quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Silvestre - parte IX

Como podem ver, estou muito a fim de cumprir a minha promessa de terminar de publicar esta história até o fim de semana, até porque já vou ter o domingo ocupado com o primeiro ensaio do musical, que será apresentado no dia 3 para os professores  da rede pública de ensino, o que significa teatro lotado, então temos que correr e retomar o ritmo de trabalho o mais rápido possível. Segundo vi ontem, a nossa agenda já está cheia, então... Mãos à obra! Eu não disse que a coisa ia apertar pro meu lado? Bom, mas é assim mesmo que eu gosto.
    Então, vamos a mais uma parte deste conto:


    Frei Silvestre mexeu a cabeça e respirou fundo. A sua vida e as suas crenças, tão firmes e bem administradas e levadas à cabo, pareciam cambalear diante dos seus olhos. Tudo era nada. A sua sabedoria era feito o vento nos campos, feito uma árvore de raízes mortas que agonizava, estrangulada por esta nova e terrível incerteza que se apoderava irremediavelmente dele. Era este o castigo supremo? Era o fim?... Encolheu-se, tremendo, aterrorizado. Mas lutou para não deixar transparecer seus sentimentos diante do homem que o observava em perfeita calma e transparência. Verdade que estava bem longe de poder responder a estas perguntas que enchiam de angústia e esperança seu coração doente, mas não iria se permitir demonstrar que tudo aquilo o inquietava, não iria pedir para aquele as respostas que ele próprio ignorava, nem tampouco iria se render agora e aceitar um milagre.
    Quase riu diante de tal idéia, porque ele sabia que os milagres não aconteciam assim. Como iria o Senhor lhe enviar um miserável infeliz feito este em resposta às suas preces? Por acaso ele merecia aquilo? Não, os emissários do céu eram formosos, resplandecentes e sem mácula, arrebatadores, rodeados por um nimbo de bem-aventurança, e seu contato não ocasionava dor nem temor, mas um inefável êxtase de amor, e tudo se enchia de luz, músicas e aromas celestiais, e ao falar, suas vozes eram embriagadoras, deixando na alma a paz perfeita e ausente. Era assim que acontecia, e não feito uma avalanche de fogo e luz que tudo arrasava, deixando-o imerso no terror e na incerteza, cheio de desconcerto e dor. E menos ainda se personificavam na imagem de um sujo morto de fome, mais ingrato e escuro que o pior ladrão ou feiticeiro, esfarrapado, famélico e cheio de soberba e insolência... Frei Silvestre pareceu crescer diante deste pensamento, recobrando seu ânimo. Não, não iria permitir que alguns truques bem feitos jogassem por terra a sua ordenada vida, que corria rumo à perfeição. Tudo isto não era nada além de algum tipo de alucinação. Atingir o  patamar onde se encontrava tinha lhe custado demasiado, toda uma existência de luta e dor. Já estava velho, cansado e resignado. Pelo menos, os homens o admiravam e falavam dele como um exemplo. Quiçá Deus não tinha disposto para ele outra coisa.
    E em sua cega negação debatia-se na ponte frágil e cambaleante que o sustentava sobre o precipício de Deus, teimando em não se jogar, em não se despir, em não se entregar.
                                                            "Ecce dabit voci suae vocem
                                                            virtutis, date gloriam Deo super
                                                            Israel: magnificentia et virtus
                                                            eius in nubibus..."
    E como se o homem tivesse escutado tudo quanto ele pensava, deu um passo em sua direção e o olhou nos olhos, cheio de compaixão e estranha ternura, e falou, abrindo os braços:
    -Mas, onde te encontras agora, frei Silvestre?... Após toda uma vida cheia de luta e dor, onde estás agora?...
    Frei Silvestre ergueu-se bruscamente ao escutar aquelas palavras precisas e cheias de sincera tristeza, e olhou para o mendigo com os olhos escancarados, levando uma mão aberta ao peito, como que escudando seu coração contra aquela estocada que, no entanto, o atravessou de lado a lado, desamando-o de uma vez por todas. Seu queixo tremeu e um gemido inarticulado brotou de sua boca quando tentou falar. Uma dor imensa dilacerou-o e sentiu-se calcinado pela labareda da verdade... Fechou os olhos com força, como se fosse incapaz de suportar a visão daquele que assim tinha falado. Seu corpo martirizado pareceu dissolver-se num redemoinho e, tropeçando, afastou-se até a oliveira, cobrindo o rosto com as mãos.
    -Vá embora... Vá embora, por favor...- murmurou, desabando no banco, tentando que ele não o visse chorar, mas s lágrimas corriam pelas suas bochechas murchas -Por que viestes?... O que queres?...
    O mendigo não se mexeu, mas ladeou a cabeça e lhe sorriu com doçura, mesmo se frei Silvestre não olhava para ele.
    -Eu somente vim.- respondeu calmamente.
     -Viestes para burlar-te de mim, infeliz.- lhe replicou o monge, cerrando as mandíbulas e os punhos -Viestes para me destruir, para me encher de dúvidas, para quebrar a minha fé. Viestes...
    -Eu somente vim.- repetiu o mendigo, e sem emitir outro som, encaminhou-se para a pequena porta de metal  enferrujado, na parede oeste do mosteiro, a abriu com suavidade e saiu por ela, sem virar-se para olhar o monge, que chorava amargamente sob a oliveira prateada.
                                                     "Mirabilis Deus in sanctus suis
                                                     Deus Israel: ipse dabit virtutem
                                                     et fortitudinem plebi suae
                                                     benedictus Deus..."
    O ofício tinha concluído. Um leve rumor chegou desde o interior da capela e os irmãos apressaram-se a sair para o desjejum.
    Ao escutá-los, frei Silvestre incorporou-se rapidamente, apanhou seu breviário do chão e ficou parado ali, junto do banco, muito ereto e calmo, como se nada tivesse acontecido. E era isto que pretendia com desespero: convencer a si mesmo de que, na verdade, nada tinha acontecido. Mas quando ergueu o braço e passou a manga pelos olhos úmidos, a dor da queimadura o fez estremecer... Ah, sim, porque ali estava, em sua pele, a marca daquilo que queria ignorar. Ali estava... Tremeu a sua alma hesitante e fechou os olhos, levando a mão à cabeça desgrenhada... Ali estava... Sentiu que tudo cambaleava ao seu redor, que escurecia, esvanecia. A face serena e clara do mendigo iluminou seu cérebro. Faltou-lhe o ar e estendeu torpemente uma mão aberta para não despencar no abismo... Mas alguém a pegou bruscamente, segurando-o, e o trouxe brutalmente de volta à fria terra..
    -Que vos sucede, frei Silvestre?... Vos sentis mal?.- a voz aguda e pigarreante do irmão porteiro, frei Ludovino, ecoou feito um trovão em seus ouvidos, fazendo-o encolher.
    -O quê?...- articulou, abrindo os olhos, cegado pelo sol.
    Olhou em volta, desconcertado, franzindo as sobrancelhas, esticando as mãos para equilibrar-se em meio àquele redemoinho de cores, sons e objetos que pareciam golpeá-lo com a sua proximidade tão real. Os arcos de pedra, as árvores, as colunas, os barrotes, a vereda, os altos muros e as torres que o cicundavam, maciças, enormes, cinzas, insultantes. E os irmãos que circulavam pelos corredores em direção ao refeitório, com seus hábitos pretos e seus capuzes... Eram seres humanos, de carne e osso, que iam comer. E eram tão reais, tão feios e mortais! Eram tão diferentes daquele outro!, pensou de pronto.
    -Irmão Silvestre, por caridade, dizei o que vos acontece!...- exclamou frei Ludovino chacoalhando-o suavemente -Falai!...
    Frei Silvestre virou-se para ele e o encarou, com expressão de estupor... Este velho desdentado, careca e de olhinhos brilhantes e esbugalhados, quem era? Não conseguia lembrar.
    -Deixai-me...- murmurou com voz rouca -Deixai-me só... Ide embora.- e se desvencilhou da sua mão magra e enrugada, virando-lhe as costas, cambaleante e sem conseguir se recompor.
    Então, a cara de frei Ludovino iluminou-se e sorriu, cheio de admiração e um pouco de medo, mostrando as suas gengivas peladas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário