quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Silvestre - parte VIII

Bom, já dizem por aí que o que é bom dura pouco: meu mês de férias acabou ontem e hoje à tarde estou retornando à Fundação. Infelizmente não tive banco de horas este ano, fato que sempre me proprocionava até um mês a mais de férias. Mas tudo bem, apesar da minha saúde não estar cooperando muito, de não ter descansado quanto queria nem ter produzido o que esperava, estou bem disposta e otimista, curiosa para saber o que me tocará, pois com certeza algumas coisas vão mudar -a começar pelo aumento das minhas horas de trabalho e, por consequência, do meu salário, o que vai ser ótimo- e vou ter mais responsabilidades do que no ano passado. Bom, desde que não tenham a ver com coisas burocráticas ou turmas de crianças pequenas, para mim tudo bem. Adoro meu trabalho e estou ansiosa por começar com as aulas, montagens, ensaios y projetos. Pena que vou perder alguns dos meus melhores alunos por causa da faculdade ou o cérebro de mosquito de alguns pais, mas tenho certeza de que sempre encontrarei talentos entre as novas turmas. Afinal, há que ir em frente, há que encarar e curtir as novidades e vencer os desafios... A rotina tem seu lado saudável, porque organiza nossa vida e nos dá segurança, mas também não podemos acomodar-nos nela e parar no tempo e no crescimento. Então, vamos voltar com tudo, porque sempre é tempo de renovação e aprendizado, inclusive para nós, os professores!.
E aqui vai mais uma parte desta história-novena. Espero, sinceramente, poder terminar de publicá-la até o fim desta semana. Nem eu mesma estou agüentando mais olhar para ela!... Afinal, neste início de atividades vou ter muito pouca coisa concreta para fazer na fundação: arrumar armários, figurinos, material, ter reuniões com meu chefe para planejar as atividades, os eventos e as matrículas... Nada que me deixe tão exausta assim como para não conseguir digitar o fim deste conto, né?...


    O mendigo nada replicou. Houve um instante de silêncio, e quando frei Silvestre se virou para ver o que estava acontecendo, o homem avançou em sua direção. Aproximou-se dele sem que soubesse como, sem que pudesse fugir ou rejeitá-lo, esticou uma mão, uma daquelas mãos pequenas e frágeis, etéreas e sujas, e o tocou... A apoiou gentilmente em seu antebraço e o monge sentiu como se uma labareda invisível o ferisse até o osso, deixando-o tonto, e proferiu uma abafada exclamação de surpresa e dor. Foi como se o gelo  que cobria a sua pele tivesse trincado.
    Espantado, tentou recuar daquele igneo e misterioso contato, mas não conseguiu. Era incapaz de se mexer, de respirar, de gritar, de parar de olhar para ele. Era como se a sua imagem tivesse ficado gravada dentro do seu cérebro, apagando todo o resto. O rosto emaciado e barbudo do mendigo tornou-se apagado, seu sorriso consolador  borrado, ofuscando-o com aquele estranho resplendor que parecia emanar dele... Mas, o que tinha acontecido para transformá-lo assim? Como podia ter-se transfigurado deste jeito? O que tinha feito? O que tinha acontecido com aquela criatura mortal, ordinária e opaca com quem falava?... Frei Silvestre fechou os olhos com força e levou a mão livre ao rosto, lutando contra aquela vertigem medonha e a luz abrasadora. Seu breviário caiu no chão, mas ele não percebeu, nem sequer escutou o barulho que fez contra as pedras. Tudo girava ao seu redor, tudo afundava, esvanecia, explodia, desintegrando-se. Não havia nada. Tudo era a luz, esse fulgor cegante, esse calor penetrando-o, destruindo-o... E a mão leve e branca continuava apoiada em seu antebraço, e frei Silvestre soube certamente que aquela era a causa de tudo. Escutou o homem  dizer alguma coisa que não conseguiu compreender, mas a sua voz tornou a lhe parecer conhecida, pulando seu som suave e cheio de misericórdia desde o fundo do seu inconsciente.
    "Meu Deus, meu Deus!... Mas o que está acontecendo?", bradou em meio àquele cataclismo que o atropelava, mas a sua voz não soou, morrendo atás dos seus dentes cerrados.
   Mas de repente, o mendigo retirou a sua mão e tudo acabou. Voltou o sol, a brisa perfumada, as árvores verdes, o poço com seu rumor, o céu claro  e as frias pedras sob seus pés. Tudo sumiu como por encanto... Frei Silvestre piscou, incrêdulo e espantado ainda, e agarrou o braço no lugar onde tinha sido tocado, recuando com passo hesitante, equilibrando-se no limite do abismo celestial. A pele ardia, abrasada, machucada; a sentia ferida, chamuscada e, ainda assim, insensível, como se um halo a protegesse. Esregou os olhos e encarou o homem diante dele, junto do banco de pedra. Sim, ali estava. Era real.  Tinha corpo, volume, cor, cheiro, e emitia leves sons. Não era uma alucinação. Era este homem... Que também olhava para ele. E aguardava.
                                                 "Regnae terra, cantate Deo,
                                                 psallite Domino: psallite Dei
                                                 qui ascendit super caelum
                                                 caei as Orientem..."
    Uma inesperada e quase irreprimível vontade de chorar assaltou frei Silvestre, e a sua visão tornou-se escura. Seu coração batia desesperadamente, queimando-o ainda, pugnando por pular do seu peito e elevar-se, leve e pleno daquela estranha alegria que queria brotar em lágrimas. A sua cabeça girava  e a sua garganta se contraia, incapaz de expressar som algum que pudesse exprimir o que acontecia exatamente... Segurando-se com dificuldade e respirando entrecortadamente, fixou os olhos brilhantes e avermelhados no homem que aguardava. Recuou mais um passo.
    -Quem és tu?...- perguntou, com a voz estrangulada. Tremia, confundido entre o pavor e o deslumbramento.
    O mendigo não se mexeu.
    -Tu sabes, padre.- lhe respondeu em voz baixa, e ladeou a cabeça, esboçando um sorriso franco -Ias me dizer.
    Frei Silvestre se empertigou, fazendo um penoso esforço para recuperar a calma, o raciocínio, a superioridade lógica sobre aquele sujo e esfarrapado qualquer que sorria para ele tão afavelmente.. O contemplou com ceticismo e receio. Será que ele não tinha percebido nada? Não tinha se dado conta do que acabara de acontecer? Não podia acreditar. Como continuava ali, tão tranquilo?... Estremeceu, tomado pelas dúvidas. Ou seria que, na verdade, nada tinha mesmo acontecido?... Mas seu braço queimava, esta era a verdade; o machucava o roce da manga, tinha-se queimado. Seus dedos hesitantes apalparam a ferida por cima da lã do hábito e ali estava. Teve um sobressalto de dor e apertou  as mandíbulas... Ou será que sonhava, que jazia ainda no catre em sua celda e nada disto acontecia?... Afastou a cabeça bruscamente. Escutava os irmãos orando na capela. Bom, mas que tipo de bobagens e fantasmas estavam passando pela sua cabça? Quem era este miserável esmoleiro para assim abalá-lo? Por acaso era mais do que isso, um pobre diabo? Não o estava vendo? E parecia outra coisa? Não, o que era que pretendia aquele desprezível vagabundo maluco com tudo isto?... Uma sombra sulcou de pronto a face do monge, e seus nervos de contraíram... O que tinha acontecido DE VERDADE? O que este homem esperava? Porque evidentemente aguardava alguma coisa. Por que tinha chegado até o mosteiro? Por que este e não um outro qualquer dos que abundavam pelos caminhos? Por que o irmão porteiro tinha-o deixado entrar, quebrando as severas regras da clausura? Por que este homem tinha-se dirigido a ele e não a um outro irmão, falando daquele jeito, chegando tão certeiramente até a sua alma donente e resignada em sua amargura? Por que continuava ali parado, olhando-o e escutando-o quando deveria estar na capela com os outros? Por que abandonava seus sagrados deveres por causa desde enigmático mendigo?... Levou de novo a mão à garganta e engoliu. Sentia-se perdido, esmagado pelas dúvidas, cheio de confusão e medo, encurralado. Finalmente pego... Por que esta absurda vontade de chorar tomando conta dele? Por que assim, em meio a uma suave felicidade que não podia explicar?... Franziu a testa e se empertigou, sobressaltado... Por acaso  existia alegria no caminho para Deus?... Mas não era tudo um longo sofrer, uma eterna penitência e um grito de arrependimento até ser coroado com a benção divina? Existia então um alívio, um sorriso, um verso, uma música, um afago, o armistício?...

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