casa avisar a quem estava ali para que viesse ajudar ou ligasse para a ambulância, foram descobrir que a grande e perfeita companhia que a velhinha tinha nao era outra que seu fiel rádio.
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